A lenda de Santa Maria de Carquere

A lenda de Santa Maria de Carquere já foi, em outros tempos, uma das mais conhecidas de Portugal. Porém, foi caindo no esquecimento ao longo dos séculos, possivelmente em virtude de outras lendas associadas a Dom Afonso Henriques, como a da Batalha de Ourique, que se foram tornando progressivamente mais famosas e importantes.

Santa Maria de Carquere

Conta-nos esta lenda de Santa Maria de Carquere que Afonso Henriques nasceu com uma pequena deficiência que lhe dificultava o andar. Teve-a durante alguns anos, até que por volta dos cinco anos de idade um seu aio – se foi Soeiro Mendes, ou Egas Moniz, já depende da versão consultada – teve um sonho em que lhe apareceu a Virgem Maria. Esta revelou-lhe que o amo seria curado se fosse encontrado num dado local uma igreja inacabada e o menino fosse colocado no respectivo altar. Assim foi feito, o menino foi curado miraculosamente, e no local da igreja inacabada foi depois construído o Mosteiro de Santa Maria de Cárquere (que até pode ser visto na imagem acima, e visitado virtualmente carregando na mesma), destinado a memorializar todo o acontecimento e a agradecer à grande responsável por todo o milagre.

 

O que podemos adicionar a esta pequena lenda? Não sabemos onde termina o seu carácter lendário e onde começa o relato histórico propriamente dito (i.e. será que o futuro rei de Portugal nasceu verdadeiramente com uma pequena deficiência, ou terá sido um elemento adicionado à história para depois possibilitar este milagre? Um episódio com Dona Teresa, sua mãe, poderá indicar alguma verdade em toda esta história), mas é provavelmente o primeiro dos milagres que permitem constituir Afonso Henriques como um líder escolhido pelos céus para comandar os destinos de Portugal. Isso tornar-se-á mais evidente na Lenda de Ourique, mas já esta preservava parte de um conjunto lendário que, em tempos do Sebastianismo, acabará por se tornar muito importante, por permitir definir o nosso país como um local repetidamente escolhido por Deus.

O mito do Dragão da Cólquida

O mito do Dragão da Cólquida está quase sempre associado ao de Jasão e os Argonautas, porque é uma figura cujo grande momento no palco da Mitologia Grega é o do confronto com esse herói. Mas ele também tem uma história muito pouco conhecida associada a ele, como veremos abaixo.

Dragão da Cólquida

Sabemos que já terão existido diversas versões do confronto de Jasão com o Dragão da Cólquida (ver este exemplo de que já cá falámos no passado), mas normalmente esta criatura mitológica tinha uma tarefa muito simples, a de guardar o Tosão de Ouro contra potenciais atacantes que o quisessem roubar. Com a ajuda de Medeia ou de Orfeu, o dragão é adormecido ou morto com uma espada, possibilitando que os Argonautas levassem o tesouro que ele guardava.

Normalmente o mito termina por aqui, mas Tzetzes adiciona-lhe um episódio adicional, hoje já muito pouco conhecido. Recorrendo a historiadores hoje perdidos, ele acrescenta que o Dragão da Cólquida eventualmente acordou do seu sono e, olhando para a árvore próxima, notou a falta do Tosão de Ouro. Decidiu então procurá-lo, fazendo o seu caminho pelos mais diversos locais, até que encontrou Diomedes, herói de Tróia, que tinha em sua posse o escudo dourado de Glauco. Vendo o ouro desse instrumento guerreiro, o pobre dragão – e como não sentir pena dele?! – pensou então tratar-se do Tosão de Ouro, que já tanto tinha procurado. Contudo, o herói grego lutou contra ele, derrotou-o e matou-o finalmente, terminando toda esta sua viagem mitológica.

 

Nesta sua forma mais completa, o mito do Dragão da Cólquida mostra-nos uma face muito humana, mas também muito rara, de um monstro mitológico da Grécia Antiga. Foi-lhe dado um trabalho, um objectivo, que ele acaba por prosseguir até ao final da sua vida – tenha ele vindo das mãos de Jasão, de Diomedes, ou de alguma outra figura entretanto esquecida. E, por estranho que pareça, como não sentir aqui uma certa pena com esse destino final, da morte de uma figura mitológica que apenas estava a fazer o que lhe foi designado pelos deuses?

