A diferença entre Héracles e Hércules

São Héracles e Hércules uma e a mesma figura, ou existem diferenças entre os heróis por detrás dos dois nomes? Se, de um modo muitíssimo geral, podemos dizer que os deuses dos Romanos são os dos Gregos com outros nomes, quando a situação é vista ao pormenor descobre-se que isso não é completamente verdade. O Júpiter latino não é Zeus, a Hera dos Gregos não é igual a Juno, o nome de Apolo manteve-se em virtude da enorme fama do seu oráculo na cidade de Delfos, mas… o que dizer em relação à figura do mais famoso filho dos deuses do Olimpo? Qual é a diferença entre Héracles e Hércules?

Héracles ou Hércules?

Comece-se pela figura grega. Héracles nem sempre teve esse nome – na verdade, a mãe, Alcmena, deu-lhe o nome de Alcides – mas após as muitas conquistas da sua vida o seu nome foi alterado para Héracles (em Grego Ἡρακλῆς, que significa “glória de Hera”), em virtude da fama que lhe foi trazida por todas as enormes dificuldades que a deusa o fez passar, nomeadamente os seus doze trabalhos.

O nome latino da mesma figura, Hércules, deriva deste segundo nome grego, mas isso não quer dizer que são uma única e a mesma figura. Se ao Hércules latino são associados todos os mitos do famoso Héracles dos Gregos, o contrário já não é verdade, porque existem alguns mitos que são associados exclusivamente a este herói pelos Romanos – o mais óbvio é o mito de Caco, mas existem outros.

 

O que aconteceu neste caso específico, da grande diferença entre Héracles e Hércules, é fácil de explicar – a fama do herói grego era tão grande que os Romanos sentiram não só a necessidade de a apropriar para si mesmos, mas também atribuir-lhe novas aventuras, mais ligadas à sua própria cultura. Sob esse novo nome a sua fama acabou por se tornar ainda maior, levando a que ficasse conhecido com esse nome na cultura ocidental. Disso é perfeito exemplo uma pesquisa pelo Google – mesmo que os mitos de ambos sejam semelhantes, neste momento uma procura por “Heracles” dá 21 milhões de resultados, enquanto que “Hercules” já retorna 142 milhões – seis vezes mais!

 

Fazendo então uma espécie de “tldr”, a grande diferença entre Héracles e Hércules é que ao herói latino estão associados alguns mitos individuais, que o seu congénere grego nunca teve.

A “História do Hierosolimita”, de autoria desconhecida

De entre as obras que fomos estudando ao longo dos anos existiram, aqui e ali, alguns textos verdadeiramente curiosos. Esta História do Hierosolimita, no seu original Maaseh Yerushalmi, tem de ser considerado um deles. É um texto judaico medieval que insta o leitor a obedecer aos seus pais e a cumprir as promessas que faz, mas mais do que uma simples parábola é quase um verdadeiro romance.

 

Tudo começa quando um pai, já idoso e a ponto de morrer, decide deixar uma grande herança ao seu único filho, avisando-o e fazendo-o prometer que nunca viajaria por mar. O filho, sábio e estudioso da Tora, cumpriu esse pedido durante muitos anos, até que alguns navegadores o foram visitar e o informaram das muitas e valiosas propriedades que o pai tinha deixado no além-mar. Uma e outra vez, este filho – cujo nome nunca nos é dito – lembrou-se da promessa que fez ao pai, mas movido pela curiosidade ou pela ganância lá acabou por aceitar a viagem por mar.

E é precisamente aqui que toda a história se começa a tornar menos vulgar. O herói cai ao mar, encontra-se somente com a roupa que tinha no corpo, é perseguido por um leão, sobe a uma árvore, é levado por um pássaro, refugia-se numa sinagoga de uma cidade de demónios, etc. Uma e outra vez, escapa a uma morte quase certa, acaba por fazer alguma nova promessa e consegue, de uma ou outra forma, moralizar o facto de quebrar cada um desses novos juramentos.

 

De forma inesperada, a história não termina bem. Não poderia terminar, não com uma figura heróica que parece jamais aprender a sua lição. Em vez disso, esta é uma história que transporta o leitor através de um conjunto de limites quase absurdos para lhe ensinar uma lição preciosa, quando algo muito mais simples até bastaria. Mas, por outro lado, poderá ter sido essa desnecessária complexidade que contribuiu para a sua popularidade em relação a outros textos judaicos da mesma época. Por isso, este seria um texto que recomendaríamos a quem gosta de obras de ficção, não fosse pelo “pequeno” facto de não ser fácil de encontrar – na verdade, tivemos de o ler traduzido na tradução, ainda por publicar à data presente, de um amigo que fala a língua original.

