“Das Coisas Incríveis”, de Heraclito Paradoxógrafo

Tal como na obra homónima de Palaefato, também Heraclito tenta, neste seu Das Coisas Incríveis, analisar variados mitos, dando explicações para os mesmos. Conforme já referido no outro artigo, prefiro não me focar tanto na tarefa de recontar os mitos (esses são, no seu geral, relativamente fáceis de encontrar), mas sim em algumas das explicações dados pelo autor, as quais aqui serão referidas de forma bastante sintética.

Também, aqui fica um enorme agradecimento ao professor Jacob Stern, pela tradução desta pequena obra, publicada exclusivamente em Transactions of the American Philological Association 133.1 (Spring, 2003), páginas 51-97, e sem a qual as linhas seguintes não poderiam ter sido escritas.

 

Medusa – uma jovem prostituta que “petrificava” os homens com os seus dons. Apaixonou-se por Perseu, com que desperdiçou a flor da idade (metaforicamente, a cabeça).

 

Cila – prostituta que vivia numa ilha, juntamente com vários homens. Juntos, “devoravam”  todos os que se aproximavam.

 

Ceneu – rapaz amado por Poseidon, que em adulto se destacou pelo seu carácter. Assim, não era subornável, seja com bronze ou ferro.

 

Atlas – o primeiro homem a observar os princípios da astronomia. Com esse conhecimento conseguiu prever alguns fenómenos atmosféricos, o que deu lugar ao mito.

 

Centauros – os primeiros homens a viajarem no dorso de um cavalo; vistos à distância assemelhavam-se a um só ser.

 

Pasiphae – apaixonou-se por um homem de nome Taurus, de quem teve um filho. As pessoas referiam-se a este como sendo “de Minos, mas parecido com Taurus”, que deu lugar à junção de nomes num só.

 

Harpias – prostitutas que levaram Fineu à falência, uma e outra vez.

 

Perseu – inventor do treino de corrida, caracterizado pela sua velocidade, como se tivesse “asas nos pés”. [Nota: aqui, referem-se apenas a uma parte deste mito, em que Hermes empresta as suas sandálias aladas ao herói]

 

Glauco (do mar) – vivia numa ilha, e indicava a quem lá passava como teriam de viajar.

 

Ciclope – como vivia só, era ignorante em relação a leis e contava demasiado com a sua força física.

 

Atalanta e Hipomene – devorados por leões, numa caverna. Quando estes animais saíram de lá, e sem vestígio de presença humana, as pessoas assumiram que se tinha tratado de uma transformação.

 

As filhas de Fórcis – três mulheres cegas que tinham acesso a um único guia.

 

Sereias – prostitutas com jeito para a música e para o canto, que retiravam tudo àqueles que se aproximavam. As pernas de pássaro [ou, na versão mais conhecida para nós, caudas de peixe] devem-se à velocidade com que fugiam daqueles cujas propriedades tinham consumido.

 

Quimera – mulher que geria as suas terras juntamente com os irmãos, Leo e Drago. Visto que quebrava tratados e matava hóspedes, Belerofonte acabou por matá-la.

 

Circe – prostituta que, inicialmente, fazia tudo para agradar aos clientes, mas que depois passava a controlar pela força da paixão.

 

Touros cuspidores de fogo – touros que eram selvagens, destruindo tudo o que viam, como o fogo.

 

Hidra [e Cérbero] – mulher com muitos filhos, que a protegiam de todos os males.

 

“Spartoi” (criaturas nascidas dos dentes de dragão de Cadmo) – Cadmo conquistou uma região e matou a besta que a desolava. Nessa região juntou-se, depois, bastante gente, o que levou a conflitos, matando bastantes dessas pessoas.

 

Maçãs de Ouro – Drago era um homem que, através do seu cuidado com as árvores de fruto, ganhou muito ouro. Foi seduzido por várias mulheres, que o fizeram cuidar também das suas árvores.

