As lendas de Cacareco e Boston Curtis

Face à dificuldade de encontrar um tema para o dia de hoje decidimos então escrever sobre as lendas de Cacareco e Boston Curtis. Na verdade, talvez até nem seja correcto chamar-lhes “lendas”, já que são ambas histórias completamente reais, que aconteceram mesmo e sem qualquer margem para dúvidas, mas que se fossem relidas daqui a alguns séculos certamente suscitariam as maiores suspeitas sobre a sua veracidade.

Cacareco (já iremos a Boston Curtis)

Começando então por Cacareco, esta rinoceronte fêmea foi, no já-distante ano de 1959, eleita com votos de protesto para as eleições municipais de São Paulo, no Brasil – e ganhou, tendo recebido mais de 100 mil votos dos eleitores locais! Infelizmente nunca tomou posse, por razões que nos parecem mais que óbvias, mas algumas décadas mais tarde, em 1988, os Brasileiros votaram em protesto no Macaco Tião para Prefeito do Rio de Janeiro – aí, o animal aparentemente recebeu mais de 300 mil votos, mas já não foi o suficiente para conseguir ganhar…!

Caso estejam curiosos sobre como tudo isto foi possível, convém explicar que nessa altura os votos eram realizados escrevendo o nome pretendido para a vitória numa folha de papel, pelo que, na prática, se poderia votar em qualquer pessoa, animal, ou objecto inanimado. Depois da (absolutamente desapontante) derrota do Macaco Tião, a situação lá foi rectificada – desconhecemos se os dois eventos estão relacionados – para que as pessoas não pudessem tornar a votar em candidatos “extra”.

 

Mas uma situação muito semelhante teve lugar nos Estados Unidos da América alguns anos antes, em 1938, quando Boston Curtis ganhou umas eleições locais por 51 votos. Isto nada teria de especial, não fosse o facto do candidato vencedor se tratar de uma mula, inscrita nas eleições para provar que as pessoas votam mesmo quando nem sabem muito bem em quem estão a votar. Reza a história que ela até assinou diversos documentos legais com um dos cascos, mas não conseguimos obter confirmação de que alguma vez tenha tomado posse.

 

Será que alguma situação como estas alguma vez tomou lugar em Portugal? Não conseguimos encontrar uma resposta positiva a isso, mas talvez ali a autora de O sal da história saiba a resposta – o que sabemos, sem qualquer dúvida, é que devem existir animais no nosso país que fariam melhor figura do que determinados políticos que vemos na televisão todos os dias. Para quando, um Cacareco ou Boston Curtis nacional?

A lenda de Wan Hu

Quem foi o primeiro astronauta do mundo? Segundo esta lenda de Wan Hu, terá sido um cidadão chinês o grande responsável por esse feito, há já vários séculos atrás. Assim, hoje recordamos aqui como é que ele o conseguiu, mas desaconselhamos os leitores a tentarem o mesmo, não vá o proverbial diabo tecê-las – não nos responsabilizamos!

Faz lembrar a lenda de Wan Hu...

Conta-se então que Wan Hu queria ir ao espaço. Para o conseguir, decidiu pegar numa cadeira e colocar mais de quarenta foguetes por baixo dela. Depois, pediu aos seus criados que ateassem os rastilhos de todos os foguetes ao mesmo tempo… ouviu-se então uma enorme explosão, e tanto a cadeira como aquele que estava sentado nela nunca mais foram vistos!

O que lhes aconteceu? Pelo menos uma versão da lenda diz que ele foi lançado ao ar, como pretendia, e que agora vive na Lua, juntamente com algumas outras figuras da Mitologia Chinesa. Talvez em memória desta figura e da respectiva lenda, uma das crateras da Lua tem hoje o nome de Wan Hoo

A esposa de Deus existiu mesmo?

Hoje em dia, mesmo numa cultura eminentemente católica como a portuguesa, poderá parecer estranho falar-se de uma esposa de Deus. Quando pensamos nessa ideia, normalmente associamos o título ou ao Espírito Santo (como uma espécie de parte feminina do divino), ou a Santa Maria. No entanto, já existiu um tempo em que Deus teve uma consorte, uma mulher ou esposa, que o acompanhava no reino dos céus. Mas o que lhe aconteceu? Será mais um daqueles supostos casos em que o sempre malvadíssimo Patriarcado decidiu esconder isto muito bem escondidinho, para fazer de um deus masculino o senhor supremo de tudo o que existe, enquanto assobia para o lado e diz “deusa? Que deusa? Não conhecemos nenhuma, só existe uma divindade neste mundo e é do sexo masculino”…?

