Onde ler sobre a Mitologia Lusitana?

Há alguns dias recebemos um pedido pessoal de uma pessoa que, no estrangeiro, queria aprender mais sobre a Mitologia Lusitana. Teríamos todo o gosto do mundo em aceder a esse pedido, em dizer-lhe o que ler, mas dar-lhe essa resposta não é de todo fácil, pelo que optámos por escrever estas linhas públicas, em vez de lhe dar uma réplica meramente privada.

 

Primeiro, e antes de tudo o mais, o que constitui a chamada “Mitologia Lusitana”? É, evidentemente, um conjunto de mitos e lendas que poderíamos associar ao chamado povo lusitano, ou seja, aos habitantes da antiga província romana da Lusitânia. O ainda-famoso Viriato foi provavelmente o mais conhecido de todos eles, e é ainda famosa a história de como ele conheceu o final das suas guerras contra os Romanos, mas o que mais sabemos sobre esse povo? Ele é mencionado, aqui e ali, nas obras de alguns autores do Império Romano, mas são raríssimos os instantes em que as crenças desse povo nos foram expostas. Procurar por elas em obras da Antiguidade Clássica é uma tarefa difícil, porque tudo o que pode ser encontrado nelas são, pura e simplesmente, pequenas migalhas dos seus tempos. E então, se as obras dos autores gregos e romanos não nos contam quase nada sobre a Mitologia Lusitana, onde a poderíamos encontrar?

Endovélico e a Mitologia Lusitana

Sabemos que os Lusitanos do seu tempo veneravam um conjunto significativo de divindades e criaturas – Endovélico, Atégina, ou o Larouco, entra muitas outras. E, é crucial deixar a informação seguinte muito clara, sabemo-lo apenas porque os seus crentes nos deixaram alguns ex-votos em que mencionam os nomes desses deuses e alguns elementos a eles relativos. Não contam, nunca contam, quaisquer histórias reais a eles relativas pela mesma razão que ainda hoje não o fazemos – basta pensar-se, por exemplo, que quando vemos uma imagem de Nossa Senhora na beira de uma estrada (e.g. o caso da misteriosa Nossa Senhora do Guincho), reconhecemos facilmente a sua forma, até aí podemos ler algum texto a ela associada (e.g. “Maria Florinda mandou colocar esta imagem à Virgem porque ela curou o seu filho”), mas isto quase nada nos diz sobre a natureza, os mitos ou possíveis lendas das figuras representadas. E porquê? Porque quem erege monumentos como esses está a escrever num tempo e espaço em que supõe que todos os leitores jamais irão esquecer os fundamentos por detrás dessas imagens, sendo o seu Larouco tão famoso como hoje é para nós, por exemplo, o Anjo da Guarda cristão.

O Larouco e a Mitologia Lusitana

Mas, continuando… sabemos portanto o nome de muitas dessas divindades, mas quase nada sobre os seus possíveis mitos e lendas, ao ponto de uma determinada pedra desses tempos lusitanos, outrora encontrada na Península Ibérica, já desconhecer se uma dada figura divina tinha por nome o masculino Fontanus ou o feminino Fontana… e se já nesses tempos, há aproximadamente 2000 anos, a informação em questão era desconhecida, como é possível esperar que ela seja conhecida hoje? Naturalmente que não faz muito sentido, neste contexto, que se possa conseguir encontrar uma obra literária sobre a verdadeira Mitologia Lusitana! Caso encerrado…? Não, ainda não, porque quem quiser conhecer o que ainda se sabe sobre esses potenciais mitos e lendas dos Lusitanos ainda hoje tem três alternativas:

Uma obra sobre a Mitologia Lusitana

Em primeiro lugar, a obra Religiões da Lusitânia, de J. Leite de Vasconcelos, publicada em três volumes no início do século XX, conta fielmente o que ainda se sabe sobre os deuses associáveis à antiga província romana em que os Portugueses de hoje vivem. Não contém, como é natural, as histórias completas dessas divindades, ou quaisquer grandes ciclos mitológicos a elas associadas, mas permite ao leitor conhecer o que verdadeiramente se sabe sobre elas de um ponto de vista histórico e científico.

 

Em segundo lugar, a obra Monarchia Lusytana, de Frei Bernardo de Brito, cujo primeiro volume data de finais do século XVI, conta a “nossa” história nacional desde o início dos tempos até ao nascimento de Jesus Cristo. E isso pode levantar uma questão enorme – como é que o seu autor sabia o que aconteceu? Que fontes usou ele para essa sua obra? É aí que, como diz a sabedoria popular, “a porca torce o rabo” – a sua obra, em especial neste primeiro volume, é parte ficção e outra parte apoiada nas obras de Ânio de Viterbo, ou seja, 48% ficção e outros 48% ficção, com os 4% restantes a se referirem apenas a factos muito ocasionais e difíceis de distinguir dos seus falsos companheiros.