 

Pessoas no reino de Hades – esta metafórica “vinda do outro mundo” referia-se a todos aqueles que passavam por longas e perigosas viagens.

 

Orfeu – pelas suas palavras, ganhou fama ao acalmar homens sem maneiras ou leis.

 

Pã e os Sátiros – grupo de selvagens que violavam mulheres, nas montanhas, e cultivavam vinhas. Visto não tomarem banho, tinham uma aparência de cabras.

 

Esculápio – um grande inovador na arte da medicina, mas que morreu de febre alta.

 

O Helmo de Hades – local para onde um homem vai, depois de morrer; deixa de poder ser visto.

 

Bóreas e Orítia (e muitos mitos similares) – rei dessa região, raptou Orítia.

 

Proteu – um homem bom para os bons, e mau para os maus.

 

As éguas de Diomedes – éguas selvagens, que devoravam as pastagens, até que Héracles as conseguiu apanhar.

 

Calipso e Odisseu – mais do que o fazer imortal, Calipso ofereceu toda uma abundância de dons físicos a Odisseu.

 

Lâmia – Zeus, um rei, dormiu com esta jovem. Depois, a rainha (Hera) cegou-a e libertou-a num local selvagem, em que esta teve de viver, passando a assemelhar-se a um animal selvagem.

 

Progne, Filomela e Tereu – devido ao seu súbito desaparecimento, as pessoas acharam que estas três figuras se tinham transformado em pássaros.

 

As Filhas do Sol – em vez de se transformarem em árvores, o que se passou foi que não conseguiram encontrar o irmão, e atiraram-se às águas do rio. As outras pessoas não as conseguiram encontrar, mas ao verem três troncos, acharam que elas se tinham transformado.

 

Argos – como queria ver e saber tudo, dizia-se que tinha olhos por todo o corpo.

 

Endímion e Selene – pastor virgem, por quem uma mulher se apaixonou. Quando lhe perguntaram quem era a felizarda, respondeu “a lua”.

 

O Gado do Sol – gado que trabalhava na terra para produzir alimento, e que não podia ser sacrificado. Os companheiros de Odisseu, mais que comer este gado, sacrificou-o.

 

 

Comparando-se, então, a obra de Palaefato com a deste Heraclito, é fácil compreender que são várias as coincidências, e o caminho para a interpretação dos múltiplos mitos parece assentar em múltiplos pilares essenciais, comuns às duas obras. Seria sempre assim, a interpretação dos mitos gregos? Infelizmente, pouco nos é possível concluir sobre isso; são muito poucas as obras sobre o tema que nos chegaram aos dias de hoje, pelo que é possível que a similaridade das perspectivas destes dois autores seja não mais que uma simples coincidência, um acaso feliz que nos permite, hoje, ter contacto com essa vertente oculta da mitologia grega.

Resumo da história de Jasão e os Argonautas

A Argonautica, vulgo a história de Jasão e os Argonautas, narra a demanda do herói titular em busca do velo/tosão de ouro. A versão mais famosa deste mito vem de Apolónio de Rodes (se bem que existam outras), pelo que este resumo assenta no conteúdo da sua obra poética.

Jasão e os Argonautas

Devo começar por dizer que a história de Jasão e os Argonautas, mais pelos seus detalhes do que pela sua complexidade, não é fácil de resumir. Não pretendo fazê-lo, tal como não poderia resumir a Ilíada, ou a Odisseia, pelo que um resumo da história pode ser encontrado, por exemplo, neste link. Cinjo-me, então, àqueles que considero serem os momentos fulcrais da obra, aqueles que tomam lugar no reino de Colchis.

 

Para que Jasão possa levar o velo de ouro, é-lhe pedido por Eetes, rei de Colchis, que cumpra uma difícil tarefa: a de usar touros cuspidores de fogo para lavrar uma planície, na qual deveria plantar dentes de dragão. Destes singulares ítens nasceriam soldados, que o herói também teria de derrotar.

