“Mitologias na Coleção” da Casa-Museu Ema Klabin

Casa-Museu Ema Klabin

Esta é para os leitores que estiverem no Brasil, mais particularmente na zona de São Paulo. A Casa-Museu Ema Klabin está a promover um conjunto de visitas subordinadas ao tema “Mitologias na Coleção”. Segundo informação do espaço:

A Casa-Museu Ema Klabin apresenta uma série de visitas com o tema “Mitologias na Coleção” , com a educadora Tatiane Golinelli. Os encontros gratuitos acontecem aos sábados nos meses de outubro e novembro.

As visitas apresentam histórias das mitologias grega, asiática, africana e que, ainda hoje, podem nos contar aspectos simbólicos sobre quem somos nós.

De acordo com a coordenadora do setor educativo da Casa-Museu Ema Klabin, Cristiane Alves, as visitas são um convite para descobrir as peças da Coleção e as narrativas que elas carregam em seus ornamentos e detalhes.

“Em cada peça podemos desvendar narrativas que contam histórias de diversas culturas, países e sociedades”, explica.

A iniciativa faz parte do programa de visitas “De Olho na Coleção”, que propõe recortes temáticos sobre o acervo da Casa-Museu Ema Klabin.

Relógio de Parede Estilo Régence; França; séc. VXIII

Na colecção deste museu podem ser encontradas algumas peças dignas de nota, como o relógio mostrado acima. Fica, como tal, o convite a que se visite este museu, seja para estas visitas ou para a colecção de mais de 1500 obras. Mais informação sobre estas visitas pode ser obtida carregando na primeira imagem acima, e um vídeo sobre esta Casa-Museu também pode ser visto aqui.

 

(Um agradecimento a Cristina Aguilera pela informação e imagens disponibilizadas acima. As fotografias são da autoria de Henrique Luz)

“Sobre as Sete Maravilhas do Mundo”, de Fílon de Bizâncio [o Paradoxógrafo]

Quais foram as sete maravilhas do mundo antigo? É famoso o epigrama de Antípatro de Sídon, que provavelmente foi escrito no século II a.C. e que refere sete maravilhas do mundo (como aqui falámos antes), tendo em grande conta a última delas, o Templo de Artemisa em Éfeso (ver a triste imagem abaixo), mas essa não era a única listagem de famosos monumentos da Antiguidade. Por isso, hoje trazemos uma outra, a de um Fílon de Bizâncio, mais conhecido como “o Paradoxógrafo”, que provavelmente terá vivido nos primeiros séculos da nossa era.

Ruínas do Templo de Artémis em Éfeso

O que esta obra de Fílon de Bizâncio (ou Filão, se estiverem “meio malucos”) tem de especial é o facto de nos descrever alguns detalhes das sete maravilhas do seu mundo, em vez de apenas dizer os seus nomes. Infelizmente, seria difícil deixarmos por cá todas as descrições, mas podemos fazer uma brevíssima alusão ao seu conteúdo. Assim, o autor fala-nos das seguintes:

  1. Os Jardins Suspensos da Babilónia, “que suspendem as suas plantas no ar”.
  2. As Pirâmides [de Mêmfis], de que diz “por construções como estas os homens sobem até ao patamar dos deuses, ou os deuses descem até ao homem”.
  3. A Estátua de Zeus [em Élide], cujo autor elogia dizendo que “honramos as outras maravilhas com a nossa admiração, mas esta é a única que veneramos”.
  4. O Colosso de Rodes, que pela construção “no mundo um segundo sol ficou face-a-face com o primeiro”.
  5. As Muralhas da Babilónia, “criadas com a majestade e esplendor da imensa riqueza da Rainha Semiramis”.
  6. O Templo de Artemisa em Éfeso, “a morada dos deuses”, curiosamente descrito em linhas semelhantes às de Antípatro, mas que estão aqui incompletas.

E onde está a sétima? O prefácio do autor permite saber-nos que seria o Mausoléu de Halicarnasso, mas a totalidade da sua descrição está perdida.

 

Para quem estiver curioso, como contrasta esta lista com a de Antípatro de Sídon, bem mais conhecida? Essencialmente, apenas troca o Farol de Alexandria pelas Muralhas da Babilónia, mantendo todas as restantes. Por isso, em conclusão, o que dizer deste texto? Apesar de curiosa, não sabemos qual terão sido as fontes do seu autor – o que sabemos, isso sim, é que não terá visto todas estas maravilhas com os seus próprios olhos, o que empobrece significativamente a sua intenção de as descrever para todos nós. E, por isso, não sabemos até que ponto podemos confiar na informação que nos dá, por muito interessante que possa parecer.

“Mistérios da Mitologia Clássica no Palácio do Marquês de Pombal” (Oeiras)

Palácio do Marquês de Pombal, em Oeiras

Aqui está uma oportunidade que nos pareceu interessante. A 20 de Outubro terá lugar, em Oeiras, uma visita subordinada ao tema “Mistérios da Mitologia Clássica no Palácio do Marquês de Pombal”. A respectiva página, visível aqui, define o evento da seguinte forma:

 

“O Palácio Marques de Pombal e Jardins, constituem um dos conjuntos patrimoniais mais notáveis do concelho de Oeiras, classificado como monumento nacional. Este conjunto encontra-se impregnado de imponentes esculturas, de notáveis estuques, de belos painéis de azulejo com muitas estórias da deuses e seres fantásticos do universo da da Mitologia Clássica. Sabia por exemplo que temos uma divindade campestre a guardar o Palácio? Que divindade é que está representada na bela cascata do jardim? Que episódios mitológicos estão representados nos estuques de João Grossi? Que heróis nos revelam os painéis de azulejo da segunda metade do século XVIII? Está curioso? Então inscreva-se na visita comentada Os Mistérios da Mitologia Clássica nos Jardins e no Palácio do Marques de Pombal e descubra a odisseia de mistérios que povoam num dos conjuntos da antiga Quinta de Recreio da família de Sebastião José de Carvalho, Marquês de Pombal.”

