O mito de Gello

Se existem muitas criaturas estranhas na Mitologia Grega e Romana, desde a Lâmia e Momo até figuras como a Medusa, já o mito de Gello transporta-nos para uma intemporalidade muito curiosa, por se tratar de uma história que, com uma singela alteração de nome, continua a ser repetida em diversas culturas por todo o mundo até mesmo nos nossos dias de hoje – relembre-se, nesse sentido, a Llorona mexicana, entre incontáveis outras possibilidades por todo o mundo!

O mito de Gello

Sobre este mito de Gello, conta-se então que ela era originalmente uma menina muito jovem. Depois adoeceu, passou por uma doença muito grave, acabando até por falecer nessa sua tenra idade. Tinha sonhado amado alguém, casar, ter os seus próprios filhos, mas… fruta da doença, do seu falecimento, nunca pôde acabar por concretizar esses seus desejos. E assim, enraivecida pela tirania que o Destino lhe tinha imposto, após a morte decidiu continuar a assombrar este mundo, assustando a matando não só as outras crianças, mas também causando muitas outras mortes como a sua.

 

Esta história de Gello, que originalmente era contada para assustar as crianças, numa espécie de “Papão” dos tempos da Antiguidade, não pode deixar de nos relembrar o famoso caso de Lilith, mas também muitos outros que existem nas mais diversas culturas por todo o mundo – normalmente, quando uma criança falece, esse evento horrendo é atribuído, misticamente, ou a uma mãe invejosa, ou uma criança que, como ela, também passou pela mesma situação. Fazem-se amuletos, rezas, e outras coisas que tais, na esperança de que isso evite situações como estas, e mesmo nos nossos dias continuam alguns rituais, mais ou menos religiosos, que podem ser associados ao nascimento e cuidado das crianças em tenra idade, e que em muitos casos tiveram origem em histórias como esta…

A lenda de Paul Bunyan

Sempre ouvimos dizer que a lenda de Paul Bunyan é uma das mais famosas dos Estados Unidos da América. Mas, na verdade, não existe apenas uma, como no caso de George Washington e a cerejeira, mas sim um conjunto muito grande de histórias associadas a esta figura. Sobre elas, a grande questão deverá ser… será que são verdade? Ou, para sermos bem mais precisos, onde terminam as possíveis lendas desta figura e começa a sua vida puramente ficcional? Poderá parecer uma questão estranha – a maior parte das lendas apenas “existe”, sem que se saiba muito bem como começou – mas o que é mais curioso neste caso é que até temos um conhecimento significativo sobre como toda a história evoluiu.

A lenda de Paul Bunyan

No início do século XX parece que já existiam diversas lendas de Paul Bunyan, mas apresentavam-no quase exclusivamente como um lenhador capaz de feitos verdadeiramente impressionantes na área em que trabalhava. É daí que parece surgir o touro azul, que arrastava os troncos cortados por este grande homem, com a sua estranha cor a ser justificada por ter passado por um tempo demasiado gélido na sua juventude.

Depois, ao longo das décadas e com um conjunto de histórias que acabarão por ser publicadas por volta de 1922 numa obra de nome The Marvelous Exploits of Paul Bunyan, é que começaram a surgir muitos outros relatos associados a esta figura. São fragmentos que vão mencionando o tamanho gigantesco do machado do herói e de Babe (o touro azul que já pesava 2000 Kg na sua juventude), o facto do famoso par ter gerado vários lagos com as suas pisadas gigantescas, a criação de montanhas (e.g. o Grand Canyon americano tem a sua formação atribuída à passagem deste gigante com o seu machado, que quando arrastado foi formando um enorme buraco no chão), e outras tantas coisas que tais. Também adicionam mais personagens à história, novos companheiros (humanos e animais) para este gigante, fazem dele o inventor de diversos acessórios da indústria madeireira, e assim por diante…

 