O herói acaba por cumprir tais tarefa com a ajuda de Medeia, filha do rei e sacerdotisa de Hécate, que por intervenção divina se apaixona por ele, paixão que o herói parece retribuir. Depois, e apesar de ter conseguido um tal feito, Eetes recusa-se a permitir que o velo de ouro abandone o seu reino; de forma dissimulada, acaba por ser esta mesma heróina, com as suas artes mágicas, a adormecer o dragão que guarda o singular ítem.

O par de amantes, juntamente com o resto dos Argonautas, acabam depois por escapar do reino na famosa navegação Argo.

 

Veja-se, agora, a mesma obra partindo do seu início. Começando numa altura em que a trama já vai a meio (in medias res, para quem gosta dessas expressões latinas), o autor nomeia dezenas e dezenas de heróis, alguns dos quais extremamente obscuros para nós, que acabam por fazer parte dos Argonautas. Isto leva a um pequeno problema, o de não sabermos o porquê exacto de toda a aventura, um ponto abordado por outros autores, mas não por Apolónio de Rodes. Por aí, penso que este mito tenha sido bastante famoso, ao ponto de o autor poder passar directamente à acção, em vez de apresentar os momentos iniciais de toda a aventura.

 

Os heróis que constituem os Argonautas passam então por diversas ilhas, e envolvem-se em aventuras que penso serem menores. Numa delas, Héracles acaba por abandonar os Argonautas, seguindo em busca do seu companheiro Hilas. Seria esta uma tentativa de livrar Jasão da companhia do maior dos heróis gregos, de forma a que este não ensombrasse os feitos dos seus companheiros? É provável, até porque Glauco surge na sequência deste evento, assegurando os heróis de que é correcto, e aceitável, deixar esse herói para trás.

 

Depois, os viajantes da Argo salvam Fineu das Hárpias que o atormentavam, passam pelas Simplegades usando um artifício que já cá foi referido, e eventualmente chegam ao seu destino, o reino de Colchis. Aí, envolvem-se nos episódios cujo resumo também foi apresentado acima.

 

Aí, Jasão é apresentado como um herói que, a meu ver, é muito mais fraco e pobre que os seus antecessores. Não possui a força de Héracles, ou inteligência de Odisseu, mas somente o amor de uma mulher, que lhe é oferecido pela intervenção divina de Hera. São muitos os paralelismos com a história de Teseu e Ariadne, ao ponto da própria Medeia recusar essa comparação, mas… o que quererá realmente dizer este amor? Será que Jasão realmente amava Medeia, ou acaba simplesmente por se aproveitar da paixão que esta por ele tem? Noutras versões da história a resposta é mais clara, mas aqui não existe forma de retirar uma conclusão real. Desde este momento até ao final da trama que parece existir uma genuína paixão entre as duas personagens, mas a multiplicidade de versões que mostra Jasão como acabando por trair Medeia deixa a dúvida no ar.

Em qualquer dos casos, isto leva a um ponto interessante – Medeia, versada nas artes mágicas, acaba por não ter qualquer poder sobre o amor. O mesmo se passava com Circe, incapaz de suscitar uma real paixão de Odisseu, o que nos poderá levar a pensar que o amor era considerado como a mais forte magia, sobre a qual apenas aos deuses (ou, para ser mais preciso, Eros) tinham um real poder; por um lado, tem-se a incapacidade da miraculosa Medeia em resistir à paixão, e por outro tem-se a figura de Eros, que causa essa mesma paixão de uma forma quase infantil, e quase como uma brincadeira, já que lhe fora prometido um brinquedo em troca desse acto.

