O mito do Rapto de Proserpina

O mito do Rapto de Proserpina, conhecida entre os Gregos como Perséfone, conta-nos um dos eventos mais famosos da Mitologia Grega e Romana, que todos aqueles que gostam de mitos e lendas deveriam conhecer. Por isso, segue-se uma descrição simples, muito simples, de toda a história:

O Rapto de Proserpina

Quando Proserpina se encontrava a apanhar algumas flores num prado, juntamente com algumas ninfas, Plutão apareceu e, cativado pela sua beleza, raptou-a, levando-a para o seu submundo.

Ceres, sua mãe, desconhecia o que se tinha passado, e então decidiu procurar a filha. Tanto procurou que a natureza e as culturas, que tutelava, foram apodrecendo, o Inverno instalou-se, e pouco ou nada crescia. Entretanto, com a ajuda de um outro deus (Sol), veio a saber o que se tinha passado, e decidiu pedir a Júpiter ajuda para ter a sua filha de volta.

Quando contactado pelo deus Mercúrio, enviado de Júpiter, Plutão acedeu ao desejo de Ceres de ter a filha de volta, mas somente de uma forma parcial… visto que esta tinha, no submundo, comido seis sementes de romã, teria então de permanecer esses tantos meses por ano no outro mundo, voltando à companhia da mãe nos restantes. E assim foi, a partir desse momento.

(Quem preferir os deuses gregos pode substituir o nome da heroína por Perséfone, Plutão por Hades, Ceres por Deméter, Sol por Hélio, Mercúrio por Hermes, e Júpiter por Zeus)

 

Considerando este mito do Rapto de Proserpina como uma história urdida para explicar algo, torna-se simples compreendê-lo como uma explicação para a existência das estações do ano, para o facto das culturas dos campos crescerem em alguns meses mas não em outros. Porém, ver este mito dessa forma também é demasiado redutor, por escapar a essa interpretação todo um conjunto de aspectos que faziam deste mito algo tão importante ao ponto de ter todo um importante culto a si associado, os Mistérios de Elêusis.

 

Mais do que uma simples explicação, o mito do Rapto de Proserpina é quase uma certeza da vida eterna, porque como a Perséfone grega voltaria ano após ano, tal como as culturas voltariam repetidamente após cada espaço de tempo, também todos aqueles que aceitavam e apoiavam a mensagem do culto teriam esse mesmo acesso a uma renovada vida, (talvez) depois da de agora. Como a dupla viagem de Orfeu, também a continuada e repetida viagem de Perséfone seria uma certeza eterna de uma nova vida, e seguindo e exemplo da deusa também nós estaríamos como que condenados a, uma e outra vez, “escapar” deste mundo e a ele regressar.

 

Contudo, a enorme importância deste mito não se resume nem se esgota nestes breves comentários. Podemos, por exemplo, pensar na simbologia das seis sementes da romã, ou na existência do prado de onde a deusa foi raptada (se não me engano, alguns autores referiam até a existência de um culto nesse lugar, portanto conhecido e identificado), e muitas outras coisas que tais. Pense-se nisso, porque este é um daqueles mitos que, para seguir uma expressão poupar, “dá pano para mangas”…

“Dos Oráculos da Pítia”, de Plutarco

Sim, mais um texto de Plutarco, normalmente incluído na Moralia. Este, também conhecido por algum título como Porque deixaram os oráculos de ser dados em verso, fala-nos… bem, de precisamente o que esse título dá a entender. O autor, que se sabe bem informado nestes temas, dá diversas razões para essa alteração. Não as irei mencionar todas (este local nunca deve ser visto como um substituto à leitura das próprias obras), mas duas delas pareceram-me suficientemente interessantes para serem mencionadas por cá:

 

– Os deuses só podiam aproveitar as coisas que eram naturais a cada criatura por eles criada. Isto, em termos latos, quer dizer que a previsão do futuro feita através de pássaros só poderia ser feita através do voo dos mesmos, e estes não poderiam fazer quaisquer previsões em voz humana, por não a terem. Da mesma forma, uma Pítia que não soubesse poesia jamais poderia proferir previsões em verso. Isto denota uma curiosa limitação dos deuses gregos, que certamente não eram omnipotentes, como se pode ver em muitos mitos;

 

– Os oráculos em verso, (talvez?) desde o início, estavam reservados a questões mais complicadas e importantes, cuja resolução poderia suscitar vinganças contra o Templo de Delfos. Disso é um perfeito exemplo a conhecida questão do rei Creso, mas já as questões simples – quando fazer colheitas, se dada pessoa se deveria casar, e assim por diante – teriam sido sempre respondidas em prosa, e de uma forma mais directa. Ao fazer-se um estudo dos vários oráculos que sobreviveram até hoje (e existem pelo menos dois bons livros sobre isso), poderá até constatar-se que isto é verdade.

