Uma lenda brasileira de Dom Sebastião

Como parte da cultura portuguesa já todos ouvimos falar dessa grande lenda, daquela ideia, hoje já demasiado simplificada, de que o rei D. Sebastião irá voltar numa manhã de nevoeiro para salvar o país. Ela aparece significativamente em Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, e na Mensagem de Fernando Pessoa, entre muitas outras obras literárias, e ainda hoje é muito mencionada nos media. Mas o que já raramente nos contam é que existem muitas lendas – com princípio, meio e fim – por detrás dessa ideia do Sebastianismo e do Quinto Império. O que hoje aqui trazemos é um breve exemplo disso mesmo, uma lenda provinda de terras do Brasil chamada Dom Sebastião e o Touro Encantado:

Na praia dos Lençóis, entre os municípios de Turiaçu e Cururupu, no Maranhão [i.e. Brasil], nas noites de sexta-feira, não havendo luar, aparece um grande touro negro com uma estrela resplandecente na testa. Quem estiver na praia será tomado de um pânico irresistível. Quem estiver no mar ouvirá o canto das açafatas, entoado do fundo das águas, onde está a cidade encantada de EI-Rei Dom Sebastião. Quem tiver a coragem de ferir o touro na estrela radiante vê-lo-á desencantar-se e aparecer El-Rei D. Sebastião. A Cidade de São Luis do Maranhão submergir-se-á totalmente, e diante da praia dos Lençóis emergirá a Cidade Encantada, onde o rei espera o momento de sua libertação. Na praia dos Lençóis é proibido pelos pescadores levar-se qualquer recordação local (…). Tudo pertence a este rei e é sagrada a sua posse.

Dom Sebastião, o nevoeiro e o Sebastianismo

Estas linhas vêm do Dicionário do Folclore Brasileiro de Câmara Cascudo, preservando por isso uma lenda que vem do outro lado do oceano. Será uma lenda portuguesa que foi levada por navegadores e adaptada no Brasil? Ou, por outro lado, uma lenda que foi totalmente criada na imaginação brasileira? Não sabemos, mas é um tema que nos deixou com imensa curiosidade…

 

Falando então do que foi o Sebastianismo, já todos conhecemos aquela ideia de que o rei voltará numa manhã de nevoeiro, mas a ideia-base por detrás dessa mini-lenda levanta muitas questões – onde está ele escondido? Em que data voltará? Quem acompanhará o seu regresso? Ou, se o texto acima diz que ele está aprisionado, quem lhe fez isso? Na verdade, uma lenda como esta não pode deixar de nos fazer pensar que existe mais por detrás de tudo isto que um mero “ele voltará numa manhã de nevoeiro”. Deverá existir uma lenda muito mais completa, hoje já significativamente olvidada, que nos seus momentos finais refere que um dia o rei regressará (como acontece com o Rei Artur ou Jesus Cristo, entre outras figuras messiânicas). Face à informação reproduzida acima parece-nos provável que tenha existido todo um imaginário lendário, muito mais completo do que hoje imaginamos,  em torno da figura de Dom Sebastião.

 

Nesse sentido, posteriormente fomos então investigar mais sobre Dom Sebastião, o nevoeiro e o Sebastianismo, e nesse sentido esta publicação de hoje continua na página sobre As Profecias do Bandarra, o mito do Encoberto e o Quinto Império.

A oração de Santa Bárbara que afasta as trovoadas

A oração de Santa Bárbara que afasta as trovoadas, também conhecida de uma forma mais geral como oração para acalmar as trovoadas (entre muitos outros nomes possíveis), já foi muito famosa em outros tempos, mas hoje é um perfeito exemplo de algo que nos incomoda e entristece bastante, o facto de cada vez menos pessoas terem interesse na cultura dos seus antepassados. Passamos a explicar. Como bem se sabe, cada um dos santos cristãos é padroeiro de “algo”. O que já menos pessoas saberão é que existem um conjunto de orações que permitem – quase como se de pequenos rituais mágicos se tratassem – invocar a ajuda de um determinado santo ou santa. Em muitos casos essas orações têm pequenas variações de local para local, mas são quase sempre em verso (o que facilitava a sua memorização) e mencionam um propósito mágico. Por exemplo, Santa Bárbara [de Nicomédia] é a padroeira das trovoadas e tempestades, pelo que a sua ajuda podia ser pedida com a seguinte oração de Santa Bárbara, bem conhecida no norte de Portugal:

Santa Bárbara bendita
Se vestiu e se calçou,
Ao caminho se botou
A Jesus Cristo encontrou;
E Jesus lhe perguntou:
– “Tu, Bárbara, onde vais?”
– “Vou espalhar as trovoadas
Que no céu andam armadas,
Lá na serra do Marão,
Onde não haja palha nem grão,
Nem meninos a chorar,
Nem galos a cantar.”

A oração a Santa Bárbara, que acalma e afasta as trovoadas

Um outro exemplo associado à mesma figura, uma oração de Santa Bárbara com alguns contornos semelhantes, mas de outro local distinto, pode ser igualmente lida abaixo:

Santa Bárbara se alevantou
Seu pézinho direito calçou
Nossa Senhora encontrou
Esta lhe perguntou
– “Onde vais Santa Bárbara?”
– “Vou espalhar a trovoada
Que no céu anda armada.”
– “Espalha-a lá para bem longe
Onde não haja perca nem vinho
Nem flor de rosmaninho.”