 

Jasão, por amor, é tornado invencível e consegue ultrapassar as diversas tarefas que Eetes lhe põe. A conquista do velo de ouro, mais do que por Jasão ou pelos Argonautas, é uma conquista da própria Medeia, e ao fazê-lo trai o seu país e a sua família, razão pela qual tem de escapar de Colchis. Mais uma vez, por amor esta nova heroína toma um caminho sem retorno, com base numa promessa de casamento feita por Jasão. Será que esta é uma promessa que acaba por ser cumprida? Nesta versão a resposta parece ser positiva, já que o par acaba por consumar o seu casamento, de forma a que Medeia não pudesse voltar a ser entregue ao reino de seu pai.

 

Nesta viagem de retorno, os Argonautas acabam ainda por encontrar as sereias, de quem escapam graças à música de Orfeu, o irmão de Medeia (aqui morto por Jasão, na sequência de uma armadilha) e Talos, guardião da ilha de Creta, que Medeia destrói. Contudo, e visto que a trama termina no exacto momentos em que os Argonautas regressam a causa, nada é possível concluir sobre o derradeiro destino de Jasão e Medeia. Existem várias versões da história (e a esse importante tema voltarei no futuro), mas nesta nada mais se sabe.

 

Ainda assim, em termos gerais existem mais algumas coisas que merecem ser referidas, nesta história de Jasão e os Argonautas. Enquanto que nos segmentos iniciais da história Jasão tem um papel que me parece ser quase secundário, desde o momento em que este se cruza com Medeia que a ênfase da acção parece passar para esta princesa de Colchis. É ela que, uma e outra vez, salva Jasão e os próprios Argonautas, seja com a sua magia (como no caso das tarefas de Jasão, ou nos eventos com Talos), com as acções (de guia, em Colchis, ao ser o isco numa armadilha, ao aceitar consumar o casamento com Jasão) e, talvez mais que tudo, com o seu amor.

De facto, na segunda parte esta heroína parece ter um papel ainda maior que os Argonautas; ainda assim, é curioso que os famosos heróis tenham um papel extremamente limitado em toda a aventura. O próprio Héracles, o maior dos heróis da mitologia grega, acaba por dar o papel de líder a Jasão. Orfeu também apenas intervem num único momento, e tal como Pólux ou os Boréades. É como se todos esse heróis ali estivessem somente para preencher algum espaço, para fazerem um único feito e regressarem ao esquecimento, algo que me parece ser bastente infrequente nos mitos gregos.

 

Será que, então, todo este épico de Jasão e os Argonautas acaba por ser uma forma de glorificar Jasão, tornando-o maior que todos os Argonautas, cujos actos são pontuais e episódicos? Ou será que esta é uma história que glorifica a própria Medeia, enquando causa e consequência da obtenção do velo de ouro? Creio que tudo se prende com uma questão de interpretação – por um lado, tem-se Jasão, um herói humano, que define um objectivo e não olha a meios para o atingir; por outro, tem-se uma jovem Medeia, que por amor abandona até o dever para com os seus familiares, e que faz tudo por quem ama. Serão estas características positivas ou negativas? É discutível, e talvez seja essa dualidade de visões que dá um sabor especial a este mito, às figuras de Jasão e Medeia, cujo tratamento é sempre um pouco diferente em cada autor.

“Das Coisas Incríveis”, de Palaefato

De entre os livros que por cá foram referidos ultimamente, este Peri Apiston, ou Das Coisas Incríveis, será provavelmente aquele que mais tem a ver com a Mitologia Grega. Palaefato apresenta-nos um vasto conjunto de figuras mitológicas, resume a história em que se incluem e, depois de um momento um tanto ou quanto interrogatório (e, diga-se, extremamente divertido), tenta explicar-nos o que se passou realmente, e que deu origem ao mito. Trata-se, então, de uma obra que tenta racionalizar os mitos gregos, propondo versões mais reais para a existência de criaturas como a Hidra, Pégaso, a Esfinge ou Cérbero, entre muitas outras.

