A história de Áquila de Sínope

Códice antigo

Sobre este Áquila, a que já aludimos há alguns dias atrás, sabemos que fez uma tradução do Antigo Testamento para a língua grega. Terá sido por essa altura que corrompeu parte do texto original, criando um novo, cujo significado se distanciava bastante do judaico. Mas porque o fez? Essa é uma história curiosa, e que já vem, pelo menos, do século IV d.C. …

 

Áquila de Sínope foi um pagão que se converteu ao Cristianismo. Gostava bastante da sua nova religião, mas mesmo assim não queria deixar de lado a mesma Astrologia que tanto o tinha apaixonado até então. Por isso, e após ter sido avisado por diversas vezes que não podia continuar a seguir essas práticas, foi expulso da fé cristã. Com o seu espírito repleto de sentimentos de vingança, decidiu então converter-se ao Judaísmo e corromper o texto bíblico, para assim se vingar da religião cristã.

 

Mas… será esta história verdade? A alusão mais antiga que encontrámos a ela provém de um texto de Epifânio de Salamina, cerca de 200 anos após os acontecimentos originais, sendo possível que se trate de uma ficção. Mas, ao mesmo tempo, sabemos que existem diferenças entre o texto judaico e o grego do Antigo Testamento; serão fruto das alterações de Áquila, meros erros de traduções (traduttore, traditore), ou terão surgido por uma qualquer outra razão? Isso é que já não sabemos; caberá ao leitor pensar no problema e chegar às suas próprias conclusões.

O Cristianismo contra o Judaísmo, ou o “Diálogo de Timóteo e Áquila”

Diálogo

Hoje em dia, aqueles que seguem as mensagens do Cristianismo tendem a esquecer-se, talvez até em demasia, que essa religião provém do Judaísmo. É uma espécie de sequela. Mas, devido a essas origens, existiu um tempo em que havia uma necessidade de discutir a ligação entre ambas, e que até já aparece representado nas epístolas hoje presentes no Novo Testamento. Foi nesse contexto que, ao longo dos primeiros séculos da nossa era, foram surgindo diversos diálogos em que as duas religiões eram opostas uma à outra, normalmente de forma a fazer uma apologia da nova religião, tentando obter novos conversos entre os judeus.

 

Se existem vários diálogos desta natureza – na pesquisa para este artigo tivemos acesso a cinco – aqui falamos, em específico, do Diálogo de Timóteo e Áquila pelo facto de se tratar do mais interessante exemplo deste género literário na Antiguidade. Existe uma breve trama em redor de todo o debate e o judeu, Áquila, até tem um papel activo. Claro que no final este acaba por ser converter ao Cristianismo – como não podia deixar de ser – mas, pelo menos, não se limita a aceitar impavidamente os ataques do opositor, apresentando visões e opiniões potencialmente reais.

 

O diálogo, em si, poderá parecer um pouco enfadonho para o leitor comum, mas gira em torno da interpretação e reinterpretação dos textos bíblicos. Vão sendo citados momentos do Antigo Testamento que o cristão usa em favor da sua religião, com o judeu a levantar algumas oposições. Inesperadamente, num dado momento é até explicado que existiam, sim, diferenças entre o AT cristão e o texto judaico, muitas vezes ao nível das previsões de vinda do Messias, mas que isso só acontecia porque Áquila [de Sínope, diferente da personagem judaica do texto] corrompeu algumas traduções gregas – mas essa é uma história que fica para outro dia.

 

No seu geral, este não é, como já foi dito, um diálogo particularmente interessante para o leitor comum, mas é-o certamente para quem tiver interesse na forma como as fés judaica e cristã se entrelaçavam nos primeiros séculos da nossa era.

Euplanes, ou a história do menino doente

Euplanes era um menino de Epidauro que, aparentemente, sofria de pedras nos rins. Com vista à solução do seu problema dormiu num templo de Apolo. Nessa noite o deus apareceu-lhe em sonhos e perguntou-lhe “Euplanes, o que me dás se eu te ajudar?”, ao que o rapaz respondeu “dez dados!” Inesperadamente, o deus riu-se e disse-lhe que o seu problema seria resolvido. Na manhã seguinte o menino saiu do templo e foi curado.

 

Esta história é mencionada numa gravação presente num templo do deus Apolo. O seu elemento mais curioso é o facto do deus se rir quando confrontado com a oferta do menino. Os “dez dados” aqui oferecidos são o equivalente a uma criança dos nossos dias abordar um médico e lhe dizer que em troca de uma cura lhe dava dez brinquedos; é uma oferta, sim, mas presume-se que nem o deus nem um médico tenham qualquer uso real para ela. E, ainda assim, a compaixão divina falou mais alto e curou a criança – será que um médico dos nossos dias também faria o mesmo?

Uma “coroa solar” rectangular?

Quem for a Roma poderá encontrar na Capela de São Zeno da Basílica de Santa Prassede o seguinte mosaico:

Mais do que nos focarmos nas três figuras com coroas solares – duas santas acompanhadas pela Virgem Maria – preste-se é atenção à figura no lado esquerdo. Ténues letras permitem identificá-la como uma Epíscopa Teodo[ra], ou seja, a mãe do Papa Pascoal I. Mas o que representa o rectângulo em redor da sua cabeça? A prática parece ter caído em desuso ao longo dos séculos, mas aqui refere-se ao facto de ela ainda estar viva quando o mosaico foi colocado no local; também o seu filho, como pode ser visto abaixo, tem nesse recinto uma representação com contornos semelhantes.

Interessante, hem?

Onde e como morreu Camões?

Onde e como morreu Camões?

Falando de onde e como morreu Camões, devemos relembrar que o dia 10 de Junho é feriado em Portugal, sob o nome de “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”, devido ao facto do autor dos Lusíadas ter falecido a 10 de Junho de 1580, e tal como o seu poema celebra os feitos dos Portugueses, foi também decidido que o dia da sua morte mereceria celebrar a Portugalidade. Contudo, quem viver em Lisboa poderá nunca se ter apercebido de uma pequena curiosidade:

No número 139 da Calçada de Sant’Ana, por cima de uma taberna, pode ser encontrada uma casa em que se acredita que Camões viveu e faleceu. Uma pequena placa, datada de 1867, assinala o local em que faleceu… se por doença, ou pela desilusão causada pelo falecimento de Dom Sebastião em Ceuta e os eventos que se seguiram, já é mais difícil saber-se.

 

Mas a história ainda não fica por aqui. Depois, o seu corpo foi transportado e sepultado na Igreja de Sant’Ana. Com o terramoto de 1755 perdeu-se o seu local preciso, sendo muito possível que no túmulo de Camões, hoje no lado direito quando se entra na igreja do Mosteiro dos Jerónimos, estejam restos mortais que nem são os dele. É um pouco triste…