O plágio de Daniel Santos Morais e Paulo Monteiro

Hoje, temos de falar de Daniel Santos Morais e Paulo Monteiro, não porque o queiramos fazer, mas para alertar para o tema do plágio. E, acrescente-se, igualmente para responsabilizarmos quem o pratica, até porque desta vez o efeito dessa prática reprovável nos afectou a nós. Seria preferível escrevermos sobre mais alguns temas natalícios, como nos é habitual nesta quadra, mas após discussão achámos o tema importante o suficiente para não merecer ser adiado até Janeiro. Assim, nas linhas abaixo apresentamos uma introdução ao que teve lugar, e depois explicamos o que estes senhores andam a fazer.

 

Alguma informação introdutória sobre Paulo Monteiro

A 20 de Julho de 2022, na sequência do nosso artigo sobre Santa Vilgeforte, um dos nossos colegas tentou colocar um comentário num determinado site português de foco em temas semelhantes – a ausência ao nome do site é aqui repetida e deliberada, por ser natural que não queiramos dar qualquer publicidade a quem faz este tipo de coisas. Era um comentário simplicíssimo, apenas alertando para um tema que poderia interessar a esse espaço, mas ele foi censurado, enquanto que ao mesmíssimo tempo a política censória do local em questão permitia, muito abertamente, comentários como estes:

Dois comentários associáveis a Daniel Santos Morais e Paulo Monteiro

Não entendemos o que se passava. Pareceu-nos estranho que um local público cometesse, ao mesmo tempo, censuras de informação que lhe poderia interessar e promoção de conteúdos que atentam contra a dignidade humana. Portanto, em busca de uma resposta, contactámos o site e pedimos explicações. Na pessoa de um tal Paulo Monteiro (cuja fotografia o site omite e apenas define com as seguintes palavras, “Desde muito novo senti que queria melhorar o mundo. Desde 2010 estou envolvido neste projecto para dar o meu contributo na área dos Direitos Humanos, aprender e partilhar”, sendo provável tratar-se de uma figura fictícia e de fachada), foi-nos dito que, e cite-se:

Não houve razão nenhuma para o comentário ter sido rejeitado. Aliás, lembro-me de ter visto esse comentário e ter comentado com um elemento da equipa que teríamos de escrever sobre isso a partir de Setembro quando voltarmos de férias. A não ser que o queiram fazer desse lado um breve texto sobre essa personagem – teríamos todo o gosto em apreciar o texto para publicação em Setembro (…) o mesmo comentário pode ter sido apagado, por lapso, no seguimento dos múltiplos comentários de ódio que estavamos a receber e que temos de filtrar. Ao seleccionar vários esse pode ter sido escolhido (a plataforma salta no telemóvel) e eliminado. Mas pedia-lhe o favor de repetir o mesmo, pois não temos meios de recuperar comentários apagados. (…) Recordo ainda que todo o n/ trabalho é efectuado em regime de voluntariado e que a disponibilidade da equipa varia em função do seu tempo livre.

Pareceu-nos uma resposta suspeita, pelo que tivemos de discutir o tema entre nós. Entretanto, esse tal Paulo Monteiro tornou a contactar-nos a 29 de Julho (“Aproveito e volto a convidar para escrever sobre a mesma para artigo a ser publicado a partir de Setembro”), a 1 de Outubro (“Lançado o apelo aguardo a vossa resposta. Positiva ou negativa.”), e a 8 de Outubro (“Aguardo.”). Respondemos a 25 de Outubro:

Após diversas discussões internas, decidimos não voltar a publicar isto [referente ao comentário original]. A razão é simples e tanto eu como os meus colegas sentimos que deveria ser explicada – o vosso site tem uma política de moderação de comentários. Faz muito bem em tê-la, mas quem selecciona os comentários deixa quebrar constantemente essa mesma política, ora aceitando comentários que no mínimo dos mínimos são ofensivos, ora rejeitando comentários inofensivos (como foi o nosso), sem que se compreenda qualquer critério excepto um tácito “fazemos o que bem entendemos”.