 

Para quem tiver interesse em participar bastará clicar no link já disponibilizado acima.

“As Leis do Sol” e a necessidade de se compreender (verdadeiramente) aquilo em que se acredita

A publicação de hoje, sobre estas Leis do Sol, merece algum contexto. Há algumas semanas atrás, quando escrevemos sobre o confronto de Buda com Mara, demos por nós a interrogar-nos se existiram séries orientais que mostrassem esse momento. Com alguma pesquisa, encontrámos um filme japonês (ver um pouco mais abaixo), mas à medida que o fomos vendo acabámos por notar que… tinha algo de estranho.

O que é? Caso não se tenham apercebido (ou simplesmente não queiram perder tempo a vê-lo), este filme pertence a uma religião/seita japonesa. Proclama um deus, El Cantare, de que nunca ninguém ouviu falar, e depois faz um esforço interessante para incluir numa mesma narrativa locais como o continente (perdido) de Mu e a Atlântida; figuras como Thoth, Zeus, Hermes e Buda; uma mensagem que supostamente foi sendo transmitida ao longo dos séculos; e até seres reptilianos – como ficção até tem uma certa piada, mas devemos é lembrar-nos que é suposto tratar-se de um filme sério, e nesse sentido lembra-nos um conjunto de estratégias manhosas que se costumam utilizar para promover um certo tipo de ideologias. Não acreditam? Vejamos outro exemplo, este claramente satírico:

Claro que as pessoas podem acreditar no que bem entenderem, mas é perigoso que o façam de forma incompleta ou descontextualizada, porque isso as abre a uma manipulação muito perigosa. Se viram o primeiro vídeo acima, poderão notar um momento curioso, em que Buda diz que voltará “passado 2500 anos”, pretendendo-se que esse retorno seja, convenientemente, identificado com o fundador da mesma religião/seita. Que, também convenientemente, já publicou 2500 livros, zero deles disponíveis gratuitamente.

A grande verdade, essa, é que não existe uma mensagem filosófica ou religiosa que tenha sido partilhada por todas as culturas ao longo dos séculos (existem, isso sim, é um conjunto de ideias – como a chamada “regra de ouro” – que parecem ser tão importantes que todas as culturas as pregam). E também não é por se atirarem, aqui e ali, algumas referências a figuras que as pessoas poderão ter ouvido falar (mas poucas vezes conhecem bem, como é o caso de Platão…) que essa pseudo-mensagem é legitimizada. Por isso, tenham cuidado com estas coisas, e não se deixem levar por historietas fantasiosas!

“As Instruções de Xurupaque”

Com aproximadamente 4500 anos, As Instruções de Xurupaque é um pequeno texto em que esta figura tentou deixar ao seu filho, Ziusudra, um conjunto de lições que pensava ser importante deixar-lhe. De um ponto de vista mitológico esta atribuição tem algum interesse porque Xurupaque teria sido o último rei local antes do dilúvio universal, enquanto que Ziusudra teve um papel importante nesse evento, construíndo uma arca (semelhante à da história do “nosso” Noé) e, por isso, tratando-se de uma figura privilegiada na preservação do conhecimento. Mas que conselhos, afinal de contas, decidiu ele deixar ao seu filho? Aqui ficam alguns dos exemplos mais curiosos e relevantes para os nossos dias:

 

  • Não construas a tua casa próxima da praça pública – existe sempre muita gente por lá;
  • Não deverás roubar nada;
  • Um ladrão é um leão, mas depois de ter sido apanhado será um escravo;
  • Não deverás divertir-te com uma jovem casada; as calúnias poderão ser sérias. [E por isso] Não deverás sentar-te sozinho num quarto com uma mulher casada;
  • Não deverás falar de forma imprópria, poderá ser perigoso para ti mais tarde;
  • Não deverás violar a filha de ninguém, porque os tribunais irão saber disso;
  • Quando se trata de dar o pão de outra pessoa, é muito fácil dizer “sim, vou dar-to”, mas o tempo que este toma a realmente ser dado pode estar tão distante como o céu; Se seguires o homem que te disse isto [i.e. “vou dar-to”], ele irá dizer-te “Agora não te posso dar, já acabou”;
  • Não deverás tomar decisões quando bebes muita cerveja;
  • O Destino é como a margem de um rio, pode fazer-nos escorregar;
  • O irmão mais velho é como um pai; a irmã mais velha é como uma mãe. Por isso, ouve o teu irmão mais velho, e sê tão obediente à tua irmã mais velha como se ela fosse a tua mãe;
  • Não irás multiplicar as tuas posses usando apenas a tua boca;
  • Um coração com amor mantém uma família; um coração com ódio destrói-a.

 

Como é fácil ver, muitos dos conselhos presentes na obra ainda se aplicam aos nossos dias, mas resta é saber se os leitores de hoje estão realmente dispostos a ouvir a sabedoria de outros tempos…