Este terceiro exemplo foi-nos contado oralmente, por uma idosa de 84 anos cuja mãe a tinha lido “num livro com capa de papel, que [conforme também nos disse] depois ela perdeu”:

Santa Bárbara Bendita
Que no Céu está escrita
“Onde Vais Santa Bárbara?”
“Vou espalhar esta trovada
Que por cima da gente anda armada”
“Espalha-a bem para bem longe,
Onde não haja pão nem vinho,
Nem flor de rosmaninho,
Nem os galos cantam,
Nem os anjos se levantam.”
Para sempre, Amém, Jesus.

 

Um quarto e último exemplo, para se mostrar que esta santa não era um caso único. A associação de São Bento [de Núrsia] ás cobras e serpentes está bem presente nestes versos de uma oração, cujo objectivo principal é muito claro:

São Bento, água benta!
Jesus Cristo no altar!
As cobras deste caminho
Afastem que eu vou passar!

 

Há cerca de trinta anos ainda existiam pessoas que conheciam bem estas orações de cor. Hoje, quando ainda se lembram deles, é de uma forma muito fragmentária. Mais ano, menos ano, serão todos eles esquecidos, e assim se perderá mais uma pequena parte da cultura portuguesa… por isso, se quiserem, podem deixar as versões que ouviram abaixo, nos comentários, juntamente com a vossa localidade e/ou onde aprenderam a oração como a conhecem!

Viagem (virtual) a dois Criptopórticos de Portugal – Lisboa e Coimbra

Galerias Romanas

Para os mais curiosos, ou apenas aqueles que não querem passar horas e horas numa fila para poderem visitar as Galerias Romanas da Rua da Prata, em Lisboa, podem fazer uma visita virtual ás mesmas neste link [entretanto removido].

 

Contudo, como já cá foi referido no passado, Portugal tem também um outro criptopórtico – muito maior e mais acessível – em Coimbra, por baixo do Museu Nacional Machado de Castro. Também esse pode ser visitado virtualmente (mas de uma forma incompleta, aparentemente com um único nível acessível no sistema), usando o sistema abaixo. A entrada seria normalmente feita pelas escadas do lado esquerdo, existindo um outro nível acima deste:

Como é fácil perceber através de uma exploração pessoal deste segundo espaço, é muito maior que o anterior e tem muito mais para se ver, não só pela curiosidade mas também porque contém diversos vestígios arqueológicos expostos no seu interior.

 

[Editado: Nas últimas horas o conteúdo do link para as Galerias da Rua da Prata foi removido. Apesar do link original ainda estar mencionado aqui, ele já não funciona…]

Livros de (e para) uma pandemia

Decameron

Há já alguns dias vieram-nos pedir sugestões de leitura para estes estranhos tempos de uma pandemia em que agora vivemos. A pessoa estava fechada em casa e queria algo de inesperado, de novo, para ler. Muitas poderiam ser as sugestões de leitura, mas recordámo-nos que essa precisamente a trama do Decameron de Boccaccio (ou “Decamerão”, se preferirem).

Nessa obra, e como já mencionámos em 2018, tem lugar uma trama que nos poderia parecer, à partida, muito pouco verosímil – “com a intenção de escapar a uma praga, 10 pessoas reúnem-se durante duas semanas e partilham uma centena de histórias”. Infelizmente não encontrámos qualquer tradução portuguesa da obra que esteja em domínio público, mas ela pode ser encontrada gratuitamente em Espanhol, Francês, Inglês ou Italiano, entre outras línguas.

 

Para quem até já a tiver lido, pode encontrar muitos outros livros totalmente grátis em Francês, em Inglês e em Português em três sites que sempre nos pareceram interessantes.

Os números e a lenda da morte de Hípaso de Metaponto

Matemáticas

De uma forma muito simplista, os números podem ser divididos em naturais, racionais e irracionais. Os primeiros são “naturais” porque ocorrem na natureza – temos na mão duas maçãs, um bordão, um livro, dez pequenas pedras, etc. Os segundos são “racionais” porque nascem de uma aplicação da razão humana aos primeiros, i.e. se quisermos dividir duas maçãs por cinco amigos temos de recorrer a eles. Já os terceiros são “irracionais” porque na aplicação desses dois grupos podem surgir números que não são completamente exprimíveis pela razão humana, e.g. a constante necessária para calcular a área de um círculo. Agora, se os dois primeiros são de tempos imemoriais, aos terceiros já podemos associar uma pequena lenda do tempo da Grécia Antiga.

 

Esta diz-nos que o terceiro grupo foi descoberto pelos Pitagóricos, colectivamente, ou apenas por Hípaso de Metaponto, um dos seus membros. Quando é atribuído apenas a esta segunda figura, é-nos apontado que quando meditava nos possíveis resultados da aplicação da fórmula do chamado “Triângulo de Pitágoras” se deparou com um enorme problema – se um triângulo tiver dois lados iguais de comprimento 1, qual será o tamanho da sua hipotenusa? Como exprimir esse número, que não era natural nem racional?

Ao considerar questões matemáticas como estas e muitas outras, Hípaso interrogou-se e divulgou aquilo que eram considerados segredos exclusivos dos deuses omnipotentes. E então, segundo a lenda, a húbris das suas acções conduziu-o à sua morte, afogando-se como punição dos deuses ou dos homens seus companheiros.