Perto da cidade de Lisboa existe uma pequena povoação de nome Linda-A-Velha. Uma tão-invulgar designação tende a suscitar a curiosidade daqueles que por lá passam – por isso, pergunte-se, qual a origem deste estranho nome?

Conta-nos uma versão da lenda que nessa povoação, entretanto ainda sem nome, vivia uma jovem lindíssima. Habitava uma torre semelhante à da imagem, e por muitos homens que buscassem o seu amor, ela rejeitava-os a todos. Um dia, conheceu um formosíssimo cavaleiro e apaixonou-se por ele. Viveram alguns tempos do mais intenso amor, até que um dia ele teve de voltar para uma qualquer guerra. Aguardando sempre pelo retorno do seu amado, a jovem colocou-se à janela e fitou o Tejo.
O tempo foi passando e a jovem tornou-se mulher, continuando a aguardar que o seu amado voltasse.
E o tempo passou, e passou, e passou. A mulher tornou-se velha, mas continuou sempre a vigiar o Tejo, com uma infinita esperança de que aquele homem que amava um dia voltasse para os seus braços. Enquanto isso, abaixo da sua janela passavam jovens todos os dias, que, fitando o rosto sempre miraculosamente imaculado da velha, jamais se cansavam de dizer ” Que linda a velha!” – e assim foi sendo dado o nome ao local em que a formosa e famosa amante um dia viveu, a terra de Linda-A-Velha…
Mas esta não é a única lenda associada ao local. Uma outra diz que o seu nome original era [A]Ninha-a-Velha, pelo facto de um qualquer rei, de identidade agora desconhecida, supostamente ter passado no local e, ao ver uma velha que passava muito frio, ter ordenado a alguém que “aninhasse” – ou seja, desse um agasalho – a pobre idosa. É uma de muitas lendas nacionais que, como a de Benfica, tenta explicar um topónimo através de alguma frase enigmática que se pensava que um monarca tinha dito no local…
E… Linda-A-Pastora?
Próxima da localidade anterior pode também ser encontrada uma com o curioso nome de “Linda-A-Pastora”. Não fomos capazes de encontrar uma lenda completa que explique esse nome, mas uma breve alusão que lhe é feita por Leite de Vasconcelos poderá indicar que a designação era anteriormente explicada relatando-se o caso de um homem que abandonou a esposa e foi viver para o Brasil, voltando muitos anos mais tarde, e encontrando no local em que tinha vivido uma belíssima pastora… sem a reconhecer, disse então “Que linda, a pastora!”, contribuindo para dar esse apelativo ao local onde reencontrou a antiga esposa.
A semelhança desta lenda com a anterior é inegável, sendo por isso provável que existissem em redor deste local várias lendas muito semelhantes, em que uma mesma explicação era aplicada ou a uma pastora jovem, ou a uma velha de beleza intemporal. É muito difícil saber qual veio primeiro, mas estas parecem ser as duas principais lendas que se associam a estes locais geograficamente muito próximos!
!["O cavaleiro que fazia falar as vaginas [e os rabos]", de Garin "O cavaleiro que fazia falar as vaginas [e os rabos]", de Garin](https://mitologia.pt/wp-content/uploads/2026/06/O-Cavaleiro-que-Fazia-Falar-as-Vaginas-e-os-Rabos.jpg)





Quanto a Linda-a-Pastora, fora a alusão de Leite de Vasconcelos, o mais complexo que temos é o romance recolhido por Garrett no “Romanceiro”, volume 3 (https://moodle.ufsc.br/pluginfile.php/1 829280/mod_resource/content/1/Romanceiro _Garrett.pdf).
V. André Ferreira Monteiro
Obrigado pela partilha!
De nada; pode ser só um romance nacional com presença e variação local (surge além da Estremadura na própria Linda-a-Pastora no Minho e outras antigas províncias), mas sabe-se que muitas lendas locais surgem de igual modo de localização de coisas até globais. A origem real dos nomes, Leite de Vasconcelos dizia que vinha do Latim “Lindar” para “Limite” e que seriam logo dois limites de uma zona de direito comum (romano ou posterior), mas a versão original dos nomes como “Ninha a Velha” e “Ninha a Pastora” mostra que a origem era diversa (provavelmente de uma raiz proto-celta tipo penha/penina, logo era “Ninha=Cabeço/Penha/Alto-a-Velha” e “Ninha=Cabeço/Penha/Alto-a-Pastora”, a 1.ª de uma quinta fidalga já de alguma idade que seria chamada pelo século XVI “Ninha” ou “LINHA Velha”, a 2.º menos claro sem ser talvez comunidade de pastores. Existe uma lenda que denuncia algum trabalho literário e é de registo escrito mais recente, mas não afastaria que tenha algum passado folclórico, que explica Linda-a-Velha, -a-Pastora e Cruz Quebrada numa só lenda, aparentada com a do emigrado para o Brasil de que falas (https://www.facebook.com/gazetamiraflor es/posts/a-lenda-de-linda-a-pastora-e-li nda-a-velha-e-cruz-quebradaem-tempos-rem otos-veio/3528260120601935/). Cumprimentos!
Obrigado por toda essa informação, muito naturalmente. Claro que existem muitas outras explicações para tudo isto, como em tudo o resto, mas a versão que publicámos aqui parece ser a mais conhecida, daí termos optado por ela.
E quanto àquela lenda que mencionou ali no fim, naturalmente que ela é muito recentemente, provavelmente do século XX ou XXI, até pela forma como omite, muito deliberadamente, qualquer elemento mais identificativo que pudesse permitir a identificação do tempo ou espaço.
Bem, obrigado pela partilha, mesmo! 🙂