A verdadeira lenda do Galo de Barcelos

Galo de Barcelos

Poderá parecer estranho a alguns leitores, mas até existe uma verdadeira lenda do Galo de Barcelos. A forma mais básica da lenda é famosa, mas, estranhamente, parecem ser cada vez menos os Portugueses que conhecem toda a história por detrás de este artefacto. Por isso, nada como recordá-la nas linhas seguintes.

 

Num ano hoje desconhecido tiveram lugar na cidade de Barcelos diversos crimes. Acabou por ser acusado um peregrino que se deslocava para Santiago de Compostela. Por muito que insistisse na sua inocência ninguém quis acreditar nele. Então, numa derradeira tentativa de se salvar da forca que esperava, ele pediu para ser levado a um juíz.

Tratando-se possivelmente de um domingo, o peregrino foi levado a casa do juíz, onde o encontrou a tomar um faustoso almoço. Apontando para o galo que estava numa das travessas, disse-lhe: “É tão certo eu estar inocente como esse galo ir cantar quando eu for enforcado”. Obviamente que todos os presentes se riram – quem não o faria, nessas circunstâncias? – mas, prudentemente, decidiram esperar.

Quando o peregrino estava prestes a ser enforcado, o mesmo galo – que, recorde-se, já estava cozinhado e pronto a servir – cantou miraculosamente. O juíz e os seus companheiros ainda tentaram impedir a punição planeada, mas… não teriam chegado a tempo ao local não tivesse tomado lugar um segundo milagre – São Tiago amparou a queda do acusado, impedindo-o de morrer na forca. O peregrino foi libertado e prosseguiu viagem até ao santuário do seu salvador. Uns anos depois voltou a Barcelos para mandar erigir um cruzeiro a celebrar o que lhe tinha acontecido.

Cruzeiro do Senhor do Galo

Este cruzeiro ainda pode ser visto em Barcelos, próximo da Rua Fernando Magalhães, mas já não ocupa o seu local original (que, naturalmente, era próximo do local da forca). Como visto na imagem acima, o topo do monumento tem a figura de Cristo crucificado; abaixo dele pode ser visto o miraculoso Galo de Barcelos, o peregrino prestes a ser enforcado, e até São Tiago (ou, se preferirem, “Santiago”) a amparar a queda.

 

A existência deste monumento é crucial para compreender uma potencial versão antiga da lenda. Se muitas outras são conhecidas nos nossos dias – bastará fazer uma pesquisa no Google por “Lenda do Galo de Barcelos” – elas tendem, quase sempre, a apresentar um único milagre, o do cantar de um galo que já há muito tinha morrido. Mas, como este monumento prova, também um santo interviu na mesma trama, e ele não merece o esquecimento a que parece estar muito votado nos nossos dias.

Como é que Maria engravidou e se manteve virgem?

A forma como Maria engravidou e se manteve virgem é um dos grandes mistérios do Novo Testamento, tal como o temos nos nossos dias. Claro que existiram, ao longo dos séculos (e até nos nossos dias), outros exemplos de mulheres que engravidaram ainda virgens de quaisquer relações sexuais, mas se a cesariana já existia nos inícios da nossa era (Solino diz-nos que o nome foi popularizado por César ter nascido através dessa técnica), nada no texto bíblico nos diz que foi assim que o filho nasceu. O que nos leva, por isso, a uma questão intrigante – como foi Jesus concebido, e como foi possível que ele nascesse sendo mantida a virgindade de Maria?

Maria e o Anjo

A resposta que um padre vulgarmente nos dará é que “foi milagre”. Sim, a um deus omnipotente tudo seria possível, até a manutenção da virgindade de uma mulher após um nascimento, mas essa pseudo-resposta é também muito pouco satisfatória, até porque se abriria a caricata possibilidade de se poder dar igual resposta a toda e qualquer outra questão bíblica.

Em alternativa, ao longo dos séculos foram sugeridas alternativas. A mais interessante delas, e aquela que trazemos aqui hoje, diz que Maria engravidou pela orelha, e que o próprio filho nasceu, também ele, pela mesma orelha da mãe, tornando possível a manutenção da sua prezada virgindade. E porquê pela orelha? Essencialmente, porque se acreditava que o pecado de Eva tinha entrado pela orelha, quando a Serpente falou com ela, e assim fazia um estranho sentido que a salvação do mundo nascesse do mesmo local de onde veio a sua condenação. A ideia, que não tem quaisquer fundamentos biológicos reais, já aparecia em autores como Efrém da Síria (século IV), numa dada altura até apareceu muito representada na arte, e o nascimento de Jesus de uma forma semelhante a esta, ocorre pelo menos num texto cátaro (i.e. da Idade Média).

 

Como é que Maria engravidou e se manteve virgem? Claro que esta é uma resposta muito estranha para essa pergunta, mas parte do cumprimento de uma pseudo-profecia presente no Antigo Testamento. É, por isso, uma possibilidade como qualquer outra, rementendo-nos, como é muito frequente nestes casos, para o reino exclusivo da fé…

A história de Lugalbanda, com 4100 anos

Pássaro Anzu

Falar da história de Lugalbanda tem um significado extra para nós, pelo facto de ser um dos mais antigos que já passou por este espaço. A versão a que tivemos acesso, apesar de fragmentária, tem cerca de 4100 anos e permite-nos conhecer parte da história de uma figura suméria chamada Lugalbanda. Vamos a isso?