Mas será que tudo isso já constava das lendas associadas a Paul Bunyan em inícios do século? A obra de W. B. Laughead mencionada acima, que pode ser lida gratuitamente aqui, dá-nos duas pistas muito significativas em relação a toda essa questão – não só a sua capa anuncia que as histórias aí constantes foram “embellished for publication” (i.e. embelezadas para a publicação, dando a entender que não são precisamente as originais), como também existem diversos momentos das histórias que referem o nome e a actividade da empresa de publicação, uma tal “Red River Lumber Company”. Assim, a esta figura podem ser associados dois grandes momentos – um primeiro, em que potenciais histórias deste herói circulavam oralmente entre madeireiros (nesse sentido, recorde-se até o caso de Joe Magarac e os trabalhadores da indústria do aço); e um segundo, em que este herói foi reaproveitado para diversas campanhas publicitárias. Foi esse último contexto que fez com que a sua lenda original e a (nova) ficção se confundissem para sempre, tornando impossível discernir onde começava uma e acabava a outra, num contexto a que alguns parecem chamar fakelore, um misto do folklore original com invenções que lhe vão sendo associadas posteriormente. Nesse sentido, a história que une esta figura a um rio redondo, que ele e os seus companheiros depois transformam num lago, é provavelmente a mais famosa de todas elas.

 

Agora, quando se pensa na lenda de Paul Bunyan, pensa-se não nas suas histórias potencialmente originais, que pareciam já existir antes do ano de 1900, mas numa entidade estrambótica que foi sendo criada ao longo de décadas, e que pode ser resumida assim – ele era um lenhador (mais tarde, um gigante), capaz dos mais diversos feitos nas zonas por onde passou, enquanto buscava novos locais onde exercer a sua arte. É dessa síntese que nascem as suas (muitas) outras aventuras, mas não sabemos, nem é possível sabê-lo hoje, em que medida já eram parte da tradição oral em que se basearam. Por exemplo, numa dada lenda este herói corta todos os pinheiros de uma montanha gigantesca; numa outra, engana os seus colegas de profissão, para que voltem a casa sem serem pagos; numa terceira, transforma um rio redondo num lago profundo, como já foi referido acima. Não sabemos quais destas três, se alguma delas, já fazia parte da tradição oral da figura, mas são pequenas aventuras como essas – raramente ultrapassam uma página – que constituem as muitas lendas que nos EUA foram sendo associadas a este herói…

O mito de José Sócrates

Não foi só na Grécia Antiga que existiram grandes histórias. O mito de José Sócrates, que quase que partilhou o seu nome com uma outra grande figura dos tempos da Antiguidade, também ela igualmente perseguida pelos seus muitos abomináveis opositores, tem muito que se lhe diga. Esse mais casto, puro, justo, heróico e santo de todos os homens nada fica a dever a figuras heróicas da Antiguidade – possuindo a força de Hércules, a paixão pela justiça de Antígona e a honestidade de Sísifo, só tememos não ser capazes de contar todas as suas muitas aventuras numa só publicação, não só por se tratarem cada uma delas de tarefas mais difíceis do que as do filho de Alcmena, mas até pela extensão e falta de espaço actuais. Assim, hoje contamos apenas aqui duas delas.

O mito de José Sócrates

Conta-se que, durante séculos, a família em que nasceu José Sócrates possuiu um cofre mágico, originalmente dado pelo deus Hefesto ao Rei Midas, quando este último foi vilificado por ter ousado admitir, com toda a justiça do universo, que Pã tocava flauta melhor que o deus Apolo. Todos os juízes do concurso estavam notavelmente subornados pelos poderes instituídos, mas só Midas ousou dizer a verdade, sendo assim recompensado pela sua mais pura honestidade. Em seguida, esse cofre foi passado de mão em mão – entre os seus anteriores possuidores contam-se figuras tão ilustres e digníssimas do maior crédito na história da humanidade como Heródoto, João de Mandeville, o Barão Munchausen, o filho de um tal “Gepeto”, ou mesmo Richard Nixon – até chegar aos nossos dias. Conta-se que este modelo ideal do homem perfeito, as quatro virtudes cardeais tornadas homem, ainda hoje guarda esse cofre mágico em sua casa.

