A Crónica de Paros e a contagem do tempo na Antiguidade

O Mármore Pário

Na imagem acima pode ser vista uma reprodução do texto da Crónica de Paros, um mármore que foi reencontrado no século XVII e que apresenta uma cronologia dos tempos gregos, aproximadamente desde o ano 1581 a.C., em que Cécrops se tornou o primeiro rei de Atenas, até ao ano 299 a.C., em que Euctemón foi arconte em Atenas. É uma crónica curiosíssima, na medida que funde eventos míticos (o dilúvio de Deucalião, o reinado de Teseu, a vida de Héracles, etc.), com aqueles que tendemos a considerar como históricos, como as conquistas de Alexandre Magno. Essa necessidade de contar o tempo, a altura em que tiveram lugar alguns dos eventos do passado, levanta uma questão – afinal, como era a contagem do tempo feita na Antiguidade?

 

Partindo do exemplo da Crónica de Paros, as entradas mais antigas mencionam quem foi rei em Atenas na altura em que um dado acontecimento teve lugar. Depois, por volta da entrada relativa ao ano de 683 a.C., é dito que começou a ser praticado um arcontado, e então as datas seguintes vão sendo associadas à pessoa que num dado ano era arconte em Atenas. O que distingue os dois períodos? Os eventos anteriores a esse ano de 683 a.C. podem ser considerados míticos, enquanto que os mais recentes já têm um fundamento histórico.

 

Poderá parecer simples, mas esta não era a única opção. No tempo dos Gregos também era feita uma contagem do tempo associando eventos aos Jogos Olímpicos, algo como “no terceiro ano da vigésima-segunda olimpíada…” E, de facto, nas fontes que temos a contagem é feita recorrendo-se tanto aos arcontes como aos períodos dos Jogos Olímpicos.

 

Salte-se algum tempo e considere-se, agora, um segundo exemplo, o dos Romanos. Como é que eles contavam os seus períodos de tempo? Essencialmente, tendiam a recorrer a um contagem ad urbe condita, ou seja, algo como “passados X anos da fundação da cidade [de Roma]”, com esse evento crucial a tomar lugar por volta de 753 a.C. Mas, tal como no caso dos Gregos, esta não era a única opção – muitas vezes a datação também era feita recorrendo-se aos cônsules, de que a obra de Júlio Obsequente é um bom exemplo, ou até aos Imperadores.

 

Depois do tempo dos Romanos começou, essencialmente, a ser usada uma cronologia cristã, que apesar de ter sido alterada ao longo dos tempos já ultrapassa o nosso tema de hoje. Resta, no entanto, uma questão problemática – como é que os Gregos contavam o tempo antes dos reis de Atenas e dos Jogos Olímpicos? Ou, se preferirmos os Romanos, como é que eles o faziam antes da datação AUC? Não sabemos, mas se alguém tiver alguma ideia por favor deixe-a nos comentários.

“Água Divindade – Conferência pelo Professor José d’Encarnação”

Ara Votiva

No próximo dia 12 de Outubro terá lugar no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, uma conferência pelo Professor José d’Encarnação subordinada ao tema “Água Divindade”. Mais informação pode ser obtida carregando na imagem acima, na qual pode ser vista uma ara votiva nacional, dedicada a Fontanus, particularmente relevante para o tema em questão.

 

No entanto, para quem estiver curioso sobre a identidade de Fontanus, trata-se muito provavelmente de uma divindade romana associada às nascentes de água, mas sem que se conheça qualquer mito associado a ela, como é comum entre as divindades tutelares dos Romanos.

Jogo “League of Wonderland”

Saiu recentemente, para os dispositivos móveis, um jogo chamado League of Wonderland. Tem aquela clássica jogabilidade de derrotar adversários num campo de batalha recorrendo-se a pequenos exércitos e a um herói com capacidades especiais. E, de facto, são esses heróis que tornam este título digno de nota, pelo facto de associarem, lado a lado, figuras bastante distintas, provindas das histórias e dos mitos.

Zeus

Como é comum nestes jogos, é provável que mais algumas personagens sejam adicionadas no futuro, mas neste momento (ver aqui) podem ser seleccionados heróis como a Alice e a Rainha de Copas (da Alice no País das Maravilhas); os deuses japoneses Amaterasu e Susanoo; o Peter Pan e o Capitão Gancho; Atena, Artemisa e Zeus (ver imagem acima); Sun Wukong e Xuanzang; ou o Rei Artur e Merlim, entre outros. Mas, fora este elemento pouco comum, o jogo não tem nada de muito especial.

O breve mito de Aristoxeino de Arcádia

O breve mito de Aristoxeino de Arcádia apenas nos chegou nas linhas fragmentárias de Posidipo.

Segundo este autor, Aristoxeino teve um sonho em que se viu como noivo de Atena e a dormir num quarto dourado do Olimpo. Depois, sentindo-se inspirado por essa ocorrência, foi para uma batalha sentindo a coragem da deusa no seu peito. Contudo, Ares – se o próprio deus, ou a sua metafórica guerra, não é totalmente claro – depressa o “pôs a dormir”, levando este falso noivo para o reino de Hades.

 

Esta trama é curiosa, essencialmente pelo facto de nos apresentar um caso de um homem que, por ter entendido mal uma (potencial) mensagem divina, foi conduzido à sua destruição. Dentro do mesmo tema, claro que é famoso o caso de Creso e o seu “Se atacares, um grande império será destruído” délfico, mas será que as coisas aqui teriam sido diferentes se Aristoxeino tivesse aprendido interpretação de sonhos?

A história da festa de Santo António

Santo António e Cristo

Esta história portuguesa chegou-nos por via oral. É uma história que em tempos de meninice foi contada a uma pessoa, hoje já com 83 anos, pela sua avó.

 

Um dia, Santo António queria ir a uma festa, mas o seu pai [António?] ordenou-lhe que guardasse as colheitas. Então, na ausência do pai, Santo António construiu uma gaiola com algumas canas e, por milagre, fez com que os pássaros entrassem todos para o seu anterior. Depois, foi para a sua desejada festa.

Quando o pai o viu por lá, disse-lhe “Ó meu malandro, o que estás tu a fazer aqui? Devias ter ficado em casa, a guardar os campos!” Bateu-lhe. Mas, mais tarde, quando voltaram a casa, ambos viram uma pequena gaiola no meio de um campo, com todos os pássaros lá dentro, bem aconchegadinhos… e o seu pai entendeu que só se poderia tratar de um milagre divino!

 

Esta história, com mais ou menos detalhes, pode ser lida em algumas obras portuguesas. Neste exemplo é-lhe atribuída uma data na década de 1930. Isto não só mostra que era uma história conhecida na altura, mas que também o era um pouco por todo o país. E agora, com um pouco de sorte, pode ser que venha a ser conhecida entre mais pessoas das novas gerações.