“Livro das Memórias”, de Lúcio Ampélio

Neste Livro das Memórias, de Lúcio Ampélio, de um conteúdo quase escolar, o autor aborda um conjunto de tópicos que aparentemente fariam parte da cultura geral da altura. São abordados temas de História, de Geografia, de Mitologia, entre muitos outros. No contexto deste espaço, parece-me correcto fazer uma referência aos capítulos II, VIII e IX. O primeiro destes fala sobre os doze signos do Zodíaco, explicando de onde provinha cada um deles, um tema ao qual voltarei outro dia. O segundo relata as muitas maravilhas do mundo, que o autor parece bem conhecer. Sobre o terceiro, o autor levanta a tese de que existem vários deuses de nomes iguais, e aborda, por exemplo, a multiplicidade de figuras chamadas “Júpiter”, que nem sempre coincidiam e pertenciam a um mesmo deus; isso, antes de distinguir essas várias figuras homónimas.

 

Importa referir, porém, que estes capítulos compreendem menos de um quinto da obra, sendo o restante relativo à história universal, com uma óbvia ênfase na história de Roma.

Algo a (não) fazer no ensino das Clássicas

Normalmente eu não abordaria um tema desta índole por cá, até porque sempre acreditei que este deve ser um blog sobre Literatura e Mitologia Clássica, sobre o interesse e a beleza de muitos mitos e obras da época, em detrimento de um repetitivo espaço de discussão de 5000 palavras sobre a forma como a tradução de uma dada palavra foi feita, mas desta vez a situação é demasiado caricata para eu a poder ignorar.

 

Chegou-me, há uns dias atrás, uma questão feita numa prova de avaliação de uma universidade portuguesa: Quem são os filhos de Príamo referidos na Ilíada?

 

Inicialmente até pensei que isto se trataria de uma brincadeira, mas, pelo menos aparentemente, não o era. Ora bem, se por um lado eu compreendo a importância dos alunos saberem que Páris, Heitor ou Cassandra eram filhos do rei de Tróia, não entendo porque razão deverão estudantes ter de saber que o mesmo se passa com Iso, ou que Esaco também o era, apesar deste segundo não ser mencionado por Homero. Note-se que esta pergunta parece até assumir duas subquestões – quem era os filhos de Príamo, e quais deles são mencionados por Homero – nenhuma das quais tem particular interesse ou valor formativo. Agora, se, em certos ambientes, eu entendo que uma recitação dos nomes dos filhos de Príamo possa ter alguma importância, até porque alguns deles têm outros mitos associados, o que não compreendo é o porquê de se pedir a seja quem for que responda a uma questão desta natureza.

 

A meu ver, e é essa a razão da escrita desta mensagem, este tipo de questão é um perfeito exemplo de muito que, hoje em dia, está mal no ensino das Clássicas. Uma coisa seria perguntar a alguém os nomes dos principais heróis troianos, ou de algum filho de Príamo que tivesse feito algo de especialmente relevante para a trama, mas uma outra, bem diferente, é perguntar a alguém quantos cálices de vinho foram bebidos no decorrer da obra, ou quantas frases foram ditas por Odisseu, ou até em que dia do mês foi Helena de Tróia raptada. Se os primeiros dois elementos são importantes, têm relevância para a obra, já os outros três são meras curiosidades.

 

Se existem, como sempre existiram, obras da Literatura Clássica com uma soberba beleza, porquê torturar os alunos com perguntas que, mais do que testarem conhecimentos, os levam a odiar as mesmas obras que estudam? Se, por exemplo, um aluno tiver de ler “Sobre a Velhice” (de Cícero), eu creio que faria total sentido que a avaliação de conhecimentos incidisse no conteúdo relevante da obra, e não sobre o número de vezes que um dado autor é citado, ou sobre a idade de todas as personagens envolvidas.

 

A existir, e é óbvio que acredito no seu valor real, o estudo das Clássicas, e em especial da Literatura Clássica, deveria reger-se pela importância das muitas obras que sobreviveram ao peso dos anos, com as quais ainda hoje podemos aprender bastante, e não tanto com curiosidades que serão esquecidas cinco minutos depois de um exame. Se, pessoalmente, eu até tenho algum fascínio com alguns elementos secundários, também sei o quão irrelevantes estes por vezes são, e sei discernir entre o que é importante e o que é secundário. Ao perguntar-se a aluno o nome dos filhos de Príamo (cuja descendência, segundo alguns autores, chegava a uma centena), está-se não tanto a fomentar o interesse na literatura mas sim a promover uma visão horrenda desta literatura, em que o aluno não se irá lembrar das palavras de Homero, ou dos conselhos de Ovídio, mas pura e simplesmente da dificuldade que teve em conseguir uma nota de aprovação na avaliação final.

