Os Versículos Satânicos e Salman Rushdie – qual a origem da controvérsia?

Está agora muito na moda falar-se de Salman Rushdie e dos seus Versículos Satânicos… e muitos dos que seguem as notícias recentes dizem que os Islâmicos são muito intolerantes, e outras coisas que tais, mas quando fomos perguntando às pessoas se sabiam a razão por detrás de toda a controvérsia, é demasiado curioso constatar que a resposta foi sempre negativa… ou seja, que como já parece ser demasiado comum nos dias de hoje, as pessoas gostam de mandar os seus bitaites, mas fazem-no até quando nada percebem do tema. Assim, achámos que poderíamos explicar aqui a verdadeira razão por detrás de toda a controvérsia. 

Os Versículos Satânicos e Salman Rushdie

Quem for ler os tais Versículos Satânicos de Salman Rushdie encontrará nessa obra de pura ficção uma ou outra razão para controvérsia menor… mas isso é apenas porque, como parte da cultura ocidental, os mesmos leitores raramente têm os fundamentos culturais e religiosos necessários para conhecer e entender o ponto que iremos apresentar a seguir.

 

Já cá falámos anteriormente no Corão, em particular sobre a presença de Jesus Cristo nessa obra, mas diz a tradição que todo esse texto religioso foi ditado a Maomé pelo Anjo Gabriel. Portanto, é considerado como um texto divino e infalível (tal como os Cristãos pensam em relação à sua Bíblia). Mas se Maomé faleceu na primeira metade do século VII, alguns anos mais tarde surgiu uma lenda oral um pouco insólita – que em dada altura, quando este profeta estava a ouvir as palavras do anjo, Satanás se foi intrometer e adicionou ao relato uma frase que não tinha origem divina. Então, a expressão original, ditada pelo anjo e hoje na sequência 53:19-20, diz o seguinte:

Ora haveis vós visto Lât e Uzzâ, e Manât, a terceira, que é outra deusa?

E conta-se que o opositor divino segredou uma pequena frase a seguir a essa, que já não aparece no texto actual que temos para o Corão, referindo que estas três deusas, anteriormente veneradas em Meca, eram mesmo verdadeiras e completamente dignas de pedidos de intercessão por parte de todos os crentes. Agora, se esta ideia até agradou muito a quem já as venerava, também levantou um conjunto enorme de problemas – se se admite a possibilidade de Maomé ser falível, de Satanás o ter mesmo influenciado na frase acima, será que isso também aconteceu em outros pontos do texto corânico? Ou, se aquelas deusas são verdadeiras e podem ajudar os crentes, como explicar que o profeta não o consiga fazer, segundo as crenças islâmicas? Etc…

 

Este episódio, esta lenda que ficou conhecida sob o nome dos tais “versículos satânicos” (o seu nome vem, naturalmente, de terem sido inspirados por Satanás), até foi inicialmente aceite pelos crentes do Islão, mas ao longo do tempo e face às implicações que trazia foi rebaixado para puro mito. Não é algo em que eles acreditem hoje em dia, mas sim uma história que conhecem e que parecem ver como um desrespeito à sua religião. Para estabelecer uma espécie de paralelismo com a religião de Jesus Cristo, é como se alguém andasse a escrever livros em que gozasse com a Virgem Maria e dissesse, com base em lendas de outros tempos, que ela foi abandonada por José porque engravidou de um legionário romano chamado Pantera/Pandera – e relembre-se que ainda há uns anos houve problemas, por parte de cristãos, face a um filme em que Jesus escapa da cruz, casa com Maria Madalena e até têm descendentes… o que mostra que muitos crentes querem respeito para a sua religião, mas nem sempre o têm para com a dos outros!

 

Portanto, o grande problema dos Versículos Satânicos de Salman Rushdie é não só o de relembrar esta lenda de outros tempos, mas também conter mais alguns elementos que desrespeitam a religião muçulmana. E quem quiser opinar sobre o tema, pelo menos que o faça com base num conhecimento das circunstâncias originais e do porquê dos crentes islâmicos se sentirem ofendidos com o conteúdo da obra…

O Coelho que Visitou o Palácio do Mares

A história que aqui contamos hoje, do Coelho que Visitou o Palácio do Mares, vem da Coreia e parece ser, segundo nos foi sendo dito, uma das mais conhecidas e populares desse país. De facto, enquanto escrevíamos estas linhas até encontrámos um livro infantil baseado no mesmo tema, como poderão ver abaixo. Mas continuando, esta é, como será fácil constatar, uma história para crianças, uma que bastante se assemelha às fábulas do nosso Esopo, mas nem por essa razão é menos digna de ser contada por aqui, até porque pode fazer o leitor sorrir um pouco.

