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Mitologia em Português

Mitologia em Português

24 de Agosto, 2009

"História Natural", de Plínio o Velho

Finalmente, consegui adquirir uma cópia desta obra, também conhecida por Naturalis Historia, ou História Natural, na tradução portuguesa. É certamente mais séria que a obra de Cláudio Eliano anteriormente por cá mencionada, e posso dizer que, em termos gerais, não tem tanto interesse (ou piada) para o leitor comum como a anterior. Do ponto de vista cultural, isso sim, esta História Natural é uma obra bastante interessante, uma vasta enciclopédia que nos permite compreender vários aspectos da cultura antiga.

 

O autor, Plínio o Velho (e tio de Plínio o Jovem), começa por falar de características terrenas, prosseguindo para temas como geografia, biologia, metais, pedras preciosas, entre muitos outros. De notar que todos os temas se encontram organizados de uma forma lógica, quase como uma narrativa, em que cada capítulo tende a entrelaçar-se no seguinte através da relação entre os temas. Para mencionar, por exemplo, o início do VIII livro, o autor começa por falar dos animais da terra, dos quais destaca o elefante; depois, nos capítulos seguintes, refere algumas informações relativas a este animal e suas características - quando foi visto pela primeira vez em Itália, como treiná-los, a importância do marfim, as diferentes especíes de elefantes, etc. Tudo bastante arrumado, de fácil pesquisa, quase como as enciclopédias a que temos acesso nos dias de hoje. Desta forma, é extremamente fácil pegar numa cópia desta História Natural e encontrar, de forma rápida, exactamente aquilo que procuramos. Claro que encontrar o que procuramos nem sempre é assim tão directo como seria de supor - relativamente ao elefante, as referências a este extendem-se por vários capítulos - mas pelo menos existe uma forma, se bem que rude e básica, de se encontrar mais facilmente o que procuramos.

 

Agora, em relação aos mitos, existem também aqui algum cepticismo. Veja-se, por exemplo, parte do capítulo LXX do livro X:

O pássaro pégaso, com cabeça de cavalo, e o grifo com orelhas e o bico em forma de gancho (...) eu julgo servem fabulosos. (...) Também as sereias não merecem o nosso crédito (...) Quem acreditar neste género de coisa também não negará que as serpentes, ao lamberem  as orelhas de Melampo, lhe deram o poder de entender a língua dos pássaros.

 

Ainda assim, é importante mencionar que este cepticismo é somente aparente, e não absoluto. Plínio, nesta sua História Natural, também fala de criaturas como o basilisco, refere a transexualidade das hienas, volta ao tema dos pássaros que adoram tudo o que é grego, refere os amores de golfinhos por vários jovens, e outros temas que, para nós, poderão parecer mera fantasia, mas que naquela altura eram considerados como reais.

 

Para terminar, importa então mencionar que esta é uma obra imprescindível para todos aqueles que pretendam compreender melhor alguns elementos da cultura romana no século I d.C.. Contudo, posso também afirmar que esta História Natural é uma obra demasiado pesada para uma leitura meramente lúdica.

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09 de Agosto, 2009

Sobre o "Corpus Hermeticum" de Hermes Trimégisto

Hermes Trimegisto e o Corpus Hermeticum

Para se falar no conjunto de textos conhecido como Corpus Hermeticum importa começar com uma referência ao seu autor. Pelo próprio nome de Hermes Trimégisto se entende que não se trata de um autor real (ironicamente, a Amazon Books parece pensar o contrário), mas sim de uma fusão entre figuras mitológicas - Hermes e Thoth - os quais tinham papéis similares na cultura Grega e Egípcia. De notar que a mitologia das duas figuras não tem qualquer papel nos textos, e mais do que histórias de deuses e mortais, os 17 livros compilados neste Corpus Hermeticum são de carácter religioso e metafísico.

 

São muitas as semelhanças entre as ideias patentes nestes textos e no Gnosticismo, no Neoplatonismo e, de uma forma bastante ligeira, até no próprio Cristianismo. Existem várias referências a um só deus, criador de tudo e sinónimo de bondade, bem como complexos (e, diga-se, notáveis) diálogos sobre a criação da humanidade, sobre o que nos separa das bestas, e muitos outros temas de índole similar. Eventualmente, chega-se a ponto que eu acho extremamente importante - num dos diálogos, é dito que esse deus foi, também ele, o criador dos deuses, apesar de todos estes textos apresentarem uma total ausência de referências a quaisquer outros deuses, sejam eles Gregos ou Egípcios. Quererá isto dizer que esta "religião" poderia ser praticada juntamente com outras, mais precisamente com a principal religião do Império Romano, sendo que este deus (cujo nome nunca é mencionado, o que lhe dá um carácter ainda mais misterioso) deveria ser considerado como o pai de todos os outros? Penso que sim, mas também poderei estar enganado, visto que também existem vagas referências a um filho desse deus, sem que alguma vez lhe seja dado um carácter mais divino.

 

Um outro facto a notar destes textos é a existência de diversos advérbios de tempo. Poderá parecer um pequeno pormenor, quase irrelevante, mas visto que estes textos são maioritariamente compostos por diálogos, a existência de diversas referências a uma passado recente fazem-me crer que estes eram lidos, ou estudados, numa dada ordem cronológica. Uma tal teoria estaria de acordo com os procedimentos iniciáticos das antigas Religiões Misteriosas (e, ainda hoje, com os graus da Maçonaria, hoje em dia), bem como com o carácter evolutivo necessário para a total compreensão do conjunto de textos. Só teria lógica falar-se sobre a natureza dos homens depois de se compreenderem as bases da natureza divina, e é essa evolução que, nestes textos, tem um seguimento lógico e, até certo ponto, pode ser compreendida de uma forma relativamente fácil.

 

Ainda assim, creio que o maior interesse destes textos seja realmente a sua apresentação de uma religião monoteísta, numa altura em que esse fenómeno ainda não estava assim tão disseminado. Visto que também são diversas as suas similaridades com o próprio Cristianismo (por exemplo, a explicação para a criação do mal, já que o deus-criador era símbolo de bondade) o que nos poderá dar mais alguma informação sobre a forma como este evoluiu nos primeiros séculos da nossa era.

 

Para quem quiser ler os textos do Corpus Hermeticum em questão, estes estão disponíveis, em versão inglesa, no seguinte link.

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