O mito da Cabeleira de Berenice

O mito da Cabeleira de Berenice é daqueles com que nos confrontamos ocasionalmente no nosso dia-a-dia, mas nem por isso pensamentos muito nele. Isto porque a sua face mais visível se encontra entre as estrelas, quase lado a lado com figuras como o Sagitário, a Virgem, a Balança, entre outros elementos do nosso Zodíaco. O que, como em muitos outros casos semelhantes a este, nos poderá levar a uma questão dupla – quem foi Berenice, e porque razão foi a sua cabeleira considerada digna de ser apresentada entre as estrelas, onde ainda hoje a podemos encontrar?

O mito da Cabeleira de Berenice

Começando pela primeira dessas duas interrogações, a mulher que emprestou o seu nome a este aglomerado de estrelas foi, nem mais nem menos, Berenice II do Egipto, que aí viveu no século III a.C., e que segundo as histórias da época tinha os cabelos mais belos já vistos até então. Um dia, quando o seu marido, que nos ficou conhecido com o nome de Ptolemeu III Evérgeta, foi para uma guerra, esta mulher pediu à deusa Afrodite que o trouxesse de volta são e salvo, comprometendo-se a sacrificar os seus famosos cabelos em troca desse favor divino.

Conforme pedido pela sua esposa, Ptolemeu III Evérgeta voltou da guerra sem danos de maior, e então esta Berenice cortou a totalidade dos seus cabelos e depositou-os num templo da deusa, o pagamento devido pela bondade divina. E toda a história teria ficado por aqui, como muitas outras da sua época, mas… no dia seguinte, esta Cabeleira de Berenice desapareceu misteriosamente do templo da deusa, e uns dias depois o astrónomo da corte conseguiu encontrá-la entre as estrelas – ou, pelo menos, assim o disse, levando ao nome que os latinos vieram depois a conhecer como Coma Berenices!

 

Talvez seja uma história demasiado breve, esta por detrás do mito da Cabeleira de Berenice, mas para quem ainda tem a capacidade de encontrar este pequeno aglomerado no céu nocturno, contribui bem para explicar a sua origem e as razões pelas quais ainda hoje pode ser vista durante a noite. É curioso constatar que tem uma origem pseudo-histórica (Berenice existiu mesmo, mas não podemos ter a certeza de alguma verdade por detrás deste episódio da cabeleira, ou o que lhe terá acontecido…), por contraste com as origens puramente mitológicas que são muito mais comuns nestas coisas, mas não deixa de ser uma espécie de pequena lenda que ainda merece ser recordada e recontada nos nossos dias de hoje…

A origem da expressão “conto do vigário”

Questionar-nos sobre a origem da expressão “conto do vigário” é uma ideia que nasceu de uma visita recente de um colega a uma esquadra da PSP. Um cartaz presente na mesma, que reproduzimos abaixo, informava que “Muitos idosos são vítimas de burlas” e instava-os a que “Não caia[m] no conto do vigário”. O cartaz continua o seu tema referindo algumas características habituais dos burlões que enganam idosos, como funcionam os seus esquemas, bem como alguns cuidados a ter, mas… curiosamente, nunca explicam precisamente em que consiste essa tal história, o que nos levou a investigar o tema.

Origem da expressão conto do vigário

Existem, de facto, algumas lendas que tentam explicar de onde vem esta expressão do conto do vigário (já lá iremos!), tanto em Portugal como no Brasil, mas é curioso constatar que todas elas parecem ter dois elementos comuns, nomeadamente a presença de uma qualquer espécie de esquema e pelo menos um vigário, seja ele um verdadeiro padre ou apenas alguém que tem esse apelido. Mas, dado todo o contexto, nestas coisas a explicação mais simples tende frequentemente a ser a mais correcta – em outros tempos era bastante frequente os vigários, i.e. os padres adjuntos a um prior, aproximarem-se bastante das viúvas, quase sempre idosas, para as convencerem a deixar todas as suas heranças para a Igreja, como ainda pode ser testemunhado em textos como a Monita Secreta atribuída aos Jesuítas!