A esse tema, Paulo Monteiro respondeu essencialmente que “Iremos atribuir o assunto a uma pessoa da equipa para dar a conhecer a história desta Santa aos nossos leitores.” E tudo teria ficado por aí, pela parte que nos diz respeito, cada um escreve sobre o que bem entender, desde que não se ultrapassem certas regras éticas.

 

O plágio de Daniel Santos Morais

Posteriormente, descobrimos que nesse mesmo espaço existiam conteúdos plagiados. Isso pouco ou nada nos interessaria, não é (habitualmente) da nossa competência, não fosse o facto de há poucas semanas termos sido informados de uma publicação que foi feita nesse espaço a 28 de Outubro de 2022, ou seja, uns meros três dias depois de termos falado pela última vez com esse tal Paulo Monteiro, e cujo início mostramos na imagem:

Da responsabilidade de Paulo Monteiro e Daniel Santos Morais

Da autoria de um tal Daniel Santos Morais, que esse site define como um “mestre em Sociologia pela Universidade de Coimbra. Feminista, LGBTQIA+, activista pelos Direitos Humanos. Partilha a sua vida entre Coimbra e Viseu“, o artigo em questão não só copiava o nosso título, como reutilizava a mesma imagem presente no nosso artigo – que nunca autorizámos o uso, nem autorizaríamos para fins como estes – e um elemento que incluímos para detectar potenciais plágios. Se, de facto, o autor até admite que a “foto” – que não o é, mas sim uma pintura… – era “nossa”, tornando óbvio que conhecia o que nós escrevemos sobre o mesmo tema, existem um conjunto de aspectos curiosos no artigo em questão, que vão muito além da evidente ideia de copiar o tema do artigo sem qualquer referência ao facto de apenas terem sabido dele através do nosso trabalho. Aqui fica parte do texto, em formato de imagem, para o caso do original “misteriosamente” vir a desaparecer:

Fragmento central do texto

Apenas para darmos alguns breves exemplos baseado no acima, o artigo da suposta autoria de Daniel Santos Morais refere uma versão muito específica da lenda, com presença de datas e locais (i.e. “Liberata nascera na Lusitânia, Portugal, por volta do ano 119“), eventos muito concretos (e.g. “[Liberata] fora oferecida em casamento ao rei da Sicília“), e até a possibilidade de ela ser lésbica (que nunca ocorre na lenda original). Utiliza uma citação sem mencionar a sua origem (i.e. é dito que esta princesa era bela como uma flor da Primavera”, com as aspas e tudo), e absolutamente nada diz sobre a história do violinista.

 

Este autor parece desconhecer que a Lusitânia e Portugal não eram um só e o mesmo local, como desconhece em que consistia uma heresia, entre outras coisas presentes no artigo, mas ainda assim “foi capaz” de escrever sobre o tema. Como? Recorrendo a diversos plágios. Vejamos já um:

Artigo no Jornal “O Despertar” (14-10-2022)

Artigo deste “autor” (28-10-2022)

Reza ainda a lenda

De acordo com a lenda

Que [Liberata] nasceu na Lusitânia, em terras de Portugal

Liberata nascera na Lusitânia, Portugal

Por volta do ano 119

Por volta do ano de 119

E que, antes de ser Santa, se chamava Vilgeforte

Tendo antes de ser elevada a santa conhecida pelo nome de Vilgeforte

 

Depois segue-se algo bastante mais grave – toda a história relativa ao Rei da Sicília aparece num artigo do Jornal Público, datado de 15 de Fevereiro de 1999, onde, muito curiosamente, não só é revelada a verdadeira origem daquela citação que ele usou (“um martirológio seiscentista”), como também se menciona que a santa podia ser lésbica (“afirmam os hermeneutas mais modernos”), e não há quaisquer menções ao violinista da imagem… o que é um tanto ou quanto caricato, porque quem olhar para a imagem incluída no artigo deste senhor imediatamente se interrogará sobre a presença da invulgar figura, que ele ignora por completo no seu relato. Ou seja, ele reutilizou a imagem do nosso artigo sem permissão, sabendo de antemão que ela jamais lhe seria dada, e sem sequer pensar que ela já não faria qualquer sentido para ilustrar o cerne do texto que ele plagiou de outra fonte!