Poderão, então e por óbvia curiosidade, perguntar o que de mágico tem esse acessório, o mais famoso que chegou ao nosso país dos tempos da Antiguidade. É simples – tudo o que for colocado no seu interior é instantaneamente transformado nas coisas mais preciosas do mundo. Se, por exemplo, lá colocassem antigas notas de escudos, saíriam elas depois magicamente convertidas em euros, à taxa cambial de 1 escudo = 777 euros, que José Sócrates sempre declarou ao Fisco, mesmo que – por se tratarem, naturalmente, de oferendas místicas provindas exclusivamente dos mais divinos deuses – não tivesse de o fazer, de todo. Fê-lo, e sempre, com toda a mais recta honestidade do universo, estando mais acima de qualquer suspeita que Vishnu, Sidarta Gautama ou Jesus Cristo.

O mito de José Sócrates

Conta-se igualmente este mito de José Sócrates que ele tinha um amigo fidelíssimo, um Pirítoo para o seu Teseu, que tudo faria por ele e com ele, sem nunca jamais lhe pedir fosse o que fosse em troca. E então, as forças das trevas conspiraram contra os dois eternos amigos, procurando separá-los, urdindo conspirações e tentando conspurcar esta genuína e tão terna amizade com um véu de maldade. Amicorum communia omnia, diziam os Antigos, e só alguém muito mal intencionado poderia sequer pretender imaginar algo de errado numa amizade tão claramente unida pela carne e pelo usufruto plenamente fraternal de um só património – não há um término do que é de um e do que pertence ao outro, como qualquer amizade verdadeira deve sentir.

 

Quantas outras histórias poderíamos aqui contar, deste homem mais santo que o mais santíssimo de todos os seres humanos que já existiram? Como é possível que, em mais de 4300 anos de história, tenhamos a excelsa oportunidade de viver num país e num mesmo tempo que um homem como estes, que nada fica a dever ao divino Cícero? Devemos considerar-nos os mais sortudos dos homens e das mulheres por vivermos em Portugal neste tempo de agora, porque uma figura tão perfeita só parecia existir nos mitos do passado…

 

[Editado posteriormente: Para quem não tiver notado, esta foi uma brincadeira do Primeiro de Abril, reeditada e republicada após os eventos da segunda semana deste mês.]

 

P.S.- Obtivemos, posteriormente e por empréstimo de uma biblioteca nacional, uma cópia de um novo livro de José Sócrates, de título Só Agora Começou. É uma obra quase hilariante, uma espécie de Apologia de Sócrates ao contrário, em que se tenta convencer o leitor de que a personagem principal é mesmo o mais santíssimo de todos os homens que já viveram neste mundo, e que até apresenta frases tão ironicamente hilariantes como “Nunca gostei de códigos ou de regulamentos (…)” Não comprem a obra, mas se a virem numa qualquer plataforma de ficheiros ilegais, aproveitem… e riam-se muito!

Origem da expressão “não aceites doces de desconhecidos”

Em outros tempos, os pais diziam aos seus filhos coisas como não aceites doces de desconhecidos. Hoje, talvez tenham emendado essa ideia original para algo como “não dês o teu número de telemóvel a ninguém”, “não aceites carregamentos de desconhecidos”, ou mesmo “não saias com ninguém que conheceste na internet”, mas a expressão original dá que pensar. Se os mais novos não deveriam aceitar nada de desconhecidos, porquê a referência específica e exclusiva aos doces?

Charley Ross, a possível origem da expressão "não aceites doces de desconhecidos"

É provável que a expressão tenha nascido na cultura americana, em particular do (famoso) caso de Charley Ross, que tomou lugar a um de Julho de 1874. Conta-se que esta criança, então ainda com quatro anos, estava a brincar com o seu irmão à porta de casa, quando foram interpelados por dois desconhecidos, que se ofereceram para lhes dar doces e foguetes se fossem com eles até a uma loja que havia por perto. Os dois irmão aceitaram. Depois, os dois homens deram 25 cêntimos a Walter, irmão de Charley (e que tinha cinco anos), disseram-lhe para entrar na loja e fazer as compras. Ele fê-lo, mas quando voltou ao exterior o seu irmão e os dois desconhecidos já tinham desaparecido. Nunca mais foram vistos.