 

Atenção, nada tenho contra avaliações, até porque são sempre necessárias, mas há que saber o que realmente se pretende avaliar. Se é para um docente somente mostrar a sua virtual superioridade face a um conjunto de alunos, perguntas como a mencionada acima têm todo o sentido, e serão até aceitáveis, nesse mundo onde ele é rei e senhor. Porém, isso nada de bom fará aos alunos, bem pelo contrário, estará a perpetuar uma visão cada vez mais comum, em que as Clássicas são vistas como ultrapassadas e reservadas a uma selecta elite. Assim, estarão condenadas a uma morte lenta, porque em detrimento de atraírem quem as ama, estarão a atrair quem procura as novas facilidades dos cursos de Letras, em que cada vez há melhores notas e piores licenciados.

 

Em detrimento de questões como a mencionada no segundo parágrafo, fazia muito mais sentido que os estudantes fossem confrontados com questões que permitissem uma maior interacção entre os conteúdos lidos e a experiência pessoal. Por exemplo, relativamente a Édipo, será que ele merecia ser castigado por ter morto o pai e casado com a mãe? Não existe resposta certa nem errada, mas um conjunto de argumentos que, baseados no próprio estudo do mito, seriam interessantes de considerar. No contexto da Ilíada, para dar um exemplo adicional, pode-se sempre confrontar um aluno com as acções de dadas personagens (Diomedes, Aquiles ou Zeus, apenas para mencionar três das mais óbvias), e pedir-lhe que as insira no contexto da obra. Isso sim, seriam questões que não só testam o conhecimento do aluno como também o poderiam fazer interessar-se pelas obras que lê, levando-o a procurar novas leituras nessa área, o que tem uma crescente importância nos dias de hoje, já que ainda existem muitas lições a serem retiradas dessas mesmas obras.

 

Para terminar, convém mencionar que a questão original tem uma resposta real, mas é também demasiado trabalhosa e secundária. Se, enquanto aluno, eu fosse confrontado com ela, provavelmente preferiria perder alguns pontos a investigá-la… porém, e em pior caso, bastaria ler toda a obra de Homero com o único propósito de anotar os nomes dos filhos (e filhas, aproveite-se para tal) de Príamo. Seria um trabalho absurdo, uma total perda de tempo, mas a questão pode ser respondida… só não entendo é o porquê de alguém o querer fazer, já que seria uma pesquisa ridícula, e até sem qualquer valor formativo real. Se alguém o fez gabo-lhe a paciência (e a possível insanidade?), mas convém mencionar que a questão valia menos de 0.5 valores; será esse o meio ponto que aparta a figura do professor da de Deus, na tão famosa ladainha “19 é para o professor, 20 é para Deus”?

A formação dos quatro elementos segundo Pitágoras

O gerador universal é a mónade; as formas e os números da mónade constituem os elementos; e os elementos explicam-se da seguinte maneira. Junção de 24 triângulos rectângulos, o fogo ficará contido entre quatro lados iguais. Cada um desses lados consiste em seis triângulos; e daí a forma piramidal da chama. 48 triângulos rectângulos, limitados por oito lados iguais, aí está o ar: a sua imagem é um octaedro determinado por oito triângulos equiláteros, em que cada um se divide em seis triângulos rectângulos: no total, 48. Para a água, ela é composta por 120 triângulos: pensem na figura de um icosaedro, formado por seis vezes 20 triângulos com ângulos e lados iguais. Finalmente, entram 48 triângulos na composição da terra; seis quadrados desenham-nos: é um cubo. Dividam em oito triângulos cada superfície quadrangular de um corpo cúbico, para aí encontrar 48 no total.

 

Este extracto, retirado de uma obra de Hérmias (algo como “Escárnio dos filósofos pagãos”), permite-nos ver a formação dos quatros elementos segundo Pitágoras. Alguém poderia vir argumentar, e bem, que a obra é uma sátira da filosofia e portanto não nos permite ter uma visão real de qualquer opinião lá patente, mas o extracto aqui reproduzido não deixa de ser bastante curioso…

“Sobre o erro das religiões profanas”, de Júlio Materno

De uma forma sucinta, eu poderia apenas dizer que esta é mais uma daquelas obras em que o título diz precisamente o tema (i.e. é Sobre o erro das religiões profanas), mas aqui isto também seria uma visão demasiado redutora do interesse do livro de Materno. Dedicado aos imperadores Constâncio II e Constante, que menciona por diversas vezes durante o texto, Materno pretendia com esta obra levar a que esses imperadores tomassem medidas adicionais contra as religiões pagãs (ou, como ele o indica, profanas). 