Queiramos ou não, é difícil negar que as semelhanças entre o relato no artigo do jornal Público, datado de 1999, e este escrito recentemente para um outro site são muitas (ver o fim deste artigo para um paralelismo sintético), sendo particularmente digna de nota aquela citação que ao plagiar ele se “esqueceu” de dizer de onde lhe veio, e que entre os anos de 1995 e 2021 só apareceu num único local online. Aqui, uma imagem vale mesmo por mil palavras:

Origem da citação deste plagiador

Mas, dando-se o benefício da dúvida, acredite-se que tudo isto são coincidências. Só meras coincidências, apenas isso e nada mais, sem qualquer espécie de má intenção – imagine-se que o “autor” passou três intensos dias a ler obras como a Flos Sanctorum ou a Legenda Aurea, uma actividade sempre muito popular entre os jovens (é ironia!), e se deparou com aquela citação já em português. Decidimos então colocar um comentário no artigo da autoria desse Daniel Santos Morais, que pode ser lido abaixo, em que alertávamos para a ocorrência, com referência apenas ao que nos era relevante:

Comentário enviado para a publicação de Daniel Santos Morais e Paulo Monteiro

Como anteriormente, também esse comentário foi censurado. Mas ainda decidimos voltar a dar, mais uma vez, o benefício da dúvida. Então, enviámos um e-mail à publicação em questão, dirigido a Paulo Monteiro ou “a quem for, neste preciso momento, responsável legalmente pelo vosso projecto”. Foi-lhes dado um período de tempo razoável para apurarem responsabilidades, para responderem, sendo que apenas pretendíamos, e cite-se, saber se “esta nova censura [de um comentário] também foi deliberada, e o plágio foi intencional e é uma prática apoiada pelo vosso projecto; ou, em alternativa, a responsabilidade no caso é exclusivamente dos vossos moderadores e do próprio autor do artigo”. Não obtivemos qualquer resposta em tempo útil, nem sequer se defenderam da acusação, denotando que isto não são meras coincidências, eles sabem bem o que se passa, mas não lhes interessa responsabilizar o seu autor, preferindo tentar ocultar este tipo de práticas.

 

Em suma…

Ora bem, tratando-se actualmente este Daniel Santos Morais de um doutorando em Coimbra, esta é uma situação grave, porque demonstra que enquanto estudante e investigador ele pratica abertamente o plágio, utilizando informação de terceiros e reescrevendo fontes sem nunca lhes dar o devido crédito, e se o faz num pequeno artigo publicado online, como o aqui em questão, em que mais já o terá feito antes? Ou, sabendo-se bem que quem plagia não o faz somente uma vez, até quando continuará ele essa sua prática? Será que toda a gente pensa olhar para o lado e assobiar?

Ao mesmíssimo tempo, Paulo Monteiro, sabendo existirem casos de evidente censura e plágio na publicação pela qual nos deu a cara, absolutamente nada faz em relação a isso, preferindo mesmo olhar para o lado e assobiar. Ou seja, numa publicação em que se diz “Reprodução proibida da totalidade dos artigos sem autorização prévia, menção explícita do link e da fonte” [sic.], os direitos dos outros, incluindo os de um jornal nacional, que se lixem!

