A invulgar história de Ganga e Shantanu

Ganga, Shantanu e o filho

Se são muitos os mitos belíssimos presentes no Mahabharata, também serão poucas as pessoas que os conhecerão em Portugal e no Brasil. Por isso, para terminar este mês dedicado (quase) exclusivamente aos mitos e lendas decidimos contar uma pequena história que provém dessa obra, a de Ganga e Shantanu.

 

Um dia, enquanto o rei Shantanu passeava próximo do rio Ganges, viu a mais bela mulher que alguma vez lhe tinha cruzado o olhar. Num momento de desespero, com medo de que não mais a tornasse a ver, pediu-lhe que casasse com ele. Esta aceitou, mas com uma pequena condição – o rei nunca poderia questionar qualquer uma das decisões que ela tomasse.

Os anos passaram e o casal teve um filho – e Ganga afogou-o. Tiveram um segundo – e Ganga afogou-o. Nasceu um terceiro – e Ganga afogou-o. Tiveram sete filhos, e por sete vezes a esposa os afogou, mas Shantanu, apesar de desesperado com estes acontecimentos, nunca questionou a esposa.

E então nasceu um oitavo filho. Quando Ganga se preparava para o afogar, o rei, num acto do mais derradeiro desespero, decidiu questionar a esposa – “Porque o fazes? Porque afogas todos os nossos filhos?”

 

Antes de continuarmos esta história há que deixar uma pequena referência cultural imprescindível para a compreender – se a nós, criados na cultura ocidental e num meio eminentemente cristão, a conclusão poderá parecer um tanto ou quanto estranha, para os Hindus, e para todos aqueles que acreditem na vida humana como um ciclo repetitivo de existências, isto faz o mais completo sentido (pense-se até numa famosa ideia grega, “o melhor para todos os seres humanos é nunca ter nascido, mas ao terem-no feito, morrer o mais cedo possível”):

 

A esposa, Ganga, reencarnação do próprio Ganges, decidiu então revelar-lhe a verdade. Falou-lhe de uma maldição do deus Brama, segundo a qual oito divindades teriam de reencarnar no mundo dos vivos, mas poderiam falecer no seu primeiro ano de vida e assim retornar logo ao reino dos deuses. Ganga tinha libertado sete deles, mas o oitavo, impedido de morrer pelas acções de Shantanu, iria viver uma vida longa e virtuosa, mas sempre sem ter mulher ou filhos. Depois, como que por magia, Ganga desapareceu e levou o filho consigo, deixando o rei no maior de todos os sofrimentos.

 

O filho, cujo nome ainda não é dado nesta sequência, viria posteriormente a reencontrar Shantanu e a tornar-se uma personagem importante no próprio Mahabharata, mas essa continuação já foge ao tema de hoje – uma história de amor e compaixão, que a nós nos poderá parecer estranha, mas que para o seu público original tinha uma excelente razão de ser.

A lenda da origem da Sopa da Pedra

De entre as muitas que nos recordamos de ter ouvido nos nossos tempos de juventude conta-se a lenda da origem da Sopa da Pedra. Mas quando há alguns dias a comíamos em terras do Alentejo, mais precisamente em Almeirim, uma das nossas colegas desconhecia a história por detrás da estranha designação. Face a esse problema (e também para que ninguém se queixe do facto de ontem não termos contado mesmo uma lenda portuguesa), nada como recordarmos a história da origem deste prato:

Uma sopa da pedra?

Conta-se que um dado dia um monge se encontrou numa terra que desconhecia. Estava cheio de fome, mas não tinha qualquer dinheiro consigo. Pediu esmola aqui, ali, acolá, mas naquele triste dia ninguém estava interessado em ajudá-lo. Então, pegou numa qualquer pedra que viu no caminho e, aproximando-se de um popular que ainda não tinha interpelado antes, disse-lhe que estava a planear fazer uma sopa da pedra.

A expressão na cara do veraneante foi de grande confusão. “Sopa da pedra? Isso existe?” Por três vezes o monge lhe disse que sim, e por três vezes o homem se mostrou incrédulo. Então, o religioso ofereceu-se para cozinhar essa sopa, de forma a provar-lhe a completa veracidade da mesma. O homem, na maior das curiosidades, naturalmente que aceitou.

Então, o monge começou por aquecer uma panela com água e colocou a pedra no seu interior. Esperando alguns minutos, provou um pouco do caldo com uma colher de pau e disse “Hum… está muito boa, esta sopa que estou aqui a cozinhar, mas ficaria ainda melhor com um pouco de feijão.” O homem deu-lhe o feijão. Minutos depois a cena repetiu-se – “Sabe o que ficaria fantástico aqui? Uma orelha de porco.” Novamente, o homem concedeu-lhe esse sugestão. E assim se repetiram os pedidos, uma e outra vez, com o monge a pedir outros ingredientes – um pouco de chouriço, umas gramas de toucinho, cebolas e alho, umas batatinhas, fatias de pão, uma pitada de sal… e no final, o monge e o seu novo amigo deleitaram-se com um belo petisco!

 

Esta lenda da origem da Sopa da Pedra partilha de um conjunto de elementos comuns em outras histórias de todo o mundo, em que ao abrigo da ideia de cozinhar uma sopa “impossível” uma personagem vai conseguindo os ingredientes para cozinhar um prato bem real. Porém, se a sopa da história é verdadeiramente deliciosa, quem quiser prová-la sairá parcialmente gorado – são poucos os restaurantes que hoje em dia a servem com a famosa pedra. Se poderá parecer algo pouco importante – “a pedra não se come, não é?!” – de um ponto de vista simbólico poderia colocar-se uma na beira do prato, em memória da sua origem lendária…

 

 

P.S.- Nos Estados Unidos da América também existe uma lenda muito parecida com esta, mas que em vez de uma pedra utiliza um prego. Também fomos ouvindo outras semelhantes pelo mundo fora.

