Damásio I, o outro papa português

Quando se pergunta a alguém se já existiu algum papa português, habitualmente a resposta tende ou a referir o Papa João XXI, ou a revelar desconhecimento de toda a matéria. Como tal, podemos dizer que já existiu mesmo um papa português – nascido em Lisboa por volta do ano de 1215 com o nome de Pedro Julião, posteriormente adoptou o nome que acabámos de referir. Escreveu alguns livros mais ou menos interessantes, mas as palavras de hoje não são sobre ele, mas sim relativas a um outro sumo pontífice que parece ter nascido no nosso país, mas sobre o qual também se sabe muito menos.

Damásio I, um outro papa português?

Nascido por volta do ano 305 d.C., pensa-se que um tal Damásio – o primeiro papa desse nome – era natural de terras de Portugal, potencialmente de alguma aldeia na zona de Guimarães ou de Idanha-a-Nova. Infelizmente, muito pouco se sabe sobre a sua vida… diz-se que ambos os seus pais eram originários da Lusitânia, mas enquanto que algumas fontes dizem que ele também nasceu por cá, já outras referem que a sua mãe era lusitana mas deu à luz em Roma. É muito difícil saber-se qual das duas opções está correcta, mas ambas sugerem alguma ligação pessoal de Damásio I ao nossos país, o que não pode deixar de ser curioso, dado o tema aqui em questão.

 

Mas então… se João XXI até tem uma grande avenida em Lisboa com o seu nome, porque é este Damásio I tão menos conhecido que esse seu outro companheiro nacional? Mais que tudo, parecem existir duas razões para isso – a primeira é o facto dos dados biográficos que ainda temos sobre ele serem incertos, não sendo portanto possível averiguar até que ponto ele era mesmo do nosso país. Em segundo lugar, mesmo que tenha nascido na zona de Guimarães ou de Idanha-a-Nova, para alguns estudiosos isso apenas quer dizer que ele nasceu na antiga província romana da Lusitânia, não tendo nascido verdadeiramente em Portugal… isto porque o nosso país, se quisermos ser muito precisos nos seus limites geográficos e cronológicos, efectivamente só nasceu no ano de 1128. Por isso, se ele era mesmo Português ou não, acaba por ser algo que pode ser muito debatido, a favor ou contra, mediante quem quiser apoiar ou rejeitar essa possibilidade… mas, mesmo assim, deixe-se muito claro que ele foi papa e pode ter nascido naquele que é hoje o nosso espaço territorial!

 

O que quer isto dizer, para toda a temática de possíveis papas portugueses? Mais do que se afirmar que só existiu um papa português, e que ele foi João XXI, talvez fosse importante corrigir parte dessa ideia e afirmar, em alternativa, que poderá ter existido mais do que um papa natural dos limites geográficos do nosso país. Apesar de não se saber muito sobre o pontífice que ficou conhecido sob o nome de Damásio I, pelo menos alguns autores acreditam que ele nasceu no território que futuramente se tornaria Portugal, e portanto faz bastante sentido afirmar, no mínimo dos mínimos, que poderão ter existido dois papas do nosso país!

O Santo Sudário é Verdadeiro? Lendas, realidade, e… o de Lisboa!

O tema de hoje, sobre se o Santo Sudário é verdadeiro, é um de aqueles que fomos deixando de lado por várias vezes ao longo dos anos. Não por falta de interesse – seja da nossa parte, ou do próprio tema em si mesmo – mas porque fomos sentindo que ainda não tínhamos obtido informação e coragem suficiente para produzir uma só página que conseguisse resumir o cerne do tema. Isto, até que há umas semanas lá sentimos que já era altura do tema ser, de uma vez por todas, abordado por aqui…

O Santo Sudário de Turim

O que é o Santo Sudário?

