O mito de Sibilja

Existem mitos que não podem deixar de nos fazer sorrir. O mito de Sibilja é um deles, por toda uma estranheza que nos transmite, que pouco destoaria num desenho animado para crianças – e mesmo aí, é provável que alguém viesse dizer que esta história da Mitologia Nórdica é demasiado inverosímil!

O mito de Sibilja

Conta-se então que o rei Eysteinn, na Suécia do século VIII da nossa era, possuía uma vaca mágica, venerada como uma deusa, cujo mugido era capaz de incapacitar todos os combatentes adversários. Se ela estivesse feliz e contente (o que implicava dar-lhe muito comida e carinhos, entre outras coisas que tais), Sibilja lá se punha a mugir e toda a batalha estava ganha. Nada mais simples, e durante vários anos foram até muitos os exércitos que caíram sob este fabuloso, e aparentemente inevitável, poder!

Até que um dia, o rei e a sua Sibilja lá acabaram por ser derrotados. Para tal, os opositores dispararam uma flecha contra a cabeça da vaca, causando-lhe dor e forçando-a a fugir pelo campo fora. Depois, quando ela se começou a aproximar dos atacantes, estes pegaram num homem muito gordo, atiraram-no pelo ar e, caindo ele em cima da vaca, esmagou-a (o que não é uma tarefa nada fácil). O resto da batalha procedeu normalmente, com um combate entre dois exércitos, acabando com a derrota de Eysteinn.

 

O que podemos acrescentar a todo este mito de Sibilja? Se existem muitas outras histórias, por todo o mundo, de animais particularmente perigosos – a “nossa” Porca de Murça, os Neades, a Kitsune, etc. – o que toda esta história tem de notável é o facto do monarca sueco ter em seu poder um animal com poderes mágicos que adaptou às lides da guerra. Não existem muitos exemplos, pelo menos na literatura da Antiguidade e da Idade Média, de criaturas mitológicas que tenham sido como que “capturadas” e usadas em combate, apesar de ser uma ideia muito reutilizada em filmes, séries e videojogos dos nossos dias. Por isso, se alguém se lembrar de outros exemplos com mais de 500 anos, por favor deixe-nos um comentário com essa informação!

Os Chineses comem carne humana?

Uma curiosa lenda urbana, com menos de umas décadas de existência, diz que os Chineses comem carne humana. Supostamente, e segundo dizem essas más-línguas, eles pegam nos membros mais velhos das suas famílias e, quando estes acabam por falecer, cozinham-nos. Uma variante, com uma notória intenção de difamar os restaurantes chineses, dizem que eles são mais baratos porque cozinham cão, gato, baratas, lagartixas, etc. Mas será que tudo isto tem algum fundo de verdade?

Os Chineses comem carne humana?

Em relação ao primeiro ponto, já cá contámos uma história de antepassados chineses. Caso não tenha ficado totalmente claro nessa altura, a cultura chinesa ainda pratica, de uma forma significativa, um culto dos antepassados, pelo que a ideia de consumirem o corpo de um avôzinho seria, para eles até muito mais do que para nós, completamente abominável.

Deixando então e já de lado essa estranha possibilidade sugerido pela lenda urbana, será que os Chineses comem carne humana, como se sabe – é verdade – que consomem a carne de muitos outros animais?

 

Responder a isso implica explicar um aspecto importante da cultura chinesa. Se sabemos, sem qualquer dúvida, que os Chineses tendem a comer carnes exóticas – bastará recordar-se até um dos mitos sobre a origem/criação do Coronavírus – há que esclarecer que normalmente não o fazem pelo sabor das mesmas, mas por todo um conjunto de características que na sua cultura são associadas a esses animais. Como em Portugal se pensa, por exemplo, que comer cenouras faz os olhos bonitos, ou que o porco é um animal sujo, também em terras da China existem um conjunto de associações aos diversos animais, tanto reais como mitológicos, que podem ser vistas em obras como o Clássico das Montanhas e dos Mares (山海经), uma obra muito interessante que é um misto de Geografia e bestiário. Nesse sentido, mesmo que comessem toda a espécie de animais para nós estranhos, só o fariam porque, na sua cultura, esse animal tem alguma conotação positiva – o que não é, tanto quanto conseguimos apurar, o caso das baratas ou dos seres humanos.

 

Mas, relembre-se, não é isso que diz a lenda urbana. Diz é que os Chineses podem servir nos seus restaurantes essas comidas, consideradas para nós “exóticas”. O que é certamente possível, admita-se que sim, mas também é possível que qualquer outro restaurante, independentemente da sua nacionalidade, o faça. Ainda há poucos anos foi encerrado um restaurante (português) na zona de Sintra porque servia MESMO o proverbial “gato por lebre”. Nesse sentido, não há qualquer prova real de que os restaurantes chineses o façam mais, ou menos, do que quaisquer outros.