O Coelho que Visitou o Palácio dos Mares

Há muito, muito tempo atrás, o Rei Dragão, o grande e poderoso monarca do Palácio dos Mares, ficou doente. Pediu aos médicos da sua corte algum remédio para a maleita, mas por muito que insistisse nenhum deles foi capaz de encontrar solução. Face à dificuldade, este monarca mandou então chamar todos os seus maiores sábios, que após horas e horas e horas de discussões conseguiram concluir que a cura para este seu rei passava por ele comer o fígado de um coelho.

A uma primeira vista isto seria fácil de resolver, mas não só não existem coelhos nos oceanos, como toda a corte deste rei tinha uma óbvia dificuldade em ir a terra. Lá muito se discutiu o tema, até que uma pequena tartaruga se ofereceu para sair das águas, ir a terra e trazer de volta ao palácio um coelho. Assim o planearam e assim ela o fez – a tartaruga foi a terra, encontrou um coelho, e disse-lhe que o Rei Dragão o queria conhecer.

 

Muitas foram as conversas que ambos tiveram, até que o coelho lá se deixou convencer pelo estranho convite e aceitou ir visitar o Palácio dos Mares. Ele não sabia como chegar lá, mas viajando às costas da tartaruga depressa chegaram ao local. Houve muitas festas, o animal foi presenteado com um enorme banquete, e tudo estava bem no melhor de todos os mundos possíveis até que o animal terrestre ouviu um rumor que dizia que o Rei Dragão lhe queria comer o fígado. Ficou com muito medo, como parecerá natural… mas o rumor depressa foi confirmado quando este coelho foi chamado perante o rei e lhe foi pedido o fígado.

Inesperadamente, o coelho respondeu que não tinha o fígado consigo. Tinha-o deixado em casa. Estava a lavar a roupa, lavou o fígado, colocou-o numa corda de secar, e depois deixou-o por lá. O pânico na corte foi geral, até que a tartaruga se ofereceu para levar o coelho de volta, para que este pudesse ir buscar o fígado de que tinham tanta necessidade. Assim planearam e assim foi feito. Mas depois, quando o coelho voltou a terra, depressa fugiu da tartaruga e dos mares, para não mais voltar, proclamando “Ahahaha, foram enganados, não há nenhum ser neste mundo que consiga retirar o próprio fígado para o lavar!”

 

Assim termina a história do Coelho que Visitou o Palácio do Mares. Para quem tiver essa curiosidade, não sabemos o que depois terá acontecido ao Rei Dragão (relembre-se que os dragões ocidentais são animais muito ligados à água), se ele lá acabou por ser curado ou não, mas é muito provável que tenha conseguido recuperar a sua saúde, já que ele, juntamente com muitos outros companheiros aquáticos, aparece em diversas outras histórias asiáticas, de que a lenda de Sun Wukong será provavelmente a mais óbvia.

Deixando de lado essas questões teóricas, esta não deixa de ser uma bela história com uma lição que ainda nos serve bastante para os nossos dias de hoje. Que lição será essa já é algo mais discutível, pelo que sentimos a necessidade de deixar para uma reflexão de quem for ler estas linhas. Fica o convite, como sempre!

A Solução Final da Questão Judaica e a sua chocante origem

Esta origem da Solução Final da Questão Judaica, que dá título ao tema de hoje, é provavelmente o tema mais chocante que já aqui abordámos. Na verdade, se alguém nos tivesse contado o que vamos relatar um pouco mais abaixo, diríamos ser mentira. Só podia ser, salvo a existência de provas muito grandes em contrário. E se o mito de Hitler ter sido Judeu já parecia estranho, o que agora descobrimos, por completo acidente, é mil vezes mais chocante. Portanto, para o tema de hoje, completamente impróprio para os mais sensíveis, comece-se com uma breve história de como fomos trazidos a este tema, seguido pelo inesperado desfecho que ele teve.

Adolf Hitler a cores

Há mais de dois anos falámos aqui sobre um livro de título Did Six Million Really Die? É um de muitos livros proibidos hoje em dia, daqueles que tendem a negar a existência do Holocausto na Segunda Guerra Mundial e outras coisas estranhas como essas. Fomos encontrando outros, como The Myth of German Villainy, o que até nos levou, em dada altura, a tentar explicar, numa perspectiva histórica, porque os Judeus são odiados. Mas, por muito que fossemos falando sobre esses temas, existia sempre uma enorme dúvida que continuava a pairar nas nossas cabeças – como foi possível que os Alemães matassem tantos Judeus? Não consideravam eles, ou mesmo até o próprio Adolf Hitler, ter à sua frente seres humanos de carne e osso? Como conseguiam os nazis explicar, no interior das suas cabeças, a abominável barbaridade que estavam a cometer, naquela que ficou conhecida como a Solução Final da Questão Judaica?