 

E, na verdade, casos como estes incomodam-nos. Este espaço existe há quase 20 anos para investigar temas pouco conhecidos, em alguns casos o que agora procuramos demorou até meses a descobrir (por exemplo, a lenda do Castigo do Bispo), publicamos os nossos temas sem nunca esperar outra recompensa que não a de espalhar o conhecimento, e depois terceiros não só se aproveitam do nosso conteúdo – o que nos levou até a ter de omitir fontes, excepto quando nos pedem para as incluirmos (e.g. o caso da lenda da Quinta do Anjo) ou as requerem nos comentários, algo que fazemos apenas e somente para dificultar práticas de plágio – como nem sequer se dão ao trabalho de admitir algo tão simples como “eu não sabia nada disto, só o soube porque o li no local X, devia creditá-lo”. Que um doutorando como Daniel Santos Morais não saiba disto, ou até saiba mas prefira ignorá-lo quando bem lhe apetece, é grave; e é igualmente grave que Paulo Monteiro e os seus companheiros, sabendo do que se passa, prefiram censurar comentários que alertam para um plágio, em vez de lutar contra uma prática ilícita que condenam nos outros mas já aceitam quando lhes dá jeito a eles.

 

Não mais falaremos deste tema, até porque já estaríamos a dar demasiado tempo de antena a estas pessoas, e voltaremos daqui a uns dias com algo bem mais interessante para esta quadra do ano…

 

 

 

P.S.- Para quem ainda estiver a querer duvidar deste plágio, expomos aqui alguns paralelismos da lenda tal como ela é contada no jornal Público e como depois foi plagiada por este doutorando conimbricense. Em ambos os artigos a ordem destas afirmações é quase a mesma. Só pode fazer rir o facto de em determinada altura o plagiador se ter distraído e em vez de adaptar uma expressão pouco comum, a ter copiado directamente do jornal (i.e. “ditames masculinos”):

Artigo do Público (1999)

Artigo de Daniel Santos Morais (2022)

St. Uncumber

(não mencionado)

Santa Liberata

Santa Liberata

Santa Vilgeforte

Santa Vilgeforte

infanta filha de rei pagão

Filha de um rei pagão

em território português

nascera na Lusitânia, Portugal

que o monarca oferecera em casamento ao rei da Sicília

fora oferecida em casamento ao rei da Sicília

princesa «bela como uma flor da Primavera»

princesa “bela como uma flor da Primavera”

segundo um martirológio seiscentista

(não mencionado)

não queria casar

mostrando a recusa deste enlace

queria ficar solteira, casta e virgem

em defesa da sua castidade

dizem os católicos

(não mencionado)

não queria render-se aos ditames masculinos

lutando contra os ditames masculinos

era lésbica

a sexualidade da princesa fora rapidamente questionada associando a a heresia da lesbiandade [sic.]

afirmam os hermeneutas mais modernos

(não mencionado)

Na véspera do casamento

(não mencionado)

St. Uncumber rezou intensamente

Recorrendo a inúmeras preces, Vilgeforte

pedindo a Deus que a transfigurasse e tornasse fisicamente repugnante

pedia a Deus que a salvasse e que lhe retirasse a beleza

O pedido foi deferido

Das suas preces parece ter resultado

St. Uncumber acordou naquela manhã com barba e bigode farto

em poucos dias o bizarro mistério em torno do seu corpo, ao qual teria ficado totalmente  coberto por pêlos

e o rei da Sicília desprezou-a

O rei da Sicília (…) desistira dos seus intentos

O rei seu pai mandou crucificá-la.

levando a que o pai da noiva a mandasse crucificar

 

P.P.S.- Na noite de 18 para 19 de Dezembro de 2023 o artigo aqui em questão “desapareceu” da sua publicação original. Falando com evidente ironia, nada da parte destas pessoas diz “não somos culpados de absolutamente nada nem temos nada a esconder” como tentar destruir as provas de um crime! Para evitar que isso acontecesse, fizemos algumas cópias das mesmas, e estão agora acessíveis ao público em Archive.org.