 

Infelizmente, a versão que nos chega hoje está corrompida, e pelo menos dois dos 45 mitos tratados não estão completos. Outros não nos apresentam qualquer explicação (será que se perdeu?), e alguns têm até explicações que, para os leitores de hoje, não fazem muito sentido; prendem-se com o sentido das palavras, ou dos nomes e características, dadas a algumas figuras.

 

Agora, visto que esta não é uma obra propriamente fácil de encontrar, achei que seria interessante mencionar a explicação dada a alguns mitos, na mesma ordem em que aparecem na obra de Palaefato, e com o mesmo título. Por motivos de tempo e espaço, não irei apresentar o resumo de cada um dos mitos, mas eventualmente todos eles serão tratados por cá.

 

Centauros – jovens a cavalo que mataram um bando de touros enfurecidos, usando arco e flechas.

 

Pasiphae – mais do que amada por um touro, esta tinha um amante, que Minos depois enviou para as montanhas.

 

Acteon – amava a caça, ao ponto de negligenciar as tarefas domésticas, pelo que “foi devorado pelos cães”, em sentido metafórico.

 

As éguas antropófagas de Diomedes – Diomedes gostava tanto das suas éguas, cuidava delas e alimentava-as tão bem, que acabou por “ser comido” (em sentido metafórico), levado à pobreza.

 

Os gigantes saídos da terra (criaturas resultantes dos dentes de dragão de Cadmo) – Cadmo matou o rei de Tebas (de seu nome Dracon) e apoderou-se dos dentes de elefante que este possuía. Isto causou múltiplos ataques à cidade de Tebas, por parte dos filhos de Dracon, que pretendiam recuperar o que lhes pertencia.

 

Esfinge – Cadmo casou com uma amazona chamada Esfinge. Após a conquista da cidade de Tebas, casou também com uma irmã de Draco. Esfinge saiu da cidade, juntamente com vários homens, alguns tesouros da cidade e o cão de Cadmo, e foi viver numa montanha, antes de declarar guerra a Cadmo. Quando os cidadãos saíam da cidade, eram apanhados em embuscadas, até que Cadmo fixou uma recompensa para quem matasse Esfinge, o que foi finalmente feito por Édipo.

 

Raposa da Teuméssia – Alopex (raposa, em grego) foi expulso da cidade de Tebas, e passou a viver numa colina chamada Teuméssia. Por vezes, pilhava os habitantes, juntamente com mercenários, apenas para mais tarde voltar a essa mesma colina. Eventualmente, foram mortos por um ateniano chamado Céfalo.

 

Niobe – após a morte dos filhos, Niobe mandou fazer uma estátua com a sua figura, que foi colocada no mesmo local que os filhos.

 

Linceu – a sua visão apurada devia-se a uma torcha, que usava para ver o interior da mina onde trabalhava.

 

Ceneu – após ter participado em diversas batalhas, sem nunca ser ferido, foi encontrado morto, mas sem qualquer ferida. Assim, ganhou a reputação de ser invulnerável.

 

Cicno – visto nunca ter sido ferido, ganhou também a reputação de ser invulnerável.

 

Dédalo e Ícaro – escaparam de uma prisão e fugiram num barco. Depois, “voaram” utilizando a força do vento, que batia nas velas do barco. Surgiu uma tempestade, o barco virou-se, e Dédalo salvou-se, mas não o seu filho.

 

Hipomene e Atalanta – foram ambos devorados por leões.

 

Calisto – também ela foi devorada por um urso.

 

Europa – um homem chamada Taurus desposou esta princesa da Fenícia.

 

Cavalo de Tróia, e conquista da cidade – os gregos fizeram um cavalo de madeira tão grande que não poderia entrar na cidade de Tróia. Então, quando os troianos deitaram a sua muralha a baixo, de forma a possibilitar a entrada do singular presente, os gregos simplesmente invadiram a cidade.

