A lenda de Almofala

No município de Figueira de Castelo Rodrigo existe uma freguesia que tem o nome de Almofala. Hoje, e como informa uma espécie de site oficial, sabe-se que é provável que o seu nome tenha vindo do árabe almohala, i.e. “acampamento”, mas em outros tempos as populações locais contavam uma lenda para tentar explicar o nome da sua povoação. E é dela que aqui falamos hoje!

A lenda de Almofala

Numa data que o tempo já há muito fez esquecer parece ter ocorrido um homicídio nesta povoação, então com um nome agora desconhecido. Procurou-se o culpado, voltou-se a procurar, mas acabou por ser julgado – e condenado – pelo crime um homem que se dizia inocente. Muito protestou a sua inocência, mas o juíz local declarou-o culpado e condendou-o à morte na forca. Uns dias depois, quando estava a ser levado para cumprir a pena capital, começou a ouvir-se uma estranha voz a afirmar a inocência do homem. Procurou-se o responsável, apenas para todos os presentes se aperceberem que a voz vinha de uma árvore próxima do local – um álamo, choupo ou olmo. Totalmente incrédulo, o carrasco gritou “o Álamo fala!”, assim dando nome à povoação e salvando miraculosamente o homem que tinha sido condenado por erro do juíz.

 

Não conseguimos descobrir o que aconteceu à árvore falante desta lenda de Almofala (terá sido destruída pelos Espanhóis em 1642, como pode fazer subentender o site oficial?), nem se o verdadeiro culpado do tal homicídio alguma vez foi apanhado, mas esta história – que até nos poderá recordar, em parte, uma muito mais famosa, a do Galo de Barcelos – foi muito naturalmente criada para tentar explicar o nome da povoação numa altura em que os habitantes locais já tinham esquecido o seu sentido original. É difícil que tenha algum fundo de verdade, até porque mesmo em relatos miraculosos do nosso país as árvores muito poucas vezes falam aos seres humanos, mas não deixa de ser um relato delicioso de uma história associável a uma pequena povoação nacional.

Amabie, a criatura que protege contra a Covid-19

Se existem, por todo este mundo, um conjunto enorme de criaturas da mitologia com todo o tipo de características mais ou menos estranhas, talvez o Amabie até seja um dos mais relevantes para os dias de hoje. Com nome original アマビエ, a sua história merece, agora mais do que nunca, ser partilhada e transmitida pelo mundo fora. Como diz a nossa sabedoria popular ibérica, “no creo en brujas pero que las hay, las hay“, e então nada se perde em tentar esta outra estratégia para a pandemia do Covid-19, que já muitos parecem ter esquecido mas que ainda continua bem em frente das nossas portas. Em que consiste ela? É esse o tema de hoje, e a razão pela qual decidimos falar desta estranha criatura vinda do país do sol nascente.

A lenda de Amabie

Em meados de Maio de 1846 foi vista na província japonesa de Kumamoto uma misteriosa luz no meio do mar. Quando os cidadãos locais tentaram investigar de que ela se tratava, encontraram aí uma criatura muito estranha – tinha bico de pássaro, cabelos longos, três pernas, escamas de peixe e um género sexual desconhecido – que em voz humana lhes revelou que o seu nome era Amabie. Depois, deixou-lhes uma profecia para o futuro, em que também pediu que o desenhassem e mostrassem a sua imagem a todos aqueles que adoecem, porque face a sua presença mística essas pessoas depressa recuperariam das suas respectivas doenças. Em seguida voltou para sua casa, algures nos mares do Japão, deixando estes habitantes locais muitíssimo estupefactos… e eles lá decidiram que deviam mesmo seguir as ordens do estranho ser, até porque pouco ou nada tinham a perder com isso!

 

Entretanto já passaram quase duas centenas de anos, mas há alguns meses alguém em terras do Japão parece ter tido a (feliz) ideia de trazer esta antiga e estranha criatura de volta às luzes da ribalta – um dos cartazes oficiais até pode ser visto na imagem ali em cima. A criatura também é conhecida sob o nome de Amabiko, mas o que este yokai – que é como quem nos diz, de modo simplificado, um monstro nativo japonês – tem de especial é o facto de oferecer protecção recorrente aos seres humanos em troca da partilha de imagens suas. Ou seja, é como se fosse uma espécie de influencer de outros tempos, mas em troca de likes e shares faz é algo de verdadeiramente útil para a humanidade, em vez de tentar cravar refeições e roupas grátis em tudo quanto é sítio. Portanto, não vá o diabo tecê-las, toca a partilhar ali a imagem do Amabie, que nunca se sabe muito bem se estas coisas funcionam mesmo ou não, mas ainda se desconhecendo as verdadeiras origens do Covid, talvez uma espécie de cura mais mística até funcione…

Francisco de la Vega Casar, o homem-peixe de Liérganes

Como que inspirados pelo tema de ontem, referente a Matsya dos Hindus, hoje decidimos então aqui falar sobre o homem-peixe de Liérganes, no norte de Espanha, que tinha por nome original Francisco de la Vega Casar. É uma história famosa no local, e supostamente até real, que se diz ter tomado lugar em finais do século XVII.

