Sobre o “Corpus Hermeticum” de Hermes Trimegisto

Hermes Trimegisto e o Corpus Hermeticum

Para se falar no conjunto de textos conhecido como Corpus Hermeticum importa começar com uma referência ao seu autor. Pelo próprio nome de Hermes Trimegisto se entende que não se trata de um autor real (ironicamente, a Amazon Books parece pensar o contrário), mas sim de uma fusão entre figuras mitológicas – Hermes e Thoth – os quais tinham papéis similares na cultura Grega e Egípcia. De notar que a mitologia das duas figuras não tem qualquer papel nos textos, e mais do que histórias de deuses e mortais, os 17 livros compilados neste Corpus Hermeticum são de carácter religioso e metafísico.

 

São muitas as semelhanças entre as ideias patentes nestes textos e no Gnosticismo, no Neoplatonismo e, de uma forma bastante ligeira, até no próprio Cristianismo. Existem várias referências a um só deus, criador de tudo e sinónimo de bondade, bem como complexos (e, diga-se, notáveis) diálogos sobre a criação da humanidade, sobre o que nos separa das bestas, e muitos outros temas de índole similar. Eventualmente, chega-se a ponto que eu acho extremamente importante – num dos diálogos, é dito que esse deus foi, também ele, o criador dos deuses, apesar de todos estes textos apresentarem uma total ausência de referências a quaisquer outros deuses, sejam eles Gregos ou Egípcios. Quererá isto dizer que esta “religião” poderia ser praticada juntamente com outras, mais precisamente com a principal religião do Império Romano, sendo que este deus (cujo nome nunca é mencionado, o que lhe dá um carácter ainda mais misterioso) deveria ser considerado como o pai de todos os outros? Penso que sim, mas também poderei estar enganado, visto que também existem vagas referências a um filho desse deus, sem que alguma vez lhe seja dado um carácter mais divino.

 

Um outro facto a notar deste Corpus Hermeticum é a existência de diversos advérbios de tempo. Poderá parecer um pequeno pormenor, quase irrelevante, mas visto que estes textos são maioritariamente compostos por diálogos, a existência de diversas referências a uma passado recente fazem-me crer que estes eram lidos, ou estudados, numa dada ordem cronológica. Uma tal teoria estaria de acordo com os procedimentos iniciáticos das antigas Religiões Misteriosas (e, ainda hoje, com os graus da Maçonaria, hoje em dia), bem como com o carácter evolutivo necessário para a total compreensão do conjunto de textos. Só teria lógica falar-se sobre a natureza dos homens depois de se compreenderem as bases da natureza divina, e é essa evolução que, nestes textos, tem um seguimento lógico e, até certo ponto, pode ser compreendida de uma forma relativamente fácil.

 

Ainda assim, creio que o maior interesse deste Corpus Hermeticum, atribuído a um tal Hermes Trimegisto, seja realmente a sua apresentação de uma religião monoteísta, numa altura em que esse fenómeno ainda não estava assim tão disseminado. Visto que também são diversas as suas similaridades com o próprio Cristianismo (por exemplo, a explicação para a criação do mal, já que o deus-criador era símbolo de bondade) o que nos poderá dar mais alguma informação sobre a forma como este evoluiu nos primeiros séculos da nossa era.

 

Para quem quiser ler os textos do Corpus Hermeticum em questão, estes estão disponíveis, em versão inglesa, no seguinte link.

“Os Trabalhos e os Dias”, de Hesíodo

Os Trabalhos e os Dias é uma obra de Hesíodo em que o autor fala das razões pelas quais os homens têm de trabalhar, além de fazer referências aos dias e alturas do ano que são, por variadas razões, especiais ou notáveis, como as quatro estações, ou as épocas mais indicadas para colheitas, ou viagens.

 

As razões para os homens terem de trabalhar são explicadas, de forma geral, através do Mito das Cinco Idades. Em termos gerais, e para quem não quer mesmo ler a obra, posso referir que a ausência de trabalho, de esforço físico, era um privilégio dos homens da idade de ouro, e que isso seria um dos encantos a que os homens perderiam o acesso, através das acções de Pandora.

 

Fica, então, por cá uma passagem desta obra, Os Trabalhos e os Dias, que considero interessante (toda a obra pode ser lida, em inglês e de forma gratuita, na fonte referida abaixo):

Zeus will destroy this race of mortal men also when they come to have grey hair on the temples at their birth. The father will not agree with his children, nor the children with their father, nor guest with his host, nor comrade with comrade; nor will brother be dear to brother as aforetime. Men will dishonour their parents as they grow quickly old, and will carp at them, chiding them with bitter words, hard-hearted they, not knowing the fear of the gods. They will not repay their aged parents the cost their nurture, for might shall be their right: and one man will sack another’s city. There will be no favour for the man who keeps his oath or for the just or for the good; but rather men will praise the evil-doer and his violent dealing. Strength will be right and reverence will cease to be; and the wicked will hurt the worthy man, speaking false words against him, and will swear an oath upon them. Envy, foul-mouthed, delighting in evil, with scowling face, will go along with wretched men one and all.

Fonte

 

Deixando de parte as interpretações apocalípticas, esta passagem tem óbvias semelhanças com algumas das crises sociais que têm lugar nos dias de hoje, e deixa antever um novo futuro, mais negro e cruel, para toda a humanidade. Quanto a mais comentários, prefiro deixá-los para possíveis leitores.