 

Em busca de respostas concretas, fomos então procurar fontes primárias pouco recomendadas a leitores comuns (importa frisar que por requisitarmos um livro desses até fomos acusados de ser neonazis). Fomos lendo publicações de diversos autores nazis, mas se eles mencionavam muito repetidamente um antissemitismo que já esperávamos encontrar, nenhum deles argumentava que se devessem matar todos os Judeus. Não conseguimos, até uma certa data, encontrar qualquer referência directa a isso nas obras de Adolf Hitler, de Joseph Goebbels, de Alfred Rosenberg, ou de seja quem fosse dentro do Partido Nazi. Expulsá-los para outro lado, impedi-los de continuar a viver na Alemanha e/ou na Europa, dar-lhes o seu próprio país, e outras coisas semelhantes, sim (!), sem qualquer dúvida, mas não parecia existir, em inícios do ano de 1941, qualquer plano horrendo por parte deles como o que agora se associa à Segunda Guerra Mundial e se designa por Solução Final da Questão Judaica!

 

Não conseguíamos compreender o que se passava, ao longo das fontes primárias que fomos lendo. Era completamente estranho, porque, com base na cultura popular, esperávamos encontrar um momento em que tudo isso mudasse, um instante em que, por exemplo, Adolf Hitler fizesse um discurso em que pela maior glória da Alemanha, da raça ariana e do Nazismo instava os seus seguidores a matar tudo quanto é Judeu, mas nunca encontrámos isso. Até que, pelo mais completo acidente, encontrámos um pequeno livro de que já ninguém parece falar. Parece hoje ser sempre muito omitido em toda esta história da Segunda Guerra Mundial, o que ainda torna o que encontrámos muito mais chocante.

Germany Must Perish!

Auto-publicado em Fevereiro de 1941 por Theodore N. Kaufman (um judeu nascido nos Estados Unidos da América e que se identificava como “Presidente da Federação Americana da Paz”), este Germany Must Perish! é um livro contra a guerra na Europa. E isso nada teria de especial, certamente que foram escritos muitos outros na mesma altura, mas o que o torna digno de nota aqui é a sugestão abominável que o seu autor faz na obra. Nunca pensámos vir a dizer ou a escrever as palavras que se seguem, mas neste livro……… Kaufman diz que os Alemães são as causas de todas as guerras deste mundo, e então sugere que, a bem de uma eterna paz mundial, todos os homens com menos de 60 anos e todas as mulheres com menos de 45 aí nascidos passassem por um processo de completa esterilização, para assim exterminar completamente e para sempre toda a raça alemã (será que isso também incluía os Judeus nascidos nesse país? Não é claro). Numa entrevista posterior, chegou até a dizer que isto não tinha problema nenhum, que era muito fácil de se implementar na prática…

 

É uma ideia doentia, macabra, independentemente de quem a escreveu. Mas se ainda não acham isso suficientemente horrendo, tenha-se também em conta que o seu autor chega a argumentar que é provável que 20% dos Alemães não tivessem qualquer culpa nas guerras, mas que sacrificá-los em prol da sobrevivência dos soldados estrangeiros que iriam morrer em guerras futuras era completamente aceitável. E ainda diz outras coisas que tais – um dos capítulos finais tem literalmente o título de “Death to Germany“. Ainda não estão suficientemente chocados? Vamos então a uma citação da obra em questão, em que o autor justifica o plano referido acima:

Firstly, no physical pain will be imposed upon the inhabitants of Germany through its application, a decidedly more humane treatment than they will have deserved. (…) Secondly, execution of the plan would in no way disorganize the present population nor would it cause any sudden mass upheavals and dislocations. The consequent gradual disappearance of the Germans from Europe will leave no more negative effect upon that continent than did the gradual disappearance of the Indians upon this. (…)

Aqui, num breve momento das 100 páginas da obra, o autor começa pela ideia de esterilizar todos os Alemães, e depois até termina referindo, desta forma tão casual, que eles fazem tão pouca falta na Europa como os Nativos Americanos fizeram nos EUA. E isto é horrendo!!!

