O que significa o sétimo céu?

A expressão sétimo céu é uma de aquelas que ainda tendemos a utilizar no nosso dia a dia, mas que muitas vezes até evocamos sem poder compreender verdadeiramente. Portanto, qual é a sua origem e o que significa? De onde vem essa expressão, ainda tão conhecida nos nossos dias?

Um exemplo do sétimo céu

Na sua forma mais simples, a busca por esta expressão deve levar-nos a tempos da Antiguidade e a uma ideia de que os céus em redor do nosso planeta eram uma espécie de esferas concêntricas. Imaginava-se, numa espécie de ideia que será repetidamente reutilizada e refinada ao longo dos séculos, que – por exemplo – os diversos planetas se movimentavam em esferas celestes completamente diferentes, como as que se encontram no interior de uma esfera armilar (ver acima), cada qual numa esfera completamente distinta. Nesse sentido, o que existia no sétimo céu, ou na sétima dessas esferas celestes, foi variando de século para século e de tradição para tradição, sendo difícil traçar todo o seu percurso de uma forma simples. Porém, é particularmente importante o facto de nas tradições islâmicas, como nas judaico-cristãs, este ter sido o local em que a figura divina e os seus anjos, ou alguma outra figura bíblica de grande importância, tinha a sua residência.

Assim sendo, “estar no sétimo céu”, tendo por base esse contexto cultural, significa estar numa espécie de paraíso, num local tão idílico em que até se tem, metaforicamente, a companhia das mais importantes figuras religiosas da nossa cultura ocidental.

Dr. Seuss, contra a censura dos nossos dias

Normalmente não abordaríamos temas como estes, mas hoje pareceu-nos importante escrever sobre Dr. Seuss, contra a censura dos nossos dias. Porque ela ainda existe, apesar de muitas pessoas preferirem olhar para o lado, assobiar e negar tudo. E explicamos o porquê. Anteontem, a empresa que publica os livros de Dr. Seuss – autor americano conhecido pela sua estranha imagética e versos para crianças – fez o seguinte comunicado, que aqui citamos no original inglês:

Dr. Seuss Enterprises, working with a panel of experts, including educators, reviewed our catalog of titles and made the decision last year to cease publication and licensing of the following titles:  And to Think That I Saw It on Mulberry Street, If I Ran the Zoo, McElligot’s Pool, On Beyond Zebra!, Scrambled Eggs Super!, and The Cat’s QuizzerThese books portray people in ways that are hurtful and wrong.

Estranhámos estas palavras. Dr. Seuss, mesmo para quem só o conheça de uns filmes recentes que já passaram várias vezes em Portugal, não é propriamente um autor ofensivo. Pelo contrário, talvez possamos dizê-lo autor de páginas completamente malucas – no bom sentido da palavra! – mas nunca encontrámos numa das suas obras algo que merecesse ser censurado. Portanto, decidimos adquirir cópias de cada um desses seis livros para crianças e ver o que contêm.

 

And to Think That I Saw It on Mulberry Street é um livro sobre um menino que ao passar na rua e ver uma carroça a ser puxada por um cavalo, imagina todo um conjunto de fantasias. Depois, no contexto de uma parada, ele imagina a seguinte ocorrência, em que duas personagens se juntam ao evento:

And to Think That I Saw It on Mulberry Street

O autor utiliza a palavra Chinaman – mesmo se tentarmos, de propósito, ser o mais ofensivos possível, poderia então vir a ser algo como “Chinoca” – como rima para Magician. Num livro publicado em 1937.

 

If I Ran the Zoo é a história de um menino que vai ao Jardim Zoológico e decide que conseguiria fazer melhor do que o gestor actual do espaço. Tem a ideia de popular o espaço com toda a espécie de criaturas fantásticas, de que uma das mais giras – na nossa opinião – é um pequeno e querido veado com chifres gigantescos.

If I Ran the Zoo

Porém, na mesma história aparecem estas representações de alguns povos pelo mundo fora. Num livro publicado em 1950. Como seria possível distinguir os vários povos sem o recurso a estereótipos pictóricos é algo que desconhecemos por completo.

 

McElligot’s Pool é sobre uma criança que ao pescar numa pequena poça de água, imagina que esta tem comunicação com um largo oceano, onde poderia até conseguir pescar toda a espécie de peixes completamente fantásticos.

