A mitologia do Senhor dos Anéis

O tema da mitologia do Senhor dos Anéis, da autoria de J. R. R. Tolkien, é fascinante, porque se refere a um conjunto de mitos e lendas construídos pelo autor, mas com uma base significativamente realista, em alguns instantes até brevemente derivada dos mitos nórdicos e germânicos. Mas já lá iremos, por agora convém apresentar, de uma forma muitíssimo breve, os quatro principais volumes que compõem a série.

Tudo começa com O Hobbit, em que a personagem principal, Bilbo Baggins, é como que convidado a juntar-se a uma aventura. São muitas as peripécias por que vai passando, mas o mais importante é o facto de este primeiro livro explicar como é que ele obteve o famoso anel que dá nome a toda a série. Sim, também obtém uma grande fortuna, e uma armadura de mithril (um metal ficcional, inventado para esta série), mas esses são elementos secundários face ao próprio anel.

Depois, na trilogia que compõe o Senhor dos Anéis em si mesmo – A Irmandade do Anel, As Duas Torres, e O Regresso do Rei – o que tem essencialmente lugar é um desenvolvimento desse tema inicial, com o herói principal a tornar-se agora Frodo Baggins, numa intenção geral da destruição do poderoso anel, que desde o seu início é apresentado como tendo um misterioso poder de invisibilidade.

A Mitologia do Senhor dos Anéis

Claro que este pequeno resumo é demasiado redutor do interesse de toda a série, mas é mais que suficiente para aqui se introduzir a mitologia do Senhor dos Anéis. Se à partida este anel tem poderes mágicos, o porquê de os ter só vai sendo revelado progressivamente, mas nunca de uma forma completa. É um anel misterioso, cuja completa realidade nunca é revelada, ou pelo menos não como esperaríamos de uma obra de ficção. E, de uma certa forma, esse ambiente de mistério pauta todas estas quatro obras, como também O Silmarillion, obra póstuma em que o universo das lendas da série é explorado de uma forma mais intensa. Por exemplo, quando é apresentada uma área de nome original Helm’s Deep, as personagens até podem comentar sobre a origem do nome, mas fazem-no de uma forma relativamente incerta, como se não tivessem a certeza absoluta do que estão a comentar – apenas o “ouviram dizer”, sem certezas de maior.

 

Essa insegurança, essa imperfeição de muitas das personagens, que não sabem ou já não têm a certeza de algo, é – pelo menos para nós – o elemento mais curioso de toda a mitologia do Senhor dos Anéis, porque preserva um elemento muito realista do mundo. Quem ler uma obra como a Descrição da Grécia de Pausânias, poderá ver que o seu autor, e mesmo as fontes a que foi tendo acesso, nem sempre têm a certeza dos mitos e lendas que comunicam ao leitor. Realisticamente, assim é o mundo – bastará que se recorde, como exemplos nacionais, a Cruz de Popa ou a Pedra Amarela – até porque não sabemos as histórias por detrás de tudo aquilo que nos rodeia.

 

Na trilogia do Senhor dos Anéis, bem como na obra que a precede, é curiosa essa presença, sempre dual, do mito e da lenda. Existe a aventura das diversas personagens, aquela que já apresentámos super sucintamente acima, mas por detrás dela também está contido um palco riquíssimo, que deixa sempre muito que pensar, ainda para mais a quem se interesse por estes temas. Por exemplo, quando Bilbo Baggins e os seus companheiros confrontam o dragão Smaug, fazem-no num contexto muito semelhante ao do confronto germânico com Fafnir, e quando os heróis de uma outra aventura encontram o misterioso – e infinitamente poderoso (?) – Tom Bombadil, como não ver nele um herdeiro das lendas de figuras como o Homem Verde?

 

 Terá sido mera coincidência? Quando construiu estas aventuras, é fácil notar que J. R. R. Tolkien sabia o que estava a fazer, fruto do seu estudo de obras de ficção como Beowulf. E, nesse sentido, se as histórias que nos contou não são, na verdade, derivadas dos mitos nórdicos ou germânicos, têm pelo menos a sua inspiração às costas. Mas, ao mesmo tempo, também são aventuras pautadas por um pensamento tácito, de natureza mitológica e lendária, que raramente se encontra nos nossos dias. E isso acaba por ser interessante, tão interessante como as próprias aventuras que os heróis vão vivendo nas suas páginas. Quem quiser poderá lê-las só por isso, pelas tramas por que vão passando as diversas personagens, enquanto que alguém mais interessado na área da Mitologia poderá, até em alternativa, pensar mais no papel das próprias lendas no espírito de toda a série, em momentos como aqueles em que a personagens discutem entre si histórias e versos que ouviram em outros tempos, mas que não estão necessariamente ligados aos seus próprios feitos.