Para quem ainda nada conhecer sobre este tema, o Santo Sudário – também chamado “de Turim” em função da cidade italiana que hoje o guarda, até porque em tempos existiam outros – é uma relíquia do Cristianismo que se assemelha a uma espécie de lençol, aquele que envolveu o corpo de Jesus Cristo quando este esteve no seu túmulo. Assim, quem olhar para a imagem acima – em negativo vê-se melhor, daí a reprodução dupla – poderá ver ao centro uma cabeça, à sua direita a face, à esquerda a parte de trás da cabeça, e assim sucessivamente, como se uma figura humana tivesse sido envolvida por este material. E até aqui tudo bem, isso é o que todos podemos ver na imagem, mas… como é que sabemos que se trata do famoso fundador do Cristianismo, e não de uma qualquer outra pessoa morta ao longo dos últimos dois mil anos? É em busca dessa resposta que procurámos a lenda por detrás desta relíquia, seguida pela verdadeira história que ela também nos esconde.

 

A “lenda” do Santo Sudário

Hoje em dia já muito pouco se diz sobre a lenda que outrora existiu ligada ao Santo Sudário de Turim. Isto porque ao longo do tempo se foi detectando que ela nem merecia ser considerada uma “lenda”, mas era pura e simplesmente uma história completamente ficcional, inventada em finais do século XVI e que surgiu primeiro na obra Sindon Evangelica (de Filiberto Pingone), que tentava explicar como é que esta relíquia chegou à mão da Casa de Sabóia por intermédio de uma tal Margarita de Charny. Era uma completa ficção pejada de muitos milagres e completas fantasias (relembrando, por exemplo, a lenda do nosso Bom Jesus de Matosinhos), mas que tinha um curioso aspecto – a tal “Margarita” existiu mesmo, foi de facto ela que passou o sudário à Casa de Sabóia (de onde, depois, chegou até aos nossos dias), mas… se assim o foi, de uma forma que agora parece tão simples, porquê a necessidade de esconder toda esta origem? É aqui que a história se torna mais interessante!

 

A verdadeira história do Santo Sudário

Em dada altura, essa tal Margarita de Charny teve em sua posse a relíquia a que chamamos o Santo Sudário. Andou, durante vários anos, a exibí-la por toda a França a troco de dinheiro. Obteve-a roubando-a de uma ordem religiosa a quem tinha sido doada por um falecido Godofredo de Charney (que era avô da senhora). Este cavaleiro obteve-a em alguma altura desconhecida antes do ano de 1353, mas a história da relíquia até então é demasiado incerta, assenta em infinitas teorias e zero certezas. Porém, o que tem muito interesse nesta história é que no ano de 1390 um bispo local, um tal “Pierre d’Arcis”, escreveu um documento ao seu papa, no qual nos revela que o seu predecessor tentou apurar a origem da relíquia e conseguiu descobrir que não só esta era uma completa falsificação, como até foi capaz de encontrar o artista que a pintou. Ou seja, trocando por míudos, em finais do século XIV, uma figura que nada tinha a ganhar – e provavelmente bastante a perder – em declarar esta relíquia uma falsificação, fê-lo… e se não for suficiente para vos convencer, na segunda metade do século XIV este suposto sudário de Cristo até tinha sido exibido ao público, mas com a advertência de que se tratava de algo meramente simbólico, não a verdadeira cobertura do corpo de Jesus Cristo!

O Santo Sudário está danificado...

Então, o Santo Sudário é Falso?

A história acima poderia indicar-nos que o Santo Sudário não é verdadeiro, por já no século XIV se pensar isso e porque nessa altura até parece ter sido apurado quem o pintou. Contudo, quem olhar bem para esta suposta relíquia poderá ver que ela está parcialmente danificada, pelo menos nas secções que assinalámos acima a vermelho. Prestando ainda mais atenção, poderão notar que existe um certo espelhamento nesses estragos, como se alguma altura da sua história tivesse sido guardada com dobras. E sabe-se que isso até acontecia no ano de 1532, altura em que, na noite de 3 para 4 de Dezembro, a capela onde era guardado sofreu um incêndio. Nessa sequência, esta mortalha não foi vista durante algum tempo e depois lá reapareceu… o que, para quem quiser ter um certo cepticismo, poderá levantar a ideia de que o original, então possivelmente destruído, foi nessa altura substituído por uma cópia menos danificada (não podia ser uma em boas condições, para se poder afirmar que sobreviveu ao incêndio apenas por milagre, como dizem lendas da época). Ou seja, que se o sudário de Godofredo de Charney e de Margarita de Charny era conhecido por ser uma falsificação, em 1532 ele ficou muito danificado num incêndio, e depois a Casa de Sabóia, procurando manter o (novo) prestígio que a relíquia tinha obtido apenas na sua posse (onde já não era considerada uma falsificação…), encontrou uma outra, danificou-a parcialmente para condizer com a lenda, e, por grandesíssimo milagre, essa era, de facto e inesperadamente, a verdadeira mortalha de Jesus Cristo. É possível, certamente que o é, mas teria de ser uma das maiores coincidências da história da humanidade… e é bastante difícil acreditar nessa ideia, certo?!

