21 anos de Mitologia em Português!

Fazem hoje 21 anos que este espaço começou a ser escrito. Eu, enquanto fundador, nunca sei muito bem o que escrever em momentos como estes, pelo simples facto de eu sempre ter sentido que sou demasiado secundário face ao que vai sendo escrito por aqui. Em vez disso, sinto é que o importante vão sendo os leitores, pela inspiração que, em muitos casos, vão dando aos temas que se abordam aqui. O caso de um estudante que alertou para uma inscrição alusiva a Ísis em Braga é um bom exemplo disso mesmo, porque mostra que mesmo em locais pelos quais vamos passando todos os dias também se escondem boas histórias. E, portanto, talvez seja esse o melhor caminho a tomar no dia de hoje, o de contar uma história mais pessoal, que é completamente minha e foi ficando por contar nestas linhas.

21 anos de Mitologia em Português!

O mito – ou lenda – do Fantasma de Sintra

Há alguns meses eu tinha ido investigar uma lenda. O casal de informadores foi muito simpático, quase não me queriam deixar ir embora, ao ponto de eu me ter atrasado no regresso por algumas horas. Depois, cansado, enquanto passava por uma fonte na zona de Sintra, decidi encostar o carro e repousar a cabeça por algumas horas. Cerca de duas horas depois, alguns jovens pararam os seus dois carros próximos do meu e puseram-se na conversa, depois de se assegurarem que eu estava mesmo vivo. Entre outros temas aqui menos relevantes, falaram de um suposto fantasma de Sintra, que alguns já tinham visto, sob a forma de uma jovem mulher, numa beira da estrada. Um deles opôs-se à ideia, retorquindo “ah, não, isso não é aqui”, mas o tema não foi muito mais longe. Pouco depois, decidiram ir comer qualquer coisa a uma dada cadeia de hamburgueres, e eu voltei ao meu sono.

 

Parece-me claro que estes jovens se estavam a referir a uma qualquer versão da lenda de Teresa Fidalgo, tal como ela foi sofrendo as suas alterações ao longo do tempo, mas a ideia de “isso não é aqui” não pode deixar de fascinar. Em mitos e lendas dessa natureza, normalmente existe um local estável associável a elas. Lembre-se, por exemplo, o caso de Maria do Carmo de Mello, e passado mais de um século o local no qual sofreu o seu acidente mortal ainda é assinalado. Agora, se nem todos os locais de acidentes merecem igual relevo, ao revelar que aqueles eventos não tiveram lugar num local específico, mas num outro, esse jovem desconhecido parecia afirmar saber onde teve lugar algo impossível. Na altura, entre o sono e o acordar, toda a ideia até me fez sorrir um pouco, porque ela demonstra a forma, tanto no tempo dos antigos Gregos e Romanos, como até nos nossos dias, as histórias se vão reformulando e actualizando para novos públicos. Olhando para trás, talvez eu devesse ter perguntado onde foi, de facto, o lugar do acidente de “Teresa”. Hoje, interrogo-me verdadeiramente sobre o que me teriam respondido, se sabiam mesmo onde era esse suposto local, mas na altura o cansaço impediu-me de saber muito mais – e assim, perdeu-se uma boa oportunidade de aqui se contar uma outra história, a de como essa tal “Teresa Fidalgo” se tornou, progressivamente, um fantasma de Sintra que até os habitantes locais dizem já ter sido vista por “alguém”, aquele sempre-geral “alguém”, ou o anglófono “friend of a friend”, tão comum nas lendas urbanas.

 

É, a meu ver e na minha opinião pessoal, esse um dos elementos mais belos dos mitos e lendas. Escrevê-los, seja aqui ou em qualquer outro lado, estraga o seu carácter mutável, fixa-os sem possibilidade de mudança, enquanto a sua forma oral vai sendo alterada ad infinitum, cada vez que alguém reconta uma qualquer história a outra pessoa. É como a famosa história da Carochinha e do João Ratão – o que estava o casal a cozinhar quando a segunda dessas personagens morreu “cozido e assado”? Cada leitor terá a sua opinião, ou saberá aquilo que lhe foi contado, mas na voz do povo esse pitéu não é estável, tal como a (falsa) história de “Teresa” agora pode ser associada aos mais diversos locais, como pude ouvir naquela noite.

