Algumas crucificações de Jesus Cristo

Em altura de Páscoa podemos recordar três histórias menos conhecidas da crucificação de Jesus Cristo, estas provindas de evangelhos e histórias gnósticas. Não é, evidentemente, nestas tradições que a Igreja acredita hoje em dia, mas nada é perdido em relembrá-las.

 

Numa delas, quando Simão de Cirene o ajuda a transportar a cruz durante parte da via sacra, Jesus troca de identidade com este. Ou seja, é este Simão, sob a forma humana de Cristo, que acaba por ser crucificado, enquanto que o verdadeiro Jesus se ri de toda a cena, supostamente pelas pessoas acreditarem que Deus poderia ser crucificado.

 

Numa outra, Jesus era um homem comum sobre quem o Espírito Santo desceu no baptismo. Foi só nesse momento que ele se tornou o Cristo, e depois, quando está a ser crucificado, grita “Meu poder, meu poder, porque me abandonaste?”. Nessa corrupção do texto bíblico, ele estaria então a dizer que o poder divino de Cristo, que desceu sobre a si no baptismo, agora se tinha afastado – era mero homem, novamente.

 

Numa história já da Idade Média, Jesus é crucificado numa cruz que ele próprio fez (recorde-se que provavelmente foi, tal como José, carpinteiro), usando a madeira da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal – a mesma de onde Eva tinha colhido o famoso fruto. Ninguém parece ter pensado que isso implicava ir ao Paraíso e, por razões que desconhecemos, decidir voltar a sair desse local idílico.

 

Todas estas histórias, distintas das dos quatro evangelhos canónicos, tinham uma espécie de função. Nem sempre é muito fácil distinguir qual seria, mas nos dois primeiros casos poderão ter advindo da necessidade de argumentar que Deus (ou uma qualquer figura divina) não poderia morrer na cruz, enquanto que a terceira nos poderá levar à ideia de uma ligação mais directa entre o pecado original e a sua remissão pelos actos de Jesus.

Faleceu a Professora Maria Helena da Rocha Pereira

Faleceu, a noite passada, a Professora Maria Helena da Rocha Pereira (link). Ficam os nossos mais sinceros pêsames.

Para recordar outros tempos, um vídeo da Xena

 

Aqui fica, para todos aqueles que quiserem recordar uma boa série.

A história de Creso

A história de Creso e de Sólon surge aqui porque recentemente nos foi pedido um mito sobre a avareza e a fortuna. Várias poderiam ter sido as hipóteses, mas optámos por um que, por muito estranho que pareça, nunca cá foi abordado directamente ao longo dos anos – a história de Creso. E chamamos-lhe “história” pelo facto de ter indiscutivelmente um fundo de verdade, mais ou menos pequeno de acordo com o estudioso que pretendam ouvir.

O confronto de Creso e Sólon

Creso foi um dos mais famosos monarcas da Antiguidade, sendo as riquíssimas ofertas que fez ao santuário de Delfos referidas por múltiplos autores. Um dia foi visitado por Sólon, um grande filósofo grego, a quem decidiu perguntar se existia alguém mais afortunado que ele. Sólon respondeu-lhe com as histórias de Telo de Atenas e de dois irmãos (Cleóbis e Bíton), dizendo-os mais afortunados que o rei, antes de concluir com um enorme aviso, que ficou para a história – “Creso, não contes nenhum homem como afortunado até ao dia da sua morte”, para grande desprazer do rei.

Algum tempo mais tarde Creso decidiu visitar o oráculo de Delfos, onde perguntou ao deus Apolo se deveria atacar a Pérsia. A resposta, também ela, ficou para a história – “Creso, se atacares um grande império será destruído”.

Creso decidiu, com base nessa resposta divina, atacar a Pérsia. Foi derrotado e condenado por Ciro o Grande, rei da Pérsia, a morrer numa fogueira. Os pormenores restantes divergem entre as fontes, mas numa das versões mais famosas o rei gritou “Sólon! Sólon! Sólon!”. Ciro mandou apagar a fogueira (ou esta foi apagada com a intervenção divina de Apolo) e pediu uma explicação para as estranhas palavras…

 

Só aqui apresentamos o cerne da história de Creso, que pode ser vista de forma mais detalhada nas Histórias de Heródoto, pelo facto de ser bastante relevante para o pedido que nos foi feito. Ilustra perfeitamente um grande problema em todas as sociedades, o facto das pessoas raramente pensarem no amanhã, como se a vida fosse estável e eterna. Sólon tentou avisar Creso que a sua fortuna não duraria para sempre, mas o rei nunca o quis ouvir. Também nós, demasiadas vezes, nos recusamos a ouvir o que nos dizem, focando-nos, como neste rei, também só naquilo que confirma as nossas expectativas. O aviso de Sólon, por muito que nos seja repetido, poucas vezes é ouvido. E depois, como o rei, quando já é tarde demais, repetimos “Sólon!”…

Mitos gregos desconhecidos?!

Uma expressão muito procurada neste espaço refere-se a “mitos gregos desconhecidos”. E com toda a honestidade deste mundo até publicaríamos de bom grado algumas linhas sobre isso, mas como é suposto que consigamos falar de algo que é desconhecido?! Talvez seja um dos grandes problemas da pesquisa em motores de busca, só descobrem o que pode realmente ser encontrado na internet. Fica, por isso, apenas uma promessa continuada – se encontrarmos mais mitos “desconhecidos” iremos deixá-los por cá, como é nosso costume!