 

Se essa ideia já não é tão comum nos nossos dias, como é natural, o conto do vigário continua ainda a designar esquemas maléficos direccionados aos mais idosos com a intenção de obter as suas posses, o que bem explica o seu nome. Porém, já as lendas existentes não o fazem de uma forma tão conexa, como estas duas que a título de exemplo copiamos de um site brasileiro:

Uma das versões mais consolidadas do conto do vigário fala de uma história que aconteceu no século XVIII na cidade de Ouro Preto [no Brasil] entre duas paróquias: a de Pilar e a da Conceição que queriam a mesma imagem de Nossa Senhora. Um dos vigários propôs que amarrassem a santa no burro ali presente e o colocasse entre as duas igrejas. A igreja que o burro tomasse direção ficaria com a santa. Acontece que, o burro era do vigário da igreja de Pilar e o burro se direcionou para lá deixando o vigário vigarista com a imagem.

Outro fato interessante aconteceu no século XIX em Portugal quando alguns malandros chegavam à cidades remotas e se apresentavam como emissários do vigário. Diziam que tinham uma grande quantia de dinheiro numa mala que estava bem pesada e que precisaria guardá-la para continuar viajando. Diziam que como garantia era necessário que lhes dessem alguma quantia em dinheiro para viajarem tranquilos e assim conseguiam tirar dinheiro dos portugueses facilmente.

O que estas lendas têm de particularmente curioso é que nunca explicam que “conto” específico deu o nome à expressão – isto, porque não era uma trapaça completamente fixa e com personagens pré-determinadas, como poderíamos ser levados a pensar com base na informação da citação acima, mas sim um conjunto de palavras e ideias que, sem qualquer violência física, levava a que os idosos prescindissem de bom grado das suas posses, como já explicámos acima e como até era frequente acontecer com as viúvas abastadas pelo menos até ao século XVIII. O facto dessa “tradição” se ter perdido posteriormente, talvez pela expulsão das ordens religiosas, poderá até ser uma das razões que levou à invenção de lendas mais ou menos recentes como as que reproduzimos acima…

“Crónica dos Tempos Passados”, de Nestor

A Crónica dos Tempos Passados, atribuída a um monge que se conhece quase apenas como Nestor, é uma de aquelas obras que apesar de poucos lerem tem uma importância cultural muito significativa. Isto porque, como um dos seus nomes alternativos indica – Crónica Primária – é a mais significativa crónica histórica para as ocorrências dos primeiros séculos dos impérios eslavos, com especial incidência nas zonas de Kiev e de Novgorod (a tal cidade do menino Onfim, nascido no século seguinte ao da composição deste documento). Portanto, que nos conta ela?

A Crónica dos Tempos Passados, de Nestor

Seguindo uma ideia que já vinha dos autores cristãos dos primeiros séculos da nossa era, essencialmente esta Crónica dos Tempos Passados conta a história do império dos Rus desde o início dos tempos, na versão cristã (i.e. Jardim do Paraíso, Arca de Noé, etc.), até aos dias em que se escreveram as suas últimas linhas, nas primeiras décadas do século XII. Parece ter sido uma construção habitual na Idade Média e nos séculos seguintes – a “nossa” Monarquia Lusitana, de Bernardo de Brito, também faz algo semelhante – mas esta obra tem um pormenor muito curioso, um momento de charneira significativo, que é uma ênfase enorme no momento da conversão dos Rus aos Cristianismo.

