Hoje, por uma certa falta de tema, falamos de Seguis e Valença (ou Valenza, como escrevem outros). Mas talvez devamos clarificar – na verdade não nos faltavam temas, mas faltava era um que estivesse relacionado com São Valentim, o amor, e que também saísse fora dos típicos moldes de Romeu e Julieta ou de um “e viveram felizes para sempre”. Lembrámo-nos, portanto, deste estranho caso de amores medievais, agora remetido para pouco mais do que uma breve nota numa página com centenas de anos.

Se as histórias de amor medieval são infindáveis e vão desde Floris e Brancaflor até muitas outras figuras, de que a de Lancelot e Guinevere será provavelmente a mais famosa dos nossos dias, Seguis e Valença apresentam-se como dignos de nota pelo facto de já não sabermos absolutamente nada sobre eles. Dois poemas da época mencionam-nos, pelo contexto depreende-se que se tratassem de um par amoroso – no seu belíssimo A Chantar M’er Beatriz de Dia diz a um seu amado que “amo-te mais do que Seguis amou Valença” – mas já nada mais sobre eles parece ter chegado aos nossos dias. Nem sequer sabemos se a sua fama foi apenas local, ou se um destino estranhamente assustador fez perder todos os manuscritos desta história… e portanto, falámos aqui deles, mais que tudo, como uma espécie de porta para o belíssimo poema A Chantar M’er, de Beatriz de Dia.
Que tem de especial, esta construção poética de outros tempos, perguntam? É, como sempre lemos e ouvimos dizer, o único poema de uma trovadora francesa medieval – ou trobairitz, se preferirem essas palavras mais complicadas – que nos chegou completo com a respectiva música. E é um poema belíssimo, até porque fala de um amor não correspondido de uma mulher por um homem (a identificação com um homem real já nos transcende, porque nestas coisas é sempre difícil saber onde termina a liberdade poética e começa a realidade), em que parte das palavras originais, no.m val merces, ni cortesia, ni ma beltatz, ni mos pretz, ni mos sens – que poderíamos adaptar muito rudemente como “não me valeram o charme, a cortesia, a beleza, a honra ou a inteligência” – rapidamente encontram eco no sofrimento amoroso de uma traição dos nossos dias de hoje. Mas deixemos, neste término das linhas de hoje, o poema e a sua música falarem por si mesmos.
Para quem quiser a letra e respectiva tradução portuguesa, estão ambos embutidos no próprio vídeo.
!["O cavaleiro que fazia falar as vaginas [e os rabos]", de Garin O-Cavaleiro-que-Fazia-Falar-as-Vaginas-e-os-Rabos](https://mitologia.pt/wp-content/uploads/2026/06/O-Cavaleiro-que-Fazia-Falar-as-Vaginas-e-os-Rabos-300x199.jpg)




