Casa do Fauno, uma visita virtual

Vieram perguntar-vos sobre a chamada Casa do Fauno enquanto nos preparávamos para escrever sobre sátiros, faunos e outras criaturas que tais. O segundo é um tema que depois foi falado aqui, mas por agora podemos falar sobre uma famosa casa romana que existe em Pompeia, e que é conhecida por este nome em virtude de uma figura dançante que pode ser vista à sua entrada:

A mascote da Casa do Fauno

Dizem tratar-se de um fauno, mas dada a ausência de características dessa criatura mitológica (i.e. não tem cascos nos pés, cornos na cabeça ou cauda de cavalo), parece-nos que seria mais justo ver nela um dos muitos seguidores humanos do deus Baco, numa das suas clássicas deambulações bêbadas pelos campos. É discutível, até porque a representação destas criaturas, como a dos sátiros entre os Gregos, foi variando ao longo dos séculos…

Depois, uma das coisas mais interessantes que pode ser encontrada nesta Casa do Fauno é um mosaico gigante, hoje conhecido sob o nome de Mosaico de Alexandre, em que pode ser vista uma batalha entre Alexandre Magno e Dário III da Pérsia. Mesmo nos nossos dias esta representação é sobejamente conhecida, mas vista assim, neste seu contexto original, é que se pode perceber toda a magnitude da representação, que é muito maior do que tendemos a supor. Infelizmente, a actual é apenas uma reprodução – o original foi levado para o Museu Arqueológico Nacional de Nápoles – mas permite ao visitante ter uma visão geral e em contexto do que foi encontrado neste local.

Se esse mosaico é indubitavelmente o elemento mais famoso desta Casa do Fauno, existem igualmente outros recantos para visitar nas suas redondezas. Por exemplo, esta habitação, em que podem ser vistos mais alguns azulejos, que se supõe que também sejam reproduções.

Infelizmente, neste caso específico não é possível fazer uma visita mais completa, completamente à escolha do freguês, como a que aqui apresentámos na Conímbriga de Portugal, mas pelo menos a infraestrutura existente permite a um visitante virtual ter acesso a parte do espaço real, o que já é bom!

 

Agora, quem lê estas linhas em Portugal poderá pôr-se uma questão adicional – “Mas não existe também uma Casa do Fauno em Sintra?” É verdade, sim, trata-se de um pequeno bar, com decoração ligeiramente “medieval”, e uma livraria de livros pseudo-místicos no segundo piso. Um dia até lá tentámos comprar uma cópia do livro de interpretação de sonhos de Artemídoro de Daldis, mas não faziam ideia do que era, apesar de venderem N outras obras, bem menos credíveis e muito mais fantasiosas, sobre esse mesmo tema…

Outra Casa do Fauno

Onde está o seu fauno, que supostamente emprestou o nome ao local? Não fazemos qualquer ideia, mas nunca conseguimos aí encontrar nenhum numa posição de relevo, seja no interior do espaço fechado ou nos seus jardins. Quem decidir buscá-lo depressa acabará frustrado, porque o nome deste bar engana bastante. Preferimos, sem qualquer dúvida, o espaço que partilha o seu nome na Pompeia dos Romanos…

O mito de Pítis (e o pinheiro)

O mito de Pítis vem-nos da Mitologia Grega. Podia ser apenas mais uma de tantas histórias de metamorfoses, mas o que ele tem de especial é o facto de nos terem chegado duas versões distintas da sua pequena aventura, com mensagens significativamente contraditórias.

O mito de Pítis

Na primeira versão do mito de Pítis, esta ninfa era disputada por dois deuses, Pã e Bóreas (i.e. o vento do norte). Sempre mostrou especial paixão pelo primeiro, e então o segundo, num dia em que se sentiu mais invejoso da felicidade alheia, soprou-a com muita força da beira de um penhasco, levando-a a cair e conduzindo-a à sua morte. Os outros deuses, seja com pena de Pã ou da sua falecida amada, depois transformaram-na num Pinheiro, que ainda hoje se movimenta ao sabor do vento, como que a tentar fugir daquele que um dia a martirizou.