Aserá, a esposa de Deus

Quem ler a Bíblia com muita atenção poderá notar que o Antigo Testamento foi compilado através do cruzamento de pelo menos duas fontes de informação distintas. A forma mais fácil de as distinguir é através do nome associado à figura divina, i.e. Javé, El ou Elohim. Se os textos em Português traduzem os três sempre da mesma forma, pura e simplesmente como “Deus”, dando a entender (falsamente) que se tratam de uma só e mesma entidade, originalmente eles referiam-se a figuras diferentes. É difícil saber que características individuais cada uma delas tinha antes deste sincretismo, mas lendo o texto de uma boa tradução com algum cuidado poderão ser encontrados momentos como estes:

Não colocarás um poste de madeira para Aserá junto ao altar do Senhor Teu Deus.
— Deuteronómio 16:21

Os filhos apanham a lenha, os pais acendem o fogo, e as mulheres amassam a farinha para fazerem bolos à Rainha dos Céus (…)
— Jeremias 7:18

Manassés fez uma estátua de Aserá e colocou-a no templo [de Deus] (…)
— 2 Reis 21:7

Assim, mesmo deixando de lado qualquer potencial controvérsia relativa aos nomes da grande figura divina judaica e cristã, é fácil ver que ela já esteve ligada a uma deusa chamada Aserá (que alguns dizem também ser Astarte), conhecida sob o título de “Rainha dos Céus”, a criadora dos Mares (e assim se explica a existência inicial das águas mesmo no Livro do Génesis), que era venerada sob a forma de um poste (ou tronco) antropomórfico, como pode ser visto na imagem acima. Existem quase 40 referências directas ao nome dela no Antigo Testamento, que em comum revelam duas coisas – que ela estava de alguma forma relacionada com o deus (agora) judaico, e que essa antiga relação amorosa tinha de desaparecer (“destruam as estátuas, os postes sagrados de Aserá” é uma ideia bastante repetida no texto bíblico). Contudo, nos fragmentos de um píthos do século VIII antes de Cristo, encontrado há menos de 50 anos, o casal ainda era referido lado a lado, mesmo que não o consigamos reconhecer, pela falta de informação que agora temos sobre ele e as suas aventuras – o que é claro é a existência clara de uma esposa de Deus, já que o deus e esta deusa são mencionados lado a lado!

Deus e a sua mulher, Aserá

Poderá então parecer, a uma primeira vista, que a nova intenção seria a de ocultar, de fazer esquecer, esta antiga esposa de Deus, que tinha sido a sua grande consorte, mas quem quiser ler as mesmas linhas sem esses preconceitos, ou fantasias como as demasiado associadas a Lilith, acabará por notar que esta tentativa não se prendia tanto com uma necessidade de atacar Aserá em particular, mas de criar um monoteísmo simplificando uma cultura que era originalmente politeísta. Naturalmente que isso implicava deixar cair algumas figuras divinas, entre as quais se contou esta mulher, não em virtude do seu género sexual, ou de ser em específico a esposa de Deus, mas porque, para parafrasear um famoso filme dos nossos dias, there could be only one. E esse papel acabou por caber a outra entidade divina, por razões agora completamente ignotas!

 

Desconhecemos, hoje, a totalidade das figuras divinas que foram sendo esquecidas neste mesmo panteão semita, mas é curioso que o texto bíblico nos preserve referências que só podem ser completamente compreendidas nesse contexto. Quando, por exemplo, os Judeus acreditam em 70 nações no mundo, que associam os filhos de Noé, originalmente esse número era atribuído aos descendentes do pai divino e de Aserá, todos eles deuses… que tiveram, depois, de ser despromovidos para se poder dizer que existia somente uma figura divina verdadeira. A religião tem destas coisas…

A lenda de Kiyohime e Anchin

A lenda de Kiyohime e Anchin, presente num famoso manuscrito japonês chamado Dojoji Engi Emaki, deve ser mencionada por cá mais pela sua forma física do que pelo seu conteúdo simples, já que nos chegou num belíssimo manuscrito ilustrado, com dragões orientais à mistura e tudo.

