O gato da imperatriz

Muitas são as histórias de animais na Antiguidade. Desde as fábulas de Esopo até à história de Incitatus, o cavalo que Calígula (supostamente) quis tornar senador, um grande número de animais ocupa as muitas páginas das histórias gregas e latinas. Porém, quando há uns tempos me pediram uma sobre um gato, não me pareceu existir qualquer que fosse especialmente notável, até ter encontrado a que reconto em seguida.

 

Diz então a história que a esposa de Constantino IX Monómaco tinha um gato com os seus próprios servos, que lhe compravam a comida e o transportavam numa cesta. Este gato comia até num prato de ouro, e quando o animal subiu para um telhado a imperatriz decidiu queixar-se perante o senado, cujos membros parecem ter tido alguma dificuldade em suprimir o riso. Pouco mais se sabe sobre as aventuras deste animal, excepto que após o falecimento do feliz animal (provavelmente não relacionado com a sua subida a um telhado, mas as fontes consultadas não clarificam esse ponto), a imperatriz obteve um cão, que depois foi criado da mesma forma e continuou a usar as ricas tigelas do seu antecessor.

Histórias do Zodíaco #1 – o Carneiro

O tema dos 12 signos do zodíaco já cá foi abordado, de forma muito simples, no ano de 2012, mas face à curiosidade de algumas pessoas achei que poderia dedicar mais algumas linhas ao mesmo. Assim, as histórias desse ciclo celeste irão ocupar as próximas semanas deste espaço.

 

Se o signo do carneiro até poderá ter tido uma origem mais antiga (como ocorre com diversos outros, importa frisar), em específico através de uma figura com cabeça de carneiro que já existia na religião egípcia, a sua história mais famosa provém dos mitos gregos. O mito dos Argonautas, de que nos falam as obras de Apolónio de Rodes e Valério Flaco (entre outras), apresentava os viajantes da Argo, comandados por Jasão, a tentar obter um tosão de ouro que existia em terras de Cólquida. Esta trama é famosa, mas também tem um prefácio bem menos conhecido.

 

Alguns anos antes o rei Atamas tinha tido dois filhos, Frixo e Hele, fruto de um primeiro casamento. Casou depois com Ino, que tinha uma inveja enorme das duas crianças; para se livrar destas, a nova esposa induziu uma enorme fome nessas terras de Beócia (presume-se que tenha recorrido a magia negra) e falsificou uma mensagem de Delfos, segundo a qual o problema da região só acabaria com o sacrificio de Frixo.

Se o rei Atamas não gostou dessa mensagem, pelo seu dever régio decidiu que tinha mesmo de sacrificar o filho. No entanto, este, juntamente com a irmã, foram salvos por um carneiro voador enviado pelos deuses. Hele acabou por cair num local que viria a chamar-se Helesponto em sua honra (i.e. “Mar de Hele”), mas Frixo chegou com o carneiro até terras da Cólquida, onde foi bem recebido pelo rei Eetes – já famoso do mito dos Argonautas – a quem ofereceu o tosão do animal aí sacrificado. O carneiro também foi, nessa altura, colocado nos céus, onde ainda hoje pode ser visto, enquanto que a sua singular lã apareceria depois no mito dos Argonautas, de que já falei acima.

Significado das prendas dos três reis magos

Uma questão relativamente comum prende-se com a simbologia e significado das prendas dos três reis magos, hoje tão famosos dos seus eventos no Novo Testamento. Tentarei explicá-lo, mas isso implica também implica dar aqui alguma informação adicional.

 

Primeiro que tudo, os magoi (o seu nome grego) aí referidos tinham a sua designação pela religião que praticavam, o Zoroastrianismo. Não eram reis e nada tinham de mágicos, no sentido moderno da palavra, mas na sua religião existia uma enorme ênfase na observação do movimento dos astros. É por essa razão que quando viram uma estrela a mover-se nos céus a decidiram seguir, já que um dos preceitos da sua religião dizia que este invulgar astro acabaria por conduzi-los ao salvador do mundo.

Quantos eram os viajantes? Se hoje são considerados três, no relato bíblico e nas tradições mais antigas nada nos é dito sobre o seu número, com este elemento numérico a provir, muito provavelmente, do número dos seus presentes, como se cada um deles tivesse decidido que devia levar algo de diferente para o recém-nascido.

Poderia parecer-nos que esta era uma ideia com alguma lógica, mas a razão por detrás dos três presentes é bastante diferente e nada tem a ver com o potencial número de viajantes. Ao oferecerem ouro, incenso e mirra a Jesus, os viajantes pretendiam testá-lo, ver qual o presente que aceitaria em primeiro lugar, de forma a compreenderem se este era um rei (para quem o ouro seria uma prenda digna), um deus (que mereceria o incenso) ou um mero mortal (a quem se destinaria a mirra). Jesus aceitou todas as três prendas ao mesmo tempo, como que declarando que era um rei, um deus e também um mortal.

“Quilíadas”, ou “Livro das Histórias”, de Tzetzes (livros V a VII)

O quinto, sexto e sétimo livros das “Quilíadas” estão agora disponíveis, juntamente com os anteriores, aqui.

Origem da expressão “O Homem é um lobo para o Homem”

Sobre esta expressão, que originalmente dizia homo homini lupus, aqui fica uma pequena tradução das linhas que Erasmo lhe dedica, nos seus Adágios:

 

“Antropos antropou lukos”, o Homem é um lobo para o Homem. Quase o contrário da anterior [i.e. “Homo homini deus”] e aparentemente derivada da mesma, é uma frase de Plauto na Asinaria. Aqui somos avisados a não confiar numa pessoa desconhecida, mas a ter cuidado com ela como se de um lobo se tratasse. “O Homem é um lobo e não um homem”, diz Plauto, “para aquele que nada sabe sobre o seu carácter”.