Fazem hoje 21 anos que este espaço começou a ser escrito. Eu, enquanto fundador, nunca sei muito bem o que escrever em momentos como estes, pelo simples facto de eu sempre ter sentido que sou demasiado secundário face ao que vai sendo escrito por aqui. Em vez disso, sinto é que o importante vão sendo os leitores, pela inspiração que, em muitos casos, vão dando aos temas que se abordam aqui. O caso de um estudante que alertou para uma inscrição alusiva a Ísis em Braga é um bom exemplo disso mesmo, porque mostra que mesmo em locais pelos quais vamos passando todos os dias também se escondem boas histórias. E, portanto, talvez seja esse o melhor caminho a tomar no dia de hoje, o de contar uma história mais pessoal, que é completamente minha e foi ficando por contar nestas linhas.

O mito – ou lenda – do Fantasma de Sintra
Há alguns meses eu tinha ido investigar uma lenda. O casal de informadores foi muito simpático, quase não me queriam deixar ir embora, ao ponto de eu me ter atrasado no regresso por algumas horas. Depois, cansado, enquanto passava por uma fonte na zona de Sintra, decidi encostar o carro e repousar a cabeça por algumas horas. Cerca de duas horas depois, alguns jovens pararam os seus dois carros próximos do meu e puseram-se na conversa, depois de se assegurarem que eu estava mesmo vivo. Entre outros temas aqui menos relevantes, falaram de um suposto fantasma de Sintra, que alguns já tinham visto, sob a forma de uma jovem mulher, numa beira da estrada. Um deles opôs-se à ideia, retorquindo “ah, não, isso não é aqui”, mas o tema não foi muito mais longe. Pouco depois, decidiram ir comer qualquer coisa a uma dada cadeia de hamburgueres, e eu voltei ao meu sono.
Parece-me claro que estes jovens se estavam a referir a uma qualquer versão da lenda de Teresa Fidalgo, tal como ela foi sofrendo as suas alterações ao longo do tempo, mas a ideia de “isso não é aqui” não pode deixar de fascinar. Em mitos e lendas dessa natureza, normalmente existe um local estável associável a elas. Lembre-se, por exemplo, o caso de Maria do Carmo de Mello, e passado mais de um século o local no qual sofreu o seu acidente mortal ainda é assinalado. Agora, se nem todos os locais de acidentes merecem igual relevo, ao revelar que aqueles eventos não tiveram lugar num local específico, mas num outro, esse jovem desconhecido parecia afirmar saber onde teve lugar algo impossível. Na altura, entre o sono e o acordar, toda a ideia até me fez sorrir um pouco, porque ela demonstra a forma, tanto no tempo dos antigos Gregos e Romanos, como até nos nossos dias, as histórias se vão reformulando e actualizando para novos públicos. Olhando para trás, talvez eu devesse ter perguntado onde foi, de facto, o lugar do acidente de “Teresa”. Hoje, interrogo-me verdadeiramente sobre o que me teriam respondido, se sabiam mesmo onde era esse suposto local, mas na altura o cansaço impediu-me de saber muito mais – e assim, perdeu-se uma boa oportunidade de aqui se contar uma outra história, a de como essa tal “Teresa Fidalgo” se tornou, progressivamente, um fantasma de Sintra que até os habitantes locais dizem já ter sido vista por “alguém”, aquele sempre-geral “alguém”, ou o anglófono “friend of a friend”, tão comum nas lendas urbanas.
É, a meu ver e na minha opinião pessoal, esse um dos elementos mais belos dos mitos e lendas. Escrevê-los, seja aqui ou em qualquer outro lado, estraga o seu carácter mutável, fixa-os sem possibilidade de mudança, enquanto a sua forma oral vai sendo alterada ad infinitum, cada vez que alguém reconta uma qualquer história a outra pessoa. É como a famosa história da Carochinha e do João Ratão – o que estava o casal a cozinhar quando a segunda dessas personagens morreu “cozido e assado”? Cada leitor terá a sua opinião, ou saberá aquilo que lhe foi contado, mas na voz do povo esse pitéu não é estável, tal como a (falsa) história de “Teresa” agora pode ser associada aos mais diversos locais, como pude ouvir naquela noite.
E talvez seja esse o verdadeiro poder da mitologia — não o de explicar o mundo de forma definitiva, mas o de nos lembrar que, mesmo num lugar comum como uma estrada em Sintra ou numa fonte esquecida, pode haver espaço para o mistério, para o espanto e para a partilha. Que, enquanto houver quem conte histórias, haverá sempre novos mitos a nascer. E isso, por si só, já é uma razão suficiente para se continuar a escrita destas linhas.
Enfim, as linhas de hoje já vão longe. Obrigado aos leitores, hoje e sempre, e “vemo-nos” durante o ano que vem!

!["O cavaleiro que fazia falar as vaginas [e os rabos]", de Garin O-Cavaleiro-que-Fazia-Falar-as-Vaginas-e-os-Rabos](https://mitologia.pt/wp-content/uploads/2026/06/O-Cavaleiro-que-Fazia-Falar-as-Vaginas-e-os-Rabos-300x199.jpg)




Parabéns!