Quem era o deus da morte na Mitologia Grega?

Na Mitologia Grega, como na dos Romanos, existiam deuses para tudo e mais alguma coisa. Zeus, por exemplo, era pai dos deuses mas também o responsável pelas trovoadas; Ares era deus da guerra; Artémis deusa da caça; e assim por diante. Porém, isto pode suscitar uma questão – quem era o deus da morte na Mitologia Grega, e/ou o deus grego da morte?

O deus da morte dos Gregos?

Bem… a resposta não é tão óbvia como poderia parecer, porque os Gregos tinham um deus dos mortos e um deus da morte, cada um desses dois com a sua tarefa específica.

Hades era o deus dos mortos, por ser aquele a quem calhou o reino dos mortos para governar, como Zeus recebeu os céus e Poseidon os mares, aquando da divisão do mundo entre esses três irmãos divinos. Portanto, tudo o que existia depois desta vida era da sua competência, e ele é que administrava o submundo e tudo o que diz respeito a esse domínio. Ele não tem uma presença muito assídua nos mitos, mas uma excepção bastante notável pode ser encontrada na história de Orfeu e Eurídice.

Porém, o deus da morte na Mitologia Grega era Tânato, na medida em que essa figura – que era, deixe-se muito claro, um dos muitos subalternos de Hades, rei do submundo – é que tirava a vida ás pessoas, sendo uma das principais encarregadas – juntamente com o deus Hermes – de transportar os seus espíritos até ao estranho reino onde habitavam todos os mortos. Também esta figura não aparece em muitos mitos, mas Sísifo capturou-a numa dada altura, naquele que é provavelmente a aventura mais famosa associada a este deus.

 

Ou seja, simplificando, Tânato era quem levava as pessoas para o reino dos mortos, que era administrado por Hades (e, mais tarde, pela sua nova rainha, Perséfone/Proserpina). O primeiro era o deus da morte, enquanto que o segundo era o deus dos mortos, não devendo as duas figuras ser confundidas – o deus da morte na Mitologia Grega era Tânato!

Carpe diem – origem, significado e tradução

Carpe diem é uma daquelas expressões latinas muito famosas, que quase toda a gente conhece mas cuja origem, significado e tradução poucos parece compreender realmente. Muitos parecem conhecê-la do filme O Clube dos Poetas Mortos, e pouco mais que isso. Por essa razão, qual foi a sua origem, o seu significado em Português, e como pode esta expressão ser traduzida para a nossa língua?

Carpe diem, o seu signficado e tradução!

Esta expressão pode ser traduzida de uma forma literal para Português como “Aproveita o dia!” – e, se alguém estiver curioso, já a expressão “Aproveita a noite!” poderia ser traduzida para Latim como carpe noctem. Nesse sentido, ambas as expressões querem dizer significativamente o mesmo, i.e. que devemos fazer o melhor possível com o que tempo que temos disponível, que devemos saber aproveitar cada instante das nossas vidas – seja durante o dia ou mesmo durante cada uma das noites que vivemos.

 

Agora, se esta expressão se tornou renovadamente famosa no filme Dead Poets Society, qual é a sua verdadeira origem? Se a ideia já o antecede em vários séculos, estas palavras específicas aparecem pela primeira vez no primeiro livro das odes do poeta romano Horácio (a ordem dos poemas tende a variar de edição para edição), em que no original latino é dito precisamente o seguinte:

Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati.
seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum: sapias, vina liques et spatio brevi
spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.

Naturalmente que a última frase é a que nos interessa especialmente aqui. Ou seja, neste seu contexto original, ela significa algo que pode ter por tradução algo como “aproveita o dia [de hoje], confia no mínimo no dia seguinte”.