McElligots Pool

Não encontrámos absolutamente nada de errado neste livro, publicado em 1947. Se tentássemos mesmo sentir-nos ofendidos por coisas menores, seguindo o contexto do livro anterior encontrámos três representações de povos pelo mundo fora que podem ser consideradas estereótipos.

 

Em On Beyond Zebra, um menino é chamado ao quadro na escola para desenhar as letras do alfabeto. Quando chega ao Z, para Zebra, decide continuar e criar todo um conjunto de novas letras para poder escrever realidades inimagináveis.

On Beyond Zebra

Novamente, não encontrámos nada de incorrecto neste livro, publicado em 1955, mas se o tentássemos fazer de forma muito absurda, poderíamos apontar que um árabe é representado como na imagem acima. Só isso.

 

Em Scrambled Eggs Super uma criança tenta fazer os derradeiros ovos mexidos. Para isso, em vez de usar ovos de galinha, ele decide encontrar as criaturas mais exóticas possíveis e obter os seus ovos. No final, acaba com uma cozinha cheia de ovos de todas as formas e feitios e faz uns ovos mexidos nunca vistos.

Scrambled Eggs Super

Novamente, não encontrámos nada de errado nesta obra, com excepção – e, novamente, frisando que tivemos de nos questionar bastante – das duas representações acima, de um esquimó e um turco. Num livro publicado em 1953.

 

Finalmente, em The Cat’s Quizzer: Are You Smarter Than the Cat in the Hat?, este possivelmente já um pouco conhecido em Portugal por estar relacionado com O Gato do Chapéu (que existe em tradução portuguesa e em filme), são feitas N questões completamente estapafúrdias ao jovem leitor. Alguma delas são verdadeiramente fascinantes, como pode ser visto abaixo:

The Cat's Quizzer - Are You Smarter Than the Cat in the Hat

Publicado em 1976, também não fomos capazes de encontrar nada de particularmente ofensivo nesta obra. Algumas perguntas são um pouco parvinhas – e.g. naturalmente que as mulheres não podem ser reis, mas podem ser rainhas, e esse nome é-lhes dado mesmo quando são as maiores representantes de uma monarquia – mas isso não tem nada de errado. É suposto serem-no, como se subentende por todo o conteúdo da obra, até pelo facto de nem todas elas terem respostas no final, dando a entender que não são, na verdade, a sério. É só uma brincadeira!

 

Face ao conteúdo destes livros, e à possibilidade de eles serem vistos como hurtful and wrong, não podemos deixar de nos questionar se estaremos a criar uma geração capaz de se ofender por tudo e por nada. Por exemplo, há muitos anos existia um estereótipo no Brasil, e em diversos países do mundo, que dizia que as mulheres portuguesas tinham (sempre?) bigode – e ninguém se ofendia por isso! Ou, quando num filme vemos uma tourada a ter lugar numa praça de touros, associamo-la logo a Espanha – e ninguém se ofendia por isso! Mesmo no nosso país, quando se contam anedotas sobre os alentejanos, padres, alfacinhas ou estudantes de Coimbra, ninguém se ofendia por isso!

 

Parece-nos muito preocupante que alguém seja capaz de olhar para as obras de Dr. Seuss e encontre nelas razão para censura. Quem o faz, ainda para mais em obras infantis de conteúdo frequentemente jocoso, certamente que nunca leu obras mesmo ofensivas. O público tem, ou pelo menos deveria ter, a oportunidade de decidir por si mesmo, o que pretende ler. Deveria, igualmente, ter a capacidade para compreender que as obras literárias foram escritas num dado contexto histórico e cultural, que não se deve tentar negar. Um texto escrito no século II a.C. não deve ser julgado pela mesma bitola de um texto do século XV, ou um do ano de 1955. Juntar tudo no mesmo saco e, depois, aplicar a mesma visão a todos eles é de loucos. Por isso, tivemos de escrever este texto sobre Dr. Seuss, contra a censura dos nossos dias, já que a situação nos parece absurda demais. Estes livros não têm nada de verdadeiramente errado, nem se deve julgar que sim, e quem quiser pensar o contrário, deixamos-lhe apenas o convite para que leia as obras completas do Marquês de Sade e ganhe uma nova perspectiva das suas próprias opiniões.