 

Tudo isto se tratam, então e somente, de puras lendas urbanas, sem qualquer dúvida. Não é correcto afirmar que os Chineses comem carne humana, tal como não é absolutamente certo que os restaurantes de Portugal não sirvam, igualmente a bem do vil metal, carne humana ou de animais menos próprios. Tudo depende dos escrúpulos dos seus proprietários, independentemente da sua nacionalidade.

Três breves lendas – a Praia do Guincho, a Praia das Maçãs e a Praia do Tamariz

Com o tempo a melhorar recordamos hoje três breves lendas, associadas à Praia do Guincho, Praia das Maçãs e Praia do Tamariz – afinal, porque tem cada uma delas esse seu nome individual? E de onde vêm eles? Na verdade, confesse-se que nem todas as três têm lendas associadas, com uma trama real e bem definida, mas existem explicações que podemos oferecer e que estão por detrás de cada um dos seus nomes. Assim, decidimos recordá-las aqui hoje, num triplo conjunto, dada a sua grande fama e relativa proximidade.

A Lenda da Praia do Guincho

Em relação a uma lenda da Praia do Guincho, ela está intimamente ligada com a da Boca do Inferno, que já cá contámos anteriormente. Essencialmente, e a acreditar no que contámos nessa altura, quando o cavalo que transportava dois amantes caiu de forma inesperada – tenha sido para o Inferno, ou para um qualquer outro lugar desconhecido – soltou um derradeiro guincho de desespero, que até pôde ser ouvido à distância de sete quilómetros que separa os dois lugares. Terá sido verdade? Tendo em conta o vento – frequente e ruidoso – de toda a zona, isto parece-nos pouco verosímil, mas é essa a história que aparece quase sempre associada ao local.

A lenda da Praia das Maçãs

Sobre uma possível lenda da Praia das Maçãs, a razão do nome é relativamente simples e diz-nos que, há já muitos anos atrás, a Ribeira de Colares (que se junta ao Oceano Atlântico nesta mesma praia), trazia em algumas alturas do ano muitas maçãs na sua corrente, que depois acabavam impreterivelmente por dar à costa aqui. Nunca o vimos a acontecer, mas segundo um habitante local, na casa dos seus 80 anos, “eu ainda vi isso… mas entretanto as coisas mudaram”. Será mito ou será lenda? Não sabemos, mas a acreditar no que nos foi contado isto até faz algum sentido, tal como faz igualmente sentido que as maçãs, fruto do corte crescente das suas árvores, tenham deixado de aparecer por esta bela praia, tendo-se perdido parte da razão para o seu nome.

A lenda da Praia do Tamariz

Finalmente, sobre uma potencial lenda da Praia do Tamariz, não tem muito que se lhe diga – o nome tem pouco mais de um século e parece vir do facto de existirem tamarizes, também conhecidos como tamargueiras, no forte próximo do local, visto do lado esquerdo na imagem. Não sabemos se ainda lá estão, nestes dias de hoje, mas já lá estiveram e, na verdade, foi mesmo daí que toda esta praia da Costa do Estoril tomou o seu nome, alterando aquele que tinha anteriormente!

 

Estas três espécies de lendas, associáveis à Praia do Guincho, Praia das Maçãs e Praia do Tamariz, não têm muito que se lhe diga, salvo um certo grau de incerteza por detrás das origens dos seus nomes (e isto, apenas nos primeiros dois casos). Quando se falam deles, normalmente contam-se pequenas histórias como as que hoje aqui reproduzimos, e a ter existido alguma história mais complexa por detrás destas explicações, as actuais terão nascido ou por sua simplificação, ou por mero esquecimento das suas verdadeiras origens. A segunda destas possibilidades é particularmente notável num outro caso, o da chamada “Praia do Anjo”, na mesma região que as três anteriores, mas de que, hoje em dia, já quase não há memória, tanto ao nível da sua localização original como das razões que levaram ao seu singular nome…

O mito de Siegfried (e Sigurd)

Há alguns dias, quando aqui falámos sobre Fafnir, sentimos alguma dificuldade em separar essa figura do mito de Siegfried, provavelmente o maior e mais significativo de todos os heróis nórdicos e germânicos. Nesse sentido, recorde-se até o que a Saga dos Volsungos, um texto do século XIII, diz em relação a ele, no instante do seu funeral:

Nunca irá existir neste mundo outro homem como Sigurd, nunca irá nascer alguém que o possa equiparar em nada, e o seu nome será sempre famoso na língua germânica, e em toda a Escandinávia, enquanto o mundo existir[!]