Neste contexto original, a agora-famosa expressão instava-nos então não só a que apreciássemos cada novo dia, a aproveitar o presente, mas que o fizéssemos igualmente num contexto em que não deveríamos deixar as coisas que temos para fazer para uma altura posterior. Isto contrasta um pouco com a ideia dos nossos dias, em que a expressão é tomada para significar que devemos aproveitar cada dia como se fosse o último, como se não houvesse amanhã, mas no sentido não de o aproveitar para o que temos para fazer, mas sim para nos divertirmos e fazermos aquelas coisas que sempre quisemos fazer.

 

É natural que esta… digamos, este corrompimento do significado original de carpe diem, tenha surgido de uma citação descontextualizada, como acontece no filme, o que induz em erro aqueles que procuram o seu significado original.

Que práticas do Paganismo continuaram na Idade Média? Alguns exemplos…

Se existe uma palavra que bem poderá definir a Idade Média ocidental é “Cristianismo”. Porém, se nessa altura a maior parte das pessoas já tinha abandonado as religiões ditas “pagãs”, havia igualmente um conjunto de práticas do Paganismo que continuavam a tomar lugar. A informação presente na obra Da Correcção dos Rústicos, de São Martinho de Dume, é um dos exemplos portugueses mais eminentes, mas também existiram muitos outros autores que se preocuparam com essa interrelação, essa fusão de crenças, que lhes parecia abominável.

 

Um exemplo particularmente curioso do problema está preservado num texto de autoria anónima conhecido como Indiculus superstitionum et paganiarum. Pensa-se que terá sido composto antes do século IX da nossa era, mas o que o torna especialmente digno de nota é o facto de ter sido quase totalmente perdido. Na verdade, não nos chegaram quaisquer fragmentos das suas linhas, com uma excepção totalmente inesperada – o índice, que nos apresenta os 30 capítulos que compunham a obra original. Optámos por traduzi-los para Português, dada a sua importância para o tema aqui em questão:

 

  1. Do sacrilégio nos sepulcros dos mortos.
  2. Do sacrilégio em relação aos que já partiram, ou seja, dadsisas*.
  3. Da Spurcalia em Fevereiro.
  4. Das pequenas casas, ou seja, santuários.
  5. Dos sacrilégios com ligação às igrejas.
  6. Dos rituais sagrados dos bosques, a que chamam nimidas**.
  7. Das coisas feitas sobre as pedras.
  8. Dos rituais sagrados de Mercúrio e de Júpiter.
  9. Dos sacrifícios oferecidos aos santos.
  10. Dos amuletos e nós.
  11. Das fontes de sacrifícios.
  12. Dos encantamentos.
  13. Dos augúrios das aves, dos cavalos, do esterco dos touros ou dos espirros.
  14. Dos adivinhadores ou dos feiticeiros.
  15. Do fogo feito pela fricção da madeira, ou seja, nodfyr.
  16. Do cérebro dos animais.
  17. Da observação pagã do fogo, ou do início de qualquer coisa.
  18. De locais incertos celebrados como sagrados.
  19. Do apelo que algumas boas pessoas fazem a Santa Maria.
  20. Dos feriados que são feitos a Júpiter e Mercúrio.
  21. Do eclipse da Lua, a que chamam Vinceluna***.
  22. Das tempestades, cornos e caracóis.
  23. Dos sulcos em redor das casas.
  24. Da corrida pagã chamada yrias, com panos rasgados ou com calçado.
  25. Daqueles que fingem que aqueles que morrem são santos.
  26. Da imagem feita de farinha espalhada.
  27. Das imagens feitas de panos.
  28. Da imagem que é levada pelos campos.
  29. Dos pés ou mãos de madeira num rito pagão.
  30. De se acreditar que as mulheres controlam a lua, e que podem destruir os corações dos homens, segundo os pagãos.

