Quem foi Esopo, e porque contou ele as suas fábulas?

Afinal de contas, quem foi Esopo, e porque contou ele as suas fábulas?

O Esopo das fábulas

Em completa verdade dizemos que de entre os muitos textos que nos chegaram dos tempos da Antiguidade, poucos serão tão populares como as fábulas de Esopo. De facto, até nos arriscaríamos a dizer, sem certezas de maior, que nos nossos dias as pequenas histórias que lhe estão atribuídas são ainda mais famosas que os próprios Poemas Homéricos. Mas, estranhamente, já poucos parecem perguntar-se quem foi este autor, e porque contou ele as famosas fábulas…

 

Se pretenderem uma resposta rápida, ela deverá ser “não sabemos”. Se ele realmente existiu, as suas fábulas dizem-nos muito pouco sobre ele, e são poucos os autores que nos preservam qualquer espécie de dados biográficos. Mas, visto que este é um mês dedicado aos mitos, lendas e histórias, estas linhas ainda não ficam por aqui.

 

Numa dada altura da Antiguidade alguém se apercebeu do mesmo problema. Provavelmente também essa pessoa se interrogava sobre a identidade deste prominente autor. E, por isso, decidiu escrever um texto sobre o tema, que nos chegou e a que hoje damos o nome de Vida de Esopo ou Romance de Esopo. Não temos qualquer forma de saber quais os elementos reais dessa obra, e quais as ficções que ela inclui, mas segundo as suas linhas ele poderá ter sido contemporâneo de Creso, no século VI a.C. E, então, quem foi? E, tanto ou mais importante, porque compôs as suas muitas fábulas?

 

Segundo a versão deste texto (ficcional?), Esopo era um escravo muito feio e mudo. Um dia ajudou uma sacerdotisa de Isis; como agradecimento, esta pediu à deusa que desse novas faculdades ao herói. Agora capaz de falar (mas ainda muito feio – o contraste da sua fealdade com a sua enorme sabedoria é um elemento muito importante da trama), depressa foi vendido a um novo dono, de nome Xanto. Grande parte do texto apresenta este herói em confronto com esse novo dono e nos mais diversos desafios de conhecimento, mas esses episódios ultrapassam o nosso objectivo de hoje.

Num dado momento surge então a primeira fábula – o famoso Rei Creso estava prestes a atacar a cidade de Samos, a quem exigia um tributo anual. Foi pedida a opinião do escravo sobre o que se deveria fazer, a que este respondeu algo como “Não posso dá-la, porque seria marcado como inimigo do rei. Porém, irei contar-vos uma fábula”. Prosseguiu, contando-lhes uma primeira fábula, em que Prometeu instruiu os Homens nos caminhos da liberdade e da servidão. Os ouvintes compreenderam o que ele estava a querer dizer e agiram em consonância.

 

São várias outras as fábulas contadas neste texto (curiosamente, a da lebre e da tartaruga, tão bem conhecida entre nós, não é uma delas), mas parecem ter todas elas um mesmo objectivo, o de transmitir uma lição ou moral de uma forma muitíssimo simples. E, de facto, quase todas as fábulas de Esopo são intemporais, perpetuando lições que ainda se mostram muitíssimo relevantes nos nossos dias.

 

Que me perdoem os leitores e o meu colega, mas escrevendo de um modo mais pessoal por um breve momento, posso dizer que há uns anos até dei uma cópia das Fábulas a uma criança, apelidando essa obra de “o melhor livro que se pode dar aos mais novos”. E talvez seja até esse o grande segredo da fábula – pouco ou nada sabemos sobre o seu autor (a história acima é, quase certamente, nada mais que uma ficção), mas a lição que frequentemente transmite é, por si só, mais significativa que a identidade do seu autor.

 

Assim, fica uma questão de duas faces – quem pensam vocês ter sido Esopo? E porque acham que contou as suas fábulas?

A história de Wu Gang

Um dos aspectos mais curiosos de se tentar estudar Mitologia Comparativa é o facto de, uma e outra vez, nos depararmos com alguns elementos que, apesar de pouco vulgares, transcendem culturas de uma forma difícil de explicar. Por exemplo, há algum tempo uma idosa contou-nos uma história que a avó dela lhe tinha contado, de que já falámos aqui. Sucintamente, apresentava um homem que Deus transportou para a Lua como punição por um pecado repetido. Poderia parecer uma ideia estranha, mas não é única.