 

O Santo Sudário de Lisboa

Tenha ou não sido uma falsificação, a verdade é que o chamado Santo Sudário de Turim, estando na posse da Casa de Sabóia, se foi tornando muito popular por toda a Europa, levando a que fossem feitas e apresentadas cópias em muitos países. Entre eles contava-se Portugal, e há alguns séculos atrás os Lisboetas podiam, num dado feriado, ir ao Convento da Madre de Deus e ver no local uma reprodução desta mesma relíquia. Ela ainda existe, normalmente não está exposta ao público, mas foi-nos mostrada há quase 10 anos e, na verdade, é muito desapontante, porque preserva alguns elementos do original mas é absolutamente impossível que alguém acreditasse tratar-se, neste caso nacional, de um verdadeiro sudário de Jesus Cristo. Porém, é apropriado registar aqui uma breve alusão à sua existência, já que hoje existe pouquíssima informação sobre esse, outrora famoso, Santo Sudário de Lisboa.

Jesus Cristo e o Sudário?

Em suma, o Santo Sudário é Real?

Hoje, dada a importância de toda esta relíquia, existiram já dezenas de tentativas diferentes de apurar se o Santo Sudário é Real. Uns dizem que sim, outros lá respondem que não, mas é curioso que quando lhe foi feito um teste de carbono-14, a datação indicou uma provável origem no século XIII ou XIV, absolutamente condizente com a informação dada por Pierre d’Arcis, segundo o qual esta tinha sido uma completa falsificação do seu tempo, só pecando o bispo francês por não nos ter preservado o nome e origem do respectivo pintor. Por isso, caros leitores, se se quiserem apoiar na fé, poderão encontrar infindáveis argumentos para tentar refutar a ideia de uma falsificação medieval, mas se preferirem seguir a lógica, é muito difícil poder acreditar-se que, de facto, esta relíquia é real, o verdadeiro pano que em outros tempos cobriu o corpo de um Jesus falecido… e quem tiver mais curiosidade sobre o tema poderá até ler The Shroud of Turin, da autoria de Andrea Nicolotti, que explica toda esta história de uma forma bastante detalhada, incluíndo até os muitos testes que foram sendo feitos ao Sudário nos nossos dias (e não fomos pagos para fazer esta publicidade).

 

Resta talvez uma pergunta – como até dá o mote uma dada exposição dos nossos dias, quem é o homem do Sudário? Terá sido ele Jesus Cristo, um modelo cujo nome já há muito foi esquecido, ou uma figura completamente ficcional? Em busca de uma resposta, olhem para a imagem que reproduzimos antes deste último subtítulo. Não representa ela Jesus Cristo tal como ainda o representamos hoje, e como ele é frequentemente imaginado na arte ocidental? Não vos parece coincidência demais? É, portanto, demasiado provável que o artista, mesmo que não saibamos quem ele foi, tenha procurado representar a figura do famoso Filho de Maria tal como ele era imaginado no seu próprio tempo, sem que para isso necessitasse de um modelo real à sua frente. Portanto, a acreditar-se na (muito provável) falsificação desta suposta relíquia, o Homem do Sudário não era senão Cristo, mas um que apenas existia na pura imaginação do seu pintor. Não era um homem real.

19 anos de Mitologia em Português… e um mistério para desvendar!

Mais um ano de Mitologia em Português, já lá vão dezanove… Talvez sejam poucos, talvez já pareçam demasiados, mas nunca se sabe muito bem o que podemos contar em alturas como estas. A parte dos “Parabéns” é sempre mais ou menos obrigatória, mas que mais há a acrescentar aqui, além de um grande agradecimento a quem, semana após semana, vai lendo o que por aqui vai acontecendo, quase sempre de uma forma desordenada e aleatória? Por isso, em alternativa a uma publicação completamente banal sobre mais um ano de existência, iremos é contar aqui uma pequena história mais pessoal.