 

Cada uma destas linhas, por si só, mereceria um comentário individual alongado da nossa parte, mas por motivos de tempo e espaço não podemos fazê-lo aqui (se alguém quiser saber mais sobre alguma em particular, bastará deixar um comentário). Podemos, isso sim, é mostrar duas características curiosas deste índice:

  • Estão aqui presentes quatro palavras que não são latinas, i.e. dadsisas, nimidas, nodfyr e yrias. Pelo menos uma delas é indisputavelmente germânica, dando-nos a supor que o seu autor reportava, pelo menos em parte, um conjunto de crenças dos povos germânicos.
  • Em alguns casos as práticas reportadas neste índice ainda chegaram aos nossos dias – colocam-se velas nos túmulos dos falecidos, dizemos “santinho” quando alguém espirra, são feitas oferendas aos santos (como se eles se tratassem de deuses pagãos…), acredita-se em amuletos, pedem-se favores a Nossa Senhora, celebram-se eclipses, etc.

Oferendas de Cera

É pena que este Indiculus superstitionum et paganiarum não nos tenha chegado de uma forma mais completa, porque certamente teria muito para nos ensinar em relação a um conjunto de rituais pagãos que, em alguns casos, até chegaram mesmo aos nossos dias. Continuam a ser praticados, por exemplo, quando alguém deixa em Fátima uma vela com uma representação de Santa Maria ou uma escultura de cera em forma de uma mão. Quem o faz, fá-lo na sequência de um conjunto de crenças que, em alguns casos, já têm mais de dois milénios, e que sucessivas gerações de ministros da Igreja Católica não conseguiram exterminar. Porquê? Porque é que já não parecemos celebrar a Spurcalia, mas continuamos a acreditar na magia e no estranho poder de saber o futuro? Ficam as perguntas, mas as respostas, essas, não são nada fáceis e vão além do nosso objectivo nestas linhas…

 

*- Aparentemente, esta tradição poderá ter passado por elaborados cantos fúnebres.

**- Poderão ter estado ligados com o culto aos Carvalhos Sagrados.

***- A expressão latina era, acredita-se, gritada durante os eclipses.

A história de Pincho de Benaciate

É provável que nunca tenham ouvido falar de Pincho de Benaciate, também conhecido como Bartolomeu Vaz Pincho (como um comentador gentilmente nos informou). Ele seria uma pessoa como tantas outras que já viveram na aldeia de Benaciate, na freguesia de São Bartolomeu de Messines (no Algarve), não fosse uma sequência de estranhos episódios que tiveram lugar com ele por volta do já-distante ano de 1656.

 

Ainda criança, este Pincho tinha por hábito ir apanhar ninhos de pássaros na região de Benaciate, uma brincadeira muito comum no nosso país até meados do século XX. Mas, depois, um dos pequenos passarinhos que foi encontrando falou com ele. Sim, leram bem, supostamente um avezita falou com ele em voz humana e revelou-lhe as muitas coisas que iriam tomar lugar no futuro, entre elas a data de falecimento do rei Afonso VI e a do regresso de Dom Sebastião. Supostamente, e segundo foi informado dessa forma tão singular, o estranho evento desse retorno iria ter lugar em 1666, quando o famoso rei iria voltar a Portugal, recuperar as suas armas místicas de um palácio mágico localizado no Cabo de São Vicente, viajar para Lisboa numa manhã de nevoeiro e reconquistar o trono que ainda era seu por direito.

 

Hoje, sabemos que nada disso acabou por tomar lugar, mas o importante nesta lenda de Pincho de Benaciate é que não só ele acreditava nas palavras que dizia, como essa sua sinceridade foi atestada e reconhecida por religiosos de Faro, que acreditaram tanto nas suas palavras como em toda a situação em que se viram envolvidos. Não sabemos o que lhe aconteceu depois das suas previsões não terem tomado lugar, já em 1666, mas é provável que, como tantos outros falsos profetas do passado, tenha caído no esquecimento, até porque nada mais conseguimos descobrir sobre alguns deles… até que um comentador gentilmente nos deu esta informação adicional:

Bartolomeu Vaz Pincho não é lenda [como dizíamos no título anterior, entretanto corrigido], existiu mesmo. Fazia profecias na sua terra, S. Bartolomeu de Messines, e uma vez terá falado com um pássaro branco que lhe apareceu ao pé dos bois quando estava lavrando. Como a sua religião não era muito ortodoxa e as profecias eram de tipo sebastianista e suspeitas, foi preso e levado para Lisboa, para a cadeia do Limoeiro, em 1659, onde respondeu a um interrogatório em que, à cautela, negou ter falado com o tal pássaro. Tinha então 51 anos. Dali passou ao cárcere da Inquisição, no Rossio, em 1659. Foi interrogado de novo, mas os inquisidores acharam-no pessoa simples, sincera e sem malícia. Deram-lhe uma repreensão e ele prometeu não espalhar mais profecias. Mandaram-no de volta para o Limoeiro, donde deve ter regressado à sua terra. Está tudo no processo 4794 da Inquisição de Lisboa, que se pode ler online. O romance “Um ano na corte”, de Andrade Corvo, também fala da conversa do Pincho com o pássaro.

Em busca da verdadeira origem do Carnaval português

Carnaval

A semana passada inquirimos aqui sobre a origem do Carnaval português. A autora desse espaço disse-nos o seguinte:

(…) O Carnaval é o período de liberdade desregrada que antecede a Quaresma, época de limitações alimentares e comportamentais no calendário da Igreja Católica. Penso que esta será a explicação mais simples para o Carnaval na Europa, depois “exportado” para os territórios colonizados nos outros continentes. Penso que teve origem em festas pagãs depois “adotadas” pela Igreja Católica, para melhor as controlar. (…)

 

Se, depois de longos debates, concordamos quase totalmente com o que ela nos disse, não deixa de haver um problema muito significativo – procure-se na internet mil vezes a origem do Carnaval português, e mil vezes se encontrará uma resposta muito semelhante, dizendo sempre que terá vindo de festas pagãs. Mas de quais festas pagãs, afinal de contas?

 

Mais que tudo, o grande problema começa por definir o “nosso” Carnaval. A sua data está intimamente ligada com a Quaresma cristã, mas é variável. A existir alguma festa cristã que a antecedesse, será que a sua data também era variável? Se sabemos bem como a data da “nossa” Páscoa foi calculada, somos automaticamente levados à ideia de que a data do Carnaval português foi definida posteriormente, sem que qualquer festa pagã tenha existido 40 dias antes da morte e ressurreição de Cristo.

 

Então, onde deverá começar o Carnaval português? Com o mês de Fevereiro? Acreditando que sim, parece ter existido nessa altura algo a que alguns autores medievais chamaram Spurcalia. O grande problema, no entanto, é que quem quiser poupar tempo e for ler um artigo como The Rise of the Spurcalia: Medieval Festival and Modern Myth poderá notar um elemento fulcral – se esse festival realmente existiu, absolutamente nada de concreto sabemos sobre ele. Ponto final?

 

Nem por isso. A “nossa” celebração de um Carnaval, com máscaras e outras coisas que tais, foi importada do estrangeiro e mais tarde exportada para o Brasil. A existência de rituais semelhantes noutros países, como o chamado festum stultorum, a “Festa dos Loucos”, atesta bem isso. O que desconhecemos, no entanto, é se esses rituais tiveram um qualquer fundamento pagão, ou nasceram já como eventos completamente cristãos. Não sabemos (!), sendo que a ideia de que o Carnaval português poderá ter nascido de festivais pagãos surgiu de outros exemplos em que isso aconteceu de forma comprovada, e.g. o Natal e a Saturnália. É uma mera possibilidade, somente isso, porque desconhecemos por completo os rituais de potenciais festivais pagãos do mês de Fevereiro. E quem quiser acreditar mais que isso, fá-lo sem qualquer suporte real para as suas ideias.