A lenda dos avatares de Vishnu

Já cá falámos sobre parte da grande lenda dos avatares de Vishnu, mas achámos que hoje poderíamos completar, de uma forma sucinta (até por motivos de tempo e espaço), esse mesmo tema. Potanto, e antes de mais, recorde-se o que já aqui foi explicado sobre o conceito hindu de avatar, muito necessário para se compreenderem bem as linhas que se seguem:

Os Hindus acreditam num número muito grande de deuses, de que Ganesha será o mais famoso entre nós, mas têm algumas figuras que consideram mais importantes do que outras. Entre as mais significativas conta-se o deus Vishnu (ou Vixnu, se preferirem), que reencarnou várias vezes e em diversas formas distintas (a que se chamam avatares), para trazer benefícios à humanidade.

Assim, os avatares de Vishnu referem-se às formas que esse deus foi adoptando sucessivamente, cada vez que deixou o Vaikuntha, o seu reino celestial, para vir ao nosso mundo. O número de vezes que o fez, e até as próprias formas que foi adoptando, nem sempre são totalmente estáveis (já lá iremos), mas hoje vamos aqui apresentar as 10 formas mais comuns a este deus, os chamados Dashavatara. E fazêmo-lo hoje não pelas nossas próprias palavras, mas através de uma tradução e adaptação de um momento da obra Kalki Purana, de altura de composição desconhecida, em que estas dez figuras eram recordadas quase como na imagem abaixo e pelos seus eventos essenciais:

A lenda dos Avatares de Vishnu

[1-] Quando os objectos dos três mundos foram destruídos pela água da devastação, e as Vedas [i.e. os livros sagrados] foram perdidas, apareceste na sob a forma de Matsya, [o peixe,] para proteger os princípios religiosos que tinhas estabelecido anteriormente.

[2-] Quando os deuses e os demónios aceitaram cooperar para bater o oceano de leite, com o propósito de obter o néctar, usaram o [lendário] Monte Mandara como um pau para o bater, mas foram incapazes de suportar o seu peso. Na altura aceitaste a forma de Kurma, [a tartaruga,] e suportaste esse monte nas tuas costas. Assumiste essa forma para que os semideuses pudessem beber o néctar da imortalidade.

[3-] Quando os demónios derrotaram Indra, o rei do céu, e o poderoso [demónio] Hiryanyaksha estava prestes a matá-lo, somente para derrotar esse rei dos demónios e salvar a terra assumiste a forma de Varaha[, o javali].

Narasimha, um dos avatares de Vishnu

[4-] Quando o extremamente poderoso Hiranyakashipu, que tinha conquistado os três mundos, começou a atormentar os semideuses, fazendo-os viver em constante medo, para os protegeres decidiste aniquilar este rei dos demónios. Devido à influência dos poderes de Brama [i.e. o deus-criador], este demónio não podia ser morto por qualquer homem, deus ou semideus; com qualquer arma; nos planetas ou na terra; durante o dia ou a noite. Então, assumiste a forma do ser meio-homem, meio-leão, Narasimha, para não transgredir a promessa do deus-criador. Quando o demónio se preparava para te morder, abriste-lhe o peito com as tuas garras e assim o enviaste para o reino dos mortos.

[5-] Apareceste como o irmão mais novo de Indra, assumindo a forma do anão Vamana, e foste à arena sacrificial do Rei Bali para o enganar. Apenas lhe pediste a caridade de três passos de terra. Ele aceitou, mas falhou ao cumprir a sua promessa, porque assumiste uma forma gigantesca e cobriste todo o universo com apenas dois passos.

[6-] Quando os reis da terra se sentiram demasiado orgulhosos e abandonaram os princípios religiosos, encarnaste como Parasurama para os aniquilar. Nessa encaranção, ficaste igualmente enraivecido pelo roubo da vaca, destruindo a casta dos guerreiros por vinte e uma gerações.

[7-] Quando os três mundos estavam a ser atormentados por Ravana de dez cabeças, encarnaste [em Rama] para o destruir. Aprendeste a arte de lançar flechas e foste para a floresta em exílio por catorze anos. Durante esse tempo Ravana raptou a tua esposa, Sita. Demoraste algum tempo, mas depois cruzaste o oceano, construindo uma ponte com a ajuda dos macacos guerreiros, e mataste o senhor de [Sri] Lanka, Ravana, com toda a sua família.

[8-] Depois apareceste como Balarama. Diminuiste as dores da terra ao aniquilares muitos demónios. Ao mesmo tempo, todos os semideuses e devotos veneraram os teus pés de lótus.