“The Dream of the Rood”

The Dream of the Rood, que poderia ser traduzido/adaptado para o nosso português como O Sonho da Cruz, é um poema medieval provindo de Inglaterra, e que até tem alguns dos seus versos gravados numa cruz desse país, a chamada Ruthwell Cross, que pode ser vista na imagem abaixo – tenha-se especialmente em atenção o texto gravado nos lados esquerdo e direito das representações pictóricas.

The Dream of the Rood

Mas de que fala este Dream of the Rood? Tem uma trama muito simples – um homem, de identidade  desconhecida e que até poderá ser o poeta, adormece e nos seus sonhos aparece-lhe a famosa cruz em que Jesus Cristo foi crucificado. Isto pouco ou nada teria de especial, num contexto de sonhos, não fosse o facto de neste poema a cruz ter a capacidade de falar. Assim sendo, ela conta ao sujeito poético, numa espécie de estranha primeira pessoa, as aventuras por que passou, desde que foi cortada de uma floresta (presume-se que não tenha sido do Paraíso, como conta outra história desta “Vera Cruz”), passando pelo momento em que o Filho de Deus foi crucificado nela, a forma como foi redescoberta (por Santa Helena?), e acabando por profetizar o que irá acontecer no final dos tempos.

 

Em suma, este breve Dream of the Rood é um poema simples, com pouco mais de 170 versos, mas merece ser mencionado por cá em virtude da estranha história que nos preserva, em que é até a própria cruz que nos conta as suas aventuras. Se essa ideia não é completamente nova – relembre-se que a cruz de Cristo já tinha uma breve fala no Evangelho de Pedro – ela é aqui utilizada de uma forma particularmente interessante, recordando o cerne da mensagem cristã através do mesmo instrumento que levou à morte glorificadora de Jesus Cristo.

Qual a diferença entre fauno e sátiro?

O fauno e o sátiro contam-se entre as muitas criaturas mitológicas da Antiguidade que chegaram aos nossos dias, mas na verdade qual é a diferença entre eles? Ou seja, se reconhecer criaturas como os centauros é relativamente fácil mesmo nos nossos dias, i.e. eles são seres metade homem e metade cavalo, que características individuais podemos associar aos faunos e aos sátiros? Podemos tentar explicá-lo, mas para isso temos de começar por apresentar as duas espécies de criaturas individualmente:

Faunos, Sátiros, e o deus Dioniso

Um sátiro, ou σάτυρος, era uma criatura da Mitologia Grega que acompanhava frequentemente o deus Dioniso. Tinha um corpo que era um misto de… bem, a sua representação foi sendo alterada e evoluiu ao longo dos séculos, mas tinha quase sempre características conjuntas de ser humano, cavalo e bode. Contudo, a forma mais fácil de o identificar é através de um orgão sexual erecto, e de potenciais companheiros, já que costuma estar com outros seres da mesma espécie e/ou o deus do vinho por perto. Na imagem acima, um destes seres até pode ser visto a partilhar uma bebida com o seu mentor divino.

Nesse seguimento, se os sátiros são uma espécie animal (ou semi-humana?), alguns deles até tinham nomes e identidades específicas. Entre eles podemos encontrar o deus Pã, Sileno e Marsias; o primeiro teve muitas aventuras (um exemplo pode ser visto aqui), enquanto que o segundo nos é particularmente famoso pela sua presença num mito do Rei Midas.

Faunos, Sátiros, e o deus Dioniso

Agora, um fauno (ou φαῦνος, faunus em Latim), na Mitologia Romana, tinha quase sempre características conjuntas de ser humano, cavalo e bode. E sim, é o mesmo que acabámos de escrever em relação ao aspecto físico da criatura anterior, mas o que parece ter acontecido é que esta criatura parece ter perdido (ou pelo menos amenizado), entre os Romanos a sua famosa conotação sexual. Mais do que um amante do vinho, ou um violador ocasional, parece ter-se tornado um doce habitante das florestas.

 

E agora, apresentados fauno e sátiro, começa o verdadeiro problema. Se o que dissemos acima foi uma simplificação enorme da realidade, a grande dificuldade é que numa dada altura estas criaturas se foram confundindo umas com as outras de uma forma muito complicada. Uns, por exemplo, diziam que o deus Pã tinha o nome de Fauno entre os Romanos, mas outros diziam que o seu nome latino era Silvano. Uns falam de pãs, outros de sátiros, para referirem as mesmas criaturas, quando são apresentadas em grupo. Até existem, aqui e ali, breves referências a uma Fauna; presume-se que não tivesse um corpo animalesco como os anteriores, mas ela sabia o futuro e poderá ter sido uma das figuras silvestres que, a longo prazo, levou à origem das fadas.

