Um momento belíssimo da “Dionisíaca” de Nono, sobre a vida e a morte

Aqui fica outro belíssimo momento da Dionisíaca de Nono, desta vez em tradução para Português. Quando a Cadmo é perguntada a linhagem, ele responde o seguinte:

 

Porque me perguntas assim o meu sangue e linhagem? Eu comparo as rápidas gerações do homem mortal às folhas. Algumas delas o vento selvagem dispersa pela terra quando a altura do Outono surge; outras crescem nas cabeças florescentes das árvores da floresta na altura da Primavera. Assim são as gerações dos homens, vivem por pouco tempo – um segue o caminho da vida até que a morte o rebaixe; um ainda floresce, apenas para dar lugar a outro. O tempo move-se sempre em si mesmo, mudando de forma da idade grisalha para a juventude.

 

Essa ideia, das gerações humanas como brevíssimas folhas no grande conjunto do tempo, não pode deixar de nos fascinar, enquanto seres humanos…

Viagem (virtual) ao Museu Nacional do Brasil

Incêndio no Museu Nacional do Brasil

Como é bem sabido, em Setembro de 2018 o Museu Nacional do Brasil sofreu um incêndio que levou à perda de muita da sua vasta colecção. Infelizmente, já não é possível visitá-lo de forma física, com o respectivo site a informar-nos de que “Nossas exposições estão fechadas ao público por tempo indeterminado em virtude do incêndio que destruiu grande parte de nossas coleções”. Porém, o próprio Museu foi parcialmente indexado aos sistemas do Google no mês de Março de 2017, o que nos permite fazer isto:

Claro que, como já insistimos anteriormente, isto não é o mesmo que visitar o museu fisicamente, mas neste caso específico o que é muitíssimo interessante é a possibilidade de ainda se visitar um espaço que já não pode ser visitado e que jamais voltará a ser visitável nesta mesma forma. E, por isso, deixamos uma sugestão – carreguem ali no botão para ver estas imagens em ecrã completo e divirtam-se a explorar parte destas colecções hoje perdidas. É o que também nós faremos, este domingo.

O mito de Dioniso e os piratas

Contar todas as grandes aventuras de Dioniso numa só sequência seria aqui impossível, mas existem fragmentos do seu mito que são notavelmente mais conhecidos do que outros. Por isso, contamos a sequência de hoje dado o facto de ter algum relevo na arte grega.

 

Numa dada altura da sua vida o deus Dioniso precisou de viajar, e então aproximou-se de alguns navegadores, pedindo-lhes passagem para a ilha de Naxos. Estes aceitaram ajudá-lo, sem lhe revelar que eram piratas, mas vendo-o depois tão belo e tão rico decidiram mudar de planos e pensaram em vendê-lo como escravo. O que viria a acontecer em seguida certamente que supreenderia qualquer ser humano.

Dioniso e os piratas

Quando prenderam Dioniso ao mastro principal, esta parte do navio começou a transformar-se numa videira. Depois, mesmo no meio do mar, sem qualquer terra à vista, começaram a ouvir-se flautas, cujo som provinha de algum local completamente desconhecido. Assustados com estas e outras ocorrências semelhantes, os piratas depressa se atiraram ao mar, sendo transformados em golfinhos por um milagre do mesmo deus. E Dioniso, esse, lá acabou por chegar a Naxos…

 

O que este pequeno mito tem de muito especial é o facto de condensar num só instante temporal toda uma história passível de ser representada estaticamente. Se as pinturas de outros vasos requerem, em muitos casos, uma explicação completa de um dado mito e das suas personagens, neste caso o mito pode ser recontado e representado muito facilmente – “Dioniso ia ser raptado. Ali está o barco a transformar-se em videira e os piratas transformados em golfinhos”.

Dríades, Sereias, Sátiros, e outras figuras da Antiguidade

Há já algumas semanas que nos vieram colocar uma pergunta, “Qual a diferença entre uma dríade e uma sereia?”. Porém, mais do que simplesmente lhe respondermos de uma forma muito rápida, apontando exclusivamente as definições de ambas num qualquer dicionário, achámos que poderíamos escrever um pouco mais sobre todo o grande tema por detrás dessa questão.

 

Essencialmente, os Gregos acreditavam em deuses (como Zeus, Hera, Apolo, etc.) e em heróis (como Hércules, Aquiles, Heitor, etc.), ou seja, em figuras divinas, e em figuras humanas que, face aos seus bons actos em vida, poderiam depois vir a ser deificadas. Contudo, se a maior parte dos leitores até saberá disto, estas mesmas afirmações também são muito redutoras da realidade, na medida em que os Gregos também acreditavam numa terceira categoria de seres, que não são completamente divinos mas que também não são humanos – como Marciano Capela, talvez também nós lhes possamos chamar longaevi.