Buda, outro dos avatares de Vishnu

[9-] Na devida altura apareceste como Buda e mostraste ódio pelos princípios prescritos pelo criador. Instruiste os teus seguidores a abandonarem o seu apego a este mundo de ilusão, fazendo-os renunciar a todos os desejos de gratificação dos sentidos. Apesar de teres rejeitado as Vedas, nunca rejeitaste a ética do mundo.

[10, muito adaptado -] Aparecerás como Kalki para eliminar a dinastia de Kali [i.e. a deusa da destruição] ao destruir os budistas, ateístas, e outros que tais, assim protegendo o verdadeiro caminho da religião.

 

Agora, os mais atentos poderão notar que falta aqui Krishna, um dos avatares de Vishnu a que já cá fizemos duas alusões, em particular através dos mitos de Dhenuka e Putana. A sua ausência – que depois veio a ser colmatada num pequeno artigo sobre essa outra figura – deve-se ao facto de esta listagem não ser completamente estática. Na verdade, ainda há dias um amigo que pratica activamente a religião hindu nos dizia, com enorme ênfase, que Krishna não era um avatar, mas sim a maior expressão do mais elevado dos deuses hindus. São muitos os crentes que partilham de essa mesma ideia, mas nesse caso eles adaptam parte da história, dizendo que era Balarama, em vez do seu irmão, a reencarnação do deus. Outros crentes omitem completamente Buda desta lista, e assim sucessivamente…

De modo muito semelhante, também as principais histórias associadas a cada um de estes dez avatares podem variar um pouco. Em relação a Matsya, por exemplo, é por vezes dada maior ênfase a uma história, de um peixe que foi crescendo de tamanho e acabará por salvar o rei que sempre o ajudou, numa sequência que acaba com um dilúvio universal.

 

A lenda dos avatares de Vishnu é, então e na sua grande essência, um dos maiores pilares do Hinduísmo. Seria interessante falarmos de cada uma destas figuras de forma mais alongada, mas por agora será suficiente esta breve introdução, que até poderá, um dia, vir a ser seguida por explicações mais alongadas, se existir interesse significativo nisso.

A lenda de Pedro e Inês (e o seu poema secreto)

A lenda de Pedro e Inês é quase certamente a mais famosa história de amor de Portugal. De facto, é tão sobejamente conhecida no nosso país – até aparece nos Lusíadas! – que aqui decidimos apenas recordar as suas linhas muito gerais, em forma de introdução a um suposto poema secreto de Pedro e Inês, escrito – como é fácil entender com base nos seus versos – após a morte da sua amada.

A lenda de Pedro e Inês de Castro, fonte deste poema secreto

Conta-se então que estando Pedro casado com Constança Manuel, se apaixonou por uma aia desta, de seu nome Inês de Castro. Não sabemos se terão existido infidelidades, mas quando Constança faleceu em 1345, Pedro recusou toda e qualquer outra mulher, dizendo que só aceitava casar com a sua amada Inês. Diz-se até que casaram em segredo (assim o afirma Fernão Lopes, e um documento ainda presente na Torre do Tombo parece confirmá-lo), mas o rei Afonso IV, pai de Pedro, nunca aceitou essa união, pedindo em 1355 a alguns ministros para assassinarem Inês (os seus nomes até nos chegaram – Pêro Coelho, Álvaro Gonçalves, e Diogo Lopes Pacheco), tendo ela falecido em Coimbra, no local que é hoje a Quinta das Lágrimas, onde tantas vezes os dois amados se tinham encontrado secretamente. Depois, quando Pedro I ascendeu ao trono por falecimento do pai, diz-se que puniu com a morte os culpados e sentou o corpo da sua amada, então já falecida, no trono de Portugal, fazendo dela a única rainha póstuma. Hoje estão ambos enterrados em Alcobaça, sob o signo “Até ao fim do mundo”, momento em que esperavam tornar a ver-se e até reunir-se no seu amor eterno…

 

Toda esta lenda de Pedro e Inês é ainda hoje muito conhecida, até pela influência de tragédias tão belas como A Castro (de António Ferreira), mas o que provavelmente já menos saberão é que existe uma composição poética, cuja autoria se atribui ao então-futuro rei, dedicado à sua amada. É o seguinte poema secreto, que aqui reproduzimos com ligeiras adaptações, somente para facilitar a leitura nos nossos dias:

Senhora, quem vos matou
Seja de forte ventura,
Pois tanta dor e tristura [i.e. tristeza]
A vós e a mim causou.

