A breve história de Teômbroto

Muito pouco sabemos sobre a figura de Teômbroto, que apenas no chegou nas linhas da Cidade de Deus de Santo Agostinho. Porém, essa ténue referência acaba por ser tão invulgar que achámos que a deveríamos recordar por cá.

 

É-nos então relatado que este Teômbroto leu um livro de Platão “sobre a imortalidade da alma”; gostando do que viu por lá, nessa ânsia de passar logo para uma vida que lhe parecia melhor que a sua, atirou-se deliberadamente do topo de uma parede e morreu.

 

Se existem referências à alma em diversos escritos platónicos, aquele mais focado no tema será certamente o Fédon. Terá sido esse o tratado lido pelo interveniente desta pequena história? Não podemos ter uma certeza absoluta, mas é inegável que, qualquer que tenha sido, o marcou tão profundamente que o fez desejar mais a morte do que a vida que tinha… e isto, de uma certa forma, mostra-nos a visão que a Antiguidade tinha face a Platão, aquela de um mestre quase incontestado que até parecia saber o que nos esperava a todos após o fim da nossa existência terrena.

Um “ABC” do século XVI

Ainda se lembram dos primeiros tempos de escola e dos livros que, bem nas suas primeiras páginas, tinham as letras do alfabeto ilustradas – A para avião, I para igreja, X para xilofone, Z para zebra, etc.? O que hoje aqui trazemos é um alfabeto semelhante, mas da segunda metade do século XVI. Vem da obra Contos e Histórias de Proveito e Exemplo, uma das primeiras compilações de contos morais nacionais. Surge no final da primeira parte do texto, na qual o autor tenta ajudar uma mulher de 20 anos, já casada mas que agora queria aprender a ler (o que era pouco comum na época). Instando-a a conhecer as letras do alfabeto, o autor escreve-lhe então o seguinte:

Amiga de sua casa;
Benquista [i.e. estimada] da vizinhança;
Caridosa com os pobres;
Devota da Virgem;
Entendida em seu ofício;
Firme na fé;
Guardosa [i.e. que cuida bem] de sua fazenda;
Humilde a seu marido;
Inimiga de mexericos;
Leal;
Mansa [i.e. no sentido de sossegada];
Nobre;
[H]Onesta;
Prudente;
Quieta;
Regrada;
Sisuda [i.e. séria];
Trabalhadeira;
Virtuosa;
Xpã [i.e. cristã];
Zelosa da sua honra.

Pelo contexto percebe-se que estas palavras indicam as grandes virtudes que se esperavam de uma mulher nessa época, devendo elas aprendê-las juntamente com o próprio abecedário, como as crianças de hoje começam por aprender as letras e significados mais indicadas para os seus próprios contextos. Tristes sinais dos tempos, que estas importantes virtudes já não sejam ensinadas nas mesas da escola…

A lenda de Jiraiya em vídeo

Muito sucintamente, Jiraiya é uma figura famosa do folclore japonês. De facto, é tão famosa que o nome do herói é frequentemente reaproveitado em séries nipónicas, de que Naruto poderá até ser um dos exemplos mais presentes nos nossos dias. Para conhecerem um pouco mais sobre este herói poderão ver o filme apresentado abaixo, datado de 1921, em que a lenda de Jiraiya é retratada de uma forma bastante fácil de perceber.

“Amadis de Gaula” e os infindáveis filhos das figuras da Antiguidade

Amadis de Gaula foi provavelmente o mais famoso de todos os romances de cavalaria produzidos na Península Ibérica. Resumi-lo num punhado de frases soar-nos-ia redutor, mas podemos referir que se trata da história da belíssima Oriana e das muitas aventuras pelas quais Amadis passou em sua honra. E é, de facto, sobre uma dessas aventuras em que hoje nos focamos. Num dado momento Amadis foi capturado por Briolanja, que o amava e que dele desejava ter um filho. Mas será que o herói cedeu às tentações da carne, gerando um rebento com ela?

Capa de Amadis de Gaula

A sua amada Oriana pensou que sim, mas o texto do romance não deixa essa informação totalmente clara. Pelo menos uma das edições a que tivemos acesso parece dar a entender que, originalmente, nada de errado se tinha passado entre as duas personagens, mas também acrescenta que o episódio de Amadis de Gaula em questão foi alterado por ordem do “Infante Dom Afonso de Portugal” (i.e. o filho de Dom Dinis), de forma a dar uma prole compassiva à solitária Briolanja.

Isto é possível de se fazer porque, quase certamente (que nestas coisas nunca podemos ter uma certeza absoluta), Amadis, Oriana e Briolanja se tratavam de personagens ficcionais. Nunca tiveram uma existência fora do campo da ficção, e como tal podem ter as suas existências alteradas como melhor se encaixar na trama. Se um dado editor lhes quisesse, por exemplo, dar 20 filhos e encenar uma batalha de todos eles contra o próprio pai, nada o impediria de o fazer.

 

Voltemos então à Antiguidade, a uma figura como Ulisses. Será que teve filhos de Circe e de Calipso? Por muito que os Poemas Homéricos nos possam levar a uma resposta em particular, absolutamente nada impediria autores posteriores de alterar a história, para que esta se inserisse melhor nos seus objectivos individuais. Desde que respeitassem algumas regras – por exemplo, a virgindade perpétua de Ártemis ou de Atena não deveria ser violada, e seria estranha a existência de um Zeus totalmente fiel à esposa – podiam fazer tudo o que desejassem com as personagens que tinham em mãos. Assim se compreendem as divergências de informação que se encontram em determinadas fontes; uma figura como Príamo podia ter tantos filhos e filhas como necessário para a história. E, nesse sentido, não existe uma resposta certa ou errada ao número e identidade de uma descendência – Amadis, como Ulisses, Édipo, ou qualquer outra figura ficcional, podem ter (e até deixar de ter) filhos e filhas, em número tão grande e diverso como a trama requeira. E, mesmo assim, Oriana e Penélope, como tantas outras heroínas, só seriam traídas se os autores assim o desejassem. Bastaria torná-lo real com palavras ditas ou escritas.