O que aconteceu (verdadeiramente) nos Milagres de Fátima?

Face aos temas que abordámos nos últimos três dias surge agora a questão fulcral – o que aconteceu verdadeiramente durante os chamados “Milagres de Fátima”?

Os Pastorinhos e Nossa Senhora?

Segundo a história que a própria nos conta na sua obra Memórias da Irmã Lúcia, os chamados “Três Pastorinhos”, de que ela fazia parte, tiveram diversos encontros com um anjo e outros com a própria Nossa Senhora, mãe de Cristo. Esta incumbiu-lhes um conjunto de mensagens e de tarefas, aparecendo-lhes pelo menos seis vezes. Mesmo quando mais alguém estava presente nestes eventos, pouco viu que fosse digno de ser contado – uma nuvem a descer e subir aos céus, só isso.

Ao mesmo tempo, a mudança de comportamentos nos Três Pastorinhos e o facto de eles nunca negarem o que supostamente viram, não pode deixar de nos fazer crer que “algo” lhes aconteceu. E, na verdade, não duvidamos que estas crianças tenham acreditado que viram aquilo que diziam que viram – o que é, frise-se bem, um pouco diferente de acreditar que o tenham mesmo visto!

 

Sabemos que os três meninos eram muito religiosos, mas sabemos também que a mãe de Lúcia lhe contava histórias populares antes de irem dormir. Infelizmente nunca nos diz quais as suas preferidas, mas é muito possível que estivesse não só familiarizada com parte da história dos milagres de Lourdes, mas igualmente com lendas como as das Mouras Encantadas – e em ambos os casos se encontram elementos presentes na história de Fátima (por si só já um nome de notória influência islâmica).

 

Quem via uma Moura Encantada – e até há cerca de um século não eram poucos os que afirmavam que isso lhes tinha acontecido – afirmava frequentemente e com toda a convicção que a tinha mesmo visto, antes de acrescentar que esta não se identificou, que lhe deu uma qualquer mensagem e que esse pedido devia ser mantido secreto – como nas histórias de Fátima e de Lourdes. Isto não quer dizer, no entanto, que as quatro crianças viram uma Moura Encantada ou um prodígio semelhante – o que nos permite provar, no entanto, é que existia uma horizontalidade nas crenças atribuídas a um sobrenatural com que as populações da altura estavam bem familiarizadas, e que um dos seus elementos essenciais é o de se acreditar que se viu verdadeiramente essas coisas – seja uma Moura Encantada ou a própria Nossa Senhora.

 

Face às provas existentes não nos é possível negar que Lúcia dos Santos, Francisco Marto, Jacinta Marto e até Bernadette Soubirous acreditavam ter visto “algo”. As mesmas provas permitem-nos concluir que mesmo que estivéssemos presentes no local na altura dos acontecimentos, não teríamos visto qualquer figura divina, mas somente “algo” que poderia ser interpretado como difícil de explicar, ou até miraculoso – como o Sol a bailar, ou uma fonte a brotar misteriosamente. Face a isto, a verdadeira questão pode e deve alterar-se um pouco:

 

Imagine-se que duas pessoas estão no sofá de casa e que, de repente, lhes surge uma figura misteriosa no canto da sala. Ambos a vêem e ambos falam com ela. Ligam a um amigo e ele vai a sua casa, mas não consegue ver nada nesse mesmo canto. Estariam loucos? Estariam a mentir? Ou, talvez mais que tudo, o que teria de acontecer para convencer os três envolvidos que essa figura era bem real, apesar de nem todos a poderem ver?

Procurar a verdade por detrás de milagres como os de Fátima e de Lourdes passa por conseguir responder a essa questão, averiguando os limites das nossas próprias crenças. Algumas pessoas são fáceis de convencer e outras nem tanto; ás primeiras bastariam pequenas provas, para as segundas talvez nem todas as provas deste mundo seriam suficientes. E, por isso, a questão do milagre, mais do que uma questão de fé, é uma questão de intercessão de crenças, e da forma como nos dispomos a acreditar naquilo que os outros nos dizem ter visto, porque pode ser a mais completa verdade para eles, mas algo bem menos certo para nós.

