As Sheela na Gig são esculturas figurativas que representam mulheres nuas exibindo uma vulva exagerada. Datadas da Idade Média, encontram-se em igrejas, castelos e torres por toda a Europa, com maior concentração na Irlanda e na Grã-Bretanha. O debate em torno da sua função permanece aberto. A explicação mais frequente vê estas figuras como amuletos apotropaicos, concebidos para afastar o mal e proteger os acessos dos edifícios, tal como as gárgulas. Colocadas sobre portas e janelas, as Sheela na Gig teriam atuado como guardiãs simbólicas, associando a força do corpo feminino à defesa espiritual.
Outros estudiosos, porém, interpretaram-nas a partir de um prisma moralizante. Anthony Weir e James Jerman, na sua obra Images of Lust: Sexual Carvings on Medieval Churches (1986), criticam diretamente a leitura pagã e defendem que estas esculturas representavam, para a mentalidade medieval, a luxúria feminina tornada grotesca, funcionando como advertência contra os pecados da carne. Para estes autores, a presença das Sheela na Gig nas igrejas afastava-se de funções de proteção espiritual e aproximava-se da pedagogia moral. As igrejas funcionavam como “Bíblias de pedra”, transmitindo ensinamentos através de imagens a uma população maioritariamente analfabeta. Tal como gárgulas, monstros ou cenas do Juízo Final, estas figuras grotescas lembrariam aos fiéis a realidade do pecado e da corrupção do corpo. A localização de algumas esculturas reforça essa função: colocadas sobre portais ou junto de janelas, as Sheela na Gig surgiam como advertências dirigidas à comunidade no limiar entre o espaço profano e o sagrado, marcando a passagem para o interior da casa de Deus. Nesse enquadramento, a exposição da vulva não seria sinal de poder vital, mas um símbolo da luxúria descontrolada que deveria ser rejeitada.
Em contraste, Margaret Murray [no artigo Female Fertility Figures], antropóloga pioneira nos estudos sobre sobrevivências pagãs, propôs uma leitura mais antiga. Para Murray, estas figuras podiam ter origem em cultos de fertilidade ligados à deusa-mãe. Ao serem integradas em edifícios cristãos, as esculturas teriam sido reinterpretadas, mas manteriam traços de um simbolismo vitalista: a vulva exposta não como sinal de pecado, mas como expressão de vida, fecundidade e poder feminino — sobrevivências discretas de práticas religiosas pagãs.
Lady Raglan, conhecida pelos seus estudos sobre folclore britânico, acrescentou ainda uma perspetiva ligada ao imaginário agrário. Inspirada pela figura do Green Man [ou “Homem Verde”], sugeriu que a Sheela na Gig poderia ser entendida como parte de um conjunto de arquétipos ligados à fertilidade, à morte e à regeneração da natureza. Tal como as cabeças vegetais evocam o ciclo de renovação, a mulher grotesca poderia simbolizar forças cíclicas que o cristianismo medieval assimilou de forma a acomodar formas de religiosidade popular.
O confronto entre estas leituras — apotropaica, moralizante, pagã e folclórica — revela a complexidade simbólica das Sheela na Gig. Entre o grotesco medieval e o paganismo, estas figuras continuam a desafiar categorias e interpretações rígidas. O seu carácter enigmático reside justamente nesta ambiguidade: ora repelindo, ora advertindo, ora protegendo, ora fecundando.
[Nota: Este artigo foi da autoria exclusiva de Domingos Fernando Barbosa, pertencendo-lhe todos os direitos legais.]

*- Nota do editor – É curioso constatar uma certa semelhança física desta figura com a do mito de Baubo, conhecido entre os Gregos e os Romanos da Antiguidade.



!["O cavaleiro que fazia falar as vaginas [e os rabos]", de Garin O-Cavaleiro-que-Fazia-Falar-as-Vaginas-e-os-Rabos](https://mitologia.pt/wp-content/uploads/2026/06/O-Cavaleiro-que-Fazia-Falar-as-Vaginas-e-os-Rabos-300x199.jpg)

