Talvez, mais que tudo, o Bonacho – ou Bonnacon, se preferirem – seja um bom exemplo de como o significado das palavras foi sendo alterado ao longo dos séculos. Se alguém, nos dias de hoje, pegar num dicionário como o da Priberam e procurar esta palavra por lá, depressa será informado que este animal se trata somente de um bisonte. E ele era representado assim na Idade Média:

Poderia ser uma imagem medieval como tantas outras, mas ao prestar-se alguma atenção, pode ser visto que o homem está a proteger-se com um escudo, apesar do próprio animal estar virado para a direcção oposta. Além disso, algo de estranho, de difícil de compreender, se parece estar a passar na zona traseira deste animal, mesmo em frente ao escudo protector. Fora do contexto original, tudo isto é bastante difícil de compreender, mas… na verdade, o Bonacho era uma criatura que se acreditava existir em terras menos acessíveis aos comuns mortais, e caracterizada por cornos pequenos e uma sua capacidade de expelir inquietantes projécteis pelo traseiro, que conseguiam percorrer mais de 600 metros de distância, conforme nos informou Plínio o Velho. Daí ele ser representado assim, num pleno ataque que o visualizador poderá nem sempre compreender.
Igualmente interessante poderá ser o facto de que se dizia que, face aos seus cornos muito pequenos, esta criatura não conseguia utilizá-los para atacar ninguém (e daí precisar da estranha capacidade referida acima). Talvez tenha sido isso que inspirou os primeiros visitantes da América a dar o nome que deram ao animal outrora muito comum no local? É claro que ele não tem a estranha característica do original, mas poderão ter sido os pequenos cornos a influenciarem esse nome…
!["O cavaleiro que fazia falar as vaginas [e os rabos]", de Garin "O cavaleiro que fazia falar as vaginas [e os rabos]", de Garin](https://mitologia.pt/wp-content/uploads/2026/06/O-Cavaleiro-que-Fazia-Falar-as-Vaginas-e-os-Rabos.jpg)




