“Don Juan”, a expressão e a lenda

Hoje em dia, quando falamos de um Don Juan, referimo-nos quase exclusivamente a um homem conhecido pela sua capacidade de seduzir o sexo feminino. Contudo, parecem já ser muito poucos aqueles que ainda sabem a verdadeira origem da expressão, ou a razão pela qual esta tal figura ficou associada às artes da sedução. E então, face a esse esquecimento progressivo, tão comum em muitas outras expressões que ainda hoje utilizamos, decidimos fazer desta figura e da sua história o tema de hoje:

A lenda de Don Juan

Se existiu um verdadeiro Don Juan, uma qualquer pessoa real que inspirou toda esta lenda, não conseguimos descobrir a sua identidade. Assim, a mais antiga referência a esta figura ficcional é numa peça de teatro espanhola de inícios do século XVII, El burlador de Sevilla y Convidado de Piedra, em que o anti-herói é representado como um homem que, recorrendo a diversas espécies de logros, consegue seduzir toda e qualquer mulher. As técnicas que usa são potencialmente ilícitas nos dias de hoje, é provável que até levassem quem as tente realizar para a cadeia, mas a fama popular desta figura não fica apenas por aqui, esta é apenas metade da história que o tornou conhecido.

Continuando então, entre as muitas figuras que este Don Juan seduziu conta-se uma tal “Ana”. Quando esta gritou por ajuda, o pai dela, um tal “Dom Gonçalo”, defendeu a filha e a respectiva honra, mas acabou por morrer em combate contra o anti-herói. Algum tempo depois, este último, ao ver a estátua do falecido num cemitério, jocosamente convida-a para jantar – e o fantasma aceita, vai jantar com o mesmo homem que lhe matou o corpo, antes de o convidar de volta para um segundo jantar, esse a ter lugar na sua “casa”, o cemitério. Don Juan, procurando não mostrar qualquer espécie de medo, aceita esse convite, vai jantar fora e são-lhe servidas coisas completamente horrendas, que ele acaba por comer… mas depois, o próprio fantasma de Dom Gonçalo pega nele e leva-o consigo para o reino dos mortos, com outras versões a chegarem ao ponto de afirmar que o “herói” da peça foi levado directamente para o próprio Inferno, sem nunca se arrepender das suas acções pecaminosas.

 

Face a este resumo, o que esta espécie de lenda tem de notável é que permite compreender a origem da expressão relativa a um Don Juan como um sedutor nato, mas também deixa muito bem claro que não só ele seduz pela ilegalidade (e.g. seria como prometer um emprego a alguém em troca de sexo e depois não lhe conceder o prometido), como também foi merecidamente punido por essas suas acções no final da história. E esses são elementos importantes, porque tornam possível ao leitor perceber que a sedução oferecida pela personagem nada tem de positivo, mas é, isso sim, algo de profundamente negativo, que com naturalidade não deve ser seguido por mais ninguém. A ainda existirem figuras como estas nos nossos dias de hoje – e elas são relativamente comuns em reality shows – elas só merecem mesmo é estar na prisão…!

O Romance de Abenámar

O Romance de Abenámar é um pequeno poema castelhano de autoria e datas desconhecidas, mas que fala de um episódio histórico que, muito provavelmente, terá acontecido na primeira metade do século XV, uns séculos depois das aventuras de El Cid, mas numa altura em que Espanha ainda estava parcialmente sob o jugo dos Mouros.

O Romance de Abenámar

A sua trama é extremamente simples – Dom João II de Castela encontra-se com o Mouro Abenámar, talvez até nascido nesta cidade, e pede-lhe que lhe fale de um panorama que ambos então tinham à sua frente. O segundo destes intervenientes conta-lhe, de forma muito breve, os principais edifícios da cidade, que talvez até possam ser aqueles ainda hoje vistos no mesmo local. Depois, para terminar e face à enorme beleza do local, o monarca como que pede a cidade em casamento – “Si tú quisieras, Granada, / contigo me casaría, / daréte en arras y dote / a Córdoba y a Sevilla” – ao que esta lhe responde com as seguintes palavras: “Casada soy, rey don Juan, / casada soy, que no viuda, / el Moro que a mí me tiene / muy grande bien me quería.

 

Trocando então por miúdos as metafóricas palavras presentes neste Romance de Abenámar, o rei queria tanto conquistar essa cidade que por ela estava disposto a abdicar das localidades de Córdova e Sevilha, mas Granada relembra-o que ainda é casada, “não é viúva”, além de acrescentar uma ideia segundo a qual esse Mouro – cujo nome não é relatado no poema – também gosta muito dela. É um final poético maravilhoso, essa visão de uma cidade como se de uma verdadeira mulher se tratasse, que para poder pertencer a um homem tem igualmente de abandonar um outro. E, por isso, mesmo que em poucas linhas, não pudemos deixar de achar interessante trazer aqui este belo final!