 

E, em terceiro lugar, podem ser lidas obras de vão de escada, como aquela que um dia aqui aludimos em relação à judaica Lilith, em que os autores – ou, se preferirmos, os impuros inventores – pegam no pouco que ainda se sabe da Mitologia Lusitana e constroem verdadeiros romances em torno dos nomes das suas figuras. Relembre-se, a título de exemplo, aquela grande fantasia de Atégina que outrora aqui citámos:

No Equinócio de Outono, celebra-se o ritual que representa a descida de Ataegina ao Submundo. Segundo o que nos conta a tradição, Ataegina desce ao Submundo, em busca de Seu Amado Endovélico, que havia sido morto por um grande javali (que simboliza as Forças da Destruição, que desfazem a forma para que a essência possa renascer). Ataegina desce e encontra-se com seu amado, agora Senhor do Mundo dos Mortos: Enobólico, o Muito Negro. Ela, que é a força que a tudo vivifica, ao mergulhar nas trevas da Morte, abandona o Mundo dos Vivos à escuridão.
A imagem da Deusa fica sobre o altar nos meses claros do ano, mas no Equinócio de Outono, ritualiza-se a descida de Ataegina, guardando com segurança a imagem da Deusa, junto com a imagem de Endovélico, que é também guardada na véspera, quando se ritualiza a morte e descida do Deus ao Submundo, pela força do Javali Negro. Os ícones dos Deuses ficam guardados no sacrário durante os meses escuros e só são retirados seis meses depois, no Equinócio de Primavera, a Festa do Desabrochar da Vida.
Sempre que Ataegina desce, confio à Deusa e Senhora Nossa as sementes de meus sonhos. Pois Ataegina é, então, a própria Semente: que em busca de florescer novamente em Amor e Beleza, junto a Seu Amado, se enterra no Ventre Sepulcral da Terra Mãe. A semente, debaixo da terra, será roçada pelas Forças de Destruição do Submundo, que farão a casca da semente se putrefazer. Nesse processo, ela passará por dor e medo, numa verdadeira alquimia, no Caldeirão da terra, vermes e humidade do Ventre da Velha Dana. E deste caos germinal, surgirá o broto verde que se elevará, em busca do Sol: Endovélico (o que floresce), que aí sim, terá voltado a brilhar sobre a superfície. O broto crescerá, recebendo os beijos cálidos de Endovélico. O botão logo se mostrará por entre as folhagens, e eis que, no tempo certo, florescerá, e a Deusa, assim, retornará aos seus filhos, a Renascida, a Flor plena de Vida, Alegria, Beleza e Amor, Ataegina!
E junto com a Deusa, florescerão os sonhos que este filho devoto lhe confiou, e que junto com Ela, festejará a realização de cada um deles, assim como também aprenderá com Ela sobre a não realização daqueles que não vingarem, pois Ataegina é Senhora da Terra, da Lua e do Submundo, Deusa Tripla que reina sobre todos os Mundos, e que conhece o que vai nas profundezas subterrâneas de nosso inconsciente, no íntimo de nossa alma, e Sabedora disso, concederá sempre os frutos apropriados para a nossa colheita.

Isto não é, de todo, a Mitologia Lusitana, mas sim puras fantasias inventadas por alguém que pegou no pouco que se sabe de duas divindades lusitanas, inventou algumas coisas novas, o misturou com alguns famosos mitos da Antiguidade – os de Inana / Ishtar e Dumuzid / Tamuz, de Adónis, etc. – e o pretendeu fazer passar por histórias verdadeiras… que, provavelmente e como uma dada autora portuguesa, recebeu por inspiração divina de uma deusa que só podemos reconhecer como a Mentira, a estranha divindade dos Romanos e a de alguns romances medievais. O que estas obras apresentam são puras mentiras, e não merecem qualquer crédito!

 

Afinal… onde ler sobre a Mitologia Lusitana?