Wu Gang, um exemplo na arte nipónica

Quase do outro lado do mundo, os Chineses ainda hoje contam a história de Wu Gang, um camponês que foi transportado para a Lua e perpetuamente destinado a tentar cortar uma árvore, que tornava a crescer por magia a cada nova noite. É uma espécie de “Sísifo Chinês”, como lhe ouvimos chamar em diversas obras ocidentais.

Qual foi o seu crime? As várias versões a que tivemos acesso divergem nas razões para a sua punição, mas parecem ter um elemento em comum – que esta terá advindo do facto de Wu Gang nunca levar os empreendimentos que planeava até ao seu final. E, nessa sequência, que ele tenha sido punido com a atribuição de uma tarefa impossível de finalizar faz todo o sentido.

 

Resta, então, uma questão – será que existe alguma ligação entre a história portuguesa que nos foi contada e a de Wu Gang? Quase certamente que não, mas esse é um dos grandes mistérios da Mitologia Comparativa, o porquê de algumas histórias, aparentemente similares mas sem uma fonte comum, surgirem em culturas e contextos completamente diferentes.

 

[Editado: Recentemente, o Sapo colocou este artigo em destaque, aqui. Deixamos o nosso agradecimento, e se esse destaque contribuir para uma só pessoa adicional conhecer esta história e a passar a outras, já valeu a pena deixá-la escrita por cá!]

A Batalha dos Centauros e dos Lápitas

A Batalha dos Centauros e dos Lápitas

Se há alguns dias aqui falámos dos Centauros, achámos que podíamos igualmente contar um grande mito relativo a eles, o da “Centauromaquia”, também conhecida como a “Batalha dos Centauros e dos Lápitas”. Se este mito é pouco conhecido nos nossos dias, teve um relevo enorme na arte grega, possivelmente por representar o confronto da civilização (grega) com “o outro”, o monstruoso (bárbaro). Por isso, reconte-se o que ainda sabemos sobre este episódio.

 

Piríto, o famoso amigo de Teseu, estava para casar com Hipodâmia e convidou para a boda os Lápitas e os Centauros, com quem – segundo algumas versões do mito – tinha um laço de sangue. Inicialmente tudo corria bem, mas quando os Centauros beberam vinho puro, ao qual não estavam habituados, a sua natureza monstruosa veio ao de cima e começaram a causar problemas – tentaram raptar e violar algumas mulheres, bateram nos homens, e outras coisas que tais.

Como parecerá natural os outros convidados tentaram defender-se, levando a uma enorme batalha entre os dois grupos. Infelizmente, as informações que nos chegaram não preservam muitos detalhes do combate, com a excepção notável de um determinado episódio – sabemos que Ceneu (anteriormente Ceneia, como cá depois contámos), um herói que era completamente indestrutível, foi enterrado vivo – os Centauros bateram-lhe repetidamente com árvores e atiraram-lhe pedras, até que este seu opositor ficasse totalmente enterrado e, segundo uma versão do mito, caído no próprio reino de Hades ainda vivo!

 

Se leram estas linhas até aqui, fica agora um pequeno convite – voltem a olhar para a imagem reproduzida acima e poderão ver, do lado esquerdo, perto do local em que o vaso está partido, três centauros e uma figura parcialmente soterrada – não podemos ver-lhe a cara, mas uma legenda por perto identifica-o como um dos Lápitas, o Ceneu do mito, próximo do momento em que deixou este mundo.

Um centauro e Ceneu

Como também pode ser visto nesta nova imagem, esse momento específico é preservado num número muito grande de vasos, atestando a já-referida fama desta batalha e, mais concretamente, do episódio que une estes monstruosos adversários a Ceneu. O que não pode deixar de nos levar a uma dúvida natural – sabemos de Ceneu, mas o que mais teve lugar nesta Batalha dos Centauros e dos Lápitas? Essa é, infelizmente, uma informação que os autores da Antiguidade já não conseguiram fazer chegar até aos nossos dias, restando-nos a famosa ideia, que um dia até foi preservada nos frisos do Parténon, de que esta se tratava de uma batalha metafórica dos Gregos contra os Bárbaros.

O mito dos Centauros, e as “Centauras”

Poucas criaturas da Mitologia Grega são tão famosas como os Centauros, pelo que hoje falamos aqui do mito dos Centauros e as Centauras. Metade homem e metade cavalo, são diversas as sequências mitológicas em que vão aparecendo – a mais famosa de todas elas provavelmente na batalha contra os Lápitas – nas mais diversas histórias da Antiguidade. Mas, afinal de contas, de onde nasceram estas estranhas criaturas?