P.P.P.S.- Infelizmente, o tema deste artigo continua numa outra página, com mais novidades…

As Têmporas de Santa Luzia, uma tradição esquecida

Hoje trazemos aqui uma tradição associada às Têmporas de Santa Luzia. Em outros tempos, ela era muito conhecida nas terras do Minho, onde muitas outras tradições como esta costumavam existir – relembre-se, por exemplo, o famoso caso da oração de Santa Bárbara que afasta as trovoadas – mas parece estar hoje quase completamente esquecida. O último registo que encontrámos dela tem mais de um século, razão pela qual sentimos que poderíamos aqui apresentá-la de uma forma breve.

As Têmporas de Santa Luzia

Segundo esta tradição das Sortes ou Têmporas de Santa Luzia, o povo deveria prestar muito especial atenção ao tempo que fazia no dia dessa santa – ou seja, o dia de hoje, o dia 13 de Dezembro – porque ele profetizava, de certa forma, o tempo que ia fazer em Janeiro do ano seguinte. Depois, a ideia prolongava-se pelos dias seguintes – 14 de Dezembro equivaleria a Fevereiro, 15 de Dezembro a Março, e assim por diante. Se, por exemplo, chovesse bastante a 24 de Dezembro, isso queria dizer que todo o mês de Dezembro no ano seguinte seria também ele muito chuvoso. Desconhecemos até que ponto isto permitia mesmo prever o tempo, fica o convite para que algum leitor o tente, mas esta quadra associada a Santa Luzia até parece ter sido proverbial em outros tempos – recorde-se a expressão “De Santa Luzia ao Natal, um salto de pardal, de Natal a Janeiro, um salto de carneiro”, de que cá falámos em 2019.

 

Hoje, talvez tudo isto nos pareça uma palermice, mas tradições como esta das Sortes ou Têmporas de Santa Luzia parecem ter sido importantes no tempo em que ainda não existiam verdadeiros serviços de meteorologia. É provável que chovesse sempre, ou pelo menos bastantes vezes, durante este período de 13 a 24 de Dezembro, o que talvez permitisse aos trabalhadores dos campos terem algum cuidado adicional com as suas culturas, mas… à medida que os tempos foram evoluindo, tentar controlar o tempo desta forma foi perdendo importância, o que levou a que tradições como estas fossem esquecidas, por já não serem consideradas necessárias… e, hoje, já quase ninguém nelas pensa ou delas se recorda. Ou, sendo muito mais directos e sinceros, talvez apenas os mais idosos ainda se lembrem disto, com uma espécie de memória muito vaga dos seus tempos de juventude, algo de que apenas “Os Antigos” lhes falavam, mas a que já nem eles prestavam qualquer atenção!

A fuga de Maria, a codorniz e a lavandeira

A tradição popular portuguesa tem muitas lendas que associa à fuga de Maria e José para o Egipto. Já há alguns meses que aqui contámos uma, a da outrora famosa “maldição dos tremoços” (em que o facto de estas leguminosas terem contribuído para amedrontar a Virgem resultou no seu castigo eterno), e uma outra que nos pode explicar o porquê das aranhas darem sorte. Mas esses não são, obviamente, casos completamente únicos, e portanto, até dada a quadra festiva que depressa se aproxima, decidimos aqui contar mais duas lendas associadas a esse episódio bíblico, com desfechos bem diferentes, quase até opostos.

A fuga de Maria e José para o Egipto

A primeira destas duas histórias conta então que, nesse mesmo percurso para o Egipto, José e Maria encontraram diversas codornizes. Quando o casal se aproximava deles, estes pequenos pássaros levantavam voo muito alto, tornando possível que os Romanos vissem, muito à distância, que alguém estava a passar por esses lugares. Temendo pela sua vida, a Virgem Maria condenou então toda essa espécie à incapacidade de voltar a voar muito alto.