Face a tudo isto, sugerimos que quem quiser conhecer a Mitologia Lusitana leia, antes de tudo o mais, os três volumes da obra Religiões da Lusitânia. Em seguida, se quiser algo mais ficcional, poderá então ler o primeiro volume da Monarchia Lusytana. E, só depois, poderá até tentar ler obras dos nossos dias que clamam (falsamente) dar a conhecer a Mitologia Lusitana, mas que se esquecem frequentemente de informar os seus leitores que o que fazem é a construção de puras ficções, mais do que apresentar qualquer espécie de realidade do passado lusitano…

Sobre as obras como as desse terceiro grupo, preferimos sempre não as publicitar por aqui, já que a sua qualidade deixa constantemente muito a desejar – a título de exemplo, ainda há dias encontrámos, numa biblioteca portuguesa, uma obra em que uma seita secreta nacional, sobre a qual absolutamente nada mais se sabe, pelo módico preço de 15€ revela os seus grandes segredos, o que não pôde deixar de nos fazer rir a todos, tão grande a mentira por detrás dos seus autores, e tão cara a absurda fantasia que pretendia vender-nos…

Ibn Mucana e os seus poemas

Quem viver na zona portuguesa de Cascais certamente que já ouviu falar de Ibn Mucana, também conhecido por Ibn Muqana, autor de alguns poemas. Sim, é hoje mais conhecido como o nome de uma escola local, mas já foi mesmo o de um poeta árabe, que viveu no século XI da nossa era e que hoje é mais conhecido pelo facto de nos ter preservado o nome de “Al-Qabdaq”, a designação árabe para o que é hoje a freguesia de Alcabideche. Fê-lo num dos seus poemas, o que dá a entender, evidentemente, que nos terá chegado pelo menos uma das suas composições. E chegou, sim, com as seguintes palavras, tal como são reproduzidas numa edição da Associação Cultural de Cascais:

Ibn Mucana, seus poemas e Alcabideche

Ó tu que habitas Alcabideche, não te faltará o grão, nem terás escassez de cebolas, nem de abóboras!
Se és homem enérgico não te faltará a nora das nuvens, sem necessidade de mananciais,
Pois a terra de Alcabideche, quando o ano é bom, não produz mais que vinte cargas de cereais,
E se der alguma coisa mais, chegam as manadas de javalis reiteradamente.
Há pouca coisa útil nesta terra, como em mim próprio que sou duro de ouvido.
Deixei os reis cobertos com os seus mantos, deixei de ir em seus cortejos.
Converti-me em Alcabideche em colhedor de espinhos com uma foice guarnecida e afiada.
E se me perguntam “Gostas?” Respondo-lhes: “O amor à liberdade faz parte do carácter nobre”.
O apreço e os benefícios de Abu Bakr al-Muzaffar conduziram-me até aqui, à minha morada.

 

Este é um poema famoso, bem conhecido entre os habitantes de Alcabideche, mas… o que mais existe deste autor? Que mais preciosidades, além destas agora famosas linhas sobre os encantos do local em que outrora viveu, nos terá ele feito chegar? Não foi fácil descobri-lo, porque as suas obras não estão facilmente acessíveis ao leitor comum, mas numa pequena edição da Associação Cultural de Cascais contam-se, além do poema acima, apenas pequenas sequências de versos igualmente associadas a este mesmo Ibn Mucana. Nada têm de muito notável, o que permite compreender a razão pela qual pouco se fala da sua restante composição poética – para o leitor comum ela tem mesmo muito pouco interesse, sendo o poema reproduzido acima uma breve excepção entre os restantes – menos de meia dúzia – que nos parecem ter chegado, e que nesta edição até foram traduzidos do árabe original para a língua espanhola, e depois para a nossa.

 

Portanto, Ibn Mucana é um daqueles poetas cuja fama entre nós se deve, única e exclusivamente, ao facto de ter preservado num dos seus poemas como era a Alcabideche do seu tempo. Hoje, o local já não contém grão, cebolas, abóboras ou javalis, mas parte do espírito contido no poema, como os tais espinhos, ainda se mantém, tal como há já quase um milénio atrás…

Onde morreu Adolf Hitler?

De um ponto de vista puramente histórico, a morte de Adolf Hitler tem muito pouco de especial. Diz-se que ele faleceu por suicídio a 30 de Abril de 1945, num bunker na cidade alemã de Berlim. Mas, fosse só essa a história e certamente que não iríamos perder tempo a escrever as linhas de hoje. São muitos os mitos associados à figura – já aqui falámos, por exemplo, de que alguns afirmavam que ele tinha sangue judeu – mas este é um dos mais curiosos, por afirmar que ele sobreviveu de alguma forma àquele dia fatídico, que tinha vários sósias (qualquer semelhança com os nossos dias é mera coincidência…), e outras coisas que tais.

Onde morreu Adolf Hitler?