 

A minha pequena dissertação sobre a obra poderia ficar por aí, como já sucedeu no passado, mas o interessante, neste caso específico, passa por alguns dos argumentos do autor, que algumas vezes comparam elementos do próprio Cristianismo com o das antigas religiões, não só da Grega e da Latina, mas também de outras civilizações. Vejamos alguns exemplos de “erros” que este autor alega:

 

– Os deuses como mortais divinizados – são dadas, como é frequente neste tipo de obras, o relato de várias divindades que seriam pouco mais que mortais divinizados. Se isso sucede no caso de Baco, Perséfone, e outras divindades usuais, aqui o autor chega até a aplicar esse critério às figuras de Osíris e Átis.

 

– As fábulas pagãs como imorais – outra crítica frequente nos apologistas cristãos passa pela forma como as “fábulas” do Paganismo ensinavam a imoralidade às pessoas, como no caso das violações de Zeus, dos roubos de gado de Hércules, e assim por diante.

 

– Multiplicidade de Palas, e o Paládio – quem já tenha lido a “Ilíada” certamente já ouviu falar do Paládio. Porém, a que Palas, em específico, se refere esse importante ícone? O autor refere pelo menos cinco Palas diferentes, antes de argumentar qual delas (provavelmente) era a do ícone que protegeu Tróia e Roma.

 

– Explicação dos nomes dos deuses – o autor empreende uma análise etimológica dos nomes de vários deuses, de forma a provar que alguns deles nada têm de divino.

 

– Serpente – existe, neste ponto específico, um contraste interessante entre as antigas religiões, algumas das quais veneravam serpentes, e o Cristianismo, onde ela pode ser vista como uma das principais antagonistas. Parece-me, então, que o autor usa essa coincidência para denegrir a primeira a das religiões face à segunda.

 

– Diabo, enquanto “copiador” dos mistérios cristãos – Este argumento, também muito conhecido de outros autores, mostra que existe alguma coincidência entre os rituais pagãos e aqueles do Cristianismo, mas que essa coincidência não é tanto uma razão por detrás da igualdade salvífica de ambas, mas um artifício do Diabo para afastar as pessoas da verdadeira religião e mantê-las no erro que tanto o beneficiava. Entre outros exemplos destas similaridades, Materno menciona a crucificação de Jesus Cristo  como levando à salvação (por oposição à crucificação na “árvore do diabo”, que levaria ao seu fogo) e a celebração da Páscoa com o sacrifício de um cordeiro (por oposição ao sacrifícios pagãos, que não teriam qualquer finalidade positiva), entre outros.

 

 

Agora, se são muitos os autores cristãos que fizeram obras similares a esta, o que tem a obra de Júlio Materno de especial? Acima de tudo, parece-me que o seu interesse reside no carácter sintético dos argumentos, já que diz em poucas páginas o que muitos outros disseram em vários livros. Claro que existem, como nas outras obras, várias apologias do Deus cristão, mas aqui são mais breves, podendo o leitor perder menos tempo com elas e, portanto, mais tempo a ler (e tentar perceber) os argumentos que este autor faz sobre os erros das outras religiões da sua época. 

“Livro dos Prodígios”, de Júlio Obsequente

Como o próprio nome deste Livro dos Prodígios dá a entender, esta obra de Júlio Obsequente trata dos múltiplos prodígios que ao longo dos anos ocorreram no Império Romano. A obra está incompleta, razão pela qual é difícil saber o período que originalmente abrangia, mas na forma que hoje nos está disponível cobre datas compreendidas entre 190 a 10 a.C. . Para esse período de tempo específico, o autor menciona não só aspectos relacionados com guerras (“Viriato foi derrotado”, “a luta contra Jugurta corre bem”, …), mas também prodígios da natureza (“choveu leite”, “um boi falou”, “uma grande estrela caiu dos céus”…), dos próprios seres humanos (nesse sentido, são muito referidos nascimentos de crianças com um número invulgar de membros ou hermafroditas) e até da civilização e religião romana (“uma estátua que tinha a cabeça coberta apareceu com ela descoberta”, “as galinhas [sagradas?] escaparam para o bosque e ninguém as conseguiu encontrar”, …).

 

Porém, esta é uma daquelas obras que pouco interesse parece ter. Claro que se pode utilizá-la para tentar localizar com maior precisão este ou aquele evento, mas tendo por base o facto do autor só ter escrito sobre cada um dos eventos mais de 200 anos após terem tido lugar, é um pouco difícil conseguir argumentar sobre a fidelidade de cada um deles… e se, por um lado, alguns deles têm algum interesse, já outros parecem-me demasiado incompletos para terem algum interesse real. Costumo dizer, de uma forma jocosa, que se “um boi falou” teria sido interessante recordar o que ele disse, e infelizmente esta obra parece ficar sempre áquem desse elemento adicional, de qualquer tentativa de explicação ou justificação. Se, como diziam vários outros autores, a aparição de prodígios tinha alguma relação com o futuro, nada disso parece ter relevância nesta obra, sendo esta só e apenas um sucinto catálogo de prodígios através de um período de anos.