 

 

Numa outra versão do mesmo mito, Pítis era amada pelo deus Pã mas não sentia nada por ele. Um dia, enquanto este deus de estranha figura a perseguia, quase que a conseguiu apanhar, pretendendo violá-la. No entanto, os deuses, com pena de toda a situação que estava prestes a gerar-se, transformaram-na em Pinheiro. A sequência não pode deixar de nos recordar as muitas Metamorfoses de Ovídio.

 

 

É muitíssimo curioso, este duplo papel que o deus Pã tem em duas versões do mito de Pítis. Mesmo após várias horas de discussão, demos por nós a constatar que são muito raros os mitos em que situações como estas têm lugar, em que duas figuras, mediante a versão, sejam unidas ou pelo amor, ou pelo ódio. Não obstante esse problema, as razões por detrás de todo este mito são fáceis de entender – o deus caprino era frequentemente representado com uma pinha, o que se procura explicar aqui fazendo dela um símbolo de uma sua antiga amada, como também acontece em muitos outros mitos – e.g. o de Apolo e Dafne. Assim, fosse Pã amado (ou não) por esta ninfa, não pôde deixar de se lembrar dela após o final de toda a história, e assim fez da pinha o seu símbolo divino pessoal.

A lenda de São Guinefort, o santo cão

Contar a lenda de São Guinefort implica, talvez até antes de tudo o mais, deixar claro que esta muito incomum santidade canina existe apenas e exclusivamente em nome. Não temos qualquer certeza que ele tenha verdadeiramente existido na carne – Pausânias, no segundo século da nossa era, até já contava uma história muito semelhante – mas mesmo a querermos acreditar que sim, a sua aclamação à santidade foi meramente popular, nunca tendo sido ele reconhecido em qualquer igreja oficial como tal. Ainda assim, sendo hoje o dia do animal de estimação, achámos que seria uma boa ideia recordar a história deste santo cão, hoje já tão esquecida até em locais como a Wikipedia…

Lenda de São Guinefort

Esta história, ou lenda de São Guinefort, começa quando na Idade Média um padre francês foi trabalhar para uma nova paróquia, algures na região de Lyon. Depressa se apercebeu que os seus paroquianos eram muito católicos, tendo enorme fé num santo cujo nome ele nunca tinha sequer ouvido antes. Foi deixando a situação passar, mas quando notou que as paroquianas tinham por hábito deixar os bebés doentes no túmulo deste santo para serem curados, começou a ficar mais e mais intrigado com toda a situação. Foi então que lhe contaram a história e o martírio da figura que tanto veneravam:

Um casal tinha um filho ainda muito jovem. Quando tinham de sair de casa, a cada nova manhã, pediam a Guinefort, então ainda vivo, que lhes cuidasse do filho. Tudo corria bem, até que um dia voltaram a casa e encontraram este guardador cheio de sangue. Incrédulos com toda a situação, pensando automaticamente que ele lhes tinha feito mal ao filho, mataram-no logo… apenas para depois virem a descobrir que esse sangue era, afinal, de uma cobra que tinha entrado pela casa e tentado atacar o bebé!

Inicialmente o padre francês não viu nada de mal em toda esta situação, bem pelo contrário, mas à medida que o tempo foi passando, lá lhe deu um clique na cabeça e acabou por se aperceber que este grande santo protector dos mais novos, São Guinefort, era, na verdade, um cão! Lá tentou proibir essa veneração, tentou que as pessoas se focassem em outros santos mais reais e totalmente distintos, mas sempre sem qualquer sucesso – de facto, esse culto chegou quase até aos nossos dias, aparentemente só tendo sido suprimido já em pleno século XX (como também aconteceu com tantos outros no nosso país).

 

Ainda hoje existe uma associação com este nome em Châtillon-sur-Chalaronne, sendo possível que toda esta história da lenda de São Guinefort tenha tomado lugar nas proximidades, mas não parece existir qualquer igreja em que este suposto mártir ainda possa ser visto, nem nunca conseguimos encontrar o lugar preciso do seu, outrora tão famoso, túmulo com propriedades miraculosas. Ainda assim, é curioso que exista ainda hoje um outro santo cão, esse já na Igreja Ortodoxa, ainda muito venerado entre eles, mas que a Igreja Católica só reconhece sob uma forma bastante distinta.