Em busca da lenda da Cruz de Popa

Para a última história portuguesa deste mês decidimos falar de algo muito pouco vulgar, a lenda da Cruz de Popa, na zona de Alcabideche (Cascais). Ou, para sermos mais correctos, uma não-lenda que tomaria esse nome. E temos de lhe chamar isso porque, infelizmente, o local até deve ter uma razão real para esse nome, mas já não conseguimos recontá-la por cá. Passe-se a explicar.

A lenda da Cruz de Popa?!

Há uns meses pássamos por um local chamado “Cruz de Popa”. Numa das ruas próximas encontrámos uma representação antiga de uma poupa – o pássaro, deixe-se claro – poisada próxima de uma fonte e de um edifício potencialmente religioso, mas já ninguém nos soube falar dessa história ou dizer de onde vinha o nome do local. Na verdade, pouco mais nos souberam informar do que “eu vivo aqui há mais de 80 anos e sempre conheci o local por esse nome”. Insistimos. “Sim, havia ali umas ruínas, mas a gente não ligava a nada disso”. Só isto.

 

O mistério desta Cruz de Popa, como já é costume, não pôde deixar de nos fascinar bastante. A representação próxima do local deixa clara a existência de um pássaro (com a penugem acima da cabeça que é bem característica à poupa), por oposição a uma “popa” de qualquer outro tipo (e.g. a parte frontal de um navio, como no caso de Nuestra Señora de la Candelaria de la Popa). Deixa igualmente clara a existência de um cruzeiro, talvez até inserido num espaço religioso maior, que ainda hoje está presente no local. E deixa ainda clara a presença de uma fonte, mas que já não existe, e da qual nem parecem existir, hoje, quaisquer vestígios.

 

Esta seria, normalmente, a altura em que contávamos como descobrimos a resposta, e qual era, afinal de contas, esta lenda oculta da Cruz de Popa, mas neste caso especifico não foi mesmo possível encontrá-la. Segundo apurámos, em inícios do século XX o cruzeiro estava parcialmente destruído, mas ainda existia uma mina de água no local, onde os habitantes locais tinham por hábito apanhar agriões, levantando a possibilidade da existência anterior de uma fonte, desaparecida em data incerta. Se a lenda original unia, de alguma forma muito significativa, o pássaro à cruz e à fonte, é possível que o desaparecimento parcial destes últimos elementos tenha levado ao esquecimento progressivo de toda a trama. O que, para nós, é muito triste, porque representa a perda de um património cultural irrecuperável, como aquele que algumas vezes ainda tentamos preservar por cá, e que em casos como o da Arranca-Pregos também já se perdeu…

A lenda de São Torcato

A lenda de São Torcato é, como a de Santo Ovídio, uma daquelas histórias, supostamente reais, que são muito famosas na região em que tiveram lugar mas igualmente pouco conhecidas em outros locais. Isso faz até um certo sentido, na medida em que esta figura pode ter nascido em Toledo (Espanha), mas foi bispo da cidade de Braga e tornou-se mártir mais ou menos no mesmo local, estando por isso muito naturalmente associado ao norte de Portugal, em particular à freguesia de São Torcato, perto de Guimarães. Mas qual é a sua história?

Lenda de São Torcato

Sobre esta lenda de São Torcato, apenas fomos capazes de encontrar um relato muito geral, que diz que na segunda década do século VIII da nossa era (a data precisa é hoje incerta, mas o dia terá sido provavelmente 26-28 de Fevereiro), um general islâmico, de nome Muça, invadiu parte do norte de Portugal. S. Torcato recebeu-o, juntamente com alguns companheiros, talvez com intenção de lhe pedir que poupasse os habitantes locais (outras versões dizem que o futuro santo pretendia combatê-lo, mas perdeu a batalha), mas todos eles foram mortos – ou decepados, segundo outra versão – por este seu inimigo muçulmano. Pouco depois o corpo incorrupto do mártir foi encontrado no meio da floresta, tendo também brotado uma fonte miraculosa no local da descoberta, onde ainda hoje pode ser encontrada uma pequena capela, cujo recinto pitoresco mostramos abaixo.

O corpo de S. Torcato – padroeiro das dores e problemas de cabeça, que se supõe ter feito muitos milagres nessas áreas, mas hoje muito mais conhecido pelo seu corpo ainda incorrupto – não está agora neste local, como seria naturalmente de esperar, mas sim no Santuário de São Torcato, em Guimarães. Diz-se – confessamos que não fomos verificar pessoalmente – que por milagre divino o corpo do santo continua tão incorrupto e perfeito como no dia em que faleceu, há já mais de um milénio. Será verdade? Quem vir uma fotografia do santo, tal como se encontra hoje (por exemplo, nesta página), poderá facilmente ver que ele tem uma forma completamente humana, parecendo estar como que petrificado na sua morte. O que se terá passado? Será mesmo um milagre? Essa já é uma resposta que ficará para o leitor destas linhas…

Quem quer dormir dentro do Cavalo de Tróia?

Um hotel em forma de Cavalo de Tróia

Poderia até parecer uma brincadeira de Carnaval, mas já é mesmo possível dormir dentro de uma espécie de Cavalo de Tróia.

O Hotel La Balade des Gnomes, em Heyd (comuna de Durbuy, na Bélgica), tem diversos quartos temáticos, entre eles um que, exteriormente, se assemelha muito ao Cavalo de Tróia dos mitos. O preço por noite, para quem tiver curiosidade, é de 260€ para duas pessoas. Para mais informação, e algumas imagens extra, bastará carregar na imagem acima.