 

E que seres são esses? São criaturas como as Sereias, Dríades, Faunos (divindades dos campos), Sátiros, etc. Em comum, todas elas têm o facto de não serem nem puramente humanas, nem completamente divinas. Viviam muito tempo mas não era imortais, e normalmente tinham uma forma que as colocava entre os humanos e os animais. Isso é particularmente fácil de notar no caso dos Sátiros, que tinham pernas de cabra e cornos mas uma forma essencialmente humana:

Filoctetes da Disney

Além destas criaturas existiam também as Ninfas, colectivamente divindades dos rios, montes, florestas e outros locais semelhantes. Porém, mediante a sua função obtinham nomes diferentes – Bacantes (enquanto ninfas, acompanhavam Baco nas suas viagens), Dríades (protegiam as árvores e florestas), Hamadríades (uma espécie de alma das próprias árvores), Lâmpades (viviam no submundo), Naíades (ou naíadas, associadas aos rios e fontes), Nereidas (do mar), Oceânides (das águas), Oréades (das montanhas e grutas), entre muitas outras – delas poderia dizer-se que todas são ninfas, mas não seria correcto dizer que uma ninfa é necessariamente uma Lâmpade. Por exemplo, Calipso, que durante anos prendeu Ulisses nos seus braços, é chamada uma ninfa, mas Dodona (que levou ao nome da cidade onde existia uma oráculo de Zeus) era considerada uma oceânide.

 

Onde entram então as sereias, que não devem ser confundidas com as Sirenas? Quase que em lado nenhum – são quase sempre consideradas como criaturas mitológicas completamente distintas das anteriores, meros monstros. Se quiséssemos, como na pergunta que nos foi feita, distingui-las especificamente das Dríades, poderíamos dizer que até vivem em reinos totalmente distintos – enquanto que as Sereias (originalmente) tinham um corpo de pássaro e tocavam música, as Dríades limitavam-se a viver nas florestas, em que protegiam os espaços verdes aí existentes.

 

Mas, para terminar estas linhas, é necessário deixar claro um elemento importante – estas categorizações não eram totalmente fixas. Nunca parece ter sido sistematizado que a figura X era sempre uma oceânide enquanto que a Y era sempre e somente uma ninfa. De igual forma, ao falar-se de uma bacante não se está obrigatoriamente a falar de alguém que não é um ser humano – poderá estar a referir-se, exclusivamente, uma companheira do deus Baco; ainda, os diversos autores que nos chegaram poderão, referindo uma mesma figura, por vezes chamar-lhe “ninfa”, outras vezes “oceânide” ou “naíade”, sem que isso seja considerado errado.

A origem, significado e tradução de “Lorem Ipsum”

Sobre a origem, significado e tradução de Lorem ipsum, talvez só os muito distraídos nunca se tenham apercebido que existe um texto muito comum na internet que começa sempre com esta expressão. E isso poderá levar-nos a uma questão – afinal, qual a sua origem, e o que significa verdadeiramente toda essa sequência textual, semelhante à que reproduzimos abaixo?

Qual o significado de Lorem Ipsum, e a sua tradução?

Na verdade, costuma ser usado um gerador de texto para prolongar este lorem ipsum até à extensão desejada, mas a fonte original deste texto foi uma das obras de Cícero, no seu título latino De Finibus Bonorum et Malorum. Aparentemente – nunca conseguimos uma confirmação 100% segura – quando, por volta do século XVI, alguém estava a desfazer uma composição tipográfica desse texto, retirou umas palavras aqui, umas letras ali, criou parte deste texto e por uma qualquer razão imprimiu-o. Depois, talvez por mero acidente, talvez como uma espécie de piada que já nos escapa, ou até talvez “porque sim”, este Lorem ipsum foi sendo impresso sempre que se necessitava de um conjunto de palavras que não fossem para ser lidas, mas sim para testar como um texto irá surgir numa página ou num ecrã.

 

Mas o que diz ele? Essencialmente… o texto que começa com Lorem ipsum não tem qualquer significado ou tradução real! Pode haver, por mera coincidência, uma sequência aqui e ali que tenha algum significado acidental e real em Latim, mas no seu geral não tem qualquer sentido. A palavra lorem, por exemplo, nem sequer existe, tendo sido retirada do original dolorem, que significa “a dor” (em complemento directo).

Por isso, este lorem ipsum é um texto mais ou menos em Latim, mas sem qualquer significado real, como se alguém, nos nossos dias, escrevesse algo tão estranho como “sapo da comer um azul mas casa os porquê”.