 

Lugalbanda era um soldado do Rei Enmerkar. Adoecendo durante uma guerra, foi levado por alguns companheiros para uma caverna numa montanha, onde se esperava que vivesse ou morresse. Após rezar a três deuses recuperou a sua saúde. Alguns dias depois capturou três animais e, num sonho, foi-lhe comunicado que os sacrificasse aos deuses. O que acontecia em seguida está parcialmente perdido, mas a história do herói ainda não acabou para nós.

 

Algum tempo depois Lugalbanda ainda estava a viver nas montanhas. Num dado dia encontrou uma cria do Pássaro Anzu [uma criatura famosa dos mitos suméricos, uma grande águia com cabeça de leão, que pode ser vista na imagem anterior], que alimentou e de quem cuidou durante algum tempo. Quando o respectivo Pássaro Anzu voltou, ficou tão feliz com os actos do herói que decidiu recompensá-lo com um dom semelhante à super-velocidade, mas que ele não deveria divulgar a ninguém.

Voltando então à civilização, Lugalbanda reencontrou os seus companheiros do exército, que ainda estavam a tentar atacar a mesma cidade. Face à lentidão do confronto, o Rei Enmerkar decidiu procurar o auxílio da deusa Inana [i.e. Ishtar], enviando o herói em busca dela. A deusa respondeu-lhe com uma parábola, mas o resto da história está perdido.

 

Pouco mais sabemos sobre este Lugalbanda, com excepção de uma informação um tanto ou quanto curiosa – no Épico de Gilgamesh, o famoso herói refere-se a si mesmo como “filho de Lugalbanda” (e de uma deusa). É provável que esse matrimónio tomasse lugar depois dos episódios que nos chegaram nas fontes da Suméria, com mais de 4100 anos, mas é pouco mais do que uma suposição. Mas, pelo menos, este mito não foi totalmente perdido nas areias dos tempos…

“Henriqueida”, um poema épico pouco conhecido

A Henriqueida, um poema épico pouco conhecido, é um exemplo perfeito de um problema significativo da literatura mundial. Quando pensamos em poesia épica temos em mente obras como a Ilíada, a Odisseia, a Eneida… ou, num contexto português, quase certamente Os Lusíadas de Camões. Porém, raramente se pensa é que para esses poemas se tornarem particularmente famosos existiram muitos outros que tiveram de ficar pelo caminho, de que os Anais de Énio são provavelmente o exemplo mais famoso, mas não o único.

Capa da Henriqueida

Nesse contexto, hoje falamos da Henriqueida, um poema épico português de meados do século XVIII. Quase nada conseguimos descobrir sobre ele online, mas quando o fomos ler acabámos por perceber o porquê dessa grande ausência de informação – é, pura e simplesmente, uma obra bastante desinteressante. E a opinião não é somente nossa – pelo menos um outro leitor dela disse que se trata de uma “obra de merito mediocre, na opinião dos criticos, apezar da summa diligencia com que o auctor pretendeu reduzi-lo ás regras e preceitos epicos, de que era perfeito sabedor. O que lhe faltava unicamente era genio e gosto” (fonte).

 

O problema começa logo com o próprio tema – quem será o “Henrique” que dá título à obra? Talvez um épico sobre o Infante D. Henrique até fosse uma ideia muito interessante, mas o escolhido é aqui um outro Henrique, o de Borgonha, pai de Afonso Henriques.

Depois, se a Henriqueida até tem alguns instantes notáveis, parecem ser ainda mais aqueles que não o são. Por exemplo, no segundo canto Henrique encontra uma caverna secreta perto do Porto e Gaia, em que está escondida a Sibila e onde estão presentes algumas estátuas dos futuros monarcas portugueses. A ideia é interessante, mas relatada de uma forma tão cansativa, enfadonha.

É, talvez mais que tudo, essa grande falha desta obra. O autor parece ter estado tão preocupado com seguir um conjunto de regras formais, e em demonstrar o seu conhecimento da Antiguidade, que se parece ter esquecido de tornar o seu poema interessante para o leitor. Na verdade, o próprio autor, ao escrever este seu poema, sentiu a necessidade de o adornar com copiosas notas explicativas – mais de 700, ao longo dos 12 cantos – porque parecia saber que só assim os leitores o poderiam compreender…

O final da Guerra de Tróia num desenho animado de 1960

Estamos a considerar conduzir alguns períodos temáticos neste espaço. Como experiência, Setembro de 2019 será um mês dedicado a um único tema – durante as próximas semanas iremos falar de alguns dos mais curiosos mitos, lendas e histórias que chegaram aos nossos dias. Preparados?

 

Enquanto ajeitamos a proverbial toga, aqui fica um pequeno desenho animado de 1960, que conta, de uma forma adaptada para crianças e muito breve, a história dos últimos dias da Guerra de Tróia. Como um comentador online disse, “naturalmente que deixaram de lado as incontáveis mortes e a violação de Cassandra”, o que nos parece bem justificável.