“Contra Hiérocles”, de Eusébio de Cesareia

Neste Contra Hiérocles, Eusébio de Cesareia refuta algumas das ideias de Hiérocles, que na sua obra Amante da Verdade (hoje perdida) nos é dito que comparava Apolónio de Tiana com Jesus Cristo.

 

A figura de Apolónio de Tiana já por cá foi mencionada (o link em questão pode ser visto aqui), mas o mais interessante nesta obra é forma como Eusébio trata, de uma forma muito simples, as múltiplas falhas que existiam na história de Apolónio, antes de proceder à apologia do Cristianismo comum nas obras cristãs da época. Sendo o autor desta obra quase contemporâneo de Filóstrato (aproximadamente 20 anos separam a morte de um e o nascimento do outro), autor de “Vida de Apolónio de Tiana”, é igualmente curioso constatar que os episódios mencionados nesta obra são igualmente visíveis na outra, permitindo uma leitura mais crítica do livro já anteriormente por cá falado.

“Exortação aos Gregos”, de Clemente de Alexandria

Nesta sua breve Exortação aos Gregos, Clemente de Alexandria, autor do século II da nossa era, convida os seus leitores, que pelo contexto se depreende serem pagãos, a abandonarem a sua antiga religião em favor do Cristianismo. Se, no geral, o seu conteúdo até é muito semelhante ao de outras obras da mesma época (relembrem-se, por exemplo, Contra as nações, de Arnóbio de Sica; Da Governação de Deus, de Salviano; ou Ás nações, de Tertuliano; entre o apogeu deste género literário, a famosa Cidade de Deus de Santo Agostinho), a principal razão porque refiro por cá esta obra em particular prende-se com o facto do seu autor divulgar, no segundo capítulo, muitos dos mistérios secretos das antigas religiões, o que teria sido completamente impensável para os autores pagãos dos séculos anteriores.

"Exortação aos Gregos", de Clemente de Alexandria

A referida passagem desta Exortação aos Gregos é relativamente fácil de encontrar (pode, por exemplo, ser lida aqui em tradução inglesa) mas também bem menos impressionante do que se poderia esperar – a título de exemplo, bastará ver a página em particular sobre os Mistérios de Elêusis revelados. Mas… na verdade, porque são eles tão menos impressionantes do que o leitor comum poderia pensar?

 

Bem, de um ponto de vista teórico, já se sabe que qualquer leitor ambicionaria encontrar mistérios demasiado impressionantes, mas pense-se de forma análoga nos mesmos elementos das religões modernas – um dos dogmas essenciais do Catolicismo é a deglutição de uma hóstia, mas será esse acto assim tão simples, tão redutível a um elemento básico? Como qualquer praticante desssa religião o saberá, por detrás dessa acção existe toda uma simbologia que o completa, e a simples divulgação dos mistérios, infelizmente para nós, muito pouco diz sobre o que realmente se passava na liturgia que os envolvia. Ainda assim, este livro de Clemente de Alexandria acaba sempre por ser um recurso interessante para os mais curiosos!

Um curioso olhar para logos de empresas

Quando, há já umas semanas atrás, andava pela internet, encontrei este curioso artigo que confronta o logo de sete empresas com a origem mitológica das criaturas e símbolos usados, numa associação que nem sempre tem muito sentido. Ainda assim, este problema é cada vez mais comum… como primeiro exemplo, posso dizer que algures por Lisboa há um empresa de trabalho temporário cujo logo apresenta uma coruja de Atena – a mesma da moeda de 1€ grega – numa relação que nem se compreende muito bem.

 

Depois, podem até ser encontrados exemplos como este:

[Imagem entretanto desaparecida]

 

Aqui, existem múltiplas interpretações para a situação, mas é-me difícil imaginar alguma que não seja profundamente negativa, razão pela qual, ao escolher-se um logo para uma empresa se deverá ter especial cuidado com toda a sua simbologia. Senão, incorrem-se em situações como a da sirena do “Starbucks” – que, como uma vez disse a uma amiga, é “provável” que tenha sido escolhida devido ao poder hipnótico e mortal dos produtos lá vendidos.

