“Moana” e a queda do herói civilizador

O filme Moana, e em particular a queda de uma das suas personagens enquanto herói civilizador, dá bastante que pensar.

Quando, nos primeiros séculos da nossa era, os autores cristãos se insurgiram contra as crenças das religiões pagãs, apontavam essencialmente uma grande falha nesses antigos cultos – os deuses (de Zeus e Hércules, passando por Baco, Mitras e incontáveis outros) nada tinham de divinos, eram apenas meros mortais que, após a morte e em virtude das suas boas acções em vida, tinham ficado imortalizados na memória dos homens. O tema já aqui for abordado diversas vezes, mas… inesperadamente, nessa sua refutação os mesmos autores também estavam a perpetuar uma outra ideia, a do herói enquando figura civilizadora, na medida em que estes trouxeram uma simbólica luz ás trevas da humanidade.

 

 

Recentemente, essa ideia pôde ser vista no filme Moana da Disney (parcialmente reproduzido acima), em que o semi-deus polinésio Maui relata os vários benefícios que trouxe à humanidade. É um momento curiosamente inesperado, mas num contexto dos mitos provindos da (nossa?) Antiguidade devemos apontar que o mesmo também se pensava em relação a figuras como Hércules, Apolo ou Thoth. Todos eles tinham trazido “algo” de bom, desde a destruição de monstros que habitavam em lugares obscuros à criação das letras. Os autores cristãos nunca negam isso, mas dizem que venerar essas figuras nada tinha de positivo, na medida em que elas agora já nada podiam fazer para ajudar a humanidade. Mais do que pretender o esquecimento total dessas figuras, queriam era remover a sua função religiosa, tornar a fazer dessas figuras meros homens. E, de alguma forma, conseguiram-no – os Ulisses de Dante ou de James Joyce já não são as mesmas figuras que entravam nos versos de Homero e de Ovídio, mas uma mera sombra do seu papel original.

Porque era Medusa mortal?

Um dos elementos mais invulgares do mito que une Perseu a Medusa é o facto de nos ser dito, repetidamente, que apesar de esta figura feminina ter outras duas irmãs, apenas ela era mortal. A que se deverá essa distinção? Porque era Medusa mortal? Podíamos pensar que, como numa versão de Ovídio, esta figura foi originalmente uma mulher que em virtude do orgulho excessivo nos seus cabelos acabou transformada no monstro, mas isso não explicaria a existência de irmãs.

 

Esta é uma questão tudo menos fácil. As duas outras irmãs górgones, Esteno e Euríale, não são mencionadas em qualquer outro mito, e a sua relação com Perseu prende-se somente com o facto de terem perseguido o herói quando este atacou Medusa. Nunca mais são referidas, se tivermos em conta que já eram conhecidas nos tempos da poesia de Hesíodo, é possível que tivessem tido outros papéis em mitos/religiões mais antigos. Qual era esse papel já não fazemos qualquer ideia, e nenhuma prova nos chegou da Antiguidade que nos permita discortinar esta questão.

Uma breve história da religião

 Apesar de estar em inglês, este pequeno desenho captura bem a ideia da história da religião até aos nossos dias.

O mito de Io

Sobre o mito de Io… Originalmente uma sacerdotisa de Hera, Io acabou por se tornar uma das mais famosas amantes de Zeus. Se, inicialmente e como tantas outras mulheres, parece ter rejeitado os avanços amorosos do deus, acabou por sucumbir ao amor deste. Todas as versões do mito apresentam estes elementos basilares, mas depois a trama do mito complica-se um pouco.

 

Por uma qualquer razão (seja pela intenção de Zeus em ocultar Io, ou de Hera em puni-la), esta figura foi transformada numa vaca, sendo posta sob a guarda de Argos. Posteriormente, o rei dos deuses do Olimpo enviou Hermes para libertar Io – a versão mais famosa do episódio, constante na obra de Ovídio, diz-nos que este deus adormeceu Argos contando-lhe histórias, cortando-lhe o pescoço após ter adormecido os seus muitos olhos. Após este episódio Hera enviou um moscardo que, noite e dia, incomodava a bovina Io; tentando escapar dele, a heroína passou da Grécia para o Egipto (nessa passagem dando o nome ao Bósforo) e acabou por voltar à forma humana, tendo filhos de Zeus e casando com um rei do Egipto.

 

Este mito é um bom exemplo das atribuladas vidas que tiveram as mortais que se envolveram amorosamente com os deuses gregos.Casos como os de Alcmena e Europa são disso um igualmente bom exemplo. Dados os justificáveis cíumes de Hera e a diferença de estatutos entre os amantes, estas eram relações que nunca poderiam correr bem.

Quando morreu Jesus Cristo?

Esta é uma daquelas perguntas que muitos se fazem – quando morreu Jesus Cristo? Vulgarmente, hoje costuma pensar-se que ele foi crucificado por volta dos 33 anos, mas é curioso notar que essa não era a única opinião nos tempos da Antiguidade. No segundo livro da sua obra Contra as Heresias, Santo Ireneu – que viveu no século II d.C. – diz que Jesus só morreu após ter passado os 50 anos. É uma sequência um pouco invulgar, mas essencialmente o autor argumenta contra a ideia de que Jesus foi baptizado aos 30 anos e só pregou durante um máximo de 12 meses. Depois, diz o seguinte, que aqui foi traduzido para português:

Um santo da Antiguidade

Jesus passou por todas as idades, sendo um bebé para os bebés, assim os santificando; uma criança para as crianças, assim santificando os que são dessa idade (…), um jovem para os jovens, tornando-se um exemplo para eles (…); um velho para para os velhos, para que Ele pudesse ser um Mestre perfeito para todos, não apenas ao apresentar a verdade, mas também em relação à idade, santificando ao mesmo tempo os idosos e sendo também para eles um exemplo.

(…) Agora, o primeiro estádio da vida é de trinta anos, e prolonga-se até ao quadragésimo ano, como todos admitem; mas do quadragésimo e do quinquagésimo ano um homem começa a declinar até à velhice, que o nosso Senhor possuía quando ainda ensinava, como o Evangelho e os mais velhos testemunham; aqueles que falaram na Ásia com João, o discípulo do Senhor, afirmaram que ele lhes deu essa informação. E ele ficou entre eles até aos tempos de Trajano. Além disso, alguns deles viram não só João mas também outros apóstolos, e ouviram a mesma história deles, e testemunham em relação a esta informação.

 

O que fazer destas linhas? Estarão elas correctas, ou estaria Santo Ireneu enganado neste ponto em particular, mas correcto em relação a muitos outros que vai apresentando nos seus livros? Fica, como muitas outras vezes, a questão, e uma potencial resposta que nos mostra que uma pergunta como Quando morreu Jesus Cristo? nem sempre é tão simples como poderá parecer.