 

Para terminar, como já foi dito acima, face às provas existentes não nos é possível negar que Lúcia dos Santos, Francisco Marto, Jacinta Marto e até Bernadette Soubirous acreditavam ter visto “algo”, algo que lhes era difícil de explicar. Mas será que nos basta a palavra deles, para nos levar a acreditar no mesmo? Essa resposta já fica para os leitores…

Fátima e Lourdes – como é um milagre?

Os milagres de Fátima tiveram lugar no ano de 1917. Quase 60 anos antes, na cidade francesa de Lourdes, diz-se que Nossa Senhora apareceu a outra menina, esta já de 14 anos, chamada Bernadette Soubirous. Infelizmente ela não nos parece ter deixado nada escrito sobre as suas próprias experiências místicas, mas o que distingue significativamente este suposto milagre do de Fátima é o facto de na grande maioria das aparições Bernadette ter estado acompanhada por muito mais gente.

Por quase 18 vezes viu uma figura que posteriormente se veio a identificar como a Imaculada Concepção, e esteve quase sempre acompanhada por outras pessoas. E o que viram elas? É aqui que toda esta história se torna muitissimo interessante e relevante para o tema de Fátima – apesar de estar, numa dada altura, acompanhada por mais um milhar de pessoas, nunca existiu uma só, uma que fosse, que tivesse declarado presenciar também a presença divina no local.

Gruta de Lourdes

Será que Bernadette estava a mentir? Estava ela, de alguma forma, louca? Aquando da nona aparição, a 25 de Fevereiro, escavou um pequeno buraco na caverna, de onde começou a brotar [miraculosamente?] água; pouco depois comeu erva, tendo afirmado que Nossa Senhora lhe disse para o fazer. Um elemento tão estranho na narrativa miraculosa podia fazer-nos pensar que a menina estava mesmo louca, mas entre a multidão encontrava-se pelo menos um médico, que atestou que apesar de ter experiência com pessoas com problemas psicológicos, nunca tinha visto ninguém que agisse como ela agia durante as aparições.

Como este, existem muitos outros elementos estranhos na narrativa dos milagres de Lourdes. Inicialmente, a menina pensa que a figura presente no local poderia ser o Diabo, chegando a atirar-lhe água benta e uma pedra, ambas as acções sem resposta. A entidade falou num dialecto que a menina supostamente desconhecia, mas que conseguiu reproduzir foneticamente, sem entender o seu significado. São divulgados três segredos, que ela guarda para si mesma, e cujo conteúdo nunca parece ter sido ouvido por absolutamente mais ninguém. Em muitos dos supostos encontros não houve qualquer troca de palavras com Nossa Senhora; quando lhe foi perguntado por diversas vezes o seu nome, é-nos dito que esta se limitou a sorrir. Em dados dias, estranhou e chorou pela completa ausência da figura divina que antes a interpelava. Em pelo menos um momento a vidente parece ter-se mostrado invulnerável ao fogo, como foi atestado por um médico.

 

E isto tem de nos suscitar uma dúvida importante – tanto quanto nos foi possível averiguar, nenhum dos visitantes de Fátima em 1917 viu Nossa Senhora, tal como ninguém o fez em Lourdes no ano de 1858. Porém, em ambos os casos existiram pessoas que viram episódios que poderíamos caracterizar como miraculosos – por exemplo, o sol a bailar no céu ou uma fonte de água límpida a aparecer onde se supunha que antes não existia nenhuma. Por isso, uma pergunta tem de ser feita para amanhã – na verdade, o que aconteceu no milagre de Fátima?

Os mitos do nascimento de Atena e de Hefesto

Se existem dois mitos gregos que podem e devem ser contados quase lado a lado são os do nascimento da deusa Atena e do deus Hefesto. Comece-se pelo primeiro e depressa se entenderá essa relação muito natural com o segundo.

