A lenda da Vitória Régia

A lenda da Vitória Régia é provavelmente uma das mais famosas do folclore e mitologia do Brasil, mas ao mesmo tempo quase nada se conhece sobre ela em Portugal. Assim, convém começar por explicar que ela é uma espécie de planta aquática, que aos Portugueses pode ser descrita mais ou menos como um nenúfar gigante e mais resistente. É conhecida sob diversos nomes diferentes em Terras de Vera Cruz, sendo até um símbolo da Amazónia, mas o nome que lhe damos aqui tem, aparentemente, origem em uma homenagem inglesa à Rainha Vitória, particularmente clara no seu nome científico, i.e. victoria amazonica.

 

Feita então esta explicação inicial, provavelmente até quase só para os leitores que estão em Portugal, conte-se agora esta lenda:

Lenda da Vitória Régia

Diz-se que em outros tempos alguns índios nativos do Brasil veneravam a lua, dando-lhe o nome de Jaci, e lhe associavam muitas histórias, grande parte delas hoje já completamente perdidas. Assim sendo, entre as muitas pessoas das suas tribos contava-se uma belíssima jovem chamada Naiá, que acreditava fielmente em tudo aquilo que tinha ouvido nas muitas histórias locais sobre Jaci. As diversas versões desta aventura divergem um pouco no que se passou a seguir, mas sabemos é que Naiá acabou por se apaixonar pelo astro que quase todas as noites via no céu. Depois, um dia, enquanto passeava na margem do Rio Amazonas, viu Jaci reflectido nas águas e a bela divindade pareceu-lhe maior e mais próxima do que nunca. Desejando então tocar-lhe, ou mesmo dar-lhe um pequeno beijo na face, aproximou-se, tentou aproximar-se mais e mais…

A lenda da Vitória Régia, parte 2

… e acabou por cair às águas! Debateu-se por alguns momentos, mas não sabia nadar, não conseguia de todo fazê-lo. Morreu afogada. Contudo, Jaci teve piedade desta Naiá, a sua grande devota de já tantos anos, e então transformou-a numa planta aquática, de forma redonda e que, segundo nos diz toda a história, floresce apenas nas mais belas noites de lua cheia, como que para continuar a homenagear, de uma forma eterna, a divindade que tanto tinha amado em vida.

 

Assim, a lenda da Vitória Régia explica como é que estas plantas, para nós em Portugal um pouco estranhas, nasceram. Não é uma história mesmo verdadeira, como é óbvio, mas recorda-nos as muitas transformações das Metamorfoses de Ovídio, procurando explicar um mundo parcialmente desconhecido através de um conjunto de ideias e sentimentos que, de certa forma, são até comuns a toda a humanidade. É uma história brasileira, mas poderia igualmente ser de um qualquer outro lugar em que existam plantas aquáticas, e em que algum dia alguém se interrogou sobre a sua origem…

Em busca da Bruxa Évora

Há algum tempo vieram-nos pedir mais informação sobre uma tal Bruxa Évora. Não é uma figura simples, até porque à primeira vista nem é totalmente claro se Évora era o seu nome ou a sua origem (i.e. “Bruxa de Évora”), mas por muito que procurássemos só encontrámos informação pouco fidedigna e muito inconsistente. E isso, como já é costume, não pôde deixar de nos fascinar mais e mais. Portanto, decidimos partir em busca da verdadeira origem dessa figura, hoje ainda famosa no Brasil mas pouco conhecida em Portugal.

Será um deles a Bruxa Évora?

Relembre-se que mesmo no tempo da perseguição das bruxas por toda a Europa nunca foram muitas as figuras culpadas desse crime em Portugal. Mas, curiosamente, entre as poucas condenadas à fogueira contou-se, no ano de 1626, uma pessoa da cidade de Évora, de seu nome… Luís de La Penha – ou seja, não era uma mulher, mas sim um homem, este condenado eborense por bruxaria e feitiçaria.

E que fez ele, para que merecesse um tal castigo? Segundo as sentenças da Inquisição que nos chegaram, essencialmente este homem previa o futuro e fazia feitiços, todos eles com intervenção do Diabo ou de uma figura feminina muito bonita (cuja identificação não é clara nos documentos que lemos). Face a essas ideias anti-cristãs, ele foi condenado uma primeira vez e, eventualmente, perdoado. Mas depois, possivelmente até porque não tinha outra forma de fazer dinheiro, voltou a insistir no mesmo, foi denunciado múltiplas vezes, e voltou a ser preso, sendo desta vez condenado mesmo à fogueira.

