Sobre a “Kalevala”

A Kalevala, apesar de ter sido apenas compilada no século XIX por Elias Lönnrot, é o poema épico nacional da Finlândia (como o de Portugal é os Lusíadas). Mas o facto da obra ser tão recente é um pouco enganador, porque nos pode fazer pensar que o próprio poema o é, o que seria completamente falso – não só ele parece preservar um conjunto de mitos finlandeses de outros tempos, como também tem um conjunto de características que nos remetem para uma transmissão oral, nomeadamente o uso quase constante de fórmulas. É, por isso, uma compilação recente, mas de um conjunto de poemas, talvez até originalmente dispersos, que terão mais de 200 anos, mas que só mais recentemente foram sintetizados numa só obra escrita, na qual a influência directa de Elias Lönnrot nem é muito clara.

Uma imagem da Kalevala

Mas então, qual é a história da Kalevala? Começando pelo fim (mas de uma forma que não estraga a leitura da obra), o épico termina com a introdução do Cristianismo em terras da Finlândia, numa sequência em que um herói místico de todo o poema, Väinämöinen, decide abandonar essas terras. Nesse instante, ele refere os três grandes benefícios que tinha trazido ao seu povo – o Sampo, a harpa, e a luz do Sol e da Lua. São essas aventuras que o épico nos relata, desde a criação do mundo, mas de uma forma em cada um dos cinquenta cantos são, essencialmente, fechados sobre si mesmos, na medida em que podem ser lidos quase independentemente. Um canto pode contar-nos como Väinämöinen criou a harpa, e as primeiras canções que ele trouxe ao mundo, e o seguinte pode já referir uma aventura completamente distinta, como o da virgem Marjatta, que engravidou ao comer um arando. Mas, se forem lidos em ordem, ainda se tornam mais interessantes, porque assim cada elemento da trama surge num contexto fácil de compreender.

 

É, assim, a história da Kalevala, um conjunto de acontecimentos significativos para o povo da Finlândia, num conjunto de aventuras que se entrecruzam repetidamente, e em que as palavras da magia, que muito populam esta obra, são tão reais como a busca por animais míticos, os poderes do misterioso Sambo, ou um conjunto de conselhos que devem ser dados às mulheres e aos homens no momento do seu casamento. É quase imprevisível o que se vai encontrar num novo canto, após terminado o seu anterior, o que torna esta obra inesperadamente bela.

 

Infelizmente, a Kalevala não é uma obra que seja muito lida entre aqueles que falam português. O mesmo costuma acontecer com outros épicos nacionais – como o Kebra Nagast ou o Cantar de Mio Cid, entre outros de que já cá falámos antes – talvez porque parece existir uma ideia, muito errada, de que obras como estas só devem ser lidas no seu país de origem. É, até por definição, natural que homenageiem os feitos do seu povo, sejam eles históricos ou puramente míticos, mas isso não os torna menos interessantes, enquanto obras literárias. Pelo contrário, permitem-nos um olhar privilegiado sobre uma cultura que nos é alheia, mas também nos permitem aprender muito mais sobre nós mesmos e a nossa cultura. E, por isso, esta obra vinda de terras da Finlândia, como tantos outros épicos nacionais, merece ser lida, mesmo porque aqueles que nunca consideraram fazê-lo, até porque serão esses os que mais poderão ser surpreendidos com a sua trama constantemente inesperada…

A origem dos gigantes

David e Golias

Se já cá falámos de diversas origens, a origem dos gigantes apresenta-se como potencialmente mais simples que as anteriores. Desde o Golias do Antigo Testamento, até aos muitos gigantes das histórias de cavaleiros e donzelas, passando pelos Γίγαντες dos mitos gregos e latinos e alguns Jötnar nórdicos, quase todas as mitologias e religiões fazem referência à existência de “gigantes”, seres que são quase como nós mas de maior estatura. Por isso, de onde vem essa ideia? Será que eles realmente existiram, num tempo já há muito passado e entretanto esquecido?

 

A resposta pode ser tanto positiva como negativa. Sempre existiram seres humanos de estatura maior que o normal (por exemplo, Robert Wadlow, o maior homem de que temos registo, tinha 2.72m de altura), mas a ideia também parece provir da descoberta de diversos esqueletos de dinossauro. Eles existem por todo o mundo e sabemos que uma confusão de identificações teve lugar ao longo dos séculos.