Se até esse instante tudo vai sendo contado de uma forma mais ou menos breve, esse processo de conversão religiosa é explicado com grande detalhe, chegando a crónica a relatar os argumentos que foram utilizados – se mesmo reais, ou apenas lendários, não é possível sabermos – e uma breve história dos eventos bíblicos, na qual se fundem as verdadeiras crenças com um pouco da evolução mitológica que o Cristianismo foi sofrendo ao longo dos séculos. E isto tem uma consequência curiosa – se até essa conversão a obra parecia ser maioritariamente histórica, sem muitos mitos ou lendas (com excepção dos iniciais, aqueles do início do mundo), só já depois da conversão é que começam a aparecer referências à magia, ao Paganismo e a elementos religiosos dos “opositores”, algumas das quais com uma certa piada. Veja-se um breve exemplo, que terá tido lugar por volta do ano de 1071 d.C.:

Nesta altura um mago apareceu, inspirado pelo Diabo. Veio a Kiev e informou os habitantes que após cinco anos o [Rio] Dnieper iria fluir para trás e que os diversos países iriam mudar as suas localizações, de forma que a Grécia iria estar onde o país dos Rus estava, o país dos Rus onde estava a Grécia, e todas as outras terras iriam também ser deslocadas de uma forma semelhante. Os ignorantes acreditaram nele, mas os fiéis ridicularizaram-no e disseram-lhe que o Diabo estava apenas a conduzi-lo à sua ruína. E isto aconteceu, porque no decorrer de uma noite este homem desapareceu completamente.

 

São muitas outras as pequenas histórias que se incluem nessa segunda parte da Crónica dos Tempos Passados, algumas mais giras do que outras, mas a sua leitura tem uma consequência política interessante – sucintamente, deveria ser a Rússia a pertencer à Ucrânia, visto que Kiev parece ter sido, nessa altura, a primeira grande cidade eslava, como a vida de Olga de Kiev, hoje santa, permite atestar.

 

Para terminar as linhas de hoje, talvez esta não seja uma obra cuja leitura dê muito prazer a quem se interessa menos pela História – os elementos mitológicos e lendários aqui presentes parecem ser poucos e breves – mas é, como já foi referido acima, um texto importante para se compreender os primeiros séculos da cultura eslava, mesmo que nem sempre se consiga compreender onde termina a ficção e começa a completa realidade.

Luís de Camões amou uma Bárbara? As “Endechas a Bárbara Escrava”…

Falar de Camões e Bárbara é, necessariamente, falar de um conjunto de mitos e lendas portuguesas associadas ao poeta. Já cá falámos de algumas delas – por exemplo, o seu amor por uma tal Dinamene, e as razões que levaram à sua famosa cegueira parcial – mas uma outra, também de toda essa sequência lendária do autor dos Lusíadas, diz que ele nutriu amores por uma escrava negra que lhe não sobreviveu. Terá sido verdade? O que sabemos, de facto, sobre tudo isto?

Os amores de Camões e Bárbara

Entre os poemas mais famosos associados a Luís de Camões conta-se um que tem hoje o título de Endechas a Bárbara Escrava. Assim, se uma “endecha” não é senão uma composição poética triste, todo o título parece conduzir-nos à ideia de que o poeta poderá ter tido uma escrava, de nome Bárbara, e que algo de menos positivo lhe aconteceu. Contudo, tudo o que sabemos sobre toda esta situação é aquilo que os agora famosos versos nos comunicam:

Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que para meus olhos
Fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.

Uma graça viva,
Que neles lhe mora,
Pera ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.

Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E pois nela vivo,
É força que viva.

Analisar e interpretar estas Endechas a Bárbara Escrava de Camões ultrapassa os nossos objectivos habituais, pelo que é suficiente aqui apontar que os versos do poema, talvez um dos mais famosos deste autor, parecem, de facto, indicar que ele poderá ter tido uma escrava que amava mas que lhe faleceu. Mas, ao mesmíssimo tempo, importa também reconhecer que, salvo esta composição, pouco ou nada mais se sabe sobre toda a situação, não sendo sequer claro que o sujeito poético e o próprio autor sejam aqui um só. Como tal, tudo isto poderá ter um fundo de verdade – não se duvide disso! – mas poderá, igualmente, ser nada mais do que um poema puramente ficcional, em que algumas das palavras podem ser interpretadas para sugerir o brevíssimo conteúdo da lenda.

