O mito de Pandora (e a origem da Caixa de Pandora)

Os mitos de Pandora e da Caixa de Pandora são certamente dos mais conhecidos da Grécia Antiga. Nesta história, e como poderá ser lido já em seguida, aquela que era a primeira mulher é culpabilizada pelos muitos males que afectam toda a humanidade. Curiosamente, esta mesma temática seria abordada em muitas outras mitologias e religiões, com uma das mais famosas referências a aparecerem na Bíblia, em que Eva, esposa de Adão e primeira mulher, seria também ela a culpada pelos males que hoje afligem o mundo. Segue-se então um pequeno resumo de toda a história:

O mito e a Caixa de Pandora

Resumo do mito de Pandora

Segundo o mito, a história de Pandora surge na sequência de alguns logros perpetrados por Prometeu, que viriam a privilegiar a humanidade em detrimento dos deuses do Olimpo.
Para se vingar, Zeus criou Pandora, a primeira mulher, os outros deuses deram-lhe todos os dons (justificando o seu nome), e depois o seu rei enviou-a a Epimeteu , que a deveria tomar como esposa.
Contrariamente ao que o irmão, Prometeu, lhe tinha aconselhado, Epimeteu aceitaria este presente vindo do Olimpo. Infelizmente, Pandora viria também com um objecto, no qual estavam contidos todos os males, dos quais a humanidade estava ainda liberta.
Vítima da sua curiosidade, esta primeira mulher abriria o objecto que lhe está associado, libertando todos os males e deixando, curiosamente, um simples dom por libertar – a esperança.

 

O mito de Pandora é normalmente terminado por aqui, mas esta personagem também se tornaria a mãe de Pirra , cujo matrimónio com Deucalião acaba por ser a base para um outro mito. Infelizmente, pouco se sabe em relação ao matrimónio desta importante figura com Epimeteu , além do que já foi referido acima.

 

Origem da Caixa de Pandora

Mas toda esta história ainda não fica por aqui, já que existe um outro pormenor que vale a pena explorar. Apesar do objecto normalmente associado a Pandora ser uma caixa, existe alguma iconografia em que ela também aparece com outros objectos, entre eles uma jarra. Porquê?

De facto, a expressão caixa de Pandora é uma das mais famosas que nos chegaram da Mitologia Grega. Na versão mais antiga que temos desse mito, a de Hesíodo, e que aparece na sua obra Os Trabalhos e o Dias, é referido que o objecto dado a esta mulher foi um πίθος (píthos), o que não é uma caixa, mas cuja forma seria provavelmente assim:

Seria esta a verdadeira Caixa de Pandora?

Isto faz sentido, porque o mito diz-nos que no seu interior estavam todos os males do mundo, e um píthos era precisamente o tipo de vaso em que os Gregos armazenavam coisas. Que o mito se referia a um recipiente como estes é particularmente perceptível num vaso hoje presente no British Museum, que num dos lados tem pintado a criação desta figura feminina, e num outro tem uma pintura de uma figura feminina totalmente contida dentro do recipiente (se esta será a própria heroína, ou a esperança personificada de que nos fala o mito, é mais discutível). Em suma, segundo a versão de Hesíodo os males estavam, originalmente, contidos no interior de algo que podemos definir como um grande jarro. Mas como se tornou isto uma caixa de Pandora?

 

Como se passou de um jarro para uma caixa de Pandora?

São várias as possibilidades, mas a mais famosa diz-nos hoje que Erasmo de Roterdão, ao traduzir a agora-famosa expressão, confundiu o significado de duas palavras – πίθος (píthos) e πυξίς (pyxis) – transformando aquilo que era originalmente uma espécie de grande jarro em algo com uma forma bastante diferente:

Um exemplo de pyxis

O erro de Erasmo, queiramos ou não, é bem justificado. Quando ele leu o texto em Grego, o contexto de todo o mito poderá ter-lhe sugerido a ideia de uma pequena caixa, mais do que um enorme jarro, que Pandora destapou. Até porque, tradicionalmente, a pyxis tem uma tampa, enquanto que um píthos não… mas se este segundo era um recipiente para guardar algo, faz sentido que em algumas alturas tivesse uma qualquer espécie de cobertura, que a heroína teve de remover para ver o que estava no interior.

 

Este erro aparece nos Adágios de Erasmo, uma obra muito interessante que depressa se tornou famosa por toda a Europa, espalhando com ela a ideia de que a caixa de Pandora era uma pyxis, uma espécie de pequena caixa com tampa, mais do que um píthos, um enorme vaso, e daí a ideia foi-se espalhando e prolongando até aos nossos dias de hoje…

 

O mito e a caixa de Pandora, uma conclusão

Para terminar estas linhas sobre o mito de Pandora deve também notar-se aquele que considero como sendo um dos pormenores mais importantes deste mito – a presença da “esperança” no interior de um objecto que, alegadamente, só continha males. Deixando de lado a hipótese de erros na tradução do mito (se pensarmos bem, isso poderá ser dado como uma desculpa para justificar seja o que for, o que poderá ser perigoso), esta presença parece quase injustificável. É possível, talvez, que a esperança fosse considerada como uma perdição, ao incitar a sociedade grega a lutar por ideais que, segundo as leis imutáveis das Moiras, seriam ridículos. Se o Destino realmente existia, sob a forma das três Moiras, que sentido teria a esperança de uma vida melhor? É uma mera hipótese, mas talvez uma das mais interessantes que tenho para apresentar. Caso alguém tenha outras, obviamente que está à vontade para as deixar por cá…