Porque foi o Brasil chamado Terra de Vera (ou Santa) Cruz?

Quando os Portugueses primeiro chegaram ao Brasil, no ano de 1500, chamaram-lhe “Terra de Vera Cruz” (ou “Terra de Santa Cruz”, ou Ilha desse mesmo nome). Claro que já todos ouvimos isto, nos nossos tempos de escola, mas, afinal de contas, qual é a origem desse nome e o seu significado?

Vera Cruz no Planisfério de Cantino

Imagine-se que, como nos foi contado na escola, Pedro Álvares Cabral viajou por mar dias e dias até encontrar esta nova terra, que inicialmente pensou tratar-se de uma ilha. Viu um monte, uma floresta luxuriante, papagaios a esvoaçar, e tinha de decidir dar-lhe um nome para Portugal. E porquê “Vera Cruz”?

 

Explicar isso implica viajar no tempo para vários séculos antes. Quanto o cânone da Bíblia foi escolhido, existiram alguns textos que foram aceites e outros que ficaram de lado. Entre os que pertencem à segunda categoria contavam-se vários relatos (apócrifos) da juventude e idade adulta de Jesus. Esses textos, e outros que foram aparecendo mais tarde, continham várias histórias que se foram tornando populares ao longo dos séculos (por exemplo, as histórias de São Joaquim e Santa Ana, pais de Santa Maria, mãe de Jesus), mas que nunca foram totalmente aceites como “oficiais” pela Igreja, apesar de serem parte de uma tradição muito conhecida entre o povo.

Entre esses vários textos conta-se uma história, hoje já pouco conhecida, que dizia que José e Jesus, no seu emprego como carpinteiros, fizeram várias cruzes em que os criminosos iam sendo punidos. Entre as muitas que construíram contava-se uma cruz feita pelo próprio Jesus Cristo com a madeira de uma árvore muito especial – a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, a tal que deu o fruto que Adão e Eva comeram antes de serem punidos por Deus – e onde ele próprio acabaria por ser crucificado, associando (metaforicamente) a punição da humanidade com a expiação desse mesmo pecado original.

Em termos de certa brincadeira, podemos acrescentar que a história nunca conta como foi obtida essa madeira, ou quem foi buscá-la ao Paraíso. Mas, seguindo esta história popular, a cruz em que Cristo foi crucificado foi feita com madeira provinda do Paraíso.

 

Mas toda esta história ainda não terminou. Séculos após esses eventos supostamente reais, quando Santa Helena procurou a Cruz de Cristo em Jerusalém encontrou várias cruzes. Querendo saber qual a verdadeira, testou-as de alguma forma (os contornos da lenda variam, mas mostram sempre o carácter miraculoso exclusivo do lenho em que Cristo foi crucificado) e encontrou a que procurava, que ficou conhecida em Latim como Vera Crux, a “cruz verdadeira”, por oposição às cruzes em que outros tinham sido crucificados.

 

Volte-se agora a Pedro Álvares Cabral. Certamente que ele conhecia estas histórias populares da sua época. Nesse sentido, quem for ler a Carta de Pero Vaz de Caminha, um dos primeiros relatórios do “achamento” do Brasil, poderá aí notar quatro aspectos dignos de nota:

  • A razão por detrás do nome nunca é revelada;
  • A descoberta teve lugar na altura da Páscoa, um monte próximo até foi chamado de “Monte Pascoal” (e a ligação entre essa festa religiosa e a cruz de Cristo é evidente);
  • É repetidamente referida a nudez impudica dos nativos de ambos os sexos, chegando esta até a ser comparada com a inocência de Adão;
  • São feitas várias referências à veneração da própria cruz.

 

Face a todas estas provas, não sabemos se alguma vez Pedro Álvares Cabral terá pensado verdadeiramente que tinha chegado ao Paraíso de que falava o Antigo Testamento, mas é certo que viu algo nas características da terra recém-descoberta que o fez pensar numa espécie de local paradisíaco, levando-o ao nome que lhe viria a dar – “Terra de Vera Cruz”, ou seja, o/um Paraíso.