Uma imagem meramente ilustrativa

Conta-se então que este jovem, Francisco de la Vega Casar, nasceu e cresceu em Liérganes, uma povoação no norte de Espanha. Um dia, quando foi tomar banho nas águas próximas, pareceu ter sido arrastado por elas e os seus companheiros acharam que ele se tinha afogado. E, como em muitos outros casos reais semelhantes, toda a história poderia ter ficado por aí, mas… não ficou!

Nos anos que se seguiram foram muitos aqueles que disseram ter visto em cursos de água uma criatura aquática que parecia humana mas que estava coberta de escamas. Com alguma dificuldade ela lá acabou por ser capturada, mas não dizia nenhuma outra palavra excepto “Liérganes”. Ao longo do tempo lá alguém se apercebeu que existia uma povoação com esse nome, levaram a estranha criatura para lá… e mal se encontrou no local, foi para casa da sua mãe, que depressa o reconheceu como o seu perdido filho. E então ele ainda viveu mais uns anos no local, antes de se atirar ao rio e desaparecer para sempre, nunca mais tendo sido visto novamente…

 

Este caso de Francisco de la Vega Casar, o homem-peixe de Liérganes, apesar de nos poder parecer estranho, não é único na cultura da época. Um episódio semelhante já aparecia na outrora-famosa novela Lazarillo de Tormes, de meados do século XVI, podemos relembrar o nosso Tritão da zona de Sintra, e figuras como estas também aparecem regularmente em manuscritos europeus (como o da imagem acima), mas o que torna esta ocorrência especialmente digna de nota é o facto de ela aparecer atestada na obra Teatro Crítico Universal do Padre Benito Jerónimo Feijoo. É provável que o nome da obra e do seu autor já diga pouco aos leitores hoje em dia, pelo que importa frisar que ele era muito céptico face a ocorrências como estas, mas no seu livro não só parecer acreditar nesta história, como dá a entender que tomou conhecimento dela por fonte primárias, por pessoas que diziam ter testemunhado tudo isto com os seus próprios olhos e que lhe pareceram fidedignas.

 

E, assim sendo, se não podemos ter a certeza absoluta do que se passou no local, pelo menos temos de admitir que “algo” se terá passado por lá, levando os cidadãos locais desta época a acreditarem que tudo isto era verdade. Terá sido um extraterrestre? Terá sido uma ocorrência completamente estranha e inesperada? Terá sido uma brincadeira parva de um adolescente? Não sabemos, nem podemos saber, tornando esta história famosa até aos nossos dias de hoje – por isso, se um dia estiverem por Liérganes, procurem o Centro de Interpretación del Hombre Pez, onde poderão conhecer um pouco mais da história do misterioso homem que nasceu com o nome de Francisco de la Vega Casar (e não, não fomos pagos para escrever estas linhas).

A lenda de Matsya

Matsya é mais um dos famosos avatares de Vishnu, de que já cá falámos de um modo muito geral anteriormente. E é, como a imagem abaixo permite constatar, uma espécie de peixe, cuja história podemos aqui tentar recordar hoje. Ela é importante por se tratar, vulgarmente, da primeira de todas as encarnações do deus, ou pelo menos a primeira de entre o seu cânone mais conhecido, aquele tal que já cá apresentámos antes. Portanto, vamos à sua lenda?

A lenda de Matsya

É dito que um dado dia o deus Brahma, uma das três grandes divindades hindus, adormeceu e deixou escapar os seus quatro livros do conhecimento – Rigveda, Yajurveda, Samaveda e Atharvaveda (colectivamente, são chamados os Vedas). Um qualquer demónio, cuja identidade parece variar mediante a versão, viu-os e fugiu com eles, engolindo-os para dificultar a sua recuperação.

Então, Vishnu tomou esta forma de um peixe muito pequenino e veio ao nosso mundo. Encontrando-se com o rei Manu à beira de um rio, pediu-lhe protecção face às espécies aquáticas maiores, o que o monarca lhe concedeu, guardando-o num pequeno pote com água. Mas este peixe foi crescendo muito rapidamente e o rei foi-o mudando de local para local, até que não encontrou outro remédio senão colocá-lo no mar. Nessa altura, e como agradecimento, este agora-gigantesco peixe falou com o seu ajudador e avisou-o de um grande dilúvio que se aproximava e que iria destruir todo o mundo. Como tal, pediu-lhe que juntasse a sua família, todos os animais, espécies de plantas, etc, algo a que o monarca não pôde senão obedecer, sendo assim salvo de uma completa destruição.