 

Para quem tiver especial interesse nessa mitologia do Senhor dos Anéis, de Tolkien, deverá começar por ler as quatro obras acima, e poderá depois ler O Silmarillion. Existem, em seguida, obras quase enciclopédicas, como The History of Middle-earth (em 12 volumes), só mesmo para quiser compreender melhor toda a questão, e até existem estudos em Português sobre tudo isto, como o Estudo dos mitos e da construção narrativa em J. R. R. Tolkien, publicado no Brasil em 2018. Mas isso fica para outro dia…

A invulgar história de Itomnica

Itomnica queria ter uma filha e foi a um templo do deus Apolo. Enquanto lá dormia, como era hábito nessa altura, o deus apareceu-lhe em sonhos e concedeu-lhe o seu desejo – Itomnica iria conceber uma filha, mas o deus também se ofereceu para lhe dar tudo o que ela desejasse. A peticionária disse que não desejava mais nada, e pouco depois concebeu uma filha no seu ventre.

Toda esta história acabaria por aqui, não fosse o facto de, em seguida, Itomnica ter ficado grávida durante mais de três anos, mas sem que alguma vez desse à luz. Preocupada com a situação, voltou ao templo de Apolo e o deus perguntou-lhe se não tinha obtido tudo aquilo que desejava. E sim, ela efectivamente tinha concebido uma menina, mas também gostaria de a dar à luz e trazer à vida, algo que o próprio deus se apressou a conceder-lhe; assim, quando se tornou manhã e Itomnica saiu do templo, deu finalmente à luz a sua tão desejada filha!

 

Este pequeno mito, ou invulgar história de Itomnica, aparece mencionado numa gravação presente num templo do deus Apolo. Demonstra-nos, acima de tudo, o carácter frequentemente enganador dos deuses gregos, bem como a sempre-necessária prudência para os momentos em que se lidava com as entidades divinas.

Agamémnon matou a sua filha?

Como já dito anteriormente, algumas das questões que os leitores põem ali na secção de pesquisa são tão interessantes que nos deixam a pensar. Por isso, no futuro tentaremos responder a algumas delas. Ontem, por exemplo, um leitor pôs aqui uma potencial questão – [será que] Agamémnon matou a sua filha? A resposta é mais complicada do que poderá parecer à primeira vista.

 

Por um lado, nos Poemas Homéricos e em algumas tragédias é dado a entender que a morte de Ifigénia foi uma das razões para o ódio que Clitemnestra tinha pelo seu marido, levando-a a matá-lo após o final da Guerra de Tróia. Mas, por outro lado, algumas versões mais recentes do mito, e em particular a tragédia Ifigénia na Táurida, dizem que a filha de Agamémnon foi salva pela mesma deusa a quem ia ser sacrificada, tornando-se depois sacerdotista de um dos seus templos.

 

Mas então, será que Agamémnon matou realmente a própria filha? No contexto do mito de Tróia, a resposta mais importante é que ele pensou tê-lo feito. Clitemnestra, Aquiles, e as outras principais personagens da trama também pensaram o mesmo, e é nesse elemento crucial que vão assentando as consequências da sua acção. Mesmo que a filha não tivesse sido sacrificada, o pai demonstrou uma clara e inegável intenção de o fazer – e essa intenção, por si só, é o que condiciona toda a trama futura.

“Utopia”, de Thomas More

A Utopia de Thomas More

A Utopia, de Thomas More, é a história (ficcional) de um filósofo-navegador português, de nome Rafael Hitlodeu, que numa dada altura das suas viagens se encontrou na terra de Utopia, um estado ideal que pouco fica a dever à República de Platão. Porém, a descrição desse Estado – que é o elemento mais famoso da obra – só aparece no segundo livro. O que contém o primeiro? Essencialmente, uma discussão crítica de diversos aspectos culturais do tempo de Thomas More, que depois serve de introdução à possível alternativa vigente nas terras de Utopia.

 

Se, por um lado, uma leitura puramente lúdica desta obra é um pouco enfadonha, por outro uma discussão das ideias apresentadas nesta Utopia poderá ser muito prolífica, na medida que a obra oferece um enorme número de ideias (ou, se assim preferirmos, quase sugestões) que ainda merecem ser discutidas nos nossos dias de hoje. Infelizmente, poucos parecem ter sido os nossos políticos que a leram; quão diferente – e quão melhor – seria o nosso mundo se esta utopia sugerida por More já tivesse sido tornada realidade!

“7 principais deuses da mitologia japonesa”

Maria Kannon

Na imagem podem ver Maria Kannon, uma divindade nipónica particularmente famosa pela sua relação com Santa Maria numa altura em que o Cristianismo estava proíbido no Japão (note-se o estilo oriental, mas com uma pequena cruz na mão direita). São várias as semelhanças entre as duas figuras religiosas, o que certamente terá contribuído para a sua associação.

 

Infelizmente, são poucas as outras histórias que poderíamos contar sobre os deuses dos mitos japoneses, mas existem diversos artigos na internet sobre outras figuras.