 

Contudo, não posso deixar de mencionar uma ideia patente no final da obra. Aí, o próprio autor alude à ironia por detrás da questão que inspira este texto: se os oráculos eram dados em verso, tornavam-se demasiado obscuros, as pessoas tinham dificuldade em entendê-los, e queixavam-se da forma dos mesmos, MAS agora que os oráculos eram em prosa as pessoas estavam, então, a queixar-se dessa nova forma. É, como diz a sabedoria popular portuguesa, uma daquelas jocosas situações de “ser preso por ter cão, e ser preso por não o ter”…

O “Poema contra os Pagãos”

O Poema contra os Pagãos (em Latim, Carmen contra paganos) é um texto curioso . Pela temática e por várias referências aí feitas entende-se que, muito provavelmente, será no mínimo do século IV d.C., e apesar da autoria do texto (que pode ser lido online e em tradução, por exemplo, neste link) ser desconhecida, parece-me demasiado provável ser da autoria de um cristão.

O Poema Contra os Pagãos

De uma forma geral, parece-me fácil dividir o Poema contra os Pagãos em duas partes, e é daí que nasce esta referência ao mesmo. Se, no início, este parece ser mais um daqueles textos cristãos contra os pagãos, com as usuais referências às traições de Júpiter, ao Destino como sendo superior aos próprios deuses, aos rituais envolvendo o sangue de gado, e assim sucessivamente, num segundo momento já existe algo um pouco menos frequente, uma crítica directa a alguém que praticava essa antiga religião, através de várias menções a diversos episódios em que os deuses, os rituais ou as anteriores instituições não teriam sido capazes de resolver esta ou aquela situação.

 

Se, nos textos cristãos da época, o primeiro momento é comum, já este segundo deste Poema contra os Pagãos permite-nos, creio eu, constatar um novo momento do Império Romano, pós-Constantino, em que as críticas religiosas já não se dirigiam tanto a um grupo geral mas, agora, a pessoas específicas, como membros importantes da outra religião, e apesar deles ainda não serem ainda mencionados de uma forma demasiado directa, que nos permita saber, sem margem para dúvidas, quem era a pessoa no foco dessa crítica, pelo menos textos como este permitem que nos apercebamos de uma crescente ousadia, de uma oposição cada vez maior, à religião dos pagãos, que eventualmente levará à destruição dos templos, confiscação de patrimónios, e outras coisas desse mesmo género.

Como se escreviam os números grandes na Antiguidade?

Mesmo quem pouco saiba sobre a cultura dos romanos saberá, normalmente, como representar os números deles, mas isso é apenas o início de um problema significativo – afinal, como se escreviam os números grandes na Antiguidade?

“I” para 1

“IV” para 4

“X” para 10

“LXVII” para 67

“CCXXIII” para 223

“CDXL” para 440

“CMXCIX” para 999

“MMMCDXXI” para 3421

“MMMCMXCIX” para 3999

 

Mas… e como escrever 4000? 10000? Ou números ainda maiores? Pensemos, portanto, no primeiro desses exemplos. Para escrever qualquer número que incluísse um quatro, normalmente teríamos de saber como escrever o cinco e, depois, subtrair-lhe um da unidade em questão, como nos casos de IV, XL, ou CD. Porém, sem saber como se escreveria 5000 (um número raro nessa cultura, importa mencionar), torna-se impossível saber como escrever 4000.

 

Ao ler, então, um texto de Arquimedes (trata-se de O contador de Areia, em que o autor calcula a quantidade de areia que caberia num universo finito) encontrei, finalmente, a resposta. Apesar de se tratar de um texto grego, a solução encontrada pelo autor também se aplica à cultura romana. A resolução do problema passa por recorrer à multiplicação, ou seja, para escrever um número como 5000, deverá então escrever-se 5×1000, sendo que, no caso dos romanos, essa multiplicação “por mil”, em específico, parece poder ser representada com um tracinho acima do número que pretendemos multiplicar. No caso de Arquimedes, ele estabelece um valor base (creio que 10000?) e obtém os seguintes fazendo multiplicações com esse valor, ou seja, para escrever 20000 ele escreveria 2×10000, para escrever 1000000 ele escreveria 100×10000, e assim sucessivamente.

 

Agora, é óbvio que este procedimento, e toda esta ideia, tem os seus limites. Eventualmente, toda e qualquer multiplicação terá o potencial de atingir um novo limite máximo, e se na teoria de Arquimedes (que, no livro acima, aborda este tema levemente) se poderá chegar a qualquer número, por muito grande que ele seja, eventualmente chegar-se-á sempre ao problema de os representar graficamente.

“Questões Gregas” e “Questões Romanas”, de Plutarco

As Questões Gregas e Questões Romanas são duas obras de Plutarco, normalmente incluídas entre os tratados das Obras Morais (ou Moralia,) em que o autor responde, ou pelo menos tenta responder (em muitas delas o autor apresenta várias respostas possíveis, sem nunca concluir qual delas é a mais acertada), a um conjunto de perguntas sobre as culturas grega e latina. Eventualmente, o autor explica a resposta para questões como “Porque é que as mulheres cumprimentam as suas relações com a sua boca?” (i.e. beijando-as, supõe-se…) ou “Porque é Janeiro o primeiro mês do ano?”, mas também aborda tópicos mais culturais e religiosos, bem como até alguns mitos.

 

Tendo em mente que, no seu total, o autor aborda mais de uma centena de tópicos diferentes, torna-se bastante difícil descrever todas elas por cá, mas posso e devo dizer que, para qualquer pessoa que queira estudar alguns aspectos menos conhecidos, até obscuros, de ambas as culturas deverá, sem dúvida, ler estas duas obras.