Relembre-se que Sigurd não é mais do que um dos nomes de Siegfried na Mitologia Nórdica, adoptado para o mesmo herói numa outra cultura, mas pouco, ou quase nada, os distingue – usamos aqui o seu nome alemão por ser, hoje em dia, o mais famoso dos dois. Contudo, se as suas principais aventuras se parecem ter mantido ao longo dos séculos (bastará que se compare o texto mencionado acima com a Canção dos Nibelungos, ou mesmo com a trama do ciclo Anel de Nibelungo de Wagner), elas são contadas de uma forma significativamente diferente, o que torna difícil sintetizá-las aqui. Assim, contamos aqui, de uma forma breve, os três principais momentos da grande história associada a este herói:

O mito de Siegfried

O Mito de Siegfried e Sigurd: Um Herói, Dois Nomes

Siegfried, conhecido também como Sigurd na tradição nórdica, é uma das personagens mais importantes da mitologia germânica e escandinava. Apesar de ter nomes diferentes nas duas culturas, a essência do herói é a mesma. Sigurd é a versão nórdica de Siegfried, mas o nome alemão é, hoje em dia, o mais famoso devido à popularidade das lendas germânicas e obras como o ciclo Anel de Nibelungo de Wagner. A mitologia de Siegfried mistura elementos de aventura, traição e tragédia que fazem deste herói uma figura lendária, comparável a outros grandes heróis da antiguidade como Aquiles.

1. O Confronto com o Dragão Fafnir

O primeiro dos grandes feitos de Siegfried (ou Sigurd) é a batalha contra o dragão Fafnir, uma criatura que guardava um grande tesouro. A história varia em alguns detalhes entre as versões nórdica e germânica, mas o elemento comum é o confronto épico em que Siegfried vence a besta. A versão mais interessante descreve Siegfried escondido num buraco, esperando a passagem do dragão. Quando Fafnir passa, o herói atinge-o com um golpe fatal no coração usando a sua lança. Este feito dá a Siegfried enorme fama e faz com que ele seja lembrado como o matador de dragões.

Após a morte de Fafnir, Siegfried adquire novos poderes, banhando-se no sangue do dragão, que o torna invulnerável, exceto por uma pequena parte das suas costas onde uma folha se prendeu, impedindo o contato com o sangue. Este detalhe sobre a sua vulnerabilidade será crucial para os acontecimentos futuros na história do herói.

O mito de Siegfried

O que torna este episódio tão significativo é que ele marca o início da lenda de Siegfried como um herói invencível, famoso em todo o mundo por ter matado o dragão Fafnir. Mais tarde, essa fama ecoa até no nome do seu neto, Sigurd Olho de Cobra, que herda parte da grandeza do avô ao ser nomeado em sua homenagem.

2. O Romance e a Traição com Brunilda

O segundo momento crucial na vida de Siegfried é a sua relação com Brunilda, uma valquíria despromovida em algumas versões da lenda. A história de amor entre Siegfried e Brunilda é trágica, marcada por enganos e traições. Embora Siegfried seja o responsável por muitos feitos heróicos, Brunilda acaba por casar-se com outro homem, acreditando que ele foi o autor desses feitos. Este mal-entendido é um ponto central da narrativa, pois leva à humilhação de Brunilda e à sua vingança.

A vingança de Brunilda é desencadeada quando ela descobre a verdade, através de uma discussão acalorada com a esposa de Siegfried. Durante a discussão, a esposa de Siegfried revela segredos humilhantes, como o facto de ter sido o seu marido, e não o de Brunilda, a desvirginá-la. Também menciona um anel que Siegfried roubou de Brunilda e lhe ofereceu como presente. Estas revelações enfurecem Brunilda, que, sentindo-se profundamente traída e envergonhada, jura vingança.

Brunilda e Siegfried

3. A Morte de Siegfried: A Tragédia de um Herói Traído

O terceiro e mais dramático momento da vida de Siegfried é a sua morte, que ocorre de forma traiçoeira. Furiosa com a humilhação que sofreu, Brunilda incita o seu marido a matar Siegfried, revelando-lhe o único ponto fraco do herói – a parte das costas que não foi tocada pelo sangue do dragão. Este detalhe, aparentemente pequeno, é suficiente para determinar o destino trágico de Siegfried.

Na versão mais famosa do mito, Siegfried é morto durante uma caçada. No final da caçada, ao inclinar-se para beber água de uma fonte, é atingido nas costas por uma lança, no seu ponto fraco. A morte de Siegfried é quase idêntica à de Fafnir, o dragão que ele havia derrotado, caindo vítima de uma maldição. O ouro de Fafnir, que havia sido motivo de disputa, é finalmente lançado ao rio Reno, encerrando o ciclo da maldição.

