A misteriosa Nossa Senhora do Catorze

De entre as histórias que aqui foram passando ao longo dos anos, é provável que a desta Nossa Senhora do Catorze seja uma das mais intrigantes. Não foi possível apurar, com absoluta certeza, até que ponto os eventos que aqui serão reportados foram completamente reais, mas uma breve nota num jornal da época atesta que parte tomou lugar por volta do ano de 1914, ou seja, alguns anos antes dos chamados Milagres de Fátima.

Nossa Senhora do Catorze

Diz-se – pelo que ainda é possível reconstituir – que por volta dessa altura um padre da zona de Torres Novas se queixava da falta de dinheiro na sua paróquia. Então, foi-lhe sugerido por alguns amigos, também eles colegas de profissão, que falsificasse um milagre como o de Lourdes, com direito a uma (falsa) aparição de Virgem Maria e outras coisas que tais. O local da “aparição” deveria ser de fácil acesso, estar próximo de algum curso de água (para se a poder vender…), a santa deveria surgir sobre um local diferente dos já utilizados em aparições semelhantes (foi escolhida uma azinheira), etc. Chegou-se até a escolher o nome – Nossa Senhora do Catorze – em virtude do dia para o qual se planeava essa suposta aparição mariana.

 

Tudo teria funcionado como planeado, não fosse o legítimo proprietário do terreno, cuja identidade o tempo já fez esquecer, ter desconfiado da presença recorrente de vários padres no local que era seu por direito, os ter expulsado de lá, ter cortado a tal árvore que iria ser necessária para o “milagre”, e ter reportado o (pouco) que sabia destes estranhos eventos!

 

 

Agora, se tudo isto tivesse acontecido alguns anos mais tarde, nenhum leitor duvidaria que se tratava de uma tentativa de cópia da história da Nossa Senhora de Fátima, mas o que tem aqui interesse é mesmo o facto desta tentativa de “aparição” ter acontecido alguns anos antes, com pelo menos um elemento – a azinheira – a ser repetido depois, e o dia do mês a ser quase o mesmo.

 

Como sabemos de tudo isto…? Não só o tal proprietário revelou, na altura, parte do que se sabia, mas os detalhes adicionais aparecem atestados na obra Na Cova dos Leões, de Tomás da Fonseca, em que a identidade de dois protagonistas é revelada – tratavam-se de um “pároco de Fátima” e de um tal Benevenuto de Sousa (falecido em 1946). Agora, se o episódio com essa azinheira cortada teve lugar na zona de Torres Novas, a presença daquele padre “de Fátima” pode, de facto, sugerir uma ligação entre esta Nossa Senhora do Catorze – que, depois, nunca chegou a existir – e a tal que viria a aparecer na sua paróquia uns anos mais tarde.

 

 

Será isto verdade? Pura mentira? Ou tudo a mais pura coincidência e absolutamente nada mais? Na sua obra, Tomás da Fonseca afirma que existe uma ligação real entre os dois episódios, e que o tal “pároco de Fátima” implementou de facto esta ideia inicial de uma Nossa Senhora do Catorze na sua própria paróquia, mas mais que isso já é muito difícil confirmar-se. Fica, portanto, aqui esta misteriosa história com mais de um século, que mostra que já antes dos tempos do Santuário de Fátima havia a ideia de reproduzir aparições marianas como forma de atrair devoção e recursos.

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