 

Éolo – um astrónomo, de seu nome Éolo, é que ensinou a Ulisses a forma como usar os ventos para se dirigir onde desejasse.

 

Hespérides – Hesperus tinha duas filhas, e possuía também maçãs tão belas e fecundas que ganharam a reputação de serem “de ouro”. Hércules viu ambas as irmãs na costa e raptou-as, juntamente que o homem que as guardava, Dracon.

 

Coto e Briareu – vivam ambos de uma aldeia denominada “das cem mãos”.

 

Cila – mais do que uma mulher, tratava-se de uma embarcação que atacava os navios que por lá passavam.

 

Dédalo – ao ter feito estátuas com pés, pode-se dizer que estas “andavam”.

 

Fineu – após ter perdido todos os filhos, estava a ser arruinado pelas suas filhas.

 

Mestra (filha de Erisictão) – vários homens, ao estarem apaixonados por Mestra, deram a seu pai todo o tipo de presentes. Desta forma, e num sentido metafório, Mestra transformava-se nessas prendas.

 

Glauco (filho de Sísifo) – tal como sucedeu com Diomedes, a sua paixão pelos cavalos acabou por levá-lo à ruína.

 

Glauco (filho de Minos) – após comer demasiado mel, este Glauco ficou num estado de letargia. Eventualmente, foi-lhe dada uma erva que curou esse estado, mais que o trazer de volta à vida.

 

Glauco (divindade marinha) – devido à sua habilidade para a pesca, foi considerado até como um ser do mar. Após ter desaparecido no mar, os habitantes da aldeia onde viva pensaram que se tinha tornado numa divindade marinha, mas há um interessante aspecto a ter em conta – o autor refere que este Glauco foi comido por um monstro marinho.

 

Belerofonte – possuía uma pequena embarcação, à qual deu o nome de Pégaso. Quanto à Quimera, tratava-se de um vulcão, em redor do qual viviam um leão e um dragão, ambos derrotados pelo herói.

 

Pélope – possuía uma embarcação na qual estavam representados cavalos alados.

 

As filhas de Fórcis – quando Fórcis morreu, deixou às três filhas uma estátua. Depois, esta foi partilhada entre três ilhas (uma de cada irmã), até que Perseu a capturou.

 

As Amazonas – mais do que mulheres, eram homens bárbaros, que usavam vestidos.

 

Orfeu – mais do que mover as coisas com a sua música, era seguido por pessoas que as transportavam.

 

Pandora – visto que se maquilhava demasiado, deixando algum pó fora do lugar, as pessoas pensavam que era feita de terra.

 

Ceto – rei ao qual era devido um imposto anual de bois, mulheres, etc.

 

Hidra – nome de um forte que pertencia ao rei Lerno, no qual existiam dois homens para cada vigia (quando um era derrotado, um outro entrava para o seu posto). Com algum auxílio, Hércules invadiu a sua torre, e conquistou-o.

 

Cérbero – nome dos dois cães (Cerbere e Oros, na versão original) que guardavam o gado de Gerion, e cuja aldeia à qual se dava o nome de “três cabeças”. Após ter vencido Gerion e Oros, Hércules foi seguido por Cerbere; contudo, visto que um homem queria ter Cerbere, pelo que seguiu Hércules até uma caverna (onde, segundo o mito, o herói desceu até aos infernos), onde pôde recuperar o cão.

 

Zeto e Anfião – pelo prazer de os ouvirem tocar lira, as pessoas iam trabalhar nas muralhas da cidade.

 

Io – filha de um rei de Argos, que fora escolhida para sacerdotisa de Juno. Por não aceitar essa decisão, tentou fugir da cidade, mas foi capturada e amarrada a uma vaca enfurecida, que a levou até ao Egipto.

 

Medeia – inventora de diversas curas (entre elas uma erva que disfarçava os cabelos brancos), dos banhos quentes, etc.