Por exemplo, “Parece estranha, / mas bárbara não”… porquê? Uma possível interpretação poderá ler estes dois versos como uma referência à sua proveniência não-ocidental, enquanto que outra conseguirá ver aqui uma potencial alusão à grande estranheza da morte, de uma Bárbara que já não o era como o tinha sido até então. Qual das duas está correcta, se alguma delas, é algo desconhecido.

 

São estas Endechas a Bárbara Escrava que unem o poeta a um possível amor para com uma mulher deste nome. Se se trata de uma lenda, ou se os versos da composição captam verdadeiramente um evento muito particular da vida do seu autor, é algo que ainda não se tem a certeza absoluta até aos dias de hoje… e isso é sempre um terreno muito fecundo para lendas, como já bem se sabe!

A lenda de Pecos Bill

Pecos Bill é, como muitas figuras americanas de que já cá falámos antes, uma personagem pouco conhecida em Portugal. Talvez até se consiga ler, aqui e ali, uma breve alusão a esta figura, muitas vezes juntamente com outros heróis como Paul Bunyan ou John Henry, mas não faz, de um modo geral, parte da nossa cultura. As razões para tal são fáceis de perceber – se a sua história até tem um cerne relativamente fixo, cada versão adiciona-lhe alguns pontos adicionais, sem que se consiga muito bem perceber se esses episódios já faziam parte das histórias mais antigas ou são apenas invenções posteriores. Como tal, não é possível contar aqui toda, mesmo TODA, a história deste herói lendário americano, mas apenas alguns dos seus capítulos mais famosos.

A lenda de Pecos Bill

  • O jovem que viria a ficar conhecido como “Pecos Bill” nasceu numa família muito numerosa. Um dia, quando eles iam a viajar em busca de melhores terras em que viver, o pequenito Bill caiu da carroça de seus pais, num local próximo do Rio Pecos (que depois veio a dar nome ao herói), e aí ficou, esquecido por aqueles que o trouxeram a este mundo. Então, nesses primeiros tempos da sua vida, foi criado por uma coiote fêmea.
  • Anos mais tarde voltou ao mundo dos humanos e ao seio da sua família, mas – pelo menos nas versões que encontrámos – não parecem existir grandes aventuras que os associem a todos.
  • Conheceu um cavalo muito raivoso – de nome Widow Maker, Flash ou Lightning – e passou a usar uma cobra como o seu laço de cowboy (conhecida sob o nome de Shake).
  • Em determinada altura deparou-se com um enorme tornado. Mais do que sentir medo, como seria de supor, decidiu lançar o seu laço e capturou esse fenómeno da natureza, cavalgando-o durante algum tempo.
  • Em uma outra aventura, quando passava pelos desertos do Texas com o seu cavalo, ambos sentiram imensa sede. Procurando o líquido vital, com um pau fizeram um enorme buraco no chão, que depois se veio a tornar o famoso Rio Grande texano.
  • Outros afirmam que em dado momento da sua vida ele conheceu uma tal Slue-Foot Sue, a mais bela mulher que já tinha avistado, e que cavalgava um grande peixe-gato. Casaram, ou estiveram prestes a fazê-lo, quando o cavalo do herói, sentindo profunda inveja da nova adição ao grupo, atirou-a ao ar, levando a um conjunto de estranhas acções que parecem variar um pouco de versão para versão e só terminaram quando ela foi parar à Lua, totalmente incapaz de voltar para o nosso planeta.

 

Além destas histórias de Pecos Bill, bem ilustradas em desenho animado pela Disney, claro que existem muitas outras, aparentemente menos conhecidas, de entre as quais a mais digna de ser referida aqui é provavelmente a da morte do herói – ao ver um homem vestido mais ou menos à cowboy, com um fato que tinha comprado numa loja de uma grande cidade, mas que pouco ou nada sabia sobre esses ofícios, o nosso herói desatou a rir e riu tanto, mas tanto, que acabou por morrer a rir. É um final um pouco caricato, tanto para a história como para estas linhas de hoje, mas caso contrário como se conseguiria matar um herói que era quase tão invencível como um Hércules dos tempos antigos…?