Discutir o sexo dos anjos – o significado e a verdadeira origem

O significado da expressão discutir o sexo dos anjos já não tem muito que se lhe diga, nos dias de hoje – ela refere-se, como incontáveis outras fontes poderão informar o leitor, à tarefa de falar com alguém sobre algo que não tem, ou não parece ter, qualquer espécie de importância real. O tema ficaria por aí, nem valeria a pena estar a dedicar-lhe estas linhas, não fosse o facto da maior parte das fontes consultadas ocultar aos leitores, provavelmente por desconhecimento, a verdadeira origem desta agora famosa expressão. Portanto, decidimos dedicar-lhe estas linhas de hoje.

 

 

Se o significado da expressão referente ao sexo dos anjos é agora bem conhecido, a sua história começou há mais de dois mil anos. O Judaísmo acredita na existência de anjos (e.g. Livro do Genesis 16:9), e o Cristianismo também (recorde-se o caso do anjo que anunciou a gravidez de Maria), tal como o Islão (famosamente, foi o Anjo ou Arcanjo Gabriel que ditou uma mensagem a Maomé). Porém, nenhuma dessas religiões, entre muitas outras possíveis, alguma vez parece definir claramente o que é, ou não é, um “anjo”. Etimologicamente, o nome leva-nos à ideia de um mensageiro, mas sem que isso nos comunique muito mais sobre a sua identidade. Assim, essa falta de informação real sobre o tema levou os mais diversos pensadores dos primeiros séculos da nossa era ao tema.

Discutir o sexo dos anjos - origem, significado e história

Seria de supor, como é natural, que em dada altura alguém tivesse considerado a própria questão do sexo dos anjos, mas… se isso aconteceu, nunca lhe conseguimos encontrar qualquer referência significativa, ou algum grande trabalho sobre o tema. Nunca parece ter sido uma grande questão para qualquer uma dessas religiões! Em vez disso, autores como João Damasceno ou [Pseudo-]Dionísio, o Areopagita (que nada tem a ver com o deus do vinho) dão é a entender que os anjos, arcanjos e seres semelhantes são de uma substância incorpórea – trocando por miúdos, pura e simplesmente não tinham um género sexual.

 

 

Em vez disso, a expressão relativa ao “sexo dos anjos”, e uma outra, bem menos conhecida nas culturas portuguesa e brasileira (“Quantos anjos podem dançar na cabeça de um alfinete?”), é uma referência ao absurdo da cultura bizantina de meados do século XV. Segundo a lenda, enquanto os Turcos Otomanos lutavam pela posse de Constantinopla, e o último imperador fazia tudo o que podia para salvar a cidade (ainda nos chegou um discurso que se diz, sem grandes certezas, ter sido o último de Constantino XI Paleólogo), os grandes religiosos da cidade se sentavam num palácio, muito confortavelmente, a discutir estas questões completamente inúteis.

 

 

Não encontrámos qualquer fonte real para suportar a ideia de que isso tenha mesmo acontecido, e também não encontrámos qualquer outra em que seja verdadeiramente discutido aquele tal outro tema, o da dança dos anjos. Tratam-se de puras lendas, que, se associadas ao significado actual da expressão, até nos podem relevar um pouco mais sobre ela – não se refere apenas à discussão de temas qualquer espécie de importância real, mas sim ao facto desse debate ter lugar em circunstâncias nas quais se poderia e deveria estar a falar de algo muito mais importante. Como tal, ela nem sempre é empregue da forma correcta nos nossos dias, algo que esperamos que, agora, os leitores consigam corrigir…!

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2 comentários em “Discutir o sexo dos anjos – o significado e a verdadeira origem”

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