A lenda de Kiyohime e Anchin

Conta-nos a lenda que a bela Kiyohime se apaixonou por um monge budista, de nome Anchin. Se este segundo também parecia gostar dela, depressa se relembrou dos seus votos religiosos – os monges budistas também têm um voto de castidade, como os cristãos – e decidiu então afastar-se da apaixonada, fugindo dela para longe. Porém, Kiyohime perseguiu-o por vários locais e acabou por transformar-se num dragão quando se preparava para cruzar um rio [recorde-se que os dragões chineses e japoneses estão frequentemente associados à água]. Anchin escondeu-se no interior de um sino de um templo. Desconhecendo a sua presença, a apaixonada circundou esse local várias vezes e cuspiu-lhe fogo durante horas, matando acidentalmente aquele que amava.

Toda a trama poderia ter ficado por aqui, mas uns dias depois os monges do mesmo templo tiveram um sonho muito estranho, em que as duas personagens principais de toda esta história lhes revelaram que numa vida passada tinham sido duas serpentes que se amavam, mas que agora precisavam de ajuda para obter o perdão divino. Assim, os monges fizeram o ritual budista apropriado para a ocasião e perdoaram os dois amantes das suas falhas passadas, fazendo-os ascender aos céus.

 

Toda esta lenda é relativamente simples, mas quem for visitar o seu manuscrito original japonês, algo que pode ser feito nesta página, verá que toda a história está ilustrada de uma forma muito bonita, com uma simplicidade que torna esta lenda de Kiyohime e Anchin muito apelativa, apesar de poder parecer um pouco estranha para os leitores ocidentais, em virtude da inusitada e inesperada transformação da apaixonada. Fora isso, quase que parece uma história infantil…

Porque brindamos com “Saúde”?

Imaginem-se numa festa de aniversário, e que alguém sugere fazer-se um brinde ao aniversariante – erguem-se os copos dos presentes e... porque brindamos com Saúde? Poderia pensar-se que isso se deve a uma intenção de desejar saúde a quem está a ser homenageado, mas então… porquê essa palavra em concreto, em alternativa a alguma outra mais geral, como “felicidades”?

Porque brindamos com saúde?

A resposta por detrás do porquê de brindarmos com Saúde  não seria fácil de descortinar, não fosse um elemento muito singular de todo o processo – é-nos também ensinado que nunca se deve brincar com água. Quem for inquirir sobre o porquê dessa exclusão, depressa lhe será dito algo como “isso dá azar”, uma explicação que é relativamente comum em circunstâncias nas quais já foi esquecida a razão pela qual um determinado ritual toma lugar. E qual é ela, afinal de contas?

 

Aparentemente, este ritual data de uma epidemia do século XIX, a da cólera. Nessa altura surgiu a ideia de que a água estava a contribuir para a disseminação da doença, e então os cidadãos em diversos países europeus foram aconselhados a beber algo que não essa bebida. Visto que a razão para o fazerem era a de assegurar a sua própria saúde, as pessoas começaram então a brindar sob a égide dessa palavra, como que dizendo, de uma forma muito tácita, que bebiam para seguir as recomendações médicas que lhes tinham sido passadas. No mesmo sentido, podemos também esclarecer que o facto de se brindar quase sempre com uma bebida alcoólica vem da mesma época, já que estas eram as bebidas que estavam mais acessíveis aos cidadãos de então.

 

Entretanto, essa epidemia lá foi passando, e a razão original pela qual brindamos com saúde foi sendo esquecida. Quem viu esse ritual a tomar lugar acabou por mantê-lo, talvez porque “não vá o Diabo tecê-las…”, mas o seu significado original perdeu-se progressivamente, gerando uma situação como a que temos nos nossos dias de hoje, em que se vai mantendo essa mesma tradição, mas em que também já são poucos os que a compreendem devidamente. Por isso, da próxima vez que brindarem a alguém, fica o convite de que lhes contem esta origem de um ritual dos nossos dias!