A lenda da Caverna de Salamanca

Falar-se da lenda espanhola da Caverna de Salamanca implica, antes de mais, explicar-se parte do seu contexto cultural. Há alguns séculos atrás, o povo pensava que algum tipo de conhecimentos era tão difícil de obter que implicava necessariamente a intervenção de forças que não estão acessíveis aos comuns mortais. Pense-se, por exemplo, no caso da Cadeira do Diabo, uma história igualmente espanhola ligada ao supremo conhecimento da Medicina, e é provável que em outros tempos tenham existido lendas semelhantes ligadas à nossa cidade de Coimbra. Em suma, a ideia passava pelo seguinte – quem tinha estudado muito e sabia muito, só podia ter obtido esse conhecimento por alguma influência demoníaca, e portanto os estudantes da cidade de Salamanca – como os da nossa portuguesa cidade de Coimbra, estando ambas as cidades muito ligadas aos estudos universitários – eram vistos pelo povo da altura como tendo algumas potenciais ligações às artes das trevas, com as quais eram até capazes de ter poder sobre a vida e a morte.

A Caverna de Salamanca

Nesse seguimento, esta lenda da Caverna de Salamanca diz então que todos os anos sete estudantes da cidade eram escolhidos por um mestre local e convidados para um conjunto de aulas em que lhes eram leccionados os conhecimentos absolutos. Infelizmente, já não nos chegou o conteúdo dessas aulas (o que, sem dúvida, daria aqui um conjunto de publicações muito interessantes…), mas o que se sabe é que elas eram leccionadas pelo próprio Diabo, que então tomava a aparência física de um padre, e tomavam lugar numa cripta localizada algures num recanto escondido da cidade…

A lenda prolongou-se durante séculos, com mais ou menos detalhes (numa das versões, é até dito que todo o local foi criado por Hércules, que o construiu durante a sua visita à Península Ibérica), até que no século XIV o local foi demolido, tendo-nos chegado apenas como pode ser visto na fotografia ali em cima, num espaço em que (hoje) só resta a memória desses outros tempos. O Diabo já não passa por lá, segundo os habitantes locais, e há muito que deixou de leccionar essas suas famosas aulas, restando hoje apenas essa grande lenda associada a esta Caverna de Salamanca.

 

É possível, como já apontado acima, que lendas como esta tenham existido em várias outras cidades universitárias europeias – lembre-se, por exemplo, a famosa história do Doutor Fausto – mas se existe alguma directamente ligada a Coimbra, ou mesmo a Lisboa, não a temos na ponta da língua, nem, após muitas discussões, fomos capazes de as recordar mencionadas em nenhum livro. Talvez a existência da Inquisição de Coimbra tenha contribuído para afastar essas histórias da cidade? É possível…

A lenda do Basilisco de Urrialdo

Apesar de breve, esta lenda do Basilisco de Urrialdo não deixa de ser notável, porque contribui para explicar algo que, de outra forma, seria difícil de compreender. Mas já lá iremos, comece-se por uma breve introdução a todo o tema.

Um Basilisco que não o de Urrialdo

Já cá falámos anteriormente sobre o monstruoso basilisco, uma criatura que, segundo uma tradição especificamente ibérica, nascia de um ovo de um galo quando este fazia 7 anos de idade. Até aqui falámos da lenda de uma destas criaturas que, segundo a história, viveu em Viena, na Áustria, mas esse caso não foi único, existindo lendas de mais algumas criaturas dessa espécie por toda a Europa, e a de hoje vem do país de “nuestros hermanos”.

 

Conta-se então que existiu, algures no município de Vitoria (no País Basco), uma pequena fonte em que outrora viveu um basilisco. Ele foi aí colocado por um feiticeiro, que posteriormente até acabou por matá-lo, mas as populações locais tinham tanto medo do animal, que possuía a estranha característica de os matar somente com o olhar, que tiveram de abandonar completamente a região, fazendo restar da antiga povoação de Urrialdo apenas e somente uma igreja que o tempo se encarregou de destruir. Nela se acreditou que existiu, até inícios do século XX, um pequeno esqueleto do famoso animal (que nos ficou conhecido como o Basilisco de Urrialdo por esse local onde viveu), mas hoje já nada de palpável resta para o afiançar.

 

E, portanto, esta é uma daquelas lendas que parece ter existido para se explicar o porquê do completo abandono de uma povoção. Naturalmente que não é um caso único… mesmo em Portugal, existem algumas pequenas lendas para explicar eventos semelhantes. Uma delas diz-nos que uma determinada povoação – terá sido ela Idanha-a-Velha, ou uma outra? A memória escapa-nos neste instante – foi abandonada porque estava constantemente infestada por grandes formigas, o que causava muitos problemas aos habitantes locais, acabando por levá-los a ir viver para outro sítio. Certamente que existem muitas outras histórias assim, mas repita-se que a sua finalidade é quase sempre uma e a mesma – tal como este Basilisco de Urrialdo, que explica o abandono dessa povoação do norte de Espanha, também muitos outros locais tiveram as suas calamidades animais, vegetais ou miraculosas, por vezes mais lendárias do que reais, para explicar um abandono por parte dos antigos habitantes…