Assinatura de Luís de La Penha

Neste contexto, se é possível que tenham existido outras figuras famosas da arte da feitiçaria em Évora, Luís de La Penha é certamente o mais famoso, até em consequência do seu destino. Mas será ele quem está por detrás da figura que procuramos? É muito provável que sim – a figura é famosa no Brasil mas está hoje quase esquecida em Portugal. Se a sua história tiver sido levada para o Brasil no século XVII, é provável que os nativos desconhecessem a cidade de Évora, transformando as menções que ouviam a um famoso “bruxo de Évora” num “bruxo Évora”, que depressa se poderá ter tornado uma “Bruxa Évora” pelo simples facto da feitiçaria ser mais associada ao género feminino.

Ao mesmo tempo, isto poderá explicar o porquê de pouco ou nada se saber sobre a figura da Bruxa Évora – se ela nasceu de um mero nome com uma existência quase fantasmagórica, de uma compreensão incorrecta de algumas palavras, não é possível que tenha por base alguma história real, abrindo caminho a que possam ter sido geradas múltiplas histórias apócrifas associadas a ela, que terão de diferir quase por completo face ao facto de lhes faltar qualquer fundamento de realidade em que se possam basear.

 

Podemos estar errados nesta possibilidade para uma identidade da chamada “Bruxa Évora”, mas frise-se que o nome não é comum – de facto, só existe uma cidade de Évora em Portugal, nenhuma no Brasil, e existiu uma Evora em Queensland (Austrália). Enquanto nome próprio, também é muitíssimo raro – não conhecemos qualquer exemplo do seu uso, além da cidade dos eborenses. Por isso, se a figura existe e é popular no Brasil, terá vindo de Portugal, sendo por isso possível que se tenha baseado em eventos ou figuras do nosso país. E, na ligação entre a bruxaria e a cidade alentejana, Luís de La Penha é certamente o seu exponente mais famoso, podendo ter dado lugar a esta figura numa forma como a que já discutimos acima.

A origem dos nomes do Brasil

Sobre a origem dos nomes do Brasil, já cá contámos anteriormente como o país foi, inicialmente, chamado pelos Portugueses Terra de Vera (ou Santa) Cruz. Porém, ao mesmo tempo isso poderá também suscitar duas questões adicionais – qual era o nome desse país antes dos Portugueses lá chegarem? E, posteriormente, porque foi o seu nome alterado para aquele que ainda tem nos dias de hoje, o de Brasil?

 

Em relação à primeira questão, segundo fomos lendo o nome nativo para a terra que hoje é o Brasil era Pindorama, que se acredita ter significado algo como “terra das palmeiras”. Mas, se isto facilmente resolveria a questão, o grande problema é que, aparentemente, ninguém sabe muito bem de onde vem essa informação. Mesmo hoje, com tanta tecnologia à nossa disposição, é relativamente fácil encontrar este pedaço de informação individual, mas nunca parece ser dito quem verdadeiramente o relatou, ou até como esse dado chegou aos nossos dias de hoje. Sim, ainda existe um local chamado Pindorama no Brasil, um município no estado de São Paulo, e rapidamente somos informados que esse era o nome tupi para as terras brasileiras, mas… desconhecemos as vias pelas quais essa informação chegou até aos nossos dias. Oops!

A antiga Ilha do Brasil

Agora, em relação ao segundo ponto, porque razão foi o nome dessa nova terra alterado para Brasil? Existia, já no século XIV, uma ilha lendária com um nome muito parecido com este, que se pensava estar colocada algures a oeste da Irlanda, como a imagem acima mostra. Ela nunca foi verdadeiramente encontrada, até porque estava supostamente repleta de elementos mágicos e lendários, mas é possível que o seu nome possa, de alguma forma até inconsciente, ter influenciado os navegadores portugueses.

A essa possibilidade podemos ainda acrescentar o facto desta palavra na altura já existir em Português – era usada para designar uma planta que dava madeira vermelha, como as que existiam bastante na terra recém-encontrada, ficando elas conheciadas como o pau-brasil, ou seja, o pau avermelhado, que posteriormente poderia vir a ser o pau vindo desse país, que lhe foi tomando o nome.

Qual destas duas hipóteses é a correcta, para a associação do nome ao território brasileiro? Não podemos ter uma certeza absoluta, mas é certamente provável que estes dois factores – entre outros entretanto esquecidos – tenham de alguma forma contribuído para a origem do mais famoso de todos os nomes do Brasil.