 

 

P.S.- Um autor mais tardio, o Padre Simão de Vasconcelos, conta que quando foi celebrada a missa pascal na sequência deste descobrimento algo de muito curioso, mas relevante no contexto deste espaço, teve lugar. Citando-se o passo da sua obra:

No meio destes aplausos [derivados da missa] quis também o elemento do mar com um seu, e foi que vomitou à praia um monstro marinho. Não conhecido e portentoso, recriação dos Portugueses por coisa insólita, e muito aprazível aos Índios por pasto do seu gosto. Tinha de grossura mais que a de um tonel, e de comprimento mais que o de dois. A cabeça, os olhos, a pele, eram como de porco, e a grossura da pele era de um dedo. Não tinha dentes, as orelhas tinham feição de elefante, a cauda de um covado de comprimento, outro de largo.

Viagem (virtual) às Ruínas Romanas de Conímbriga, Portugal

Conímbriga

De entre os locais que nos ligam à Antiguidade Clássica em Portugal, é possível que as ruínas da antiga cidade de Conímbriga sejam um dos mais notáveis. Portanto, nada como fazer uma pequena viagem virtual a esse local. A cerca de 20 Km da cidade de Coimbra, mais precisamente em Condeixa-a-Nova, os visitantes podem encontrar um pequeno museu e estas famosas ruínas.

O que é curioso, neste caso em particular, é que tanto esse pequeno museu, como grande parte das próprias ruínas, estão disponíveis para uma visita virtual. Acima, por exemplo, pode ser vista a bilheteira e loja do museu, mas se carregarem nas portas do lado esquerdo e do lado direito poderão explorar todo o espaço, e inclusivé ver as muitas coisas que foram sendo encontradas no local. Isto acaba por ser um tanto ou quanto inesperado, na medida que muitos museus internacionais permitem este tipo de visita, mas em Portugal já não é algo assim tão frequente. Fica, por isso, esse convite à exploração pessoal.

Agora, se são muitas as ruínas que podem ser vistas no local, a mais famosa de todas elas é provavelmente a chamada “Casa dos Repuxos”. Porém, o mais digno de nota neste segundo recinto é o facto da visita virtual até permitir algo que um passeio físico não permite, por evidentes razões de conservação, que é uma exploração mais directa do espaço. Na verdade, na imagem acima poderão ver, do lado esquerdo, o passadiço por onde é feita a visita, mas explorando, desta forma virtual, o espaço poderão “caminhar” sobre os mosaicos, vendo-os de uma forma muito mais íntima.

O último espaço de hoje mostra-nos parte das ruínas de um antigo anfiteatro da cidade. Se parece já não ter muito para ver, a colocação de bancos modernos não pode deixar de nos recordar o espírito que o recinto teve em outros tempos.

 

Em suma, Conímbriga é um local que merece uma visita física (se possível, até num formato guiado), até porque não está assim tão longe da maioria dos leitores portugueses. Fica o convite a essa visita, quando tal voltar a ser seguro para todos.

Um exemplo de sexualidade na “Carmina Burana”

Neste Dia Mundial da Poesia achámos que também poderíamos escrever sobre algo que dá para sorrir um pouco, a Carmina Burana (i.e. “Canções de [uma cidade chamada] Buria”, hoje Benediktbeuern). Por isso, oiçam a música acima. Como a classificariam? Talvez por não a compreenderem, muitos são os ouvintes que a considerariam desinteressante, mas tome-se em atenção parte do refrão:

O! O! Totus Floreo
Iam amore viginali totus ardeo
Novus novus amor est, quod pereo,
Novus novus amor est, quod pereo.

 

O que quer isto dizer? Algo como:

Ó! Ó! Todo eu floresço
Agora, todo eu ardo com amor virginal,
É um novo, novo amor, de que eu morro,
É um novo, novo amor, de que eu morro.

 

O pudor impede-nos de traduzir e explicar aqui o resto (é possível que pessoas mais novas leiam isto…), mas caso ainda não tenham percebido esta canção, a 179 da compilação que ficou conhecida como Carmina Burana, pouco tem de religiosa. É, como algumas outras da mesma fonte literária, de conteúdo sexual, por vezes de uma forma velada, mas outras de uma forma muito mais aberta. Corem, todos aqueles que pensavam que as músicas medievais eram todas elas pouco interessantes e/ou religiosas!