Ah, e para quem tiver essa curiosidade adicional, não há registo de qualquer santo felino (ou peixe, ou mesmo pássaro, com excepção do Espírito Santo sob a forma de pomba branca)…

De onde vêm as imagens miraculosas?

Algumas das histórias, mitos e lendas que cá fomos contando ao longo do tempo referem a aparição misteriosa de imagens miraculosas. Desde o caso de Nossa Senhora da Merceana até ao de Matacães, passando por lendas como a do Santuário da Peninha em Sintra, entre muitas outras, estas histórias têm tipicamente um conjunto constante de vectores comuns:

  • Têm lugar num ambiente rural;
  • O principal interveniente é um pastor ou pastora;
  • Surge-lhes uma imagem de Nossa Senhora;
  • Ela é retirada do local e levada para uma igreja;
  • A imagem regressa misteriosamente ao local em que surgiu;
  • É construída uma igreja ou capela próxima do local.

Santuário da Peninha, local de uma das imagens miraculosas

As semelhanças são notáveis e repetem-se pelo menos por toda a Europa, mas pode gerar uma questão muito natural – de onde vêm as imagens miraculosas presentes em todas estas circunstâncias? Mesmo que se quisesse acreditar na possibilidade de milagres, as semelhanças entre os vários eventos são mais que muitas, o que acaba por ser estranho. Não saberíamos o que responder, não fosse o facto de recentemente nos ter sido confirmado que este mesmo padrão existia, de uma forma completamente intencional e durante séculos, em alguns países do leste da Europa.

 

Segundo o que nos foi dito, os padres de várias regiões, em plena Idade Média e até nos séculos que se seguiram, tinham por hábito deixar imagens da Virgem Maria onde pudessem ser encontradas. Depois, algum habitante local lá encontrava a imagem, reportava-a a alguém, a mensagem ia passando de boca em boca e as populações, face a um tamanho milagre, convertiam-se ao Cristianismo e abandonavam as crenças mágicas e pagãs dos seus antecessores, que sabemos que ainda continuavam a existir nesses tempos, e que em alguns casos até chegaram aos dias de hoje (e.g. o caso de rituais agrícolas que, na verdade, parecem não ter nenhuma função real).

Agora, isto até poderia ser uma difamação de uma espécie de “brigada anti-milagre”, destinada a difamar tais imagens miraculosas, não fosse o facto de acontecer somente onde ainda não existiam igrejas e da imagem só voltar ao local em que foi encontrada depois de ter sido entregue a um padre. Coincidências…

 

Se tudo isto faz um certo sentido, há igualmente que admitir que não encontrámos quaisquer provas reais de que os padres portugueses da altura fizessem, de uma forma concertada, o mesmo que estes seus colegas de Leste. Não há registo disso, somente provas completamente circunstanciais dessa possibilidade. Por isso, se esse aparecimento de imagens miraculosas foi um verdadeiro e completo milagre, ou somente um logro piedoso perpetrado por alguns párocos e justificado com o bem das almas de todos aqueles que viviam num ambiente rural, fica à consideração dos leitores…

O mito da deusa Atégina?

Apresentar aqui um mito da deusa Atégina implica, antes de mais, levantar aqui a mesma ressalva que há já uns anos deixámos sobre um potencial mito de Endovélico – “mesmo se tratando, aparentemente, de uma importante divindade nativa do nosso país, nenhum autor grego ou romano nos fala dela, nem nenhum autor ibérico a ela se refere com informação completamente credível. E, na verdade, nada saberíamos hoje sobre esta figura não fosse o facto de terem sido encontrados diversos ex-votos com o seu nome”. Toda essa informação se mantém em relação a esta figura de Atégina, não fosse uma pequena, mas importante, descoberta sobre ela. Mas já lá iremos.