Por outro lado, no seu caminho eles encontraram também várias lavandeiras (um pássaro que hoje é também conhecido por alvéloa), uns pássaros com longas caudas que, nessa altura, arrastavam pelo chão. Face a esse seu comportamento, eles permitiram pagar os rastos da passagem da Santa Família, e neste caso a Virgem Maria deu-lhes depois a sua eterna bênção, tornando-as mais fortes e corajosas face a aves mais fisicamente imponentes, que até então muito as perseguiam e amedrontavam.

 

Estas são mais duas lendas pequeninas, mas que não podem deixar de fazer notar o seu charme, por se tratarem de histórias com um carácter marcadamente popular, que tentava – aqui, como em muitos outros casos – ligar o sagrado e o profano de uma forma que em muitos casos até nos pode fazer rir. Relembre-se, a título do mais puro exemplo, aquela ligação da Virgem com a cara feia do Linguado, e torna-se difícil não esboçar um pequeno sorriso sempre que ainda vemos esse peixe em qualqur lugar. Interrogamo-nos, portanto, se existirá alguma espécie de estudo nacional deste tema, catalogando todos aqueles animais que, segundo a tradução popular, Maria e José encontraram seja na sua fuga para o Egipto, seja em outros episódios bíblicos que fascinaram o povo ao longo dos séculos… mas se não existir, aí fica uma boa ideia para alguém que tenha tempo livre nas suas mãos e uma grande paixão pelas lendas tradicionais do nosso país…

A lenda do Burro do Presépio (e a Vaca…)

A lenda do Burro do Presépio, que aqui iremos resumir hoje, já foi famosa em outros tempos. É mencionada por diversos autores até ao século XIX, mas depois foi caindo num esquecimento progressivo, já que o seu culto foi proibido. Este não foi um caso único, aconteceu até com muitos outros animais que se criam ter o dom da santidade –  recorde-se, por exemplo, o muito curioso caso de São Guinefort, que era um cão… – mas dado que é uma história hoje quase esquecida, decidimos hoje trazê-la de volta à luz da ribalta.

A lenda do Burro do Presépio

Conforme explicado quando se falou por cá sobre a origem do Presépio de Natal, o burro sempre foi um de dois animais que se cria que integravam a cena do nascimento de Jesus Cristo. Isto pouco teria de especial, até porque Maria grávida viajava neste animal, mas mais tarde passou a acreditar-se que ele acompanhou o Filho de Maria durante toda a sua vida, sendo até o animal em que se montou quando, três décadas mais tarde, teve a sua entrada triunfal em Jerusalém. Pode ou não ser verdade, na Bíblia não há provas concretas a favor ou em contrário, e é daí que nasce toda a sequência principal da lenda do Burro do Presépio.

Ela diz, portanto, que quando Jesus Cristo entrou em Jerusalém montado neste burro, deu o trabalho do seu animal por terminado e cedeu-lhe toda a liberdade. O animal, feliz e contente com esse inesperado destino, decidiu então ir passear por todo o mundo conhecido, tendo diversas aventuras em várias terras, a que chegou cruzando os mares pelas suas próprias patas (as águas, por puro milagre, tornavam-se numa espécie de chão de cristal para permitir a sua passagem). Às tantas, lá deu por si nos belos prados de Verona, em Itália, e foi neles que decidiu viver os seus últimos dias. Quando faleceu, os crentes cristãos decidiram guardar as suas relíquias, que – alegadamente – colocaram dentro de um burro artificial feito para esse propósito.

 

Se o culto atribuído àquele que era, inicialmente, o Burro do Presépio se parece ter ido alterando ao longo dos séculos, em finais do século XIX ainda existia pelo menos uma relíquia dele na cidade de Verona, uma simples cauda, que depois caiu no esquecimento. Por isso, hoje já quase nada na cidade nos remete para esta lenda, talvez salvo uma pequena curiosidade – uma equipa de futebol local, o AC Chievo Verona, era conhecida por Mussi Volanti (“Burros Voadores” na língua local). Terá sido pura coincidência, ou uma última referência a uma lenda que já estava quase esquecida…? Não sabemos, nem os habitantes locais souberam explicá-lo.