“Da Natureza dos Animais”, de Cláudio Eliano

Num sentido puramente académico, a obra Da Natureza dos Animais, de Cláudio Eliano (também conhecida por De Natura Animalium) talvez até nem tenha muito interesse, mas no geral é uma obra extremamente interessante, e passo a explicar o porquê – o autor explica, de uma forma muito simples, as várias características que, na época, eram consideradas como sendo reais, em relação a vários animais, e chega até a estabelecer paralelismos com os seres humanos. Aqui, surgem, como também é frequente em bestiários medievais, criaturas como o elefante, o gnu, o leão, o catoblepas, a Fénix, entre muitas outras, e acaba por ser muito interessante comparar essas mesmas descrições com os conhecimentos que, nos dias de hoje, temos das várias criaturas.

 

Por exemplo, em relação ao peixe-espada, é dito que este consegue fazer buracos nos cascos dos navios. O elefante e o leão conseguem, de acordo com o autor, entender respectivamente a língua das Índias e o Persa Antigo. O cisne canta uma maravilhosa canção antes de morrer. Uma determinada espécie de pássaro ama tudo o que é grego. Seguem-se, então, alguns outros momentos que acho importante referir:

 

Prefiro mencionar o que vi, e que os outros recordam como ter acontecido em Roma (Livro II)

 Assim se compreende que, mais que ficção, o autor pretendia reportar a realidade, seja por observação directa ou através do que outros (alegadamente) tinham visto.

 

Na minha opinião, isto não é nenhum conto de fadas; porque relataria Alexandre de Myndus tais maravilhas se não tem nada a ganhar com elas? (Livro III)

 A crítica mencionada acima repete-se; mais uma vez, o autor confia em si mesmo e nos outros, por acreditar que estes nada têm a ganhar com uma possível mentira, em relação às bestas e costumos que reportam. De notar que este fragmento específico se refere a uma história contada pelo autor, em que uma determinada espécie de pássaros emigra para o norte, quando está a ponto de morrer, e passa a viver numa nova ilha, sob a forma de seres humanos.

 

Em relação à Hidra de Lerna, e à Quimera, estas [criaturas] foram relegadas para o estatuto de mitos. (Livro IX)

 Por aqui se compreende que, apesar de muitos outros aspectos da religião grega serem levados a sério (veja-se o exemplo mencionado abaixo), outros eram já considerados como simples ficção.

 

Basilis de Creta ficou doente (…) e [Serapis] causou que este comesse a carne de um burro [em inglês, “ass”). O resultado foi de acordo com o nome da besta, pois o deus tinha-lhe dito que o tratamento e cura o iria assistir.  (Livro XI)

 Esta é uma piada que faz mais sentido em outras línguas, como a inglesa – por comer um “ass”, o doente teria “assistence” – e que denota o carácter, por vezes até jocoso, porque certas partes desta obra estão pautadas.

 

Esta menção a ratos levou-nos a tocar numa matéria de teologia; contudo, não somos piores por ter ouvido histórias como estas. (Livro XII)

 Por esta expressão nota-se uma divisão entre o sagrado e o profano. O contexto em que também esta é dita também é importante – uma cidade foi invadida por ratos, e através da consulta de um oráculo foi aconselhado aos habitantes que construissem um templo em que esses mesmos ratos seriam venerados. O autor parece levar o assunto, essa intervenção divina, com algum cepticismo, mas tenta, ainda assim, respeitar aqueles que nela acreditam.

 

Esta não se trata, evidentemente, de uma obra de conteúdo puramente enciclopédico, como sucede com Naturalis Historia de Plínio o Velho, mas de uma obra de carácter mais ligeiro. As entradas relativas a cada animal encontram-se dispersas pelos diversos livros da obra – facto que o próprio autor até justifica no epílogo – o que a torna um pouco mais difícil de pesquisar, mas ainda assim é uma obra fascinante, digna de ser apreciada até com um leve sorriso nos lábios.

Alguns vídeos relativos à cidade de Lisboa

Por vezes o Canal História exibe pequenos documentários, após a apresentação dos programas principais, os quais nunca vão além dos 5 minutos. Uma dessas séries, que é bastante difícil de seguir devido à inconstância dos episódios (a título pessoal, posso até dizer que já vi um determinado episódio mais de uma dezenas de vezes), fala sobre “Lisboa debaixo da terra”, ou seja, um conjunto de histórias subterrâneas da capital que ainda muito poucos conhecem. Creio que alguns dos episódios são mais interessantes que outros, mas aqui ficam três deles, os mais relevantes para a Lisboa tal como era conhecida pelos Romanos – as Galerias Romanas, o Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros (até muito próximas das anteriores), e o Teatro Romano:

Existem muitos mais, mas estes são os que considero relevantes no contexto deste blog. Dão um pouco que pensar, relativamente a que outras coisas se poderão esconder debaixo das grandes cidades de todo o mundo…

O diálogo de Ulisses e Grilo

São vários os diálogos de Plutarco a que, nos dias de hoje, temos acesso, mas queria mencionar um em especial – Bruta animalia ratione uti, muitas vezes conhecido em tradução como o Diálogo de Ulisses e Grilo  – que pode ser lido, em versão inglesa, no seguinte link.

 

Neste diálogo, que aparentemente toma lugar durante a passagem de Ulisses pela ilha de Circe, o herói tem a oportunidade de dialogar com um dos porcos que, originalmente, era um ser humano, a que é dado o nome de Grilo. É um diálogo curioso, mais sério do que parece, mas também totalmente inesperado, e portanto merece ser aqui mencionado, até porque teve algum impacto em textos mais recentes, existindo outras obras, após a Idade Média, em que o mesmo Ulisses fala com outros animais, como na Circe de Giovanni Battista Gelli.