Por exemplo, esta imagem acima, que parece ter sido de alguma fama, demonstra outros possíveis Adolf Hitler, formas que o original poderia ter tomado para escapar da Alemanha e ir viver em algum outro lugar. E é esse o breve mito que aqui trazemos hoje, a ideia de que o führer não se suicidou em Berlim a 30 de Abril de 1945, mas que sobreviveu ao final da Segunda Guerra Mundial e viveu o resto da sua vida em algum outro lado. Como é que isso poderá ter acontecido varia bastante de uma fonte literária para outra, mas aqui ficam algumas curiosas opiniões sobre a forma como ele escapou e onde se encontrava após essa data:

– Foi morto pelos seus oficiais;
– Fugiu de Berlim por via aérea;
– Fugiu da Alemanha por meio de um submarino;
– Escapou para Dublin disfarçado como uma mulher;
– Usou o Die Glocke para escapar para outro universo ou período temporal;
– Vivia numa misteriosa ilha no Báltico;
– Refugiou-se num mosteiro em Espanha;
– Escondeu-se numa fortaleza secreta numa montanha alemã;
– Mudou-se para uma enorme quinta no Brasil (!);
– Vivia com Eva Braun numa mansão enorme na Bavaria;
– Etc.

 

Será que alguma de todas estas ideia tinha algum fundo de verdade? No mínimo dos mínimos, sabemos que algumas destas teorias de uma não morte de Adolf Hitler se apoiavam em ideias bem reais, como o caso específico de Josef Mengele, que viveu na América do Sul até 1979 (altura em que teve um enfarte e parece ter falecido).  A ausência de um corpo, de imagens que pudesse atestar uma morte irrefutável desta figura, parecem ter fomentado estas ideias, mas se elas são reais, ou mera fantasia, é algo menos relevante para aqui, já que o nosso tema principal são os mitos que toda a situação involve, mais do que a verdadeira história por detrás de toda a situação. Por isso, se souberem mais lendas ou mitos sobre este caso, podem sempre deixá-las ali nos comentários…

“João, ou Das Guerras Líbicas”, de Coripo

Coripo é um de aqueles autores que foi ficando perdido no tempo, uma figura do século VI, tardia demais para quem se interessa pela Antiguidade e imemorial para quem estuda a Idade Média. Por isso, se nos chegaram pelo menos dois dos seus livros, a obra João, ou Das Guerras Líbicas merece ser mencionada por cá não pela natureza do seu conteúdo – ele relata-nos as aventuras de João Troglita, um general bizantino do mesmo século – mas porque nos permite notar um momento evolutivo muito específico da Mitologia Grega.

João, ou Das Guerras Líbicas, de Coripo

Ao longo desta sua obra, Coripo vai, ocasionalmente, mencionando algumas figuras e eventos da Mitologia Grega, mas fá-lo sempre de uma forma muitíssimo breve e simples, usando ambas como um termo de comparação muito geral para o que pretende descrever, e.g. “nunca se viu um ajuntamento tão grande de homens desde o tempo em que os Gregos se prepararam para invadir Tróia”. É sempre tudo muito simples, qualquer estudante mediano de Mitologia Grega não teria dificuldade em compreender as ideias que o autor pretendia veicular. Mas depois, surge uma única ideia menos comum:

Dizem que um dia Dis [ou Plutão] organizou um concílio, quando se preparava para organizar uma guerra contra os deuses, e um milhar de monstros vieram das largas estradas do Inferno. A Hidra e a sinistra Mégara correram para lá, e o velho Caronte deixou o seu barco para trás. Tisífone rugiu num frenesim, abanando a sua tocha de pinho, que é poderosa na chama e no peso, e com ela a furiosa Alecto, com as suas cobras retorcidas, e todas as outras formas que aparecem no vasto Averno.

Toda esta estranha ideia não parece corresponder a nenhum mito dos Gregos ou Romanos que nos tenha chegado. Portanto, de onde vem ela? Ou Coripo pura e simplesmente a inventou para o seu poema, ou ele refere-se a algum mito oral do seu próprio tempo. A resposta correcta, entre estas duas, não é clara, já que mitos que envolvam Mégara, Tisífone e Alecto enquanto figuras individuais não abundam (uma excepção já cá foi mencionada, há mais de uma década), mas parecem ter sido mais notáveis nos últimos séculos da Antiguidade Clássica, com este mesmo autor até a atribuir, aqui e ali, algumas características individuais a cada uma delas.