A Solução Final da Questão Judaica

Mas… mas a triste verdade é que esse livro veio para a Europa, foi lido por Hitler e Goebbels, existem provas de que ambos o acharam completamente abominável… e foi nele que depois se parecem ter inspirado para a chamada Solução Final da Questão Judaica. Não sabemos até que ponto acreditaram mesmo na obra, mas no mínimo fingiram acreditar na ideia de que esse plano de destruição completa da Alemanha existia mesmo. E dado o antissemitismo da época, é muito provável que se tenham aproveitado de toda a situação, como um dos diários de Goebbels parece sugerir, quando diz:

This Jew did a real service for our side. Had he written this book for us, he could not have made it any better. I will have this published in an edition of millions for Germany and above all for the front, and will write the forward and afterward myself.

Aparentemente, e para os nazis, a obra parecia provar aquela “famosa” conspiração judaica mundial, até porque o seu autor se identificava como “Presidente da Federação Americana da Paz” e tinha amigos no poder nos EUA. Nesse sentido, não sabemos se a ideia de matar todos os Judeus já existia antes, mas a verdade é que, segundo conseguimos apurar (e, acreditem, procurámos como nunca por provas em contrário), ela não está atestada de uma forma indúbia antes da publicação deste livro.

Ainda pensámos que pudéssemos estar errados, que o livro só tivesse sido escrito em consequência das primeiras grandes mortes judaicas em campos de concentração, mas a realidade é que existem provas que o livro em questão já era lido na Alemanha em Julho de 1941, as famosas “estrelas” com que os Judeus se deviam identificar foram apenas implementadas em Setembro de 1941, mas a execução prática da chamada Solução Final Para a Questão Judaica data apenas já dos primeiros meses de 1942. E, se ainda não forem provas suficientes, deixe-se claro que nos Julgamentos de Nuremberga alguns nazis atribuíram o que tinham feito especificamente a este livro, tornando o argumento aqui apresentado difícil de refutar.

 

Ou seja, trocando por miúdos, os Nazis apenas parecem ter começado a matar Judeus de forma sistemática como resposta ao conteúdo completamente doentio da obra Germany Must Perish! Não sabemos até que ponto esta foi uma verdadeira causa-efeito, ou se os nazis apenas reapreoveitaram este livro para fazer vingar um plano que já podiam ter antes, mas há algo aqui que é impossível de refutar – este Germany Must Perish! é um livro macabro, foi lido por Hitler e Goebbels, e teve um impacto profundo nos eventos que tiveram lugar durante a Segunda Guerra Mundial, sendo repetidamente citado como uma prova de que, para os Alemães comuns, era tudo uma questão de matar ou morrer, por acreditarem, em virtude desta obra da autoria de um judeu, que se perdessem a guerra toda a sua raça ia ser completamente exterminada!

Algo completamente horrendo...

E… isto é pesado. Quando começámos a procurar uma resposta à nossa questão, relativamente ao porquê de estas atrocidades terem acontecido na Segunda Guerra Mundial, não suspeitávamos que fossemos encontrar algo tão horrendo como o descrito acima. Este é, ou pelo menos devia ser, um espaço para investigação e divulgação de coisas que pouca gente sabe, mas nunca esperámos encontrar algo que, de forma cumulativa, fosse tão inesperado quanto inquietante. Isto é chocante demais, porque, relembrando o que um jornalista americano escreveu sobre todo o tema em 1942:

No man has ever done so irresponsible a disservice to the cause his nation is fighting and suffering for than [Theodore] Nathan Kaufman. His half-baked brochure provided the Nazis with one of the best light artillery pieces they have, for, used as the Nazis used it, it served to bolster up that terror which forces Germans who dislike the Nazis to support, fight and die to keep Nazism alive…

Por isso, talvez seja mesmo esse o último segredo de Adolf Hitler – que a ideia da famosa Solução Final da Questão Judaica nem foi toda dele, mas em parte de um homem, um tal Theodore N. Kaufman, que nascido nos Estados Unidos da América e de ascendência judaica, um dia banalmente publicou um livro em que sugeria exterminar todos os Alemães.

 

 

E agora iremos tirar algum tempo de “férias”, porque descobrirmos isto foi mesmo demais para nós, a nível psicológico…

O mito do Cão de Fogo e dos Eclipses

Falar de eclipses é, muito frequentemente, falar de mitos e lendas em culturas por todo o mundo. Cada uma delas parece ter pelo menos uma história pessoal para justificar o porquê de eles acontecerem, ou, em alternativa, para explicar de onde surgiram pela primeira vez, e muitas delas até sentem a necessidade de preservar as datas em que estes tomaram lugar – relembre-se, a título de exemplo, o caso do nosso Livro da Noa. Assim, a história de hoje, que envolve um cão de fogo, vem-nos da Coreia e tenta contar ao leitor ou ouvinte como aconteceram a acontecer estas coisas no nosso mundo.

