O “Terceiro Mitógrafo do Vaticano”

O Terceiro Mitógrafo do Vaticano distancia-se dos anteriores, já cá falados anteriormente, pelo facto da sua preocupção não ser a de recontar mitos, mas sim a de moralizar e explicar muitos dos elementos mitológicos da Antiguidade. Assim, se os dois anteriores podiam ser caracterizados pelo largo número de histórias que contavam, já este foca-se em menos temas (cerca de 15), mas dá um tratamento muito alongado a cada um deles, falando dos deuses, de Hércules, de Perseu, e das histórias do zodíaco, enquanto justifica e interpreta diversos mitos associados a cada um deles.

 

Contudo, se as duas obras anteriores eram ligeiras, de fácil leitura, já esta explora essas histórias dos deuses e heróis de uma forma tão enfática que se torna de difícil leitura, quase entendiante. Ao falar do deus dos Infernos, por exemplo, o autor aborda diversas concepções da vida e da morte na Antiguidade, que não deixam de ser interessantes, mas que pouco têm a ver com o próprio deus, e com os mitos a ele associados. Repetidamente, o autor pega em histórias que, muitas vezes, até são simples, e explora-as a um ponto que, uma e outra vez, o levam a ter de dizer “mas voltando ao nosso tema”, tal é o afastamento do tema principal que, entretanto, acaba por atingir.

 

Para terminar, uma pequena menção à autoria desta obra, que é um pouco mais complexa que a das obras anteriores. Se o texto não aparece assinado, a sua autoria parece ter sido “descoberta” há já alguns anos, mas, tanto eu como alguns colegas, estamos cépticos em relação a essa ténue “identificação”. Portanto, é melhor ver este texto como anónimo, mas ficando, também, a referência à “desoberta” de uma possível autoria.

O mito de Molorco

A história da figura de Molorco é simples – era um pastor que bem recebeu Héracles aquando do seu primeiro trabalho, e com quem o herói fez um sacrifício aos deuses.

 

A simplicidade deste pequeno mito poderia levar-nos, ainda assim, a uma questão maior, a do porquê da existência de mitos assim. E a resposta é, aqui, mais simples do que poderia parecer – teria sido esta figura a plantar o bosque de Nemeia, e a criar uma cidade dela próxima, a que deu o nome – levando-nos a concluir que este é um mito etiológico, ou seja, uma pequena história criada para justificar a existência de algo, aqui um bosque a uma cidade, bem como o nome da segunda.

Os círculos do reino de Hades

Há algum tempo foi cá falado da Divina Comédia, de Dante. Na primeira parte da obra, esse autor italiano divide o Inferno em vários círculos, e através de uma personagem homónima vai caminhando através deles, até chegar às figuras de Satanás, Bruto, e Judas. Mas quais teriam sido as fontes de Dante para essa ideia? Será que ele criou toda essa concepção do submundo? Poderia pensar-se que sim, mas, aparentemente, isso não é totalmente verdade. Sabe-se que o autor estava familiarizado com muitos mitos gregos e latinos, alguns dos quais bastante obscuros, e entre eles poderia até estar uma concepção do submundo muito semelhante à que usa na sua obra.

 

Assim, a obra de Sérvio, referida aqui há algum tempo, associado ao canto VI da Eneida uma curiosa concepção do submundo, que, apesar de não ocorrer directamente nessa obra, o comentador parecia conhecer, e que se estruturava da seguinte forma:

1º círculo – crianças

2º – os que não conseguiram ficar vivos

3º – os que se suicidaram

4º – os amantes

5º – os homens fortes

6º – os culpados, que são punidos pelos juízes (não está claro se o autor se refere aos juízes do submundo)

7º – local onde são purificadas as almas

8º – as almas já purificadas, prestes a retornar aos corpos

9º – as almas já purificadas, mas de tal forma que vão, agora, para os Campos Elísios

 

Se esta estrutura até é diferente da presente na obra de Dante, em que as almas não parecem sequer conseguir caminhar de um círculo para outro, aqui o submundo também é mostrado como um local onde vão sendo punidas, ou purificadas, as almas dos que morrem, e poderá ter sido daí, por adaptação, que o famoso autor italiano tirou parte da sua ideia. Mas não só, até existem outras fontes com ideias semelhantes

O local de Santa Ninfa

Existe, na Sicília, um local de Santa Ninfa, que dizem supostamente tratar-se de uma santa mártir do século IV, que, como é natural, teria esse nome… mas, até devido à singularidade do nome, tudo fará mais sentido se se tiver em conta que o mesmo local, anteriormente, tinha o nome de Ad Nymphas devido às suas belas águas, e que a existência dessa santa não é atestada em qualquer fonte credível da Antiguidade.

 

Trata-se, portanto, de uma situação em que uma santa foi inventada para dar o nome a um dado local, que então se passou a chamar o local de Santa Ninfa, e se a vida (que nada tem de histórica, note-se isso) da mesma santa até menciona a localidade em causa, esta não é uma daquelas muitas situações em que uma santa deu nome a um local, mas sim uma curiosa excepção em que o local veio a dar o seu nome a uma (muito potencialmente falsa) “santa”.

“Vida de Homero”, atribuída a Heródoto

Existe um relato de uma vida de Homero atribuída a Heródoto. Sobre a veracidade da trama, ou sobre se será, efectivamente, um texto desse famoso historiador, é algo difícil de disputar e só brevemente será feito aqui, sendo o enfoque num aspecto mais curioso desta obra, e que me pareceu útil referir.

 

Homero seria então, de acordo com esta versão, um homem chamado Melesigenes, e, como parecerá natural, este relato preserva a sua vida, parte da sua obra, a sua “transformação” em Homero após a cegueira, e a sua morte, mas… mais que tudo, este é um texto que como que funde a obra do autor com a própria figura deste. De facto, ao longo da obra surgem múltiplas citações dos textos de Homero (incluíndo poemas tão obscuras como Os Oleiros), e sobre cada uma delas é dito que foi produzida, ou incluída numa dada obra, para fazer referência a um qualquer evento, ou figura, da vida do poeta.

 

Para dar um exemplo notável, a personagem Mentor da Odisseia seria então uma figura real, que Homero conheceu, e que decidiu preservar na sua obra, face à amizade que os unia. Também, num dado momento e para agradar a uma audiência de oleiros, o autor declama um pequeno poema, Os Oleiros, de forma a deles receber um benefício.

 

Agora, até que ponto é este texto real, e pode ser considerado como um verdadeiro relato da vida de Homero? Muito sucintamente, digo que… não pode, nem deve, ser visto como tal, e desenganem-se aqueles que poderiam pensar o contrário, até porque, para deixar de lado argumentos mais complexos, teriam passado vários séculos entre a vida do possível autor dos textos homéricos e a escrita desta obra, mesmo que ela tivesse, realmente, sido escrita por Heródoto.