A uma primeira vista essa outra aventura poderá parecer secundária, mas ela tem uma razão de ser – o demónio que roubou os quatro Vedas tinha-se escondido, mas face à subida das águas foi forçado a abandonar o seu esconderijo. Quando o fez, Matsya encontrou-o e atacou-o, esventrando este seu opositor e conseguindo recuperar os tais livros do conhecimento, que depois devolveu ao legítimo dono.

 

À partida, esta lenda de Matsya até pode parecer uma história muito simples, mas esconde uma verdade que dá bastante que pensar – nas tais lendas dos 10 avatares de Vishnu parece existir uma espécie de evolução nas formas que vão sendo adoptadas pelo deus. Aqui e em primeiro lugar ele é um peixe, depois vem a tornar-se uma tartaruga e um javali, em quarto adopta uma forma que é um híbrido de animal e de ser humano, e assim por diante… mas seria esta ideia deliberada, já nas versões mais antigas de toda a história, ou é apenas uma releitura muito condicionada pelos nossos dias de hoje? É uma de aquelas perguntas cuja resposta final terá mesmo de ficar para os leitores…

 

Mas uma última curiosidade, sobre toda esta lenda de hoje. Na imagem ali em cima Matsya pode ser visto a transportar quatro crianças de cores diferentes. A que se refere a estranha representação? É, aparentemente, uma convenção da lenda, já que nesta sequência mitológica é dito que os quatro Vedas, que aqui foram levados por um demónio, estavam na altura a adoptar a forma de crianças pequeninas. Não é fácil compreender-se o porquê dessa metamorfose, mas uma das melhores respostas que encontrámos diz que essa forma se deve à juventude que o mundo ainda tinha no tempo em que esta aventura tomou lugar…

“Genealogias”, de Acusilau de Argos

As Genealogias, de Acusilau de Argos, foram escritas por volta do século VI a.C. Se nos tivessem chegado de uma forma mais completa, talvez tivesse sido interessante comparar a forma como contrastavam com teogonias como as de Hesíodo ou de Antífanes, até para que pudessemos compreender melhor a diversidade de crenças dos Gregos nos séculos mais antigos. Mas, visto que já não nos chegaram excepto em breves fragmentos – um total de pouco mais de quatro dezenas, na edição que consultámos – o que nos é permitido saber sobre elas?

As Genealogias de Acusilau de Argos

Muito curiosamente, a Suda refere a origem da informação que este autor usou na sua obra – supostamente o pai dele encontrou algumas placas de bronze no quintal, com histórias de outros tempos, que depois o filho, este nosso Acusilau, traduziu e/ou adaptou para os seus tempos. O caso não é único – recorde-se o exemplo de Joseph Smith Jr. e a fundação do Mormonismo, com contornos semelhantes – e até parece ter sido de alguma frequência na Antiguidade, com Platão a obter parte do seu conhecimento das paredes dos templos do Egipto, Evémero a contar uma história que dizia ter lido numa coluna muito antiga, etc.

 

E que informação era essa? Os poucos fragmentos que nos chegaram permitem compreender que a sua era uma obra de natureza genealógica, o que parecerá óbvio em virtude do seu nome. Assim, através desses mesmos fragmentos das Genealogias de Acusilau de Argos podemos não só reconhecer algumas paternidades divergentes daquelas que tendemos a associar a alguns mitos, mas também perceber que, aqui e ali, ele também conhecia algumas histórias que eram pelo menos um pouco diferentes das que conhecemos hoje. Para dar alguns exemplos ilustrativos, ele dizia que:

  • Eros era filho da Noite e do Éter (em vez de ter por mãe Afrodite).
  • Quem guardava as Maçãs das Hespérides eram as Hárpias (em vez das versões que aparecem no mito de Hércules).
  • O Touro de Creta era aquele que transportou Europa para a ilha (a maior parte das versões dizem que quem a transportou foi Zeus transformado).
  • Acteon ficou louco por ter querido amar Sémele (nas outras versões ele viu Artémis nua a tomar banho).
  • Os Homens antes da cheia de Deucalião vivam 1000 anos.
  • Afrodite apenas fingiu apoiar os Troianos durante a famosa Guerra de Tróia.
  • Que Ceneu só morreu porque, em virtude de se ter tornado invulnerável, começou então a considerar-se um deus.
  • Etc…

 

Também parecem ter existido neste trabalho muitos mitos semelhantes aos “nossos”, às formas das diversas histórias que ainda conhecemos nos dias de hoje, mas face ao seu carácter fragmentário é mais difícil reconhecer onde começam e acabam essas semelhanças. Não iremos tentar fazê-lo, como é óbvio, mas fica aqui a menção a mais uma obra da Antiguidade que parece ter sido de alguma importância significativa no seu tempo.