O nascimento de Atena

Numa das suas muitas escapadelas sexuais Zeus envolveu-se com a deusa Métis, apesar de já lhe ter sido repetidamente profetizado que algum descendente que nascesse dela viria a destronar o seu próprio pai. Consumado o seu desejo, e relembrando-se depois das profecias que tinha ouvido, o deus rapidamente se arrependeu das suas acções. Então, sabendo que Métis estava grávida, decidiu engoli-la, seguindo um precedente estabelecido pelo seu próprio pai.

Tudo poderia ter ficado por aqui, mas passados alguns dias Zeus começou a sofrer de uma dor de cabeça muito persistente. A dor, com o passar do tempo, acabou por se tornar tão grande que, em grande desespero, o deus pediu a um companheiro que lhe batesse com com um machado na cabeça, de forma a aliviar a dor. E, quando isto teve lugar, o golpe foi tão profundo que lhe rachou a cabeça, fazendo sair desse local a deusa Atena, recém-nascida mas já completamente equipada para a batalha.

 

O tempo foi passando, até que a deusa Hera começou a sentir mais e mais inveja pelo acto invulgar do seu marido. Assim, de uma forma que não é totalmente clara nos mitos, decidiu também ela gerar um rebento sozinha, imitando o seu companheiro. E até conseguiu fazê-lo, mas Hefesto nasceu com um pequeno defeito de nascença; tão triste quanto horrorizada, Hera atirou-o então dos píncaros do Olimpo, desfigurando-o ainda mais.

Assim, se Atena nasceu de Zeus e sempre foi bem amada, Hefesto era corcunda, com uma forma grotesca, possivelmente por ter sido fruto do desejo incompleto de sua mãe.

 

Claro que ao longo dos séculos existiram várias versões destes dois mitos – em algumas delas até é o próprio Hefesto que abre com um golpe a cabeça de Zeus, levando ao nascimento de Atena – mas a opinião geral é que tanto Zeus como Hera deram à luz estes seus filhos de uma forma anómala e sem uma intervenção directa de alguém do sexo oposto. Mesmo nos mitos gregos, esta é uma situação muito incomum, que apenas encontra um caso semelhante no nascimento de Dioniso, de que falaremos um outro dia…

A estranha metamorfose de Francisco e Jacinta, pastorinhos de Fátima

Francisco e Jacinta

Como ontem foi dito, quando Lúcia escreveu as suas memórias os seus companheiros Francisco e Jacinta já há muito que tinham falecido, e só eles poderiam atestar muitas das informações que ela nos deixou por escrito. Nesse sentido, o livro das Memórias da Irmã Lúcia dedica uma parte significativa das suas linhas ao carácter e eventos que tiveram lugar com estes dois irmãos. Os meninos são descritos de uma dada forma, depois surge um momento de charneira, e depois passam a ser descritos de forma significativamente diferente.

 

Que momento foi esse? Estranhamente, não foi a aparição de Nossa Senhora, mas um conjunto de aparições anteriores a essas. Lúcia foi vendo um anjo; depois, numa manhã de chuva, ela, acompanhada por Francisco e Jacinta, viram e falaram com o Anjo da Paz (ou Anjo de Portugal). Por três vezes o fizeram, e no final dessa terceira aparição surgiu-lhes um prodígio, em que o mesmo anjo lhes apresentou uma hóstia e um cálice com sangue; Lúcia come a primeira (porque já tinha feito a simbólica primeira comunhão), enquanto que os dois irmãos bebem do cálice.

Jacinta, antes uma rapariga invejosa e que não sabia perder aos jogos, parece depois mostrar-se preocupada com quem sofre. Francisco, antes um menino indeciso, mostra-se posteriormente uma figura muito contemplativa. De um ponto de vista da Psicologia, a ter verdadeiramente lugar uma tal metamorfose, “algo” se terá passado com eles, algo que para eles foi muito significativo.