Um bolo de aniversário para celebrar o nosso...

Já aqui falámos antes, de uma forma bastante resumida, sobre as lendas nacionais das Mouras Encantadas. Quem conhecer minimamente esse tema saberá que há extensas referências na literatura ao facto de estas entidades místicas aparecerem na famosa Noite de São João, i.e. 24 de Junho. Então, neste ano de 2023 decidimos partir em busca delas. Escolhemos três povoações portuguesas em que existem tradições relativas às Mouras Encantadas, procurámos os locais onde outrora se dizia que elas apareciam, e depois… esperámos e esperámos, cada um em seu lugar. Fizémo-lo por cerca de quatro horas, incluindo aquele período de charneira da meia-noite, mas aparentemente não encontrámos nem uma só Moura Encantada em fontes, grutas, castelos ou antas, como as tradições orais de outros tempos fazem acreditar. Porém, há também algo um tanto ou quanto estranho a reportar…

Nessa mesma noite, em dada altura um dos nossos colegas passou a pé numa pequena capela medieval na região de Lisboa, a qual está aberta 24 horas por dia. Deviam ser então talvez nove, dez horas da noite. Sentada na porta frontal viu o que parecia ser uma jovem num longo vestido branco a chorar. Para não a incomodar, o nosso colega entrou então na capela por uma porta lateral. Ficou uns breves minutos no interior e depois saiu pela porta frontal… onde já mais ninguém podia ser visto, mas onde ainda podia ser ouvido, com os mesmos lamentos e volume de antes, alguém a chorar. Por muito que o tentasse, ele não mais viu essa jovem, mas continuou a ouvir os seus lamentos até sair de todo o local…

 

Seria uma Moura Encantada? Será que se tratou de uma qualquer outra entidade misteriosa que, muito curiosamente, assombra o local em questão? E, se assim o é, como é que uma visita posterior ao mesmo local nada revelou de adicional sobre todo este mistério? Não temos qualquer resposta real para dar em relação a tudo isto, mas demonstra, no mínimo dos mínimos, que temas como estes ainda não estão completamente mortos na tradição oral portuguesa, e por isso lá os vamos tentando recordar em linhas como estas… e, a quem nos vai lendo, fica aqui um agradecimento pelo facto de o irem fazendo todos estes anos!

As Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz

Uma tema como as Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz não é provavelmente algo que o leitor comum esperasse vir a encontrar por aqui. Porém, sentimos a necessidade de o abordar não só porque foi há apenas alguns dias que se celebrou mais um aniversário do falecimento da segunda – tal tragédia teve lugar a 18 de Julho de 1991 – mas porque nos podem demonstrar algo de estranhamente importante, que é o facto de até os grandes heróis terem os seus próprios pés de barro, uma espécie de face (in)visível que os aproxima muito mais de cada um de nós.

 

Se é quase certo que a maior parte dos leitores conhecem, mais ou menos bem, Fernando Pessoa dos seus próprios tempos de escola, já a de Ofélia Queiroz poderá ser-lhes muito mais desconhecida – podemos resumir o seu papel relevante como sendo a única namorada conhecida do poeta. Por isso, num tempo em que os telefones ainda eram raros e as liberdades individuais nem sempre permitiam encontros tão fáceis entre um homem e uma mulher, é apenas natural que ambos tivessem trocado as suas cartas de amor, e algumas delas chegaram mesmo aos nossos dias e encontram-se hoje publicadas.

As Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz

De que falam, então, as cartas de amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz? Desengane-se quem nelas pensava encontrar discussões filosóficas ou constantes poemas apaixonados. Quase nada disso está presente nestas epístolas. Em vez disso, o que se encontra nas linhas que trocaram – ou, pelo menos, nas que ainda tiveram a sorte de chegar aos nossos dias – são puras cartas de amor, como as que alguns de nós ainda tiveram, em outra altura, hipótese de trocar com alguém. Veja-se este curioso exemplo, da autoria do nosso famoso poeta e datada de 31 de Maio de 1920:

Bebezinho do Nininho-ninho

Oh!
Venho só quevê pâ dizê ó Bebezinho que gotei da catinha dela. Oh!
E também tive munta pena de não tá ó pé do Bebé pâ le dá jinhos.
Oh! O Nininho é pequinininho!
Hoje o Nininho não vai a Belém porque, como não sabia se havia carros, combinei tá aqui às seis o’as.
Amanhã, a não sê qu’o Nininho não possa é que sai daqui pelas cinco e meia (isto é a meia das cinco e meia).
Amanhã o Bebé espera pelo Nininho, sim? Em Belém, sim? Sim?
Jinhos, jinhos e mais jinhos

Fernando

Desengane-se quem pense que isto é uma brincadeira da nossa parte. Não o é. Esta é, verdadeiramente, a reprodução de uma das cartas de amor que Ofélia Queiroz em dada altura recebeu de Fernando Pessoa. É, tem de se admitir, talvez uma das mais estranhas, com o que é agora chamado baby talk, mas quem se confronta com a obra do poeta nos bancos de escola raramente tem a capacidade de o imaginar como uma figura igualmente capaz destas infantilidades. Mostram-nos quase exclusivamente uma entidade quase divina, dos vários heterónimos, de poesia com figuras clássicas e rebanhos que passeiam pelos campos… mas, enquanto isso, parecem ter-se esquecido de nos contar que também existia um homem bem real, de carne e osso, por detrás de todos aqueles poemas que nos fazem desfilar pela frente do nosso olhar.

Fernando Pessoa com Ophélia Queiroz quase a seu lado

Mas o interesse das cartas de amor de Ofélia Queiroz e Fernando Pessoa não fica apenas por aí. Nem sempre é fácil seguir a sua pseudo-trama – pelo conteúdo, depreende-se que existiram conversas com mais substância tidas pessoalmente, ou que o Fernandinho até andava a brincar com os seios da sua amada (as “pombinhas”, como lhes chamam…) – mas aqui e ali lá surge uma ou outra carta mais digna de nota, como uma que a jovem trocou com Álvaro de Campos. O tempo já fez perder como funcionava isso – estaria o poeta completamente louco? Ou era esta uma ficção que a amada foi aceitando de bom grado? – mas levanta um conjunto de questões curiosas.

 

Tudo isto não pode senão levar-nos a considerar, ou a imaginar, como terá sido a vida de muitos outros poetas. Se, por exemplo, já aqui falámos de Camões e Bárbara, acreditando que ambos existiram… terá havido, em algum momento, alguma troca de correspondência com palavreados como “o meu zarolhozinho” ou “a escrava do papá”? Será que em dada altura Dante e Beatrice trocaram uma espécie de mensagens mais risqués? Ou, ainda, terá já existido algum professor, em Portugal ou no Brasil, que fez os seus alunos ler algumas destas cartas de amor, e depois, inspirados nelas, mandou-os escrever conteúdos semelhantes a quem pensam amar? São muitas, ou até mais que muitas, as perguntas que uma obra desta natureza acaba por nos deixar. Não é ficção epistolar, com verdadeiras histórias que se possam ir seguindo, mas indiscutivelmente revelam uma face muito pouco conhecida de um dos maiores poetas de Portugal.

Sendo assim, será que vale a pena lerem-se, as pouco-conhecidas cartas de amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz? Tudo depende do grau de fascínio que quem lê estas linhas tem para com o poeta. Se este não vos diz nada, dificilmente as suas epístolas – ou as que ele recebeu de volta – terão algo de notável para vocês. Mas, se até gostam da obra literária pessoana, ler este corpus literário permite-vos aceder a toda uma curiosa face obscura do autor que dificilmente alguma vez terão imaginado…

 

E ainda, uma última e belíssima curiosidade! Infelizmente, as cartas não abordam a totalidade da relação dos dois, contêm interregnos, mas Ophélia – não é um erro ortográfico, foi o nome com que nasceu, na altura ainda com “ph” – parece ter verdadeiramente amado Pessoa. Se a relação amorosa que tinham terminou em dada altura, por razões que as cartas nunca tornam claras – terá sido pela notória insistência da primeira num casamento? Ou por episódios de quase-violência doméstica como o visível numa das missivas? – ela parece não ter encontrado outro amor até à data da morte de poeta. Depois lá casou, desconhecemos se alguma vez teve filhos, mas está hoje sepultada no Cemitério dos Prazeres, para quem um dia desejar celebrar a memória deste amor de Fernando Pessoa por Ofélia Queiroz… fica o convite!