A morte de Siegfried

O Legado de Siegfried e Sigurd: Um Herói Imortal

A lenda de Siegfried ou Sigurd, como é conhecido na tradição nórdica, é uma das mais ricas e complexas da mitologia germânica e escandinava. A sua história é marcada por grandes feitos, amores trágicos e uma morte traiçoeira. Siegfried é imortalizado em obras literárias e musicais, como a *Canção dos Nibelungos* e o ciclo *Anel de Nibelungo* de Wagner, onde a sua figura ganha uma dimensão épica.

Além disso, a história de Siegfried reflete um tema comum em muitas mitologias: a vulnerabilidade dos heróis. Apesar de ser invencível na batalha, o herói acaba por sucumbir devido à traição, uma ironia que só aumenta a sua tragédia. Siegfried, tal como Aquiles e outros heróis lendários, mostra que mesmo os mais poderosos podem cair, vítimas de enganos e inveja.

Com isso, o mito de Siegfried continua a ser contado e recontado ao longo dos séculos, mantendo-se vivo na memória coletiva e na cultura popular. A sua fama como matador de dragões e a sua morte trágica garantem que o seu nome perdure enquanto as lendas forem contadas, confirmando as palavras da *Saga dos Volsungos*:

Nunca irá existir neste mundo outro homem como Sigurd, nunca irá nascer alguém que o possa equiparar em nada, e o seu nome será sempre famoso na língua germânica, e em toda a Escandinávia, enquanto o mundo existir.

O mito de Fafnir

O mito de Fafnir conta-se entre os mais conhecidos da Mitologia Nórdica, em particular a forma como este dragão foi derrotado e morto pelo herói Sigurd/Siegfried. Poderia então pensar-se, como em muitos outros exemplos semelhantes, que esta figura era apenas uma criatura mitológica como tantas outras, numa tradição que pouco separa Ratatosk do Dragão da Cólquida, mas na verdade esta figura não é pura e simplesmente um dragão.

O mito de Fafnir

Conta-nos então o mito de Fafnir que, originalmente, este era um anão que tinha dois outros irmãos, Regin e Otaro. Este último tinha o poder de se transformar em lontra (daí a origem da palavra inglesa otter…), e sob essa forma foi morto, de forma acidental, pelos deuses. Talvez para se redimirem dessa acção, talvez por terem sido capturados e compelidos a tal, os deuses deram ao pai de Otaro algum ouro, entregue no próprio corpo do falecido filho – mas, se referirmos que este “prémio” foi entregue por Loki, o mais enganador dos deuses nórdicos, depressa se percebe que ele não vinha sem um senão, estando condenados à destruição todos aqueles que o viessem a possuir (ou apenas um anel muito especial que fazia parte desse tesouro, dependendo da versão).

Pouco depois de terem recebido esta oferta, Fafnir e Regin mataram o próprio pai e apoderaram-se de todo o seu tesouro, mas foi esse primeiro dos dois irmãos que acabou por ficar com ele para si mesmo. E assim, à medida que o tempo foi passando, tornou-se mais e mais avarento, acabando até por levar o seu tesouro para uma caverna, transformando-se num verdadeiro dragão.

Anos mais tarde, com a ajuda de Regin, Siegfried encontrou o local, derrotou este dragão e apoderou-se daquele que viria um dia a ficar conhecido como o “ouro do Reno”. Mas o mito, ou lenda, como preferirmos chamar-lhe, ainda não fica por aqui – bebendo o sangue deste monstro, o mais famoso dos heróis nórdicos ganhou poderes místicos, como a capacidade de entender o significado do canto dos pássaros; comendo o seu coração, ganhou o dom da sabedoria; e, segundo outras versões, tomando banho no seu líquido vital recebeu até o dom da invulnerabilidade, com a excepção de um ponto em que, coberto por uma pequena folha, o sangue acabou por não tocar a sua pele!

 

Por toda esta história se compreende que, afinal de contas, o mito de Fafnir não é apenas o de um dragão, mas sim um anão que em virtude da sua avareza e de uma maldição lendária acabou por se tornar numa criatura mitológica. E esta sua história moral, de certa forma, viria até a ter um impacto significativo nas obras de J. R. R. Tolkien, como pode ser visto pelo caso de Smaug (das aventuras das personagens do Senhor dos Anéis), uma outra figura dracónica que tem muitas semelhanças com esta, ao ponto de os dois companheiros de uma mesma espécie até terem alguns monólogos comuns entre eles. Mas isso já é uma história para outros dias…

 

[Para terminar esta publicação de hoje, e visto que o confinamento em Portugal está novamente a terminar, voltamos agora ao nosso ritmo de publicação habitual, de 1-3 publicações por semana. Temos mesmo de o fazer, porque apesar de ser interessante publicar-se um novo tema todos os dias, é igualmente muito difícil prolongar esse ritmo por muito tempo!]