A lenda dos avatares de Vishnu

Já cá falámos sobre parte da grande lenda dos avatares de Vishnu, mas achámos que hoje poderíamos completar, de uma forma sucinta (até por motivos de tempo e espaço), esse mesmo tema. Potanto, e antes de mais, recorde-se o que já aqui foi explicado sobre o conceito hindu de avatar, muito necessário para se compreenderem bem as linhas que se seguem:

Os Hindus acreditam num número muito grande de deuses, de que Ganesha será o mais famoso entre nós, mas têm algumas figuras que consideram mais importantes do que outras. Entre as mais significativas conta-se o deus Vishnu (ou Vixnu, se preferirem), que reencarnou várias vezes e em diversas formas distintas (a que se chamam avatares), para trazer benefícios à humanidade.

Assim, os avatares de Vishnu referem-se às formas que esse deus foi adoptando sucessivamente, cada vez que deixou o Vaikuntha, o seu reino celestial, para vir ao nosso mundo. O número de vezes que o fez, e até as próprias formas que foi adoptando, nem sempre são totalmente estáveis (já lá iremos), mas hoje vamos aqui apresentar as 10 formas mais comuns a este deus, os chamados Dashavatara. E fazêmo-lo hoje não pelas nossas próprias palavras, mas através de uma tradução e adaptação de um momento da obra Kalki Purana, de altura de composição desconhecida, em que estas dez figuras eram recordadas quase como na imagem abaixo e pelos seus eventos essenciais:

A lenda dos Avatares de Vishnu

[1-] Quando os objectos dos três mundos foram destruídos pela água da devastação, e as Vedas [i.e. os livros sagrados] foram perdidas, apareceste na sob a forma de Matsya, [o peixe,] para proteger os princípios religiosos que tinhas estabelecido anteriormente.

[2-] Quando os deuses e os demónios aceitaram cooperar para bater o oceano de leite, com o propósito de obter o néctar, usaram o [lendário] Monte Mandara como um pau para o bater, mas foram incapazes de suportar o seu peso. Na altura aceitaste a forma de Kurma, [a tartaruga,] e suportaste esse monte nas tuas costas. Assumiste essa forma para que os semideuses pudessem beber o néctar da imortalidade.

[3-] Quando os demónios derrotaram Indra, o rei do céu, e o poderoso [demónio] Hiryanyaksha estava prestes a matá-lo, somente para derrotar esse rei dos demónios e salvar a terra assumiste a forma de Varaha[, o javali].

Narasimha, um dos avatares de Vishnu

[4-] Quando o extremamente poderoso Hiranyakashipu, que tinha conquistado os três mundos, começou a atormentar os semideuses, fazendo-os viver em constante medo, para os protegeres decidiste aniquilar este rei dos demónios. Devido à influência dos poderes de Brama [i.e. o deus-criador], este demónio não podia ser morto por qualquer homem, deus ou semideus; com qualquer arma; nos planetas ou na terra; durante o dia ou a noite. Então, assumiste a forma do ser meio-homem, meio-leão, Narasimha, para não transgredir a promessa do deus-criador. Quando o demónio se preparava para te morder, abriste-lhe o peito com as tuas garras e assim o enviaste para o reino dos mortos.

[5-] Apareceste como o irmão mais novo de Indra, assumindo a forma do anão Vamana, e foste à arena sacrificial do Rei Bali para o enganar. Apenas lhe pediste a caridade de três passos de terra. Ele aceitou, mas falhou ao cumprir a sua promessa, porque assumiste uma forma gigantesca e cobriste todo o universo com apenas dois passos.

[6-] Quando os reis da terra se sentiram demasiado orgulhosos e abandonaram os princípios religiosos, encarnaste como Parasurama para os aniquilar. Nessa encaranção, ficaste igualmente enraivecido pelo roubo da vaca, destruindo a casta dos guerreiros por vinte e uma gerações.

[7-] Quando os três mundos estavam a ser atormentados por Ravana de dez cabeças, encarnaste [em Rama] para o destruir. Aprendeste a arte de lançar flechas e foste para a floresta em exílio por catorze anos. Durante esse tempo Ravana raptou a tua esposa, Sita. Demoraste algum tempo, mas depois cruzaste o oceano, construindo uma ponte com a ajuda dos macacos guerreiros, e mataste o senhor de [Sri] Lanka, Ravana, com toda a sua família.