A lenda dos Amantes de Teruel

A lenda de hoje, dos Amantes de Teruel, vem aqui com uma pequena história pessoal associada. Há uns tempos encontrámos uma lista das que eram consideradas as maiores lendas de Portugal. Já aqui falámos de uma semelhante, da autoria de Teófilo Braga, mas o que esta outra tinha de especial é que, entre dezenas de lendas bem conhecidas (como a do Galo de Barcelos) incluía uma lenda “nacional” de que nunca tínhamos ouvido falar antes… e mais estranho ainda era o facto da listagem associar ao nome dessa lenda um pequeno comentário pessoal, i.e. “é uma lenda espanhola mas muitíssimo famosa em Portugal”. Desconhecemos como uma história desta natureza poderá ser “muitíssimo famosa” se já ninguém a parece conhecer por cá, mas pelo sim, pelo não, decidimos procurar informação sobre ela e recontá-la aqui:

A lenda dos Amantes de Teruel

Conta-se então que em inícios do século XIII viveram em Espanha, mais precisamente na localidade de Teruel, dois jovens que muito se amaram desde uma tenra idade. Um era chamado Diego, a outra chamava-se Isabel. Cresceram juntos, aprenderam o significado do amor juntos, mas a família da rapariga não permitiu o casamento deles, já que o seu amigo era mais pobre. Então, Diego, triste, pediu ao pai de Isabel apenas 5 anos, 5 anos e nada mais, para enriquecer e se tornar digno de casar com esta jovem, ao que o elemento paterno acedeu…

Depois, o tempo foi passando. Passou-se um ano. Dois. Três… e chegaram os cinco. Nessa altura Isabel já estava prometida a um outro homem, e o casamento entre ambos tomou lugar no preciso dia em que terminava o prazo dos cinco anos. E casaram… mas depois, no dia seguinte, Diego finalmente retornou, apenas para se aperceber que tinha contado mal a data, que tinha esquecido de colocar na conta o próprio dia em que o pedido foi feito. Em infinita dor, ele pediu um só beijo a Isabel – e esta recusou-o, até por já ser casada. Fez o pedido uma segunda vez – e esta recusou-o. Fê-lo uma terceira, ela tornou a recusá-lo, e ele morreu de amor.

Mas a história destes amantes de Teruel ainda não fica por aqui. No dia seguinte, quando o funeral do falecido se aproximava, Isabel apresentou-se com o seu vestido de casamento. Aproximou-se do túmulo do amigo, deu-lhe um único beijo nos lábios e tombou. Faleceu, também ela de um verdadeiro amor que nunca pôde ser consumado.

 

Hoje, quem for à Igreja de São Pedro, em Teruel, ainda lá pode encontrar o túmulo dos seus dois amantes, unidos para a eternidade por uma só mão, numa ideia amorosa que não pode deixar de lembrar os nossos Pedro e Inês. Já não existem amores assim, mas pelo menos recordamos aqui uma bela história de outros tempos, certamente hoje mais conhecida em Espanha do que em Portugal…

O Caganer e o Tió de Nadal, tradições da Catalunha

Começamos este mês de Dezembro com algumas tradições natalícias menos conhecidas em Portugal, as do Caganer e do Tió de Nadal, que em ambos os casos provêm da Catalunha. São figuras e tradições independentes, pelo que as introduzimos aqui a dois momentos, cada um reservado para uma das duas figuras.

Um Caganer tradicional da Catalunha

O Caganer, como esta imagem bem ilustra, aparenta representar um homem com o traje tradicional da Catalunha. O que o torna especial é o facto de ter parte das suas calças para baixo, de forma a expor o seu rabo a quem o vê, com uma intenção de cagar no chão (i.e. e da qual recebeu o seu nome). Poderia, nesse seguimento, perguntar-se o que tem esta inesperada figura a ver com o Natal… e se não fomos capazes de descobrir a sua derradeira origem – existem demasiadas teorias, mas também muito poucas certezas – o que se sabe é que ele começou a ser representado entre as figuras do presépio de Natal por volta de finais do século XVII. É hoje tradição colocá-lo entre as outras figuras do presépio natalício, num papel raramente principal. Acredita-se que essa acção dá boa sorte a quem a realiza.