 

Os pais de Charley Ross, bem como o próprio irmão, passaram o resto das suas vidas a procurar o seu familiar desaparecido, sempre sem qualquer espécie de sucesso. Agora, o que o caso tem de especial é ter acontecido numa altura em que já existiam meios de comunicação mais desenvolvidos (contrastar, por exemplo, com o caso de Luísa de Jesus), mas em que, aparentemente, um caso desta natureza ainda nunca tinha sido publicitado em grande escala. Isto terá certamente contribuído para a sua popularização (o Charley Project, que ajuda a procurar desaparecidos nos EUA, até tomou o seu nome), mas também para popularizar a ideia de não aceites doces de desconhecidos entre os mais velhos, que deverá ter chegado ao nosso país através da cultura anglófona…

 

Tenha-se até em atenção que se existem diversos casos de desaparecimentos em Portugal – e.g. Maddie, Rita Slof Monteiro, Rui Pedro, etc. – não encontrámos nenhum caso puramente nacional em que uma criança tenha sido levada com recurso à oferta de doces. Portanto, é muito provável que a expressão nacional derive do estrangeiro, mais do que de alguma circunstância que tenha tomado lugar no nosso país.

A lenda do Túmulo da Família Chase

Esta lenda do Túmulo da Família Chase, que nos vem das ilhas Barbados, merece ser contada aqui em virtude de se encontrar numa linha muito ténue que separa a ficção da realidade. Isto porque ninguém duvida que esta família tenha existido, mas o grande problema prende-se com o que foi acontecendo com ela depois das mortes dos seus membros. Na verdade, até vimos este caso mencionado em diversas obras credíveis sobre mistérios que nunca foram resolvidos, deixando claro que não se sabe, mesmo, o que teve lugar.

 

Conta-se então que uma criança desta família faleceu em tenra idade, nos inícios do século XIX. Tendo então sido construído um Túmulo da Família Chase, foi a primeira a ser colocada no local. Mas depois, quando algum tempo mais tarde faleceu outro membro da mesma família, o recinto foi aberto e o primeiro caixão foi encontrado fora do seu lugar. A situação foi corrigida e foi depositado esse segundo caixão no local. Tudo estaria bem, mas quando faleceu outro membro da mesma família, o problema voltou a repetir-se – outra, e outra, e outra vez!

O Túmulo da Família Chase

Naturalmente assustadas, as pessoas da zona lá tentaram investigar o que se passava, com os mais diversos subterfúgios – incluindo meter areia no chão, para detectar possíveis pegadas de brincalhões, ou bloquear totalmente o acesso ao jazigo – mas cada vez que tinham de reabrir o Túmulo da Família Chase, encontravam tudo num enorme corrupio.

Isto foi-se repetindo até 1819-1820. Depois parou, não porque o estranho fenómeno tenha cessado, mas porque já não existiam mais pessoas para serem enterradas lá, tendo os locais decidido que já era hora de deixar repousar os mortos, enterrando cada um deles em campas totalmente distintas.

 

Hoje, o local em que tudo isto supostamente teve lugar ainda pode ser visitado – é conhecido como Chase Vault no original inglês – nas Barbados, mas nada de especial acontece por lá. Será que algum dia aconteceu? Será que toda esta história até tem algum fundo de verdade? Numa dada altura, até Arthur Conan Doyle deu a sua opinião em relação a todo o caso, que considerava verídico, mas hoje já não é tão claro se tudo isto se trata de uma lenda ou de uma história completamente falsa, inventada nas primeiras décadas do século XIX por alguém com algum objectivo menos claro. Não sabemos o que se poderá ter passado – conforme já referido acima, os livros que consultámos consideram-no um caso verídico mas irresolvível – mas não deixa de ser uma boa história para se contar em redor de uma fogueira…