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18 comentários em “O mito de Pandora (e a origem da Caixa de Pandora)”

  1. Muito bom blog! Tambem aprecio bastante mitologia. Tenho procurado na internet sobre quais os males que foram libertos da caixa de Pandora, mas com a exactidão dos escritos antigos, mas não tenho tido muito sucesso pois existem sempre discrepancias em relação a outras fontes. Se tiveres uma fonte fiavel sobre esta materia poderias enviar-me? Estou a trabalhar num projecto no qual esta informação me será bastante util. O meu mail é [email protected] (hey! nada de piadas! se estivessem em frente a um monitor durante 1 hora a tentar mails também aceitavam a primeira parvoice que vos passasse pela cabeça…). Obrigado e parabéns pelo blog.

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    • O professor de historia da UFRJ José Figueiredo Nogueira, trabalha com a idéia de que a caixa de Pandora seria o seu Útero.
      Vi ele falar isso em uma palestra.
      Espero que seja relevante.

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    • Pessimo , pois nao da para entender nada, pesomóooooooooooo. , ha ja ia quase. Me esquecndo eu esquizei resumido, nao em lingua ddesconhecida:-) kkkkkkkkkkkk:-) :O
      🙁

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  2. Venho ate a qui para parabeniza-los.
    sou uma amante da mitologia e me agradar muito saber que existe pessoas como eu..

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  3. Há quem diga que a palavra grega usada para “esperança” — calma, não é erro de tradução, é apenas uma variação — pode ser traduzida para algo como “ignorância do futuro”, no sentido de a humanidade acabar por sofrer de todos os males sem saber, salvo por experiência alheia, de o que os aguarda.

    Espero ter ajudado.

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  4. Gostaria de saber a origem do resumo, ou o autor do texto, pois gostaria de citar um trecho na abertura de um conto.

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  5. Gostei deste resumo e achei a tua teoria particularmente interessante.
    Interesso-me por História em geral, mas a minha paixão está mais focada nas antigas civilizações como os gregos e os egípcios (e os romanos, apesar de estarem geralmente associados às outras duas).
    É uma pena que não possamos ter acesso a uma tradução dos textos originais tendo a certeza de que esta está correcta.
    Já tinha lido uma vez um artigo sobre este mito e se bem me lembro Pandora tinha sido instruída pelos deuses para abrir a caixa, mas não tinha consciência daquilo que ia causar à humanidade. Fechou a caixa com a esperança ainda lá dentro porque pensou que não haveria nada de bom ainda por libertar.
    Contudo apesar de ter lido isto não posso garanti-lo como certo.
    De qualquer forma parabéns pelo blog e pelo artigo!

    – Su

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  6. Gostei bastante do seu post, na verdade deu-me bastante jeito para um trabalho da escola! É sobre a mitologia grega, e sempre tive uma certa curiosidade acerca do mito de Pandora.
    Agora estou bem mais esclarecida, obrigada!

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  7. Sou professora em curso de moda e sobre Pandora, os livros da àrea remetem a ela a questão das Vitrinas, a uma caixa de surpresa.Vemos, ficamos curiosso em ver de perto aquela peça que nos chama atenção e as vezes experimentamos tal peça e até adquirimos.Ao ver e até a adquirir ,com certeza em muitas vezes saímos com a esperança de que tal peça vai nos deixar mais belos, quem sabe mais magros, mais novos….Enfim a VITRINA e PANDORA tem o mistério da esperaça de algo melhor.

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  8. a lenda dessa grega da sedutora pandora abriu a sua caixa mas o que nos plateias precisam saber e que pensar não e seu rival mas reagir uma maneira mas leve e menos cobiçoso essa deusa e muito ganaciosa e matou seu paii para querer a trona de zeus o pai mitologico da grecia ; eis uma pergunta podemos reaigir o certo e o não ?

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  9. Tive a estudar este mito, e a esperança é algo mau se for em excesso. Pensa assim, quando algo de mau acontece, nós temos esperança que esse mal passe simplesmente, mas geralmente lutamos pelo nosso bem, Porém a esperança pode levar à fé absoluta e conformada dos acontecimentos. Por exemplo, ”não preciso de fazer nada pelo meu país porque alguém há-se resolver a situação”.

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  10. Parabéns pelo blog! Muito bacana.

    Pandora (e a figura feminina, em geral) era tida como o “Belo Mal” (transliterado do Grego Clássico, “Kalón Kakón”). “Belo”, pois encantava os homens com sua beleza, obviamente; e “Mal” porque os que se apaixonavam eram capazes de perder o senso da razão – que para a sociedade grega era algo muito ruim. Então, o pensamento grego sobre a mulher era mais ou menos o seguinte: “Que ‘bicho’ é esse, que é capaz de encantar os homens, fazendo-os perder a razão, sangra todo mês e não morre?”
    Como já citado em um dos comentários, no mito original, não havia “caixa” propriamente dita. A tal “caixa” é o útero e, sendo parte do “Belo Mal’, só poderá liberar os “males” ao mundo. Quanto à história da esperança, na época, a palavra era utilizada com outro sentido, o original, que indica a ação de esperar. Portanto, quando os “males” são liberados, resta apenas a “esperança” por algo.

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