E pois não vi mais asinha [i.e. depressa]
Tolher vosso triste fim,
Recebo-vos, vida minha,
Por Senhora, e por Rainha
De estes Reinos e de mim.

Estas feridas mortais
Que pelo meu se causaram,
Não uma vida, e não mais,
Mas duas vidas mataram.

A vossa acaba já,
Pelo que não foi culpada,
E a minha, que fica cá,
Com saudade será
Para sempre magoada.

Oh crueldade tão forte
E injustiça tamanha!
Viu-se nunca em Espanha
Tão cruel e triste morte?

Contar-se-á por maravilha
Minha alma tão verdadeira,
Pois morreis desta maneira.
Eu serei a Torturilha
Que lhe morre a companheira.

Aí, Senhora, descansada,
Pois que vos eu fico cá,
Que vossa morte será
(Se eu viver) bem vingada!

Por isso quero viver,
Que, se por isso não fôra,
Melhor me fôra, Senhora,
Convosco logo morrer.

Que coisa há esta que vim
Ou onde me ensanguentei,
Senhora, eu vos matei,
E vós matasteis a mim!
Sangue do meu coração
Ferido coração meu,
Quem assim por esse chão
Vos espargueu sem razão,
Eu lhe tirarei o seu.

É um poema com alguma beleza, que nos remete para o sofrimento final da lenda de Pedro e Inês, para essa morte de Dona Inês de Castro e a promessa eterna deste seu amado. Não sabemos se ele terá sido verdadeiramente escrito pelo (então futuro) rei, mas aparece como tal em diversos documentos, e ao fazermos hoje esta publicação dedicada ao sentimento do amor, essa potencial sugestão dos documentos basta-nos, mesmo que possa até nem ser completamente verdadeira.

“Omnia vincit amor”, origem e significado

Omnia vincit amor é muito provavelmente uma das expressões latinas mais famosas dos nossos dias, até porque ainda hoje continua a ser muito utilizada nessa sua forma original, em Latim. Em tradução, pode significar algo como “o amor vence tudo” ou “Tudo o amor conquista”. Até aqui não há nenhuma dificuldade, mas qual a origem de toda esta famosa frase e ideia?

Omnia vincit amor na arte

Sem muita dificuldade, qualquer pessoa pode fazer uma pesquisa na internet e descobrir que esta frase latina, que também pode tomar a forma de amor vincit omnia, já que a ordem das palavras no Latim é irrelevante – nos chegou através de uma das éclogas pastoris de Virgílio. Quem a for ler poderá aperceber-se da presença do deus Pã nesses versos, cujo nome em grego (Πάν) poderá designar tanto esse deus como significar “tudo”, como um estranho mito associado a Penélope, esposa de Ulisses, nos deixa compreender.

Nesse sentido, existem vários exemplos na arte grega e romana da Antiguidade em que figuras relativas ao amor, como os Erotes, são associadas directamente ao deus Pã. Entre elas contam-se uns vasos (que, infelizmente, não conseguimos obter autorização gratuita para reproduzir aqui), em que este deus é representado a fugir dessas figuras, que o perseguem com chicotes, procurando castigá-lo de alguma forma. Porque o fariam? Não nos parece ter chegado nenhum mito que o explique explicitamente, mas poderá dever-se a uma oposição metafórica entre o desejo puramente sexual de Pã e uma espécie de amor que hoje se pensa ser mais elevado, de se desejar alguém por tudo aquilo que essa pessoa é.

 

Nesse seguimento, a ideia presente em Omnia vincit amor poderá ter vindo da cultura grega da Antiguidade, de representações e ideias em que, originalmente, o deus Pã era vencido pelo amor, numa ideia que no original poderia dizer – ou mesmo representar, iconograficamente – algo como “o amor [até] vence Pã [ou Tudo]”, jogando-se com um duplo sentido do nome do deus que não é possível reproduzir em Latim ou Português. Não sabemos se Virgílio, na sua écloga já referida acima, procurou brincar de uma forma deliberada com toda esta ideia, ou se apenas fez perder na tradução algo do sentido original, mas é provável que até o tenha feito intencionalmente, já que nos seus versos ele une a sua frase latina com o próprio deus da Arcádia, usando até aí o nome grego Pan em vez de latino Silvanus ou Faunus, que por vezes designa a mesma divindade entre os Romanos.

Se tudo isto seria mesmo intencional, ou não… fica essa questão para quem ler estas linhas!