 

Há alguns dias atrás uma amiga pediu-nos que falássemos deste tema. Estranhámos o pedido, na medida em que se sabe muito pouco sobre esta figura ibérica, mas ela enviou-nos então o seguinte texto, que pode ser encontrado na internet sem a referência a qualquer autoria explícita:

No Equinócio de Outono, celebra-se o ritual que representa a descida de Ataegina ao Submundo. Segundo o que nos conta a tradição, Ataegina desce ao Submundo, em busca de Seu Amado Endovélico, que havia sido morto por um grande javali (que simboliza as Forças da Destruição, que desfazem a forma para que a essência possa renascer). Ataegina desce e encontra-se com seu amado, agora Senhor do Mundo dos Mortos: Enobólico, o Muito Negro. Ela, que é a força que a tudo vivifica, ao mergulhar nas trevas da Morte, abandona o Mundo dos Vivos à escuridão.
A imagem da Deusa fica sobre o altar nos meses claros do ano, mas no Equinócio de Outono, ritualiza-se a descida de Ataegina, guardando com segurança a imagem da Deusa, junto com a imagem de Endovélico, que é também guardada na véspera, quando se ritualiza a morte e descida do Deus ao Submundo, pela força do Javali Negro. Os ícones dos Deuses ficam guardados no sacrário durante os meses escuros e só são retirados seis meses depois, no Equinócio de Primavera, a Festa do Desabrochar da Vida.
Sempre que Ataegina desce, confio à Deusa e Senhora Nossa as sementes de meus sonhos. Pois Ataegina é, então, a própria Semente: que em busca de florescer novamente em Amor e Beleza, junto a Seu Amado, se enterra no Ventre Sepulcral da Terra Mãe. A semente, debaixo da terra, será roçada pelas Forças de Destruição do Submundo, que farão a casca da semente se putrefazer. Nesse processo, ela passará por dor e medo, numa verdadeira alquimia, no Caldeirão da terra, vermes e humidade do Ventre da Velha Dana. E deste caos germinal, surgirá o broto verde que se elevará, em busca do Sol: Endovélico (o que floresce), que aí sim, terá voltado a brilhar sobre a superfície. O broto crescerá, recebendo os beijos cálidos de Endovélico. O botão logo se mostrará por entre as folhagens, e eis que, no tempo certo, florescerá, e a Deusa, assim, retornará aos seus filhos, a Renascida, a Flor plena de Vida, Alegria, Beleza e Amor, Ataegina!
E junto com a Deusa, florescerão os sonhos que este filho devoto lhe confiou, e que junto com Ela, festejará a realização de cada um deles, assim como também aprenderá com Ela sobre a não realização daqueles que não vingarem, pois Ataegina é Senhora da Terra, da Lua e do Submundo, Deusa Tripla que reina sobre todos os Mundos, e que conhece o que vai nas profundezas subterrâneas de nosso inconsciente, no íntimo de nossa alma, e Sabedora disso, concederá sempre os frutos apropriados para a nossa colheita.

 

Tudo isto poderá parecer muito fascinante e bonito para quem pouco ou nada perceba destes assuntos, mas será que tem algum fundo de verdade? A resposta é, obrigatoriamente, um ressoante NÃO, na medida em que sabemos muito pouco sobre esta deusa, não tendo sequer alguma prova real de que ela estivesse de alguma forma associada a Endovélico, como quem escreveu aquelas linhas afirma – mas sem quaisquer provas! Assim sendo, o que sabemos mesmo sobre esta figura divina?

O mito da deusa Atégina, uma espécie de Proserpina

Procurando então um mito da deusa ibérica Atégina, mas um verdadeiro e sem sincretismos falsos como os apresentados acima, o pouco que sabemos sobre ela advém do facto de ser mencionada juntamente com a deusa Proserpina em algumas das lápides que foram sendo encontradas na Península Ibérica até aos nossos dias. Tipicamente, isto quer dizer que quando os Romanos tomaram conhecimento desse culto ibérico, encontraram nele alguns paralelismos com os de essa sua deusa, mas não sabemos quais terão sido. Atégina podia ser, por exemplo, uma deusa dos mortos, ou da Primavera, ou ter sido raptada por alguém, ou mesmo sido filha de uma deusa da vegetação, etc.; não sabemos, nem temos forma real de o saber, que semelhanças encontraram eles entre as duas figuras, mas julgando por outros exemplos de processos semelhantes, como os dos deuses da Gália, em que uma figura como Esmértio (deus da guerra gaulês) foi equiparado a Marte (deus da guerra dos Romanos), podemos saber que existia “algo” em comum entre esta deusa ibérica e a famosa filha de Ceres. E é, na verdade, somente isso que podemos afirmar sobre ela – tudo o resto é, agora, nada mais que pura ficção, como aquelas muitas fantasias que vão sendo associadas a Lilith