Esqueleto de Centauro

De acordo com a versão mais famosa do mito, numa altura em que os deuses e os seres humanos ainda partilhavam os mesmos espaços, o rei Íxion apaixonou-se pela deusa Hera. Zeus, que tudo sabia, fez uma nuvem em forma da sua esposa. Quando o rei a viu, pensou tratar-se da sua amada e tentou violá-la; foi dessa união pouco natural e muito ilegítima que nasceram os primeiro Centauros.

Porém, esta não é a única versão do mito. Numa outra, estas criaturas nasceram simplesmente da paixão de um homem chamado Centauro, filho de Íxion e Nefele (i.e. a nuvem do mito anterior), pelas éguas do monte em que vivia. Uma terceira versão, provinda de autores como Palaefato, diz que os Centauros nunca existiram – em vez disso, a sua ideia surgiu somente porque tinha existido uma tribo de homens que conduzia os seus cavalos de uma forma tão perfeita que ambas as criaturas pareciam tratar-se de uma só.

 

Agora, se são vários os mitos que se referem a centauros do sexo masculino, somos levados a uma questão adicional – será que existiram “Centauras”? Apesar de terem pouca participação real nos mitos, a resposta é positiva. Ovídio, por exemplo, menciona o caso de uma centaura que se suicidou após o falecimento do marido na famosa batalha contra os Lápitas. Além disso, existem, aqui e ali, vários exemplos destas criaturas femininas na arte, que se prolongam até aos nossos dias.

A história resumida de Sidarta Gautama, o Buda

Será que o Buda, também conhecido sob o nome de Sidarta Gautama, realmente existiu? Não é questão simples, mas mesmo que a resposta seja positiva, onde é que acaba a sua historicidade e começa a lenda, ou até mesmo a fé religiosa? Visto que a sua história não é muito famosa em Portugal, podemos aqui resumi-la.

 

Contam-nos que o homem que nasceu com o nome de Sidarta Gautama, ou Siddhartha Gautama, mas que viria a ficar conhecido simplesmente como “o Buda” (i.e. o Iluminado), foi príncipe de um reino muito rico, e os seus pais sempre tentaram que tivesse todas as melhores coisas, pois já lhes tinha sido profetizado o seu destino (que, diga-se, pareciam querer evitar). Um dia, enquanto a sua carruagem era conduzida por uma povoação, viu algo que nunca tinha visto até então – um idoso. Pouco depois, numa segunda viagem, viu um doente. Numa terceira, um homem morto, e a realidade dessas sucessivas descobertas levou-o à contemplação de um problema – de que lhe valiam todas as coisas que tinha, se acabaria por morrer mais cedo ou mais tarde?

Alguns dias depois viu um asceta, e essa nova ocorrência levou este príncipe a decidir despojar-se de tudo o que tinha e ir para uma floresta meditar no seu problema. Uma e outra vez os seus pais, a esposa e o próprio filho, aqueles que conhecia, tentaram-no fazer desistir dessa ideia, muitas vezes até lhe apontando alternativas, mas não conseguiram demovê-lo. Procurou quem o pudesse ajudar a alcançar o seu objectivo, mas nenhum professor ou colega lhe pôde ensinar o que ele queria aprender. Então, numa determinada altura, decidiu sentar-se em baixo de uma árvore e não se mover do local até encontrar a resposta que procurava.

Sidarta Gautama, o Buda, a confrontar Mara

Na imagem acima pode ser visto esse momento, de enorme relevo na arte budista, em que Mara, a personificação da morte e das muitas tentações da vida, e os seus demónios tentam perturbar esta figura enquanto ele meditava. Tentaram assustá-lo, seduzi-lo pelos prazeres da carne, e outras coisas semelhantes, mas durante toda a sua meditação mostrou-se imperturbável. E depois, passadas sete semanas, encontrou a resposta que procurava, tornando-se Buda, i.e. “O Iluminado”.

 

As crenças atribuídas ao Budismo nascem depois deste episódio, e tentam, de uma certa forma, que o crente consiga compreender as realidades que o Buda, sob a forma de Sidarta Gautama, defrontou por si mesmo. Ele nunca é visto como uma divindade, nem as suas palavras como cânone religioso, mas convida é que as suas mensagens e ensinamentos sejam contemplados por quem o quiser fazer. E isso leva a uma questão – na ausência de uma divindade tuteral, será o Budismo uma religião ou um sistema de crenças? Essa é uma resposta que já caberá ao leitor…