“Contra as nações”, de Arnóbio de Sica

De entre as obras teológicas dos primeiros séculos da nossa era, esta é talvez uma das mais interessantes que eu já tive a oportunidade de ler. Apesar de ter a mesma ideia-base por detrás de De Civitate Dei, que seria somente escrita mais de um século depois, a forma de expressão e o próprio conteúdo desta obra nada ficam a dever à de Santo Agostinho, bem pelo contrário. Em detrimento de perder tempo infindável em novas deambulações teológicas, Arnóbio faz aqui desfilar todo um interessante conjunto de argumentos contra a religião romana, e fá-lo de uma forma avassaladoramente simples, capaz de refutar, e até mesmo de ridicularizar, muitas das crenças da época.

 

Se, nesse sentido, alguns argumentos seriam depois repetidos por Santo Agostinho (recordo-me, por exemplo, das referências ao facto de Roma já andar a sofrer calamidades antes da chegada da religião cristã), há também aqui múltiplos argumentos totalmente válidos, e que por vezes se apresentam de uma forma tão simples que um leitor até se chegará a interrogar porque nunca teria pensado nisso. Por exemplo, porque eram os deuses sempre representados da mesma forma (Jupiter com barba, Apolo sem ela, etc.)? Porque gostavam eles do sacrifício de animais, e da queima de incenso? Porque deviam ser venerados, em específico, nos templos que lhes eram consagrados? E porque existiam então entidades divinas específicas para dadas funções?

 

Todas estas, e muitas outras, são questões cuja resposta Arnóbio de Sica tenta descobrir e levar até às últimas consequências, deixando muito pouco por explorar, e tentando esclarecer os leitores em tudo o que possa. Convém, ainda assim, mencionar que o autor não se vê como possuidor de um conhecimento sobrehumano, como sucede com outros autores cristãos; muitas vezes, apoia-se em argumentos de outros autores (entre eles Cícero e Varrão), e chega até a confessar a sua própria ignorância, não só em relação a aspectos do próprio Paganismo mas até da religião que defendia, o Cristianismo, e essa é uma (aparente) sinceridade que, infelizmente, outros autores da época parecem nunca mostrar.

 

Um outro aspecto interessante desta obra é o facto de mostrar, em alguns pontos, uma visão religiosa que não pertence totalmente a nenhum dos polos em confronto, mas que tem uma relação palpável com ambos. Recordo-me, por exemplo, do autor admitir até uma existência possível dos deuses do Paganismo, mas colocando-os abaixo do Deus que venerava, já que os considerava menos perfeitos que este.

 

Em suma, esta é uma obra bastante interessante para todos aqueles que queiram explorar a fundo a religião de Roma e da Grécia Antiga, e explora até vários mitos, alguns deles totalmente desconhecidos para nós. Infelizmente, é também a única deste autor, e muito pouco se sabe sobre ele…

Série “Les dieux de l’Olympe”

Reencaminharam-me, há uns dias, o link para uma série animada que já passou na RTP2, entitulada Les dieux de l’Olympe, e que tratava da Mitologia Grega com uma visão muito moderna. Contudo, apesar da referência a muitíssimos elementos modernos, como telemóveis e calções de banho, é curioso constatar que, no seu geral, os episódios da série apresentavam histórias que em muito pouco se afastavam dos próprios mitos gregos. Com bastante comédia e ironia à mistura, esta era uma série que poderia ter agradado a muitos mais míudos e graúdos, caso não tivesse um horário extremamente inconstante.

 

Quem tiver alguma curiosidade em explorá-la, visite o link acima e pode vê-la em versão original – francesa – sem legendas. Ainda assim, e muito infelizmente, nunca saiu em DVD, e a versão VHS parece estar esgotada há alguns anos…