Um Tió de Nadal da Catalunha

Uma outra tradição natalícia da Catalunha é o chamado Tió de Nadal, que é como quem diz um “tronco de Natal”. Não é como o nosso bolo, que tanto pode ser visto nas lojas por esta altura do ano, mas um verdadeiro tronco de madeira, com um tamanho mais ou menos convencionado, a que em tempos mais recentes foram adicionados alguns elementos antropomórficos (como uma cara e umas perninhas). De onde vem a tradição? Provavelmente de tempos já muito antigos, em que as crianças de regiões frias como estas não tinham muito com que brincar, levando-os à ideia de o fazerem com os troncos que, posteriormente e como é muito natural, depois eram queimados para aquecer a casa. Poderá ter sido dessa espécie de brincadeiras que nasceu a ideia de o aquecer com uma mantinha e um chapéu tradicional (compare-se com o do Caganer, na imagem anterior).

Mas em que consiste esta outra tradição? Na sua forma mais conhecida, esta era uma figura que se acreditava que trazia alguns pequenos presentes às crianças no dia de Natal, como frutos secos ou guloseimas (os presentes “maiores” ficavam para o dia 6 de Janeiro, como é comum em Espanha e em algumas outras tradições europeias, e.g. a Befana italiana). Para que tal acontecesse, elas tinham de cuidar bem deste Tió de Nadal, cantar-lhe algumas canções tradicionais (que, importa frisar, têm o seu quê de picante), bater-lhe com paus, e outras coisas que tais, levando-o depois à metafórica acção de “cagar presentes” para os mais novos…

 

Claro que ambas estas tradições foram sofrendo alterações ao longo do tempo, mas há que frisar que tanto o Caganer como o Tió de Nadal se mantêm muito populares na Catalunha dos nossos dias, mesmo que nem sempre com todos os seus contornos tradicionais, e.g. o tronco passou a ter um peso mais simbólico, em vez de ser queimado após o dia 25 de Dezembro…

Francisco de la Vega Casar, o homem-peixe de Liérganes

Como que inspirados pelo tema de ontem, referente a Matsya dos Hindus, hoje decidimos então aqui falar sobre o homem-peixe de Liérganes, no norte de Espanha, que tinha por nome original Francisco de la Vega Casar. É uma história famosa no local, e supostamente até real, que se diz ter tomado lugar em finais do século XVII.

Uma imagem meramente ilustrativa

Conta-se então que este jovem, Francisco de la Vega Casar, nasceu e cresceu em Liérganes, uma povoação no norte de Espanha. Um dia, quando foi tomar banho nas águas próximas, pareceu ter sido arrastado por elas e os seus companheiros acharam que ele se tinha afogado. E, como em muitos outros casos reais semelhantes, toda a história poderia ter ficado por aí, mas… não ficou!

Nos anos que se seguiram foram muitos aqueles que disseram ter visto em cursos de água uma criatura aquática que parecia humana mas que estava coberta de escamas. Com alguma dificuldade ela lá acabou por ser capturada, mas não dizia nenhuma outra palavra excepto “Liérganes”. Ao longo do tempo lá alguém se apercebeu que existia uma povoação com esse nome, levaram a estranha criatura para lá… e mal se encontrou no local, foi para casa da sua mãe, que depressa o reconheceu como o seu perdido filho. E então ele ainda viveu mais uns anos no local, antes de se atirar ao rio e desaparecer para sempre, nunca mais tendo sido visto novamente…

 

Este caso de Francisco de la Vega Casar, o homem-peixe de Liérganes, apesar de nos poder parecer estranho, não é único na cultura da época. Um episódio semelhante já aparecia na outrora-famosa novela Lazarillo de Tormes, de meados do século XVI, podemos relembrar o nosso Tritão da zona de Sintra, e figuras como estas também aparecem regularmente em manuscritos europeus (como o da imagem acima), mas o que torna esta ocorrência especialmente digna de nota é o facto de ela aparecer atestada na obra Teatro Crítico Universal do Padre Benito Jerónimo Feijoo. É provável que o nome da obra e do seu autor já diga pouco aos leitores hoje em dia, pelo que importa frisar que ele era muito céptico face a ocorrências como estas, mas no seu livro não só parecer acreditar nesta história, como dá a entender que tomou conhecimento dela por fonte primárias, por pessoas que diziam ter testemunhado tudo isto com os seus próprios olhos e que lhe pareceram fidedignas.

 

E, assim sendo, se não podemos ter a certeza absoluta do que se passou no local, pelo menos temos de admitir que “algo” se terá passado por lá, levando os cidadãos locais desta época a acreditarem que tudo isto era verdade. Terá sido um extraterrestre? Terá sido uma ocorrência completamente estranha e inesperada? Terá sido uma brincadeira parva de um adolescente? Não sabemos, nem podemos saber, tornando esta história famosa até aos nossos dias de hoje – por isso, se um dia estiverem por Liérganes, procurem o Centro de Interpretación del Hombre Pez, onde poderão conhecer um pouco mais da história do misterioso homem que nasceu com o nome de Francisco de la Vega Casar (e não, não fomos pagos para escrever estas linhas).