 

Ônfale – mulher que, enamorada pelos feitos de Hércules, o decidiu procurar. Quando o encontrou, Hércules ficou tão apaixonado por ela que não tinha em mente mais que o prazer da sua amada, e uma tal servitude amorosa levou à ideia referida no mito.

 

Corno de Amalteia – este era um corno em que Amalteia (uma simples mulher) guardava as suas riquezas, e que foi roubado por Hércules.

 

 

Note-se que estes resumos simplistas não fazem juz à beleza, ou carácter quase infantil, de toda a obra. Por exemplo, aquando de uma referência à troca do velo de ouro por uma princesa, o autor comenta, de forma jocosa, o antigo valor da lã, e compara-o com o valor da princesa, dizendo algo como “das duas uma, ou a lã era muito rara naquela altura, ou então o rei não tinha muito apreço pela filha.”

Para referir um outro exemplo, o autor relega Ceto (um monstro marinho) para simples figura de um rei a quem eram pagos impostos anuais, mas refere que Glauco foi comido por um outro monstro marinho. Esta é uma oposição de ideias que nos leva a repensar parte da obra, e a tentar compreender se, afinal, todos os monstros da mitologia grega eram meras figuras ficcionais, usadas somente por poetas, ou se também eram consideradas como reais, em dadas condições. Uma questão interessante,

 

Esta obra, apesar de pequena, é bastante interessante, e ao tratar a mitologia grega de uma forma menos frequente, mas que outros também seguiram, também acaba por ser interessante para o público em geral, bem como para todos aqueles que pretendem aprofundar o seu conhecimento dos mitos gregos, vistos aqui de um prisma um pouco diferente.

“Metamorfoses”, de Ovídio

Muitas obras de Ovídio já por cá foram referidas, mas desta vez escrevo sobre aquela que é provavelmente uma das mais importantes obras deste autor (eu não concordo totalmente, mas visto que são muitos os autores que tecem essa consideração, terei de o aceitar), as Metamorfoses. Quem não conhecer a obra, e como já foi referido anteriormente, pode lê-la, gratuitamente e em inglês, neste link.

 

Como o nome da obra deixa antever, o principal tema por aqui tratado são as metamorfoses, transformações estas que são relativamente frequentes na mitologia grega. Sobre esse tema, já por cá foi falado de forma básica (veja-se este link), mas uma abordagem assim tão simplista não consegue capturar a real beleza da obra. Mais do que se cingir a um simples compêndio de mitos – algo tão popular nos dias de hoje – os XV livros desta obra apresentam-nos os mais diversos mitos de uma forma sequencial, quase narrativa, que apesar de ser por vezes difícil de seguir, é também extremamente interessante.

 

Veja-se então um exemplo: no livro V passa-se um pequeno concurso de poesia, como que uma querela poética entre as Pierides e as Musas. Este concurso serve de pano de fundo para o autor nos contar parte da batalha contra Tífon, nos relatar o rapto de Perséfone, entre outros eventos. Mais tarde, no livro X, o próprio Orfeu conta-nos muitos outros mitos, como o de Pigmalião e de Adónis.

 

Estas transições de mito para mito são quase imperceptíveis, ao ponto de alguns mitos se chegarem a confundir com outros, e não ser que se conheçam todas as histórias, por vezes chega até a ser difícil compreender o que faz realmente parte do mito e o que é não mais que um artifício poético, usado de forma a conectar relatos totalmente distintos.

 

São mais de 50 os mitos referidos nesta obra, seja de forma parcial (como é feita a menção aos trabalhos de Hércules) ou no seu todo, o que a torna interessante para quem estiver interessado em mitologia, mas convém ter algum cuidado a escolher uma cópia da obra. A versão a que tive acesso, uma tradução em rima, é inegavelmente bela, mas também dificulta bastante a leitura, e seria um pesado fardo para todos aqueles que pretendem somente ler a obra pelo saber que contém. Assim, é realmente importante ter em conta, das múltiplas edições que existem no mercado, qual delas melhor se adapta ao uso que se pretende fazer desta obra.