[8-] Depois apareceste como Balarama. Diminuiste as dores da terra ao aniquilares muitos demónios. Ao mesmo tempo, todos os semideuses e devotos veneraram os teus pés de lótus.

Buda, outro dos avatares de Vishnu

[9-] Na devida altura apareceste como Buda e mostraste ódio pelos princípios prescritos pelo criador. Instruiste os teus seguidores a abandonarem o seu apego a este mundo de ilusão, fazendo-os renunciar a todos os desejos de gratificação dos sentidos. Apesar de teres rejeitado as Vedas, nunca rejeitaste a ética do mundo.

[10, muito adaptado -] Aparecerás como Kalki para eliminar a dinastia de Kali [i.e. a deusa da destruição] ao destruir os budistas, ateístas, e outros que tais, assim protegendo o verdadeiro caminho da religião.

 

Agora, os mais atentos poderão notar que falta aqui Krishna, um dos avatares de Vishnu a que já cá fizemos duas alusões, em particular através dos mitos de Dhenuka e Putana. A sua ausência – que depois veio a ser colmatada num pequeno artigo sobre essa outra figura – deve-se ao facto de esta listagem não ser completamente estática. Na verdade, ainda há dias um amigo que pratica activamente a religião hindu nos dizia, com enorme ênfase, que Krishna não era um avatar, mas sim a maior expressão do mais elevado dos deuses hindus. São muitos os crentes que partilham de essa mesma ideia, mas nesse caso eles adaptam parte da história, dizendo que era Balarama, em vez do seu irmão, a reencarnação do deus. Outros crentes omitem completamente Buda desta lista, e assim sucessivamente…

De modo muito semelhante, também as principais histórias associadas a cada um de estes dez avatares podem variar um pouco. Em relação a Matsya, por exemplo, é por vezes dada maior ênfase a uma história, de um peixe que foi crescendo de tamanho e acabará por salvar o rei que sempre o ajudou, numa sequência que acaba com um dilúvio universal.

 

A lenda dos avatares de Vishnu é, então e na sua grande essência, um dos maiores pilares do Hinduísmo. Seria interessante falarmos de cada uma destas figuras de forma mais alongada, mas por agora será suficiente esta breve introdução, que até poderá, um dia, vir a ser seguida por explicações mais alongadas, se existir interesse significativo nisso.

A lenda de Kali e Raktabija

Provinda da Índia, a lenda de Kali e Raktabija é aqui digna de nota em virtude da segunda destas duas figuras, uma espécie de demónio indiano que se multiplicava cada vez que derramava uma única pinga de sangue que fosse.

A lenda de Kali e Raktabija

Os deuses hindus tentaram combater Raktabija com todas as suas maiores forças, mas cada vez que a atacavam e que a faziam derramar algum sangue, de cada pinga surgia mais uma cópia da sua opositora, até que se tornaram dezenas, centenas, milhares os corpos do demónio que estavam a defrontar.

Então incapazes de a derrotar com as suas forças individuais, os deuses juntaram todos os seus poderes e criaram Kali, deusa da destruição. Depois, deram-lhe todas as suas armas e pediram-lhe que destruisse Raktabija. A recém-criada deusa conseguiu fazê-lo – começou por colocar todos os clones da sua opositora na boca, tendo o cuidado de os mastigar sem nunca derramar uma única gota. Em seguida, cortou a cabeça da principal opositora e chupou todo o seu corpo até ao tutano, novamente tendo todo o cuidado de não deixar cair uma gota que fosse. Assim, sozinha mas com o poder de todos os deuses, foi capaz de fazer o que mais ninguém tinha conseguido…

 

Esta lenda de Kali e Raktabija é essencialmente uma das muitas teogonias de uma deusa, aqui ainda “nova”, que se foi tornando bastante popular ao longo do tempo. Existem outras versões que contam como ela foi trazida ao mundo, naturalmente, mas esta em particular cativou a nossa atenção devido ao estranho poder do monstro que é aqui completamente destruído por Kali. Situações semelhantes, de pseudo-super-poderes como estes, são muito frequentes nas histórias do Hinduísmo, e não ficam a dever nada às histórias dos super heróis ocidentais dos nossos dias de hoje.