Por exemplo, são diversas as fontes gregas e latinas que atestam que, após um terramoto, foram encontrados esqueletos enormes no interior do solo, que vão sendo identificados como heróis do passado (sempre de grande estatura!), ou como monstros serpentinos (e.g. aquele que Perseu derrotou para salvar Andrómeda, ou o que Hércules matou para salvar Hesíone). A ideia foi-se mantendo, e quando em 1613 se encontraram ossos gigantes em França, os locais pensaram tratar-se de Teutobochus, um suposto lendário rei dos Teutões – e assim se compreende que a ideia não era só da Antiguidade, e prevaleceu até um tempo mais recente do que poderíamos imaginar.

 

Face a identificações como essas, torna-se fácil conseguir acreditar que algo de semelhante possa também ter tido lugar noutras culturas, levando a uma crença intercultural relativa a um tempo em que estes supostos gigantes viviam quase lado-a-lado com seres humanos como nós.

O mito de Eric o Viajante

Manuscrito aleatório

Este pequeno mito, ou lenda, já só nos chegou numa versão cristã, o que, curiosamente, aqui ainda contribui mais para o seu interesse.

 

Eric decidiu ir procurar o mítico Údáinsakr, uma espécie de paraíso terreno. Nessa sua busca acabou por chegar a Constantinopla, onde pôs algumas questões ao rei local [o Imperador?] e se converteu à religião cristã. Ainda assim, decidiu que a sua viagem ainda não tinha terminado e continuou a procurar o seu objectivo inicial em terras da Índia. Acabou por encontrar uma enorme serpente, e quando a atacou foi transportado, miraculosamente, para o local que procurava. Depois de constatar os prodígios que aí existiam, falou com um anjo, que lhe revelou que por muito fantástico que o local fosse, o Paraíso do Deus cristão ainda era melhor. Eric decidiu então voltar a casa, para poder contar aos outros tudo aquilo que tinha visto.

 

O mais curioso de toda esta história é, sem qualquer dúvida, a forma como as crenças ditas pagãs e as cristãs se intersectam, mas de uma forma que as segundas se apresentem sempre como superiores às primeiras. A forma como a trama está estruturada leva-nos a crer que foi composta para uma audiência pagã, prestes a ser ensinada nos preceitos da fé cristã (uma introdução para a qual as perguntas feitas ao rei de Constantinopla até são perfeitas), devendo estes ficar com a ideia final de que as suas antigas crenças nada ficavam a dever às da nova religião – face a isso, seria absurdo não se converterem, e é até provável que muitos o tenham feito!

O mito de Ratatosk

O mito de Ratatosk fala-nos de um esquilo que nos mitos nórdicos tem a tarefa de transportar mensagens entre uma águia, que vivia no topo da árvore Yggdrasil, e o dragão/cobra Nidhogg, que vivia entre as raízes do mesmo local. Pouco mais nos é contado sobre esta criatura mitológica, mas merece ser referida aqui por ser um dos poucos esquilos existentes em mitos europeus (para quem estiver curioso, o mesmo animal também aparece em diversos mitos da América do Norte). Presume-se, ainda assim, que na sua forma original Ratatosk tenha sido muito menos fofinho do que o representado na imagem acima, que provém de um jogo de computador dos nossos dias, mas que serve bem para ilustrar a sua importância continuada mesmo nos nossos dias.

“Os melhores” dos mitos nórdicos

Na Edda Poética, de que aqui falámos há alguns dias, surgem os seguintes versos:

 

A árvore Yggdrasil

É a melhor das árvores.

Skithblathnir é o melhor navio,

Odin o melhor deus,

Sleipnir o melhor cavalo,

Bifrost a melhor ponte,

Bragi o melhor poeta,

Habrok o melhor falcão,

Garm o melhor cão.

 

A existência de uma lista desta natureza, de valor canónico, levanta questões. Se faz todo o sentido que a gigantesca árvore seja a melhor do seu reino, que um navio pertencente aos deuses seja fantástico, que um cavalo de oito patas tenha especial valor, ou que o deus da poesia seja o melhor na sua arte, como escolher o melhor deus, a melhor ponte, ou o melhor de dois outros animais? Que critérios terão existido? Serão eles objectivos ou, como no caso de Habrok (em relação ao qual quase nada sabemos), dever-se-ão somente a tradições já há muito esquecidas? Fica a questão – como definir “os melhores” em alguma coisa?