Natalis Comes e “Mythologiae”

Natalis Comes não é um autor muito conhecido nos nossos dias, nem a sua Mythologiae continua a ter o interesse original. Apesar de pouco se saber sobre ele, salvo alguns dados biográficos mais óbvios que podem ser inferidos através da própria obra, em outros tempos este foi um autor quase sinónimo do próprio estudo mitológico, mas com o tempo a forma como tratava o seu tema parece ter perdido o seu ímpeto. Certamente discutível, se isso até foi bom ou mau, mas apresente-se esta obra para depois nos podermos focar nesse outro ponto.

Natalis Comes e a Mythologiae

A Mythologiae, de Natalis Comes, é, como não poderia deixar de ser, uma obra de espírito mitológico. Apesar de ter sido escrita e publicada em meados do século XVI, a intenção do autor parece ter sido a de recordar os mitos da Antiguidade e dar-lhes uma cara mais apropriada para o seu tempo. Assim, ele pegou nas várias fontes primárias a que ainda tinha acesso, algumas delas estranhamente obscuras*, e usou-as para reconstruir os mais famosos mitos clássicos com base no que estas lhe diziam. Quase sempre, isso gerou um relato mitológico como aqueles que ainda temos hoje, mas em outros permitiu a este autor polvilhar as suas histórias com elementos que poucos leitores conheceriam, e.g. uma possível origem lunar do Leão da Nemeia.

Pela positiva, Natalis Comes conseguiu assim criar uma obra em que reconta os mitos originais mas ainda lhes associa, ocasionalmente, factos menos conhecidos. Nem sempre é claro de onde eles vêm*, mas o autor desta Mythologiae consegue, aqui e ali, surpreender os leitores com os factos que apresenta.

Mas, pela negativa – se é correcto chamar-lhe isso… – ele reconta todas essas histórias na sua obra com o objectivo de as interpretar, de representar uma espécie de lições que ele dizia que os Antigos tinham escondido nas suas tramas, na provável senda de autores como Fulgêncio. Algumas dessas interpretações – a maior parte delas estão no décimo dos 10 livros que compõem esta obra – fazem sentido, outras nem tanto, mas é muito provável que tenha sido esse o elemento que foi desagradando aos leitores que vieram mais tarde – era uma estratégia relativamente comum no seu tempo, mas que, indisputavelmente, foi depois perdendo a sua importância original.

 

Porém, isso não equivale a dizer que esta Mythologiae de Natalis Comes está completamente ultrapassada. Claro que tem um conjunto de elementos que os leitores dos nossos dias talvez já não apreciem tanto, e eles até são comuns na obra, mas mesmo assim o seu autor ainda recapitula um conjunto muito significativo dos maiores mitos da Antiguidade, “organizados” de uma forma um tanto ou quanto desorganizada, em que raramente se sabe que tema se segue ao actual… e, além disso, dá frequentemente as fontes para sua informação, o que permite ao leitor conhecer, sem muita dificuldade, quais são os autores mais relevantes para o estudo de um determinado mito, alguns deles menos conhecidos, como João Tzetzes.

Por isso, esta é uma obra mitológica que foi muito significativa no seu tempo, mas que hoje, em que informações como as que contém estão rapidamente ao alcance dos nossos dedos, já não é tão importante como na sua data de publicação original. Como tal, Natalis Comes e a Mythologiae ainda são dignos de leitura, mas é provável que seja muito poucos aqueles que ainda se interessam pelo conteúdo que ele tem para nos oferecer.

 

*- Será que o autor ainda tinha acesso a algumas fontes literárias hoje perdidas, ou será que pura e simplesmente inventou algumas das suas fontes, como o tinha feito algumas décadas antes Ânio de Viterbo? Isso não é completamente claro, mas dado que essas fontes nunca são utilizadas para provar algo de muito grande, mas se resumem a breves referências muito ocasionais, é provável que ele as tivesse acedido, por exemplo, através de escólios de uma obra hoje inacessível…