O cão de fogo e os eclipses

Diz-se então que há muito tempo atrás o Mundo das Trevas quis conquistar o nosso. Para tal, o seu monarca enviou um dos seus súbditos, um gigantesco cão de fogo – chamam-lhe pulgae, no original – para capturar o nosso sol, de forma a retirá-lo do céu e possibilitar um ataque nocturno. E o plano até era bom, mas quando pulgae se preparava para abocanhar o Sol, como se fosse um frisbee enorme, deparou-se com um problema totalmente inesperado – a sua superfície estava muito quente, fazendo com que o potencial raptor se começasse a queimar!

Pulgae voltou então a casa e explicou ao seu senhor o que se tinha passado. Juntos, decidiram em alternativa tentar tirar do céu a Lua, procedendo tal como antes, mas desta vez, quando o gigantesco canídeo se preparava para abocanhar o outro astro, deparou-se com um novo problema – a sua superfície estava muito fria, fazendo com que o potencial raptor ficasse com tanto frio que depressa teve de largar o disco celeste!

Face a estas ocorrências, este cão de fogo e o seu monarca tiveram de desistir temporariamente do plano que tinham, mas pontualmente lá decidem tentar uma nova opção e repetem o processo. Nesses momentos, para quem tiver mais imaginação é até possível olhar para o céu e ver, uma e outra vez, este pulgae a abocanhar os astros, como se fosse um cão dos nossos dias, a quem também nós tentamos atirar algum disco e lhe pedimos que o traga até nós. Escusado será dizer que até à presente data não conseguiram capturar nem a Lua, nem o Sol…

 

É curioso, este breve mito, quase como se de uma história para crianças se tratasse, mas na verdade é um conto tradicional que vem da Coreia, de um tempo em que os seus dois países ainda eram um só. Parece continuar a ser relatado nos dias de hoje, entre muitas outras histórias pelo mundo fora que tentam explicar-nos, afinal de contas, de onde vêm os eclipses. A verdade científica já é bem sabida, mas quão mais belo seria este nosso mundo se ainda continuássemos a contar histórias como estas?!

Shennong e algumas descobertas da China

O nome de Shennong parece ser quase desconhecido na nossa cultura ocidental, mas na China há que deixar muito claro que esta figura é considerada como uma das maiores da sua história. Fale-se então um pouco desta figura individual, mas também de outras que, no seu tempo, foram responsáveis por diversas descobertas muito significativas.

Shennong e as outras descobertas da China

De este Shennong, que mais tarde até se tornou imperador, diz-se então que ele foi o responsável pela invenção de todo o tipo de ferramentas que ainda hoje se utilizam nas lides da Agricultura. Mas caso queiram considerar, de uma forma muito estranha, que esse contributo não foi suficientemente grande na história da humanidade, há que frisar que ele também fez algo de ainda mais interessante – conforme apontámos quando aqui escrevemos sobre o Clássico das Montanhas e dos Mares, diz-se que foi este homem que provou todas(!) as ervas que existiam e foi capaz de discernir as suas propriedades individuais, utilizando até algumas delas para fazer os primeiros chás (contraste-se com a lenda japonesa da origem do chá). Como ele fez tudo isso não é fácil de explicar, mas pelo menos uma lenda tardia atribui-lhe uma barriga translúcida, através da qual ele pôde estudar, na primeira pessoa, os efeitos de cada erva.

Seja como for que o obteve, esse seu conhecimento foi depois sendo passado de uma forma oral, até que acabou por ser compilado numa obra que é hoje conhecida como Shennong Ben Cao Jing (“神农本草经”, no original), em que se apresentam, de uma forma muito breve, as características de cada erva, bem como de alguns animais, para que esses recursos pudessem ser utilizados pelas populações para combater as respectivas maleitas, naquele que será provavelmente um dos mais antigos fundamentos da Medicina Tradicional Chinesa.

 

Porém, se a este Shennong são atribuídas descobertas muito importantes, o seu caso não é único. Existem, na cultura chinesa, também outras figuras lendárias que se diz que nos trouxeram novidades muito importantes. Apenas para dar alguns breves exemplos, diz-se que um tal Zhimao criou redes para apanhar peixes e pássaros inspirando-se nas teias de aranha. Ban notou que os ramos de algumas árvores eram flexíveis e criou os primeiros arcos com eles. Gonggu, apercebendo-se de que as cabaças flutuavam nas águas, pegou então em madeira seca e criou os primeiros barcos. Uma outra figura, cujo tempo o nome já fez esquecer, vendo ervas a rodopiarem ao vento, inspirou-se nelas para criar as primeiras rodas. E assim por diante…