 

Não sabemos, admita-se de forma frontal, de onde veio este mito incompleto mencionado em João, ou Das Guerras Líbicas, mas o que a obra nos permite apreciar, sem qualquer dúvida, é um estágio do desenvolvimento da Mitologia Grega em que ela já não era uma religião, mas um grupo de ideias que alguns autores escolhiam usar para dar aos seus leitores um termo de comparação, e.g. “este combatente é tão feroz como Aquiles”, “nem Hércules, quando atacou Tróia, fez tantos estragos”, etc. São uma espécie de referências mitológicas quase sem alma… o que é curioso, já que na mesma obra o autor até apresenta diversas sequências poeticamente belas, mas nunca as conjuga com os mitos que vai referindo.

 

Em suma, a obra João, ou Das Guerras Líbicas, de Coripo, tem alguns “momentinhos” interessantes para quem se interessa pela Mitologia Grega, mas eles não são, na verdade, suficientes para justificar toda a leitura da obra, ainda para mais quando esta não é uma obra muito fácil de encontrar.

Os mitos de Niceia e Aura, violadas por Dioniso

Se falar de violações nunca é bom, pelo menos aquelas que tiveram lugar com Aura e Niceia no contexto dos mitos dos Gregos e Romanos são dignas de nota. E são-no porque, quando falamos deste acto horrendo na senda das histórias da Antiguidade, a figura que tendemos a associar-lhe é quase sempre Zeus / Júpiter. Foi ele que tomou as mais diversas formas para seduzir diversas mulheres, com algumas relações sexuais mais consentidas do que outras. Aqui e ali, lá surgem mais alguns exemplos de actos semelhantes – por exemplo, os casos de Pítis ou de Dafne – mas quando se trata de falar de deuses violadores, Dioniso não é habitualmente uma das figuras em que se tende a pensar. Portanto, dada a raridade dessas histórias, decidimos que hoje poderíamos abordar ambas numa só sequência textual.

Os mitos que ligam Niceia e Aura a Dioniso

Primeiro, Aura era uma ninfa companheira da deusa Ártemis. Um dia, enquanto estas duas e as suas outras companheiras tomavam banho num curso de água, a jovem olhou para os seus próprios seios, fitou os da divina companheira, e não pôde senão rir-se – quão maiores, quão mais femininos, eram os da deusa face aos seus próprios! Claro que este pode parecer um “insulto” um tanto estranho, nos dias de hoje, mas devemos é recordar que Ártemis era uma deusa da caça, para quem a beleza física pouco importava, e portanto ela considerou as palavras da ninfa como muitíssimo ofensivas.

O que lhe aconteceu? Por influência indirecta da deusa, Dioniso apaixonou-se por Aura, mas esta sempre lhe recusou todo e qualquer amor. Então, o deus do vinho e da vinha drogou-a com a sua bebida encantada e aproveitou-se dela, roubando-lhe a preciosa virgindade. Dessa relação nasceram uma ou duas crianças, mas a ninfa, humilhada, acabou por se afogar propositadamente, sendo então transformada numa fonte de água, que curiosamente brotou dos seus próprios seios.

 

Também Niceia era uma jovem devota da deusa Ártemis. Um pastor apaixonou-se por ela, mas ela sempre rejeitou os seus amores, levando o jovem a pedir-lhe que o matasse com uma das suas flechas. Estranhamente, ela concedeu-lhe esse desejo, mas os deuses não podiam ter ficado menos satisfeitos com essa morte. E assim, por influência do deus do amor, Dioniso foi feito apaixonar-se por ela… mas ela também o rejeitou a ele, uma e outra vez!

Depois, um dia, quando Niceia andava nas suas caças pelos bosques, sentiu sede e bebeu de uma fonte que encontrou. O que ela não sabia, no entanto, é que o deus do vinho e da vinha tinha “envenenado” o local com a sua bebida. Bêbada, ela decidiu descansar um pouco no local. Adormeceu. E vendo-a assim, só e desprotegida, Dioniso tomou-a para si, engravidando-a até – como era sempre comum no caso das violações divinas. E, à semelhança da figura de que falámos acima, depois teve uma filha dessa primeira e única relação sexual… e foi ela, de facto, que deu o nome à outrora famosa cidade de Niceia!

 

Talvez tenham existido, em outros tempos, mais casos de jovens violadas pelo deus Dioniso, mas o que estas histórias de Aura e Niceia têm de particularmente digno de nota é a ausência de qualquer transformação divina. Poderiam tentar encontrar-se diversas razões para tal, mas é mais importante notar a constância do vinho do deus na sua perpetração destes actos. Casos como esses ainda são bastante frequentes nos dias de hoje, e apareciam até em muitos outros mitos da Antiguidade (e.g. o mito dos Centauros e Lápitas), o que nos poderá levar a pensar que a lição que os Antigos nos tentaram transmitir nunca foi bem aprendida…