 

O caso de Francisco é particularmente intrigante. De uma forma muito secundária é-nos dito que ele presenciava as várias aparições, mas não conseguia ouvir nada do que era dito (e Jacinta ouvia-as com alguma dificuldade…), restando ás duas meninas contarem-lhe posteriormente essa informação. Até ouvimos diversas teorias sobre o porquê de isto acontecer, mas a verdade é que o livro nunca o explica! Talvez assim se compreenda ele ter “chumbado” no exame da catequese – aparentemente, nem a cunha de ter visto a Mãe de Deus com os seus próprios olhos conta perante a Igreja dos nossos dias…

Num outro momento, enquanto deambulam por alguns barrancos, Francisco põe-se a gritar. As meninas encontram-no, pouco depois, “a tremer de medo, ainda de joelhos, que, aflito, nem arte tinha para se pôr de pé”. Porquê? Responde-lhes com as seguintes palavras – “Era um daqueles bichos grandes, que estavam no Inferno, que estava aqui a deitar lume.” Seria uma brincadeira de criança, uma fantasia infantil como tantas dos nossos dias? Já não temos forma de o saber, e com uma única fonte para todo esse evento torna-se difícil conseguir sintetizar onde termina a sua realidade e começa a ficção. Como tal, para amanhã considere-se um outro caso, até de grande importância para todo este tema.

O Inferno de Nossa Senhora de Fátima

O Inferno de Fátima

Todos aqueles que forem católicos certamente que já se interrogaram como é o Inferno. Tomando esse mote, começamos hoje, e durante os próximos quatro dias, uma sequência de quatro temas contíguos relacionados com os milagres de Fátima.

 

“Inferno? Fátima? Qual é a relação? Será que ficaram malucos de vez?” Bem, convém mesmo explicar. Há mais de dois anos que nos foi pedido que escrevessemos sobre os milagres de Fátima. Tivemos grandes debates sobre se o tema seria apropriado, mas tudo girava em redor de uma questão fulcral – será que os milagres de Fátima realmente tomaram lugar? Ou eram uma pura mentira, uma espécie de visão e loucura colectiva?

 

Em busca de respostas, depressa nos apercebemos que existiam os mais diversos livros sobre Fátima, dos mais diversos pontos de vista (o mais estranho dos quais dizia que os três pastorinhos viram extraterrestres…), mas o que nos interessava, particularmente, era o que realmente tinha acontecido, não as opiniões sobre o que poderá ter acontecido. E, face a isso, acabámos por encontrar um livro chamado Memórias da Irmã Lúcia, escrito pela própria, em que ela tenta contar – não porque o quisesse, mas porque isso lhe foi exigido – o que ela própria presenciou. É uma obra com alguns momentos surpreendentemente intrigantes, que servirá de base para os temas destes dias, juntamente com uma outra, de título História Verdadeira de Fátima, que preserva o que outras pessoas ligadas à mesma história vivenciaram pessoalmente.

 

Após esta breve introdução, voltemos então ao tema do Inferno. Como se sabe, um dos elementos mais famosos de Fátima é a existência de três segredos – ou, para sermos mais correctos, um segredo dividido em três partes. Não iremos falar de tudo isso, mas o primeiro deles é particularmente intrigante, por nos apresentar uma visão do Inferno que Nossa Senhora alegadamente mostrou aos Três Pastorinhos. Tendo dois deles falecido, Lúcia testemunha-nos então o seguinte:

Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fogo que parecia estar debaixo da terra. Mergulhados em esse fogo, os demónios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras ou bronzeadas, com forma humana, que flutuavam no incêndio levadas pelas chamas que delas mesmas saíam juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das faúlhas em os grandes incêndios, sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizava e fazia estremecer de pavor. Os demónios distinguiam-se por formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes e negros [ou, noutra versão, e como negros carvões em brasa].

 

Terá isto acontecido verdadeiramente? Será que a três crianças, com idades compreendidas entre os 7 e os 10 anos, foram mostrados os muitos terrores do Inferno? Sendo esta a primeira parte do segredo de Fátima, certamente que tem um papel importante na tarefa de averiguar a veracidade de toda a história… mas por agora, bastará apontar um elemento importante – seja isto verdade ou não, apenas três pessoas o viram, apesar de estarem muitas outras no local nesse momento. Só três, duas delas falecidas aquando da escrita das linhas acima, e só uma podia atestar a veracidade destas afirmações na sua idade adulta. Então e as duas restantes? Será que também acreditavam nisto? O tema continua amanhã