Sobre o Tributo das Cem Donzelas

Falando-se hoje sobre o chamado Tributo das Cem Donzelas, é desde já difícil saber como o descrever. Tratou-se de uma mera lenda, ou foi baseado em factos históricos ocorridos entre os séculos VIII e IX da nossa era? Se a resposta correcta for a primeira, como se explica a sua constância em diversas outras lendas – recorde-se, por exemplo, a curiosa lenda portuguesa de Guesto Ansures? Se for a segunda, como é possível compreender-se a existência de tão poucas provas físicas de uma tão estranha e repetida ocorrência? Talvez seja melhor começar-se pelo início e recapitular, de forma muito breve, o tema em questão.

O Tributo das Cem Donzelas - lenda ou realidade?

Conta-se que por volta de finais do século VIII o rei Mauregato I das Astúrias subiu ao trono de forma ilegítima com o auxílio de alguns combatentes islâmicos. Em troca desse favor, e apesar de ser cristão, ele concedeu – ou apenas aceitou, não é claro quem iniciou toda a ideia – ao seu auxiliador um tributo anual de cem donzelas (ou seja, cem jovens virgens). Como essa selecção era feita não é claro, as fontes existentes nada referem sobre a beleza das jovens (abrindo a possibilidade de que pudesse ser um bom truque para afastar de casa as jovens feias), mas algumas delas dizem é que 50 delas deveriam pertencer à nobreza e outras 50 ao povo, num estranho exemplo de igualdade medieval. As mesmas fontes também adicionam, mais raramente, uma referência curiosa – caso não existissem jovens suficientes, a falta de cada uma delas poderia ser substituída por um valor monetário que tinha sido estipulado de antemão. E então, segundo se diz, esse tributo anual de 100 donzelas prolongou-se por vários anos, até à (provavelmente lendária) Batalha de Clavijo.

 

Mas a grande questão, como já referido acima, terá mesmo de ser… foi este Tributo das Cem Donzelas uma realidade, ou mera história? Não sabemos, nem é fácil sabê-lo. Sabemos, isso sim, é que toda a situação gerou um conjunto de referências reais e lendárias ao longo dos séculos, desde pequenas piadas (e.g. “Porque queriam os Mouros as mulheres do local X? Elas lá são tão feias!”), até histórias que preservam oposições locais a esta ocorrência (e.g. a lenda dos Figueroas, em Espanha, muito semelhante à nossa lenda da “Canção do Figueiral”). Entre elas conta-se uma referência muito inesperada à finalidade dos Mouros para as tais donzelas: eles levavam-nas para os seus haréns, só assim se podendo explicar – segundo esta história – como cada um deles até conseguia ter tantas mulheres diferentes para si mesmo… uma ideia muito digna de nota, porque pode permitir compreender-se, finalmente, a verdade por detrás de todo o episódio.

 

É provável, seguindo-se esse caminho, que a ideia do Tributo das Cem Donzelas tenha nascido de uma compreensão incorrecta e retroactiva de alguns dos costumes dos Mouros. Se se acreditava, nessa altura, que cada um deles tinha, por razões culturais, um verdadeiro direito a possuir várias mulheres, faz sentido que alguns Cristãos se tenham interrogado sobre a sua proveniência, levando à possibilidade de imaginar um tempo antigo em que elas tinham sido obtidas por oferenda cristã. Isso poderá, ou não, ter sido verdade, mas no mínimo dos mínimos deverá ter inspirado todo um conjunto de lendas a que ainda temos acesso hoje, nas quais diversos heróis – recorde-se, novamente, o nosso próprio Guesto Ansures – impediram algumas jovens locais de serem levadas pelos Mouros. E esta possibilidade não só pode explicar a existência das tais lendas, com as costumeiras interrogações por elas deixadas (i.e. se o objectivo fosse somente o de obter tantas jovens virgens quanto possível, é provável que muitos islâmicos tivessem obtido para si mulheres bastante feias, lamentando depois quem lhes tinha “saído na rifa”!), como também a ausência de provas físicas de todo o tributo – ele provavelmente existiu apenas na imaginação popular, não deixando por isso provas desta natureza!

A lenda do Drac de na Coca

A lenda do Drac de na Coca é uma daquelas que parece ter alguma fama na sua região, em Mallorca, mas que não é assim tão conhecida sequer em outras zonas de Espanha, ao ponto de apenas ter página na Wikipedia em Catalão. Pensámos, portanto, dedicar-lhe algumas linhas por aqui, como no caso do Homem-Peixe de Liérganes, mas depois encontrámos um bom resumo desta história num artigo científico brasileiro, A estranha história da cobra narrada na “relaçam prodigioza da navegaçam da nao chamada S. Pedro, e S. Joam da Companhia de Macao” (Fascunh, 1743) – uma obra portuguesa sobre herpetologia, da autoria de Nelson Papavero e Christian Fausto Moraes dos Santos. O artigo, em si, pode ser lido neste endereço, para quem ficar com essa curiosidade (eles também mencionam mais alguns dragões lendários), mas recordamos abaixo é a lenda de hoje, deste Drac de na Coca:

O Drac de na Coca

Uma das lendas mais conhecidas da cidade de Palma é a do ‘Drac (dragão) de na Coca’. Trata-se de um crocodilo que viveu nas ruas de Palma no século XVII, entre o bairro chamado ‘del Call’ e a Portella. Acredita-se que um jovem crocodilo chegou a essa ilha a bordo de um barco. Uma vez na cidade de Palma, instalou-se na labiríntica rede de esgotos da cidade e à noite saía em busca das vítimas de que se alimentava – gatos e ratos a princípio, mas à medida que crescia e com o aumento de seu apetite passou também a atacar bebês em seus berços e crianças pequenas que se aventuravam a andar pelas ruas. Segundo a lenda, a besta morreu nas mãos do capitão e governador de Alcúdia, Bartomeu Coch, quando se encontrava na Portella de Palma durante uma noite do ano de 1776. O capitão cortejava uma dama dessa zona e enquanto dirigia seu olhar à sacada da casa, dirigindo palavras de amor a sua namorada, emergiu das trevas da noite a terrível besta. Valorosamente o cavaleiro sacou sua espada e tirou-lhe a vida; arrastou-a até os pés de sua amada, oferecendo-a como prova de seu amor, exclamando: “Vet aci es drac, es drac de na Coca” (aqui está o dragão, o dragão do Sr. Coch). A partir da façanha do capitão Coch o “dragão” recebeu seu nome atual, com a femininação (“coca”) de seu nome. Esse crocodilo foi embalsamado e atualmente pode ser visto no Museu Diocesano de Palma de Mallorca. Este crocodilo também mereceu um monumento na cidade, na Praça Santa Eulália.

 

Toda esta lenda do Drac de na Coca é muito interessante, como é habitual, mas recorde-se que também há uma Coca em Portugal e no Brasil. Terá vindo esse nome desta outra figura? Será que ambos são completamente independentes, e que “coca” era, em outros tempos, apenas um nome famoso para um dragão? Mistérios…

A lenda de Pedro Gonzalez de Mendoza

A figura espanhola de Pedro Gonzalez de Mendoza, bem como a sua lenda, existe naquele ténue espaço que distingue a ficção da realidade. Sabemos que ele existiu, sabemos que ele faleceu na Batalha de Aljubarrota (a que já cá dedicámos uma extensa página), mas é difícil saber até que ponto se apartam mito e história na sua vida. Isto porque, se em crónicas de outros tempos a batalha era sempre de má memória para os Espanhóis, eles também insistem que um grande herói viveu do seu lado nessa batalha.

A lenda de Pedro Gonzalez de Mendoza

No contexto de Aljubarrota, conta-se então que em dado instante o rei João I de Castela teve o seu cavalo ferido e viu-se até prestes a ser capturado pelos Portugueses. Para o salvar, este Pedro Gonzalez de Mendoza aproximou-se do monarca do seu país e cedeu-lhe o seu próprio cavalo. O rei ainda lhe tentou dar uma boleia, também o quis salvar, mas – segundo reza a lenda – este dispôs-se completamente a morrer pelo seu país, preferindo acompanhar para a morte os seus companheiros de batalha, em vez de escapar e ter de defrontar, para o resto dos seus dias, a grande dor das mães, mulheres e filhas dos outros combatentes.

 

Terá sido isto verdade? Será que este Pedro Gonzalez de Mendoza foi mesmo o grande responsável por salvar o monarca espanhol do fatídico destino que parecia aguardá-lo nos campos da Batalha de Aljubarrota? Sabemos, hoje, que este herói faleceu mesmo durante a batalha. Pelo menos até há uns poucos anos dizia-se que toda a gente em Espanha conhecia o seu nome, tal a importância do seu suposto acto no contexto histórico em que se inseriu. O que poderia indicar que sim, que era tudo verdade, mas não devemos esquecer que a sê-lo, só o rei de Espanha – ou o cavalo em questão, mas teria sido difícil entrevistá-lo – seria capaz de o atestar. Duvidamos que o fizesse, porque implicaria, ao mesmo tempo, admitir uma enorme fragilidade estratégica do próprio monarca. E, por isso, a verdade terá de permanecer completamente escondida no rodopiar dos séculos.

 

Lenda, pelo menos, já sabemos que tudo isto é. Mas se, como lhes é habitual, estas têm sempre um qualquer fundo de verdade, resta é saber qual poderá ter sido o verdadeiro papel de Pedro Gonzalez de Mendoza em Aljubarrota. Se foi mesmo aquele que ainda conhecemos hoje, é pelo menos notável a sua capacidade para o heroísmo contra todas as circunstâncias… e é algo que, mesmo como Portugueses, não poderíamos querer negar-lhe. Pelo contrário, deveríamos era querer ter do nosso lado, na altura e sempre, alguém igualmente capaz de um feito como esse, que mesmo numa grande derrota é ainda capaz de operar os melhores actos para o seu país!