 

E talvez seja esse o verdadeiro poder da mitologia — não o de explicar o mundo de forma definitiva, mas o de nos lembrar que, mesmo num lugar comum como uma estrada em Sintra ou numa fonte esquecida, pode haver espaço para o mistério, para o espanto e para a partilha. Que, enquanto houver quem conte histórias, haverá sempre novos mitos a nascer. E isso, por si só, já é uma razão suficiente para se continuar a escrita destas linhas.

Enfim, as linhas de hoje já vão longe. Obrigado aos leitores, hoje e sempre, e “vemo-nos” durante o ano que vem!

A estranha lenda de Julia Legare

A lenda de hoje, relativa à figura de uma Julia Legare, começa com um convite que já não fazemos há alguns anos. Abaixo, pode ser vista uma pequena igreja no estado da Carolina do Sul, nos EUA. À primeira vista, este local tem o seu quê de charme, talvez um potencial viajante até parasse por aqui para descansar um pouco durante uma longa viagem. Porém, o que a imagem não permite ver, mesmo que se mova a perspectiva para a esquerda ou a direita, é que por detrás desta igreja branca existe um túmulo associado a uma tal família Legare. Não se sabe muito sobre eles, mas a lenda que aqui será recontada hoje prende-se precisamente com esse local.

Reza então a lenda que em meados do século XIX, uns poucos anos depois da construção da igreja, vivia aqui uma menina de nome Julia Legare. Ela apanhou difteria, caiu numa espécie de coma, um médico foi chamado ao local, e este atestou o óbito. A família mandou enterrar a falecida no que se viria a tornar o jazigo da família… e tudo ficaria por aqui, sem motivos de maior interesse, não fosse o facto de alguns anos mais tarde este local ter sido aberto e terem visto, no seu interior, que a pobre Julia ainda estava viva quando aí foi sepultada, acabando depois por morrer de fome. Quem viu isto só poderá ter ficado chocado, mas… quando decidiram voltar a fechar este túmulo, por muito que o tentassem ele reabria-se sempre durante a noite, levando os locais a pensar que o espaço estava amaldiçoado por influência da pobre menina, numa ideia que se foi mantendo até aos dias de hoje.

 

É, na sua essência, isto que diz a lenda local, e fontes locais permitem saber que Julia Legare faleceu a 16 de Abril de 1852. Porém, a verdade é menos triste do que poderá parecer – ela já era casada nessa altura, com um tal “John Berwick Legare” (nome que ainda pode ser encontrado no túmulo), e faleceu aos 23 anos de idade, não sendo tão menina e moça como a história normalmente indica, ao ponto de nos fazer pensar numa pobre criança enterrada viva. Não encontrámos referências totalmente confirmadas à causa de morte, mas pode ser apontado que um filho faleceu em 1854, e o marido em 1856, algo que até poderá sugerir uma verdadeira maldição familiar.

 

A semelhança com a lenda do Túmulo da Família Chase é notável, mas dada a distância física e cronológica entre as duas mortes, é certamente uma mera coincidência e nada mais, até porque existem muitos outros túmulos por todos os estados dos EUA com histórias semelhantes a estas, e que muitas vezes até são motivo de uma espécie de peregrinação na altura do Dia das Bruxas. Também existem histórias semelhantes no nosso país, mas talvez nenhuma tão famosa como a deste local, que dizem ser um dos locais mais assombrados do estado da Carolina do Sul. Se alguém quiser partilhar histórias semelhantes mas em Portugal, podem deixar-nos um comentário, como sempre…

O derradeiro segredo do deus Pã

É provável que o deus Pã seja um dos mais famosos da Mitologia Grega, até pela sua forma física bastante invulgar. Ele já cá foi mencionado diversas vezes, desde a sua ligação à expressão Omnia Vincit Amor, ao mito de Pítis (em que ele tem um papel principal), passando pela distinção entre faunos e sátiros, e até pela nossa Zargueida nacional, ele foi uma figura relativamente comum até que na era cristã surgiram notícias de que ele tinha morrido. Verdade ou mentira – que nestas coisas da mitologia nunca se sabe muito bem… – algo de muito curioso se esconde por detrás desta figura, e que aqui podemos apresentar precisamente com as palavras de Sérvio Honorato, gramático do século IV da nossa era, que traduzimos do original latino:

O derradeiro segredo do deus Pã

(…) Pã é um deus rústico, formado à imagem da natureza, sendo por isso também chamado [em Grego] Πάν, ou seja, [em tradução] “tudo”: tem cornos à semelhança dos raios do sol e dos cornos da lua; o seu rosto é avermelhado, imitando o éter; no peito traz uma pele de corça estrelada, representando os astros; a sua parte inferior é peluda, por causa das árvores, arbustos e animais selvagens; tem pés de cabra, para simbolizar a solidez da terra; carrega uma flauta de sete tubos, em alusão à harmonia do céu, no qual existem sete sons (…); possui a kalauropa, isto é, “dos pés”, em referência ao ano, que gira sobre si mesmo. Sendo este deus a totalidade da natureza, os poetas fingem que lutou contra o Amor e foi vencido por ele (…)

 

Verdade ou não, que tudo isto pode ter sido apenas e simplesmente inventado por Sérvio para uma das suas obras, o que aqui interessa é a intrigante possibilidade de Pã ter sido criado pelos poetas como uma metáfora híbrida, em que cada um dos elementos do corpo do deus poderá ter tido, na sua forma original, uma simbologia muito própria, ligando-o aos mais diversos elementos daquele mesmo elemento natural em que vivia.

Se pensarmos bem, esta descrição de Pã como representação da totalidade da Natureza não é incompatível com o modo como os antigos gregos entendiam o divino: não como algo separado do mundo, mas sim profundamente entrelaçado com ele. A ideia de que o próprio corpo do deus encarna o céu, a terra, os ciclos e os elementos, revela uma concepção do mundo em que tudo está em relação e em harmonia — ou, por vezes, em tensão criativa.

É igualmente fascinante que este ser, que simbolizaria “o todo”, tenha sido vencido por Eros, ou o Amor, segundo os poetas. O que nos poderá dizer essa imagem? Que mesmo a Natureza total, selvagem e essencial, não resiste à força transformadora do desejo e da emoção? Ou será uma forma de dizer que o amor, na sua essência, é também parte inseparável da natureza? As respostas, como aqui é habitual, poderão ficar para os leitores.

 

Agora, se não conseguimos encontrar provas concretas da génese desta ideia nos tempos mais recuados da literatura e cultura da Grécia Antiga, as linhas do autor latino que citámos acima podem, no mínimo, sugerir que algo mais se escondia por detrás desta figura — algo que o tempo, os novos cultos e o esquecimento fizeram esmorecer. Mas graças a autores como Sérvio, resta-nos pelo menos uma pista: a de que, talvez, o derradeiro segredo do deus Pã não esteja no que ele é, mas no que ele simboliza.

A estranha lenda da não-morte de Elvis

Existem, nos Estados Unidos da América, um conjunto de mitos e lendas que, a nós, fora desse país, podem parecer um pouco estranhas. Já aqui falámos anteriormente, por exemplo, do mito da Chegada do Homem à Lua, ou do Gigante de Kandahar, mas é provável que poucas dessas histórias sejam tão famosas como a da não-morte de Elvis.

 

Ou seja, trata-se de uma breve história que sugere que Elvis Presley não morreu no ano de 1977, como anunciado oficialmente, mas que terá fingido a sua morte por diversas razões — entre elas, o cansaço da fama, o desejo de viver uma vida anónima, ou até mesmo para escapar de problemas com o governo ou com o crime organizado. Será mentira? Terá sido verdade? O que é aqui particularmente relevante é que, tenha ou não sido verdade, ao longo das décadas foram surgindo testemunhos de várias pessoas que afirmavam ter visto Elvis vivo, em locais tão díspares como supermercados, motéis ou aeroportos. Muitas dessas pessoas diziam-no com total convicção, garantindo que punham a sua honra em jogo. Portanto, de onde vem toda essa estranha ideia?

A estranha lenda da não-morte de Elvis

A ideia de que Elvis foi um cantor americano de imenso sucesso não irá surpreender nenhum leitor, mesmo aqueles que estão em Portugal ou no Brasil. O que talvez não saibamos tão bem como os Americanos é que, aquando da sua morte, a notícia foi recebida com enorme choque — um verdadeiro trauma coletivo americano. Era difícil aceitar que alguém com tanto talento, carisma e presença pudesse simplesmente desaparecer. E onde há choque, muitas vezes nasce a negação.