A lenda do Boitatá

A lenda do Boitatá ou Baetatá parece ser famosa no folclore brasileiro, juntamente com as de criaturas como o Saci e da Mula-sem-cabeça. Isto, ao ponto, tal como essas outras, também surgir nas mais diversas obras para crianças, de que a Turma da Mónica é um bom exemplo.

A lenda do Boitatá na Turma da Mónica

O que é, então, esta criatura conhecida como Boitatá, ou Baetatá, entre outros nomes semelhantes? É frequentemente uma serpente de fogo, que parece proteger a floresta de todos aqueles que a pretendam incendiar. Mas, se até parece existir uma certa ironia nessa história – uma serpente de fogo que protege contra incêndios?! Será dificíl que faça o seu trabalho muito bem… – esse problema pode ser explicado tendo em conta as linhas de Câmara Cascudo sobre esta criatura, em que parece admitir que há uma certa controvérsia em relação à origem desta criatura em terras do Brasil, podendo ter vindo de outras culturas ou nascido de um compreensão incorrecta de alguma outra história ou conceito original.

 

Nesse sentido, se por um lado seria interessante contarmos aqui uma qualquer história associada a uma potencial lenda do Boitatá, o problema é mesmo o facto de, a existirem (e frise-se que não encontrámos muitas…), serem pouco consistentes, não existindo uma lenda principal desta figura, mas sim várias regionais. Isso é notável, por exemplo, no dicionário português da Priberam, em que esta criatura é primeiro definida na forma que mencionámos acima, mas onde também é dito que no sul do Brasil – sem especificar mais informação – a mesma figura tem uma figura diferente, sendo um “touro furioso que deita fogo pelas ventas e queima tudo”. Face a esse problema, como também admite Câmara Cascudo, esta criatura é essencialmente uma representação do fogo fátuo, uma forma de tentar explicar esse fenómeno na cultura brasileira. Assim se compreende a presença do fogo em todas as representações desta espécie de monstro, mesmo quando todos os outros elementos variam nesta lenda!

A lenda do Boto Cor-de-rosa, e o “filho de boto”

A lenda deste Boto Cor-de-rosa, e a expressão que dela deriva (i.e. filho de boto), deve começar com uma breve explicação para os Portugueses – um boto não é senão um golfinho, apesar do seu nome menos vulgar. O vocábulo é mais frequente no Brasil, apesar do dicionário português da Priberam nos informar que ambas as palavras significam uma e a mesma coisa.

Agora, passando ao que interessa, em certas zonas do Rio Amazonas vive uma espécie de boto que é cor-de-rosa, distinguindo-se facilmente do “tucuxi” cinzento. Mas ele não parece ser muito frequente, o que poderá ter gerado a seguinte lenda:

Um boto cor-de-rosa

Segundo ela, nas noites de lua cheia – ou nas de Santo António, São João e São Pedro, segundo outra versão – este boto cor-de-rosa tem a capacidade de se transformar num homem belíssimo. É uma metamorfose quase total, com a excepção da narina que ele tem – como os golfinhos que tão bem conhecemos – no topo da sua cabeça. Para suprir essa falha, ele usa sempre um chapéu durante as suas aventuras noturnas.

Com essa sua beleza em forma humana, este boto cor-de-rosa, introduz-se em algumas aldeias e finge ser nada mais que um homem vulgar, apesar de lindíssimo. Depois, seduz alguma jovem e engravida-a na beira de um curso de água, antes de desaparecer de uma forma tão misteriosa como surgiu. E a jovem, essa, confrontada com uma gravidez não planeada e misteriosa, fica sem saber o que fazer…

 

A origem desta lenda do Boto Cor-de-rosa é muito fácil de compreender, mas é também desta mesma história que surge a expressão “filho de boto”, desconhecida em Portugal, que é dada a um filho de pai incógnito, ou até potencialmente de uma violação. Desconhece-se se alguém ainda diz mesmo que foi engravidada por um boto com poderes mágicos (quem estiver no Brasil e souber responder a isto, por favor deixe um comentário abaixo!), ou se alguém ainda acredita nisso, mas esta expressão chegou aos nossos dias no sentido mais geral de apresentar alguém que tem um filho cujo pai é desconhecido.

E, se ficaram curiosos sobre a origem e significado de outras expressões mitológicas que ainda são usadas em Portugal e no Brasil nos nossos dias, podem encontrar mais na nossa secção de expressões.