 

“Mas… então e a Vaca do Presépio? Também há lendas sobre ela?”, poderia perguntar alguém que tenha mais curiosidade sobre estes temas. Podemos dizer que terá existido pelo menos uma, ainda nos primeiros séculos da nossa era. Segundo uma dada religião gnóstica (o nome da mesma escapa-nos neste momento), Jesus Cristo nasceu uma criança como as outras, mas foi através do bafo desta Vaca que lhe entrou o Espírito Santo no corpo, fazendo dele o Filho de Deus. Como é natural, toda esta estranha ideia foi condenada pelos Católicos e depressa se extinguiu, o que poderá explicar a ausência de lendas mais recentes sobre o mesmo tema…

Porque tem o Palácio da Pena duas cores?

Já cá falámos anteriormente sobre algumas curiosidades do Palácio da Pena, em Sintra. Por exemplo, em 2020 foi aqui falado sobre o seu Pórtico do Tritão, mas hoje dedicamos algumas linhas a uma pequena curiosidade que muito tende a intrigar os turistas vistantes do nosso país – porque é que o Palácio da Pena tem duas cores?

As duas cores do Palácio da Pena

Porque razão tem, como pode ser visto na imagem acima, este palácio sintrense um grande corpo amarelo, mas também uma espécie de torre individual pintada de vermelho? Para quem vive na zona a resposta até poderá parecer muito básica e óbvia, mas… afinal, qual é ela?

 

O Palácio da Pena antigo, antes de o ser...

O local onde existe hoje o Palácio da Pena já foi ocupado, em outros tempos, por um espaço que era conhecido como o Mosteiro da Penha (ou Penna), e que parece ter existido pelo menos desde o século XV. O local foi sofrendo alterações ao longo dos séculos, mas pode ser visto após algumas reconstruções na primeira das duas imagens acima. Depois, chegou o ano de 1834. Com a extinção das ordens religiosas, locais como esse foram sendo abandonados (recorde-se até aquela história da receita secreta dos Pastéis de Belém, em que essa extinção também teve um papel principal) e em muitos casos até caíram no esquecimento. Poucos anos depois, em 1838, Fernando II de Portugal adquiriu o espaço, bem como as muitas áreas que o circundavam, e notavelmente decidiu construir um seu palácio no local.

 

Claro que falamos do Palácio da Pena, como é óbvio, mas ele não foi construído por magia. Foi-o por fases, e é isso que pode ser visto na segunda das imagens acima, uma antiga fotografia que mostra este palácio ainda apenas com uma única torre, aquela que hoje é vermelha, e que nasceu de uma reconstrução do antigo Mosteiro da Pena, que por essa altura já estava em muito más condições de conservação. Só depois foi construído o resto do palácio, aquela nova secção a amarelo, um espaço mais recente que data do século XIX. Desconhecemos até que ponto essa divergência de cores terá sido intencional, mas ela parece marcar a distinção entre o pseudo-antigo – ele não é assim tão antigo, mas baseou-se no anterior mosteiro – e o moderno, o palácio construído de raíz nos tempos de Fernando II.

 

Portanto, em suma, o Palácio da Pena tem duas cores por ser composto por dois edifícios de tempos bastante diferentes. A vermelho encontra-se o mais antigo do dois, outrora conhecido por Mosteiro da Pena, cuja forma original datava pelo menos do século XV, mas cuja forma foi bastante adaptada em séculos mais recentes. A amarelo é hoje visível um espaço mais recente, com completa origem no século XIX, que não existiu até essa época. Juntos, formam um belo palácio, tal como ele pode ser visitado hoje em dia.