 

Para terminar, importa ainda fazer uma menção aos momentos finais desta obra. No último livro, o autor refere algumas ideias de Pitágoras, como que a tentar justificar a possibilidade real de todas as transformações, e refere até algumas razões pelas quais não se deveriam comer animais. Neste contexto, o filósofo grego poderia então ser considerado como um ser quase etéreo, suspenso no tempo e cujos ensinamentos são quase divinos, mas… a meu ver, esse momento de monólogo tende a destoar do resto da obra, mais do que os episódios relativos a Esculápio (ou as menções ao poder e glória de César) que se lhe seguem. É, ainda assim, uma obra importante no estudo dos mitos gregos, quanto mais não seja para que se possam aprofundar estudos entre as diversas versões de dados mitos.

“História Natural”, de Plínio o Velho

Finalmente, consegui adquirir uma cópia desta obra, também conhecida por Naturalis Historia, ou História Natural, na tradução portuguesa. É certamente mais séria que a obra de Cláudio Eliano anteriormente por cá mencionada, e posso dizer que, em termos gerais, não tem tanto interesse (ou piada) para o leitor comum como a anterior. Do ponto de vista cultural, isso sim, esta História Natural é uma obra bastante interessante, uma vasta enciclopédia que nos permite compreender vários aspectos da cultura antiga.

 

O autor, Plínio o Velho (e tio de Plínio o Jovem), começa por falar de características terrenas, prosseguindo para temas como geografia, biologia, metais, pedras preciosas, entre muitos outros. De notar que todos os temas se encontram organizados de uma forma lógica, quase como uma narrativa, em que cada capítulo tende a entrelaçar-se no seguinte através da relação entre os temas. Para mencionar, por exemplo, o início do VIII livro, o autor começa por falar dos animais da terra, dos quais destaca o elefante; depois, nos capítulos seguintes, refere algumas informações relativas a este animal e suas características – quando foi visto pela primeira vez em Itália, como treiná-los, a importância do marfim, as diferentes especíes de elefantes, etc. Tudo bastante arrumado, de fácil pesquisa, quase como as enciclopédias a que temos acesso nos dias de hoje. Desta forma, é extremamente fácil pegar numa cópia desta História Natural e encontrar, de forma rápida, exactamente aquilo que procuramos. Claro que encontrar o que procuramos nem sempre é assim tão directo como seria de supor – relativamente ao elefante, as referências a este extendem-se por vários capítulos – mas pelo menos existe uma forma, se bem que rude e básica, de se encontrar mais facilmente o que procuramos.

 

Agora, em relação aos mitos, existem também aqui algum cepticismo. Veja-se, por exemplo, parte do capítulo LXX do livro X:

O pássaro pégaso, com cabeça de cavalo, e o grifo com orelhas e o bico em forma de gancho (…) eu julgo servem fabulosos. (…) Também as sereias não merecem o nosso crédito (…) Quem acreditar neste género de coisa também não negará que as serpentes, ao lamberem  as orelhas de Melampo, lhe deram o poder de entender a língua dos pássaros.

 

Ainda assim, é importante mencionar que este cepticismo é somente aparente, e não absoluto. Plínio, nesta sua História Natural, também fala de criaturas como o basilisco, refere a transexualidade das hienas, volta ao tema dos pássaros que adoram tudo o que é grego, refere os amores de golfinhos por vários jovens, e outros temas que, para nós, poderão parecer mera fantasia, mas que naquela altura eram considerados como reais.

 

Para terminar, importa então mencionar que esta é uma obra imprescindível para todos aqueles que pretendam compreender melhor alguns elementos da cultura romana no século I d.C.. Contudo, posso também afirmar que esta História Natural é uma obra demasiado pesada para uma leitura meramente lúdica.