A lenda de Vamana

A lenda de Vamana, provinda da Índia, conta-nos a história de um dos avatares de Vishnu (o conceito já foi explicado brevemente aqui). Não é tão conhecido como Rama ou Krishna, mas nem por isso deve ser considerado como menos importante, até porque, como essas outras duas figuras, teve um propósito muito específico neste mundo:

Um momento crucial da lenda de Vamana

Conta-se que Vamana era um pequeno anão. Enviado ao mundo para punir o rei Bali pelas suas muitas maldades, aproximou-se deste quando ele estava a fazer um sacrifício aos deuses e pediu-lhe um favor mínimo – apenas queria três curtos passos de terreno, para aí construir uma casa e cultivar alguns vegetais. O rei, face a um pedido tão estranho quanto pequenino (certamente que terá pensado algo como “Só queres três passos de terreno? Passos de um anão? Hahahaha”), mesmo contra os conselhos repetidos que lhe foram dados pela sua corte decidiu concedê-lo. Contudo, nesse preciso instante Vishnu abandonou a forma de Vamana e tomou um corpo gigantesco – com um primeiro passo cobriu toda a terra, com um segundo ocupou todo o céu, e… já não tendo onde colocar um terceiro, pisou depois a cabeça do próprio Bali com tanta força que acabou por enviar este monarca directamente para o submundo.

 

Se existem outras lendas de Vamana, ou histórias associadas a este avatar, o cerne da sua lenda é este, que começa com a reencarnação de Vishnu e termina, essencialmente, com o instante em que Bali é punido pelos seus crimes e por aquilo a que até poderíamos chamar a sua hybris. É uma trama relativamente simples, pelo que as lições que nos transmite são fáceis de discernir – a prudência necessária em todas as nossas acções será certamente a mais óbvia.

E, quanto aos restantes avatares deste mesmo deus hindu (os outros deuses também os têm, clarifique-se esse ponto), poderemos cá contar as suas histórias no futuro, caso haja interesse suficiente para tal. Será que alguém também as quer conhecer?

A lenda de Rama (e o “Ramayana”)

Falar da lenda de Rama, famosa entre os Hindus, implica necessariamente falar do épico Ramayana (ou Ramáiana, em forma aportuguesada), em que esta figura tem um papel principal. Os dois temas até se confundem, como se fossem um só – esta lenda é o tema principal apresentado nesse poema épico, apesar de também existirem outras versões da mesma história. Iremos então contá-la aqui, de forma demasiado breve, mas só podemos fazê-lo depois de apresentarmos duas clarificações iniciais, importantes para a maior parte dos leitores ocidentais, que poderão desconhecer estas coisas:

Os Avatares de Vishnu

Primeiro, é importante clarificar o conceito de avatar. Os Hindus acreditam num número muito grande de deuses, de que Ganesha será o mais famoso entre nós, mas têm algumas figuras que consideram mais importantes do que outras. Entre as mais significativas conta-se o deus Vishnu (ou Vixnu, se preferirem), que reencarnou várias vezes e em diversas formas distintas (a que se chamam avatares, alguns dos quais podem ser vistos na imagem acima), para trazer benefícios à humanidade – por exemplo, tomou a forma deste Rama, mas também a de Krishna (possivelmente a mais amada das suas formas), a de Sidarta Gautama (uma história muito interessante, mas que terá de ficar para outro dia), ou a de Vamana, entre várias outras.

 

Depois, temos também de introduzir, de uma forma breve, o próprio poema épico do Ramayana. Atribuído ao sábio Valmiki, que não só escreveu este poema como até é uma das suas personagens, este é um dos grandes poemas épicos da Índia (o outro é o Mahabharata, que já recordámos num mito), que narra as aventuras de Rama, um dos avatares de Vishnu, enviado ao mundo para derrotar Ravana, rei dos rakshasas (i.e. “demónios”), que entre os seus vários crimes andava a raptar milhares de mulheres bonitas e levá-las para a sua ilha, a do actual Sri Lanka. Face a estas duas introduções, resuma-se agora, muito simplificadamente, a história do Ramayana.

Personagens do Ramayana

Por influência de uma madrasta, Rama foi exilado por 14 anos do reino que iria herdar um dia, e foi viver para uma floresta acompanhado pela sua esposa, Sita (que era um avatar de Lakshmi, a consorte de Vishnu), e pelo irmão Lakshmana. Um dia, Ravana soube da beleza desta mulher e decidiu tomá-la para si, mesmo sabendo que ela já era casada com outro homem; para o conseguir, enviou um belíssimo veado de ouro para a floresta, e enquanto os dois irmãos se afastaram sucessivamente, para capturar uma tão bela criatura, o poderoso inimigo raptou então a formosa esposa do herói.

A parte mais significativa da história é, depois, aquela em que Rama tenta encontrar e recuperar a sua amada Sita. Pelo caminho, ele e Lakshmana conhecem Hanuman, o poderoso rei dos macacos, que os ajuda bastante nas suas aventuras, chegando a levantar uma montanha enorme nos seus ombros só por não encontrar uma pequena erva mágica que lhe foi pedida.

Como não poderia deixar de ser, Rama lá encontra Sita e derrota Ravana após uma longa batalha. Finalmente, tem-na nos seus braços, e… é aqui que surge aquele que, repetidamente, nos foi apontado como o momento mais controverso da obra. O herói parece amá-la verdadeiramente, num primeiro instante, mas depressa a rejeita. E fá-lo tratando-a até bastante mal, porque se recusa a acreditar que ela se tenha mantido fiel nos meses em que esteve a viver no palácio de Ravana – e mesmo quando ela prova, por influência divina, que lhe foi totalmente fiel e que o ama mais do que a qualquer outro homem, o herói ainda chega depois a duvidar dela uma segunda vez, antes de a perder para sempre neste mundo…

 

Não podemos, sem qualquer dúvida da nossa parte, captar toda a beleza deste épico num punhado de linhas. Nem conseguimos resumi-la com grande destreza assim, sendo que acima deixamos apenas um traçado demasiado breve do seu conteúdo. No seu cerne existem alguns momentos belíssimos, como o momento em que Rama vê Sita pela primeira vez, ou as muitas aventuras de Hanuman, ou a hybris repetida e estonteante do quase-invencível Ravana. E, por isso, talvez estas sejam aventuras que os leitores merecem conhecer em primeira mão, por muito pouco conhecida que esta obra seja em Portugal e no Brasil. Existe, pelo menos, em tradução inglesa, disponível gratuitamente online, pelo que o convite para quem a quiser conhecer melhor já está aqui feito!

O mito de Dhenuka

O mito de Dhenuka, ou Denuka, provém de terras da Índia, sendo particularmente famoso dada a sua associação com a história de Krishna.

Dhenuka a ser derrotado

Dhenuka era o líder de um grupo de demónios que, por uma qualquer razão inexplicável, decidiram todos tomar a forma de burros. Sob essa forma, guardavam uma determinada floresta próxima do Rio Jamuna, aparentemente nunca causando qualquer espécie de problema mais significativo.

Depois, num dado dia, Krishna e o seu irmão Balarama passaram por essa floresta e viram algumas belas frutas no topo de uma árvore. Procurando comê-las, abanaram as árvores, fazendo cair muito mais frutas do que aquelas que necessitavam. Possivelmente em virtude desse excesso Dhenuka atacou-os, juntamente com os seus companheiros. No entanto, foram facilmente derrotados, com Balarama a pegar nas próprias pernas traseiras dos vários burros e usá-las para os atirar contra as árvores, partindo os seus corpos em mil pedaços e como que libertando a floresta para outros usos.

 

O que podemos dizer sobre este mito? Decidimos contá-lo por cá em virtude do facto dos demónios representados por Dhenuka utilizarem a forma de burros. Salvo algumas raras excepções, não existem muitos mitos ou lendas em que estas criaturas tenham um papel principal, razão pela qual não quisemos deixar de lado esta curiosa excepção.