 

Rapidamente começaram a circular rumores de que a morte teria sido encenada. O corpo, diziam alguns, não parecia exatamente com o de Elvis. Outros notaram inconsistências no atestado de óbito ou nas fotografias do funeral. Teorias multiplicaram-se: estaria vivo num retiro espiritual? Escondido no Alasca? A viver em Graceland, mas em segredo?

 

 

Ainda hoje podemos ver, em séries de televisão e filmes, os típicos imitadores de Elvis em Las Vegas. Mas entre todos os que surgiram ao longo dos anos, talvez o mais curioso tenha sido um tal “Orion”, nome artístico de James Hodges Ellis, nascido em 1945 — recorde-se que Elvis nascera em 1935. Este cantor não só tinha uma voz extraordinariamente parecida com a de Elvis, como actuava com uma pequena máscara, alimentando a dúvida: seria mesmo e apenas um imitador?

 

Muitos fãs acreditavam que Orion era, na verdade, o próprio Elvis, regressado a público sob uma identidade falsa. A escolha da máscara, os tiques vocais, a aparência física e o mistério à volta da sua identidade só ajudavam a alimentar a especulação. Orion viria a falecer em 1998, mas até lá não faltaram aqueles que o consideravam “o verdadeiro” disfarçado.

 

 

Face a “provas” como estas, ao longo dos anos foi-se enraizando a ideia entre os americanos de que Elvis não tinha morrido. O fenómeno ganhou tanta força que gerou documentários, livros, sites, fóruns e até conferências dedicadas ao tema. Alguns chegaram a afirmar que o próprio FBI o teria ajudado a desaparecer, porque teria colaborado como informador contra o crime organizado. Outros juram tê-lo visto a conduzir um táxi em Nova Iorque ou a viver tranquilamente nas Bahamas.

 

Os tais imitadores, como Orion, e o culto em torno da sua figura também não ajudaram ao caso — e, sejamos honestos, muitos deles souberam explorar muito bem essa dúvida.

 

 

Mas, hoje, é raro encontrar alguém que leve a sério a teoria de que Elvis continua vivo. A maioria aceita que morreu em 1977, vítima de problemas cardíacos agravados por anos de abuso de medicamentos. Ainda assim, a ideia de que “Elvis não morreu” permanece viva no imaginário popular. Não apenas como uma crença literal, mas como símbolo: o rei do rock nunca desapareceu verdadeiramente, porque continua presente na cultura, na música e na memória coletiva. E talvez seja essa a força real do mito — a necessidade de manter viva uma figura que marcou uma era, como se a sua morte fosse simplesmente… impossível.

“Comentário às Geórgicas de Virgílio”, de Sérvio – disponível em tradução!

Trazemos hoje a público mais uma tradução recente, o Comentário às Geórgicas de Virgílio, da autoria de Sérvio, que ainda não existia em nenhuma língua moderna. Se, por um lado, até preferíamos disponibilizá-lo gratuitamente, visto que há uns meses atrás descobrimos que um certo “espertalhão” roubou um dos nossos trabalhos anteriores, mudou-lhe o nome e reeditou-o como se fosse obra sua… é natural que não possamos continuar a fazê-lo nesse mesmo modelo, original, de gratuitidade.

 

Então, este texto traduzido pode agora ser adquirido na Amazon, em tradução para língua inglesa. Faria aqui talvez mais sentido tê-lo traduzido para Português, mas, como é habitual, decidiu-se que uma tradução para o Inglês permitia um acesso maior

 

Mas então, de que fala este Comentário às Geórgicas de Virgílio, da autoria de Sérvio, datada provavelmente do século IV ou V da nossa era? De um ponto de vista neutro, temos de admitir que é uma obra interessante para quem quiser mergulhar a fundo numa das obras do autor do mais famoso épico latino, mas ela passa, essencialmente, por ser uma espécie de texto companheiro das Geórgicas de Virgílio, em que este outro autor explica alguns dos muitos versos escritos pelo seu antecessor. A razão porque a traduzimos passa, mais que tudo, pelo facto de em alguns momentos esta obra completar os mitos contados pelo autor da Eneida, alguns dos quais não são muito comuns ou conhecidos nos nossos dias.

 

E, para quem tiver interesse no tema, recorde-se então que também já fizemos uma tradução à grande obra deste mesmo autor, o Comentário à Eneida de Virgílio