 

Assim sendo, qual a diferença entre fauno e sátiro? No seu geral são quase a mesma criatura, mas há que prestar especial atenção à forma como são evocados e designados. Se só existe um deus Pã, a referência a “pãs” poderá indicar não uma multiplicidade de figuras do próprio deus, mas de criaturas com uma forma igual à sua, i.e. pãs = sátiros e nada mais. A referência a uma Casa do Fauno indica especificamente o deus romano (que até poderá ser o mesmo Pã dos Gregos…), mas falar-se da casa de um fauno já se poderá referir ao local de habitação de sátiros em geral, mais do que a um deus em concreto. Nas imagens acima, diríamos até que a primeira é de um sátiro, e a segunda de um fauno, somente pela ausência de sexualidade e presença de um motivo campestre nessa última. Vejamos um exemplo adicional:

Está aqui um fauno ou um sátiro?

Neste mosaico espanhol pode ser visto o velho Sileno num burro, uma seguidora feminina de Baco do lado direito (não é uma deusa, tem uma pandeireta na mão), e muitos festejos com vinho à mistura… mas quem está no canto inferior esquerdo? Presume-se que seja Fauno/Silvano, essencialmente devido à ausência um orgão sexual exposto e volumoso, que tanto caracterizava os sátiros nas representações gregas!

 

Em suma, sátiros e faunos são quase a mesma criatura – um espécie de homem com cornos, pernas e pés de bode, a que se junta muitas vezes uma cauda de cavalo – mas os primeiros tinham, na cultura grega, uma grande sexualidade inata que nem sempre está presente nos segundos. Em qualquer dos dois casos não parecem ter existido “sátiras” ou “faunas”, criaturas femininas da sua mesma espécie, o que explica o porquê de estas criaturas tentarem frequentemente violar ninfas, mulheres, e numa dada altura até o próprio Hércules num vestido

A Lenda do Minhocão

A lenda do Minhocão

A lenda do Minhocão é tradicionalmente brasileira, sendo muito provável que não tenha nascido em Portugal ou sido levada do nosso país por emigrantes (e.g. contraste-se com os casos da Cuca ou da Bruxa Évora, entre outras), mas surgido já e plenamente em território do Brasil, entre os seus nativos, ao longo de vários séculos. Assim se explica que ela apareça associada às mais diversas localidades – Pari, Rio de São Francisco, Cáceres, Pantanal, Cuiabá, entre outros locais quase sempre próximos de algum curso de água – e sempre com características muito semelhantes, em termos de todo o seu contexto.

 

Qual é, então, esta suposta lenda do Minhocão? Ela diz, essencialmente, que em terras do Brasil existe uma criatura, ou uma espécie de criaturas muito invulgares, de uma estatura gigantesca. Se ele é realmente uma minhoca, uma espécie de serpente, ou até mesmo um peixe, é algo que não se sabe muito bem… até porque quase nenhumas pessoas a viram pessoalmente! Ainda assim, ela vai fazendo buracos no chão por onde passa (e deixando enormes sulcos nos mais diversos terrenos), virando barcos nos rios, roubando a pesca aos pescadores, e outras coisas que tais. Infere-se, portanto, que ele exista mesmo, dados os vestígios físicos que se acredita que vai deixando, mas ao mesmo tempo também é difícil poder acreditar-se que uma criatura supostamente tão grande, e por isso que também deveria ser bastante lenta, jamais fosse vista, fotografada ou gravada em vídeo por alguém, tendo-nos chegado apenas por relatos orais e pouco mais…

 

Por isso, será que o Minhocão da lenda existe mesmo? Muito dificilmente esta será uma lenda baseada em facto reais, mas podemos acrescentar que é provável que o “Minhocão” de São Paulo, hoje chamado oficialmente o “Elevado Presidente João Goulart”, tenha obtido o seu nome popular através desta famosa lenda brasileira, potencialmente pela forma como o seu piso superior – pense-se em uma espécie de Segunda Circular lisboeta, com um piso para automóveis que circula acima das típicas ruas da cidade – faz um metafórico sulco nas vias de circulação da cidade.