O mito de Putana

O mito de Putana provém de terras da Índia (e da Mitologia Hindu), onde parece ser muito conhecido no seu contexto de toda a história de Krishna, oitavo avatar do deus Vishnu, uma história que lemos no Vishnu Purana.

Putana e Krishna

Este mito, ou lenda, diz-nos então que Putana era um demónio do sexo feminino cuja tarefa era a de matar todos os recém-nascidos. Se essa característica pouco teria de muito invulgar (já lá voltaremos), a forma como o faz é digna de nota – essencialmente, este demónio fingia ser uma mulher muito bonita, dava de mamar às crianças que lhe eram entregues, e depois dava-lhes o seu próprio leite venenoso, naturalmente levando-as às suas mortes.

E esta situação prolongou-se por bastante tempo, até que um dia Putana deu de mamar a um jovem Krishna. Poderia ter também ele falecido como muitos outros, mas tratando-se de um ser divino o desfecho foi bastante diferente – ao mamar, ele não só retirou todo o veneno a este demónio, como acabou igualmente por lhe sugar a sua própria vida, conduzindo-o, por fim, à sua destruição.

 

Pode parecer uma história simples, mas este mito de Putana é um bom exemplo de um tema mitológico que existe por todo o mundo. Se nos recordamos das histórias de La Llorona e de Lilith, entre muitas outras, vemos que as figuras que têm por hábito matar crianças muito jovens são quase sempre do sexo feminino. Porque acontece isso? Essencialmente, porque se acredita que essas figuras tendem a sentir uma certa espécie de inveja face às novas mães, procurando então tirar-lhes aquilo que elas próprias não podem, ou simplesmente já não conseguem, ter. Estes são mitos do feminino e no feminino que, muito provavelmente, foram criados por um público do sexo feminino, para justificar o porquê de algumas crianças não sobreviverem por muito tempo após o seu nascimento.

A lenda de Bhrigu e os três grandes deuses hindus

Os três principais deuses hindus

Na cultura ocidental sabe-se, de uma forma muito geral, que os Hindus são politeístas e veneram centenas de deuses. Se, por um lado, essa ideia está correcta, por outro as grandes figuras do Hinduísmo são essencialmente três – Brahma, Vishnu e Shiva, que podem ser vistos na imagem acima. Esta ideia, de três divindades entre centenas, poderia levar-nos a uma questão adicional – destas três, qual a mais importante, ou a mais digna de ser venerada?

 

Um dia, foi feita essa mesma pergunta ao sábio Bhrigu. Partindo em busca de respostas, decidiu ir visitar cada um dos três deuses.

Primeiro passou por Brahma, mas enquanto se dirigia a esse deus criador esqueceu-se de endereçar um cumprimento a uma das suas muitas formas. O deus zangou-se com ele. Então, pedindo desculpa, Bhrigu foi rapidamente perdoado.

Em seguida visitou Shiva, deus da destruição. Também aqui o sábio não prestou a reverência necessária ao deus, e então quase que foi destruído, só tendo sido poupado após os mais profusos pedidos de desculpa.

Finalmente, Bhrigu foi a casa de Vishnu, deus da preservação. Encontrando-o a dormir, tentou acordá-lo com um pequeno toque de pé no peito. O deus rapidamente acordou, mas perguntou logo se esse toque tinha magoado o pé de Bhrigu, e dispôs-se até a massajar-lhe esse membro.

Face a estas ocorrências, Bhrigu rapidamente compreendeu a resposta que andava a procurar. Para ele, o maior dos três deuses era Vishnu, porque conquistava pela bondade.

 

Naturalmente que a visão desta lenda – provinda do Bhagavata Purana – não é horizontal a toda a cultura hindu. Se assim o fosse, seria óbvio que toda a gente veneraria Vishnu, deixando um pouco mais de parte as duas divindades restantes. Mas, ainda assim, esta lenda que envolve o sábio Bhrigu e os três grandes deuses não deixa de ser interessante, até de um ponto de vista ocidental, porque nos deixa compreender que mesmo entre tantos deuses existiam alguns que eram mais apreciados e venerados que outros.

“A Princesa de Três Seios”, outra história do “Panchatantra”

Uma história contida nesta obra

Recordamos hoje outra história do Panchatantra, mas nesta são os seres humanos que têm o papel principal.

 

Um dado rei teve uma filha com três seios. Face a tão estranho prodígio, quis abandoná-la logo após o nascimento, deixá-la sozinha numa qualquer floresta da sua região, mas foi instado a consultar os sábios da sua corte, que lhe sugeriram casá-la com o primeiro homem que a aceitasse, antes de exilar o casal. Apesar das ofertas de uma esposa e de ouro, passaram dias, meses, anos, sem que alguém a aceitasse para esposa.

Depois, um dia, foi a essa cidade um cego acompanhado por um corcunda, e o primeiro decidiu que poderia tomar esta mulher para esposa, até porque o aspecto pouco lhe interessava. Dias depois, por uma qualquer razão o cego empurrou o corcunda contra a sua mulher; tal foi a força do impacto que não só empurrou o terceiro seio da mulher para dentro, como também endireitou o próprio corcunda. A história acaba com a mulher tornada bela, o corcunda tornado “normal”, e o cego tornado marido e rico.

 

Que lições retirar desta outra história? Como há alguns dias, isso também ficará a cargo dos leitores…

“O Pássaro Bharunda” e “Os Pássaros e a Tartaruga”, duas histórias do “Panchatantra”

Uma história contida nesta obra

Conforme prometido há alguns dias iremos hoje recordar duas fábulas de animais provindas da colecção conhecida como Panchatantra. E porquê estas duas? Na verdade, foram escolhidas completamente ao acaso:

 

A primeira delas é a do Pássaro Bharunda. Dele se dizia que tinha duas cabeças mas um único estômago. Então, um dado dia este pássaro encontrou um néctar dulcíssimo. Uma das suas cabeças desatou logo a bebê-lo com enorme avidez, ignorando o pedido da sua companheira, que sugeriu que o néctar fosse dividido entre ambas. Zangada, procurando vingança, essa segunda cabeça viu algum veneno por perto e comeu-o. Como o pássaro tinha duas cabeças mas um único estômago, morreu em seguida.

 

Podemos igualmente recontar a história dos Pássaros e da Tartaruga. Conta-nos ela que dois pássaros e uma tartaruga viviam num dado lago. Num período de enorme seca, já todos os três desprovidos da água de que tanto necessitavam para viver, os pássaros decidiram voar para um outro local. A tartaruga, triste com essa possível partida dos seus amigos, pediu-lhes que a levassem com eles.

Os pássaros aceitaram, mas pediram à tartaruga algo muitíssimo importante – já que tinham de voar para longe, poderiam agarrar num pau e a sua comparsa viajaria segurando-se nele pela boca. Como tal, não poderia falar!

Por sete vezes os pássaros lhe disseram isto, e por sete vezes a tartaruga aceitou sem quaisquer reservas. Mas depois, já durante a viagem, a tartaruga viu algo de muito estranho à distância e decidiu perguntar aos seus amigos o que seria. E, quando o fez… assim se terminou a história dessa tartaruga!

 

Que lições retirar destas duas histórias? Isso ficará a cargo dos leitores…

Porque Ganesha tem cabeça de elefante?

Se não são muitas as pessoas nascidas em Portugal que conheçam bem os deuses e figuras do Hinduísmo, há pelo menos uma entidade divina cuja imagem já todos devem ter visto em diversos locais – Ganesha (ou Ganexa, Ganesh), um deus com cabeça de elefante. Agora, se figuras como estas até eram muito comuns nos mitos do Antigo Egipto, no Hinduísmo estes seres de dupla forma não são tão frequentes (para outro exemplo ver o caso de Narasimha, um “homem-leão” e quarto avatar do deus Vishnu). E por isso uma questão de curiosidade impõe-se – porque tem Ganesha cabeça de elefante?

Porque Ganesha tem cabeça de elefante?

Parecem existir várias opiniões, mas optamos por contar aqui, de uma forma breve, as duas mais famosas. Numa delas Ganesha nasceu com esta forma. Porém, numa outra o deus envolveu-se num confronto em que lhe cortaram a cabeça; depois, sendo incapazes de encontrar a original, os outros deuses substituíram-na pela de um elefante. E porquê este animal? Bem, mesmo sem conhecerem as histórias associadas a esta figura, basta olhar para a imagem acima para notar que ele gosta muito de doces (vejam até onde coloca a tromba, um prato de laddus *!), e tem uma pança proeminente; como tal, pareceu justo aos outros deuses darem-lhe a cabeça de um animal que também partilhava essas mesmas características.

 

Estará uma destas opiniões certa? Será que a resposta até é outra, completamente diferente? Não se trata de uma questão de certo ou errado; nos textos do Hinduísmo, como nos de todas as outras religiões, existem factos consumados e existem opiniões, e a razão por detrás da cabeça elefantina com que Ganesha costuma ser representado pertence ao segundo grupo.

 

 

*- Um agradecimento à